O cérebro de Mussolini está solto

Homens matam mulheres, se retiram dos cemitérios para lamber o sangue que restou do aço afiado, se apresentam a Justiça, pagam fiança e saem flanando  

Gabriel Nascente

As civilizações dos grandes centros industriais do mundo tecnológico avançam esmagadoramente assassinas, contra a natureza, o universo e a sobrevivência do homem. Numa atrocidade tão brutal que, enquanto vicejar sob o solo uma só raiz de capim, o homem não para de fabricar máquinas para destruição daquilo que ele próprio jamais reconstruirá outro em seu lugar.

Enquanto isso, os canalhas do capitalismo e da política, cinicamente tem respostas parta tudo: “O mundo não pode parar”. Veremos.

Este trauma da destruição do planeta eu o carrega desde adolescência dos meus dez, doze anos, quando presenciei, a olho n, um trator da prefeitura derrubando a primeira árvore do bosque do Botafogo. E por quê? É simples: para privilegiar a locomoção do homem d e suas máquinas. E ainda ouvi da boca de um idiota: “É o progresso chegando. Meus amigos. A cidade precisa crescer”. Conclusão. A densa mata daquela reserva ecológica nunca mais foi à mesma, com suas fontes de águas naturais, brejos, folhagem, e até peixes em sues pequenos regos d’água.

O tempo passou e Goiânia atolou-se na selvageria de seus marginais, políticos, vândalos e inimigos da vida. Daí só nos resta agora saber quanto será que a Câmara Municipal vai aprovar projeto para construírem uma gigantesca avenida de duas pistas em cima do bosque dos Buritis. E o governo autorizar a venda da Praça Cívica de Goiânia, para construção de um Shopping. Esperemos.

Cá de dentro da minha tosca oficina literária, fico eu a imaginar que espécies de homem são estes que administram o futuro do planeta, e o obscuro destino da humanidade; inventam substâncias tóxicas capazes de queimar o próprio ar, mas sequer dão conta de controlar a temperatura do sol e as condições climáticas da terra, durante  a travessia das estações do ano.

Meu espírito viaja livros, montanhas, nuvens, almas de filósofos, inquietudes de poetas, parábolas do Cristo histórico, e até pelo grasnar dos corvos, à procura de respostas. E, infaustosamente, caio-me frustrado entre deformidade e injustiça. O paraíso, de que tantas sonham as sagradas escrituras, é uma mentira ignóbil, descabida. Paraíso é quando nós nos encontramos dentro de nós. Tanto isto é verdade que o grande poeta norte-americano Walt Whitman, em certo momento de seu longo e narcisístico poema Song of myself (Canção de Mim Mesmo), escreveu “Se quiseres me encontrar, não me procures fora de mim”.

A carne é o verbo. E é por ele, que eu sigo tricotando palavras à inacabável rede das minhas idéias. Uma gotícula de luz aqui, outra acolá, e vou aprendendo a inventar o meu próprio paraíso, em meio a fornalhas do inferno humano. Por exemplo: nada é mais triste, deprimente e selvagem para os olhos humanos, do que ver um homem exibindo o brilho satânico de alguma arma. Deduz-me, que estamos aqui, neste mundo, simplesmente para matar – e não-nunca para sermos felizes.

Conclui-se, também, que em tempos assim de feminicídios exacerbados, os homens adoram pular carnaval ao redor do cadáver de suas vítimas. E depois, se retiram dos cemitérios, para lamber o sangue que restou no aço afiado de suas armas; se apresentam a Justiça, pagam fianças, e saem por aí tranquilamente a passear pelas praias, beber chope, traficar, espancar mulheres, e matar, matar, matar, matar…..

O cérebro de Mussolini está solto.

Gabriel Nascente, poeta e prosador, é cronista do Jornal Opção.

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