O Chile poético além dos vinhedos: uma opção de turismo das mais interessantes

As impressões da viagem guiadas pela literatura, sobretudo sobre a poesia, a gastronomia, a convivência e a observação de um casal sobre o país vizinho ao Brasil

Os artistas populares dão ao bairro o exato colorido que o nome “Bella Vista” merece

Os artistas populares dão ao bairro o exato colorido que o nome “Bella Vista” merece

Adalberto de Queiroz
Especial para o Jornal Opção

A Suprema Arte seria viajar em torno do próprio quarto. Se a frase atribuída a Xavier De Maistre fosse verdade absoluta, as companhias aéreas estariam em maus lençóis e os guias de viagem inexistiriam como best-sellers. Desde o famoso “Baedecker”, que a tantos ilustres viajantes instruiu, até o atual “Guide Michelin”, o fato é que as pessoas mais e mais se animam a enfrentar toda espécie de transtorno para estar alhures. Viajar tem a aura de transformar o viajante por dentro e por fora.

O fato é que há uns poucos que viajam como se frequentassem um curto curso de relações internacionais, outros, de artes; há alguns que o fazem com o fito de ganhar em sensibilidade, através do relacionamento com as pessoas de outras culturas que encontrará ao longo da viagem.

Nesse caso, o Chile poético, sem direta referência (quase óbvia aos vinhedos), pode ser uma opção das mais interessantes. Eu e minha mulher, já considerados idosos, mas cheios de energia e curiosidade por outras culturas –– línguas, hábitos, música e literatura diversas da nossa –– viajamos ao Chile por nove dias sem visitar um vinhedo sequer. Nem por isso, voltamos sedentos da cultura, ao contrário.

Há duas importantes decisões a tomar quando se prepara uma viagem assim. Primeiro, informar-se sobre o país que se quer visitar. Lembro-me que quando fui aos EUA pela primeira vez, cheguei a ler dois livros interessantes, mesmo que distantes do atualíssimo guia de Kátia Zero ou as dicas elegantes de Glória Kalil. Li Joaquim Nabuco e Albert Camus.

As visões da Nova York que encontrei jamais passariam pela poética de enredos criados por Nabuco ou, quem sabe, por Camus e suas viagens aos Estados Unidos. Pois bem, vou seguindo em voo tranquilo com o Maurois [pseudônimo do romancista e ensaísta francês Emile Salomon Wilhelm Her­zog, nascido em Elbeuf, 26 de julho de 1885 e falecido em 9 de outubro de 1967] que, no relato, viaja pelo Brasil. Encontramo-nos com meu poeta amado, membro da tríade dos poetas de quem pretendo falar no Chile, dou-lhe a palavra, André Maurois:

–– Domingo. Numerosas visitas de jornalistas. Admiro seu conhecimento das letras francesas, sua agilidade de espírito, seu gosto pelas ideias. Quase todos me fazem perguntas sobre Alain [de seu livro “Propos sur Le Bonheur, Alain”], como quem o leu bem. Um deles me diz que uma brasileira, Violette de Alcântara, fez uma conferência semana passada sobre Alain e Maurois.

“Domine num sum dignus”, mas ser associado a meu mestre me agrada. Muitas perguntas sobre o existencialismo, sobre o Maritanismo, pois há aqui (dizem-me) “maritanistas e neomaritanistas” [Jacques Maritain que ainda grande influência exercia entre os católicos brasileiros, como em Alceu, Corção etc.]. Vou à praia, onde banhistas, neste inverno tropical, tomam sol. Depois o poeta Frederico Schmidt me vem buscar para me levar à casa de Luísa Miguel Pereira, a biógrafa do escritor brasileiro Machado de Assis. No caminho, Schmidt me conta que Mauriac, que ele encontrou em Paris, lhe disse: “O senhor é o Barnabooth de Larbaud”. (…) Diagnóstico bastante exato, pois este poeta da ansiedade amorosa e da obsessão da morte é também um homem de negócios que pilota com segurança, nestas ruas íngremes, seu grande carro americano.

O motivo original de minha ida ao Chile foi, primariamente, atender a um convite para fazer uma palestra sobre a “Tríade de católicos-poetas do Brasil –– instantâneo de poesia falada com poemas de Augusto Schmidt, Jorge de Lima e Murilo Men­des”, em um evento internacional na Universidade de Santiago do Chile (USACH).

Não ficando restrito a esse compromisso, construímos, mi­nha mulher e eu, uma agenda de flanêrie [passeio] pela cidade de Santiago e uma curta visita a Val­paraíso. As impressões dessa viagem são de modo maior guiadas pela literatura, sobretudo sobre a poesia, a gastronomia e a convivência e observação de um casal sobre um país vizinho que inicialmente não fazia parte dos planos de ambos como destino turístico. Com Maurois, sigo voando:

“…o avião se esgueira entre cumes nevados. Não sobrevoa os Andes, ele os escala; vai de garganta em garganta, de corredor em corredor.(…) Quando se aperta o botão do oxigênio, uma corrente gasosa, de sabor metálico, penetra na boca, um pouco fria, e vai acalmar o coração e os pulmões. É uma impressão agradável e estranha. Nenhum sentimento de temor; uma vaga beatitude.”

E como o bebê –– a criança que dormita e recusa o oxigênio que lhe oferecia a mãe, no relato de Maurois, nem carecemos de oxigênio a enfrentar os solavancos que as térmicas da tarde finda deixaram de herança à noite –– e tal como no caso de André, a leitura me traz certa beatitude “pois a travessia dos Andes dura pouco e logo pousamos em Santiago”. Eram mais de meia-noite do dia 7 de outubro.

“El hombre imaginario” de Nicanor Parra esperava-me dentro do meu ansioso coração de viajante. O personagem que viaja co­nosco, dizem, é fruto da imaginação como no poema do chileno. Só usando a imaginação os casais costumam voltar de uma viagem apaziguados de alguma rusga que nutriam antes da viagem. Mas o homem imaginário que olha para o país, a cidade, a vila visitada para dela extrair estórias que há de contar depois, com fatos ou com a pura imaginação sobre o destino visitado.

Santiago

Tão importante quanto o vinho, o Chile ostenta dois prêmios Nobel de Literatura e mantêm alto padrão gráfico associado e acessibilidade ao livro

Tão importante quanto o vinho, o Chile ostenta dois prêmios Nobel de Literatura e mantém alto padrão gráfico associado e acessibilidade ao livro

A ida ao Centro Cultural de La Moneda, no palácio de mes­mo nome, foi a nota alta do dia 7. Houve um episódio que novamente me trouxe André Maurois à pauta, quando ao degustar nosso café-da-manhã, no balcão de um bar no Paseo de Fulnes, pude ver uma partida de futebol em uma “cancha” improvisada pela Coca-Cola. A vegetação (plátanos e outas espécies) me lembraram que Maurois, em 1947, já pensava em Paris ao ver os arredores da Praça –– a diferença de agora é que o amplo espaço, antes destinado a estacionamento, é agora dedicado ao lazer, aos pedestres e, ao mesmo tempo, cortado por um grande boulevard… Mas, sim, ainda o mesmo ar francês que Maurois destacara –– como se evocasse (mesmo que “vagamente”) a França, Annecy ou Monpazier.

À troca da guarda, sugerida por um amigo (ex-oficial da Força Aérea Brasileira, FAB), decidimos não comparecer (dá-se sempre em dias pares), em virtude do despertar tardio; mesmo no segundo dia, 8, em que recolho essas notas no processador de textos.

Mas o “círculo nevado dos Andes”, não visível mais de toda a cidade, como há 68 anos atrás relatara Maurois, é ainda possível em lugares como na proximidade do Museu Nacional de Belas Artes, em que o toque mágico ainda enobrece a paisagem urbana apesar de toda a vertigem que o trânsito possa causar ao visitante. E é um trânsito ordenado, comportado até comparado ao das metrópoles brasileiras. Re­servaram os chilenos, sabiamente, espaços amplos para pedestres e para ciclistas; há, no todo, um respeito mútuo entre os que dirigem e os que caminham pela cidade. Em geral, ouvi poucas buzinas e menos freadas bruscas e nervosismo no trânsito, tendo caminhado muito nestes dois dias.

Sob a motivação dos versos de Parra, sigo pela cidade. Já agora sãos os “aforismos chilenos”:

“Y el viajero que mira para atrás
corre el serio peligro
de que su sombra no quiera seguirlo.”

Basílica de Merced

Fiquei muito feliz nas proximidades do monumento histórico do Catolicismo chileno, a Basílica de Merced, com o que obtive como pão para o espírito e para o corpo. Depois da visita a Feria Chilena del Libro –– belíssima livraria do Paseo Huérfanos, 670; fomos a um ótimo restaurante.
A livraria vale a visita. O espaço é amplo e havia um pianista tocando na entrada, próximo a sofás para meia dúzia de leitores; a livraria, além de espaçosa, é bem iluminada; os atendentes são gentis e prestativos. Saí com dois livros que estava desde ontem à procura –– “Um puñado de cenizas”, antologia de poemas de Nicanor Parra (1937-2001) e “Azul” do poeta nicaraguense Rubén Darío, livro fundamental da poesia latino-americana, em bela edição da Universidad de Valparaíso. O pão corporal, após a livraria, foi-nos servido em um bom restaurante da região, Due Torri, onde se come muito bem por bom preço, mas se recomenda ao turista reservar lugares para o repasto prandial.

À tarde, fui à região de San Diego, onde há uma espécie de livreiros como os “bouquinistas franceses” –– à moda do Quais Malaquais, em Paris, citados nos clássicos romances franceses, com a diferença que o humor dos livreiros estava abaixo da linha do razoável. Valeu pela paisagem e por uma biografia de Santa Teresa de Lisieux que me ajudou a perdoar a má-acolhida. Sob um céu azul e próximo às torres de San Diego, contentei-me em folhear um Fray Luís de León, antes de ir para o apartamento e ver a Seleção do Brasil jogar pior dos que os meninos na cancha improvisada da praça, na manhã anterior.

Universidade

Natural ansiedade com o fato de que falaria no dia seguinte, 10, em uma universidade internacional, ainda que, há muitos anos, eu faça palestras no Brasil, para plateias diversas e há sempre um pouco de ansiedade –– mas não como aquela. Não sabia o que encontraria, o perfil do público que me ouviria, se é que me ouviria; ou, sequer, se haveria público. Acordo com a sensação estranha de que não haverá ninguém para me ouvir, o que falarei para o coordenador –– que no pesadelo é uma espécie de Inspetor Geral, severo como era o professor Hegel no velho ginásio em Anápolis.

O dia amanhece frio como usual nesta viagem. No meu caderno de rascunhos, registrei: “37°F Feels Like 37°”. Das rotinas do dia, o sol foi o que mais me agradou presenciar. Viajar a dois tem o condão de aproximar ou afastar os viajantes. No meu caso, sinto-me mais próximo de minha companheira de viagens (a mesma há mais de quarenta anos). Lembro-me que numa dessas viagens (à França), tivemos uma terceira pessoa em nosso convívio e pessoa de tamanha calma e boa personalidade que não só não rompeu o equilíbrio, como serviu de ponto de apoio na extensão da viagem até o território marroquino. Tempos idos, lá vamos nós caminhan­do…como dizia o mago António Ma­­chado na España dos 1890 et plus…

E a mais fina das notícias e descobertas de hoje, cai do céu: o mais poético dos pareceres científicos vem da Nasa. Cito Mr. Alan Stern: “Quem teria esperado um céu azul no Cinturão de Kuiper? É lindo”, disse Stern, da missão “New Horizons”, pesquisador principal do Instituto Southwest Research (SwRI), em Boulder, no Colorado.

E fomos andando. Agora, tenho no meu telefone móvel (antes celular, hoje “smartphone”, no anglicismo diário) um conta-passos que é uma coisa muito útil. Caminho muito nas minhas viagens e nunca tive ideia do quanto caminhava; consegui um recorde: 10.786 passos. De nada valeria isso, se não deixasse gravado em minhas retinas e meus sentimentos mais profundos, a alegria que o dia me proporcionou em Santiago.

A decepção com o Museu Nacio­nal de Belas Artes foi amplamente compensada, com a visita que fizemos à Catedral e ao Museu Histórico Nacional na Plaza de Armas. O lugar respira a história de Santiago e, apesar de lotado, com tantos turistas atraídos pelo sol que desfazia a friagem da manhã, tudo demonstrava uma ordem europeia ou, se preferir, espanhola e mestiça. E se todos caminhamos e ao caminhar aprendemos, como queria o poeta alemão H. Heine “todos nós marchamos; homens e deuses; crenças, lendas e tradições…” eis-nos, minha mulher e eu, caminhando na Santiago histórica e aprendendo.

Um guia interessante vem das páginas de um historiador que descobri quase por acaso, com meu hábito de ler os jornais locais (ou pe­lo menos um deles, em papel) e, a­gora, também via internet. O guia se­guro é Alfredo Jocelyn-Holt que me chega através do tablóide “La Ter­cera”. O texto me atrai e vou seguindo em busca de livros do autor.

Uma observação rápida sobre o museu histórico nacional feita por minha mulher marca bem o que é a compensação completa: eis um museu agradável de se visitar. Ordenado, rico em informações e didático, o museu recebia uns dois grupos de alunos dos colégios da capital.
Ambos bem uniformizados e em trajes sociais; os meninos de gravata e paletó e as meninas, saias e também lenços a imitar gravata –– um traço bem europeu dos colegiais alegrava a atmosfera do museu. Curiosamente, além do cão (exposto que está, empalhado) de um presidente da Nação, o museu chamava a atenção dos pequenos por um grande painel nacional no pátio interno do recinto. Os cães são personagens da cena urbana chilena. Estão por toda a parte.

Não sei desse fato senão o que me contou meu compadre (que é um Franciscano até no nome) que estes convivem com as pessoas e as rotinas urbanas por seu grande préstimo da acuidade auditiva, que poderia prevenir (avisar com seus ganidos) a proximidade de um terremoto. Não fui conferir a história, mas o fato é que os cães são uma maioria silenciosa pelas ruas e eis que os meninos, nossos colegas de visita ao museu na manhã de nove de outubro, paravam entusiasmados com o cão empalhado pelos milagres da taxidermia.

Impossível dizer que deixei os cães para trás e segui adiante, pois em Santiago, os cães seguem com os pedestres. O fato é que, finalmente, chegou a hora de encarar a Academia. Sei por informação preliminar que a universidade aqui, como no Brasil, está em mãos de uma esquerda quase furiosa e que ali se aninha, se concentra como em barricada.

Vou para a aula magna e me agrada o discurso de uma pessoa (um reitor?) que denuncia o publicismo das teses, a publicação atual no mundo universitário que cresce em razão inversamente proporcional ao número de marcas e patentes. Segundo o palestrante, ao contrário dos países da Ásia que, me­nos preocupados na indústria da pu­blicação de teses, ocupa-se em construir novos objetos úteis a toda a comunidade. Fico pensando no incrível número de universitários que conheço lá no Brasil e que, formados por um sistema gratuito de ensino, nunca devolveram nada à comunidade. Decido não ficar para o coquetel prometido, o ar, o clima da academia não me é acolhedor; mesmo do coordenador da viagem que resolvi fazer.

Na volta ao flat, onde estamos “morando” minha mulher e eu, falo sobre o que ouvi, fazemos uma refeição leve à base de omeletes (podemos cozinhar aqui e estocar nossa própria comida, quando conveniente). Ela concorda e ilustra meu raciocínio de apoio à tese ouvida na aula magna. [Esqueci-me de fazer a inscrição ao congresso.]

Dia seguinte, ainda sob o efeito dos pesadelos sobre a responsabilidade que me pesa sobre “a palestra”, parto para a U­ni­ver­sidade, novamente caminhando, o que me é extremamente saudável e me deixa animado. Ao chegar, encontro colegas de viagem, mas não o coordenador. Esperamos por mais um tempo, até a sua chegada e abertura da porta da sala, onde dar-se-ia a palestra. Há um pequeno colóquio sobre a conveniência de adiarmos para a parte da tarde, ao que me oponho, pois não aguento de ansiedade; ter que esperar mais um turno para ministrar a “bendita” palestra que já me exaspera. Tenho no auditório, sete participantes contados a me ouvir.

Uma rápida e nada amistosa discussão na parte da tarde do mesmo evento, convenceu-me a antecipar minha viagem a Valparaíso. Creio que o desagradável evento terminou para mim. Última providência: repasso os livros que trouxe para doação a uma instituição local (dois meus e dois da amiga romancista Clara Dawn) e me vou. Pretendo acompanhar minha mulher em nossas caminhadas (e dependendo da confirmação, visitar uma empresa líder no setor de software aqui); e vamos de ônibus para Valparaíso.

Não foi sem aviso sobre os riscos que troquei os cães pelas serpentes: “a universidade é um centro de operação donde (a esquerda) se replica, onde ela se reconhece, onde pretende concentrar os humilhados, com o objetivo de fazer-lhes ver quão mal anda o sistema” (Alfredo Jocelyn-Holt, em “La Tercera”, 2015).

Valparaíso

Em Valparaíso, o turista inquieto encontrará entre os jardins a atmosfera do “doce improviso poético que o viver chileno ensina ao estrangeiro”, como escreveu o poeta Maurois­

Em Valparaíso, o turista inquieto encontrará entre os jardins a atmosfera do “doce improviso poético que o viver chileno ensina ao estrangeiro”, como escreveu o poeta Maurois­

A viagem de ônibus de Santiago a Valparaíso é tranquila e pontual. Surpreende-me que os eventos aqui comecem no horário e que os ônibus sejam pontuais, desacostumados que estou à pontualidade em nosso país. Che­gamos e vamos direto para o ho­tel, à beira-mar. Minha mulher tem um mal-estar que a forçou ficar em repouso no hotel. Só a visão de nossa janela pôde amenizar o incômodo e tornar menos desagradável essa circunstância. Da janela frente ao Pacífico, ela ficava observando o mar, lendo e fotografando as diversas etapas do dia.
Enquanto repousava, visitei a casa-museu “La Sebastiana” em homenagem a Pablo Neruda.

Resolvi fazer o trajeto a pé na ida, sem me dar conta do aclive que é o caminho de acesso à Sebastiana. Enquanto caminhava pelo histórico bairro da Bela Vista, como se sabe, o comunista Pablo Neruda era um amante das propriedades. Colecionou três com os ganhos ao longo da vida: La Chascona em Santiago, La Sebastiana em Valparaíso e Isla Negra. Os amigos que me viram postando poemas de Gabriela Mistral, Miguel Arteche, Henrique Lihn ou Nicanor Parra, em mídias sociais, sempre me perguntavam: “E Neruda?”, ao que sempre respondi, ele tem células ativas ao redor do mundo que obnubliam o talento de uma miríade de grandes talentos poéticos do intelectualizado Chile.

É preciso que se diga que o esguio país ordeiro ao longo da costa do Pacífico sul teve antes (em 1945) o Nobel de Literatura atribuído à poetisa-professora Gabriela Mistral, tendo esperado até 1971 para o prêmio a Pablo. Erwin Díaz em sua antologia “Poesia chilena de hoy: de Parra a nuestros dias” já adverte sobre esse sol que a tudo tenta obscurecer: “Esta antología reúne textos de poetas que –– desde el punto de vista de cronología y la hisoria literaria –– comenzaram a escribirse después de Neruda, quiero decir, con su presencia –– tutelar para algunos, molesta para otros, imprescindible para la mayoría –– en el horizonte literario desde la Segunda Guerra Mundial hasta nuestros días”.

A uma amiga que me encomendou um pequeno volume de poemas, emprestei o pequeno volume que o museu Neruda agora lança como o menor guia do poeta, “Neruda em Breve”, ressaltando que o Neruda, que conheço de cor desde os meus vinte anos e dos vinte poemas de amor, é hoje uma canção desesperada que não nos permite ouvir o doce e alentado canto dos demais poetas chilenos. Trouxe-lhe um livro de J.W. Schelling, intitulado “Clara” – além de mostrar-lhe uma foto dos livros de Neruda (em formato bolso) que trouxe de uma viagem a Montevideo no final dos anos 70 do século XX.

Os livros são acessíveis como os vinhos, no Chile, onde a indústria editorial se apresenta riquíssima, vastamente inventiva e os livros têm custo bem mais baixo do que no Brasil, mesmo os livros de arte, e não apenas porque nossa moeda chega à relação de R$ 1 para $170 em um câmbio bem favorável.

Passeando de volta ao hotel em Valparaíso e vendo as feiras livres com suas frutas e legumes expostos, donde salta a exposição quase pictórica das alcachofras, penso na frase de Maurois sobre “o doce improviso poético que o viver chileno ensina ao estrangeiro”. As cores e os cheiros se misturam aos do Pacífico; próximo ao hotel, da estação da Bela Vista sai um trem de tempos em tempos e da janela do hotel o dia se esvai como se esvai nossas vidas de seres moventes –– viajantes ou sedentários. Um pássaro voa em busca de seu repouso noturno.

Voltamos de Valparaíso para Santiago de ônibus, novamente, e completamos o trecho de metrô para as últimas duas noites no Chile, dessa vez, optando por nos hospedar na parte mais moderna da capital –– Las Condes. Daí, sim, vê-se os Andes com clareza e proximidade. Há brasileiros no hotel, nem tão ruidosos, mas sempre falantes em seu portunhol ininteligível ao chileno médio. Opto por falar inglês, embora leia muito bem em Espanhol, graças aos manuais de Física lidos na Porto Alegre dos meus verdes anos.

Comemos bem, lemos muito, vimos a chuva cair e apreciamos a neve sobre os Andes. Creio que é hora de voltar para casa, até porque o mal-estar de minha mulher piorou e nos deixou inseguros quanto ao flanar sem rumo pela Santiago ordeira e moderna de Las Condes. Na TV, a presidente Bachelet anuncia uma mudança da Constituição, os jornais debatem a gratuidade do ensino e setores diversos do país (fora da universidade) interpretam que o país está ameaçado no que seria o mais caro dos valores chilenos: a Ordem.

Cruzo os Andes numa manhã fria e sem muita névoa; de volta para casa como quem deixa para trás, com seis horas no máximo de um deslocamento aéreo, outra civilização.

As mesmas névoas do tempo parecem urdir contra a ordem do que essa sociedade chilena conseguiu erigir em concerto desde a fundação do país, desde as vitórias sobre o Peru, desde as visões modernizadoras e centralizadoras de Bernardo O’Higgins, que desconsolado vai morrer no país vizinho, depois de sua deposição da presidência do Chile; desde a “frágil fortaleza histórica” que se esconde atrás da cordilheira dos Andes (Alfredo Jocelyn-Holt), embarco de volta para o Brasil, com o eco dos versos de Huidobro em meu coração e minha mente: “Hay que poner la oreja em la tierra como los indios y oír el mundo/oír el pulso que late en las entrañas de la tierra”.

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