O cinema dos nossos olhos e a presença feminina

Ver os 114 filmes que vêm abrindo janelas na mostra que acaba na quarta-feira é uma missão impossível, mas há vários recortes possíveis, dentro dos quais pode-se falar de tudo, da qualidade estética à participação da mulher

Documentário “Visages, Villages”, dirigido por Agnès Varda e JR, que concorre ao Oscar; os dois rodam a França fotografando gente e bichos e pregando as fotos em murais gigantes

A mostra “O Amor, a Morte e as Paixões” termina nesta quarta-feira. Imergir na viagem de alguns dos mais de 100 filmes do evento é persuadir a imaginação de que estamos passando uma temporada fora de Goiânia. A qualidade das produções cuidadosamente escolhidas pela curadoria nos faz acreditar que o recorte pessoal de nossa preferência foi o melhor da mostra. Cada cinéfilo, a sua maneira, vai pensar assim.

Um dos destaques do evento é a diversidade da alma feminina, tanto em relação às atrizes quanto a seus personagens. Em “A Forma da Água”, Sally Hawkins faz o papel de Elisa, uma mulher muda que tenta salvar uma criatura fantástica prisioneira do serviço secreto americano. Elisa é um personagem incrivelmente bem construído, tão leve e sereno em suas feições que parece flutuar. Sally concorre ao Oscar com ele.

Já em “Roda Gigante”, quem aparece exuberante na atuação é Kate Winslet. Ela é Ginny, ex-atriz fracassada que trabalha como garçonete num restaurante em Coney Island, Nova York. Mora com um marido alcoólatra abstêmio, um filho pré-adolescente pirotécnico e uma enteada que aparece fugindo do marido gangster.

O mais interessante do filme de Woody Allen é a tensão crescente no personagem de Kate. Começa como uma mulher patética e termina como uma grega inebriante. Nos melhores momentos, a atriz transita entre a comédia e a falsa sensação do trágico, ora usando apenas a linguagem corporal para ser cômica e trágica, ora metralhando palavras num frenesi louco, quando Ginny se encontra com a consciência em frangalhos, mas se mostrando altiva. É belíssimo.

Encanto

Em “A Noiva do Deserto”, filme dirigido por duas argentinas, Cecilia Atán e Valeria Pivato, acompanhamos o drama casual de Teresa (Paulina García), que está mudando de cidade. No meio do caminho, perde sua bolsa, em uma rota de turismo religioso (pano de fundo), e fica no local para procurá-la.

A atuação da chilena Paulina García é uma das coisas mais sensíveis que vi na mostra. O filme é simples, com uma produção sem volteios de grandeza e o roteiro mais comezinho possível. O que engrandece a película é Paulina e seu encanto.

O diretor e roteirista haitiano, Raoul Peck, está na mostra com “O Jovem Karl Marx”, com destaque para a belíssima atriz luxemburguesa Vicky Krieps, que faz a mulher de Marx e que também está no filme “A Trama Fantasma”, com Daniel Day-Lewis, que ainda pode ser visto na mostra.

Não dá para falar de todas as 114 pro­duções, mas o brilhante “Visages, Villages”, documentário assinado pe­los franceses Agnès Varda e JR, merece re­gistro. Ela, senhorinha de 89 anos, uma dama da Nouvelle Vague francesa, no ramo desde a década de 1950; ele, um jovem e talentoso artista visual. Juntos, rodam a França conversando e fotografando gente comum e bichos, imprimindo fotos gigantes e pregando-as em murais pelas vilas do interior do país. Está na disputa pelo Oscar de Me­lhor Documentário. Bravíssimo!

Serviço
Mostra: O Amor, a Morte e as Paixões
Onde: Cine Lumière Bougainville
Quando: Até o dia 21 de fevereiro
Quanto: R$ 15,00

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.