O belo poema inflamável de Luís Nhazilo, de Moçambique

O poema escrito é de uma força extraordinária. Declamado, ganha tal energia que parece pegar fogo 

Luís Nhazilo, poeta de Moçambique | Foto: Facebook

Luís Nhazilo nasceu em 9 de janeiro de 1997, em Machaa-bedene, Matola, província de Maputo, em Moçambique. É escritor, poeta-declamador, ator de cinema e ativista social. É estudante de Psicologia Escolar na Universidade Eduardo Mondlane.

O jovem poeta é fundador do movimento artístico Poenhazilando. É membro do Movimento Activista de Moçambique, diretor de atores na associação Mozbeat.

Luís Nhazilo fez o personagem principal do filme “O Pequeno Escritor”. O filme foi produzido pelo moçambicano Júlio Silva.

Como representante de Moçambique, participou da “Brave World Magazine”, editada pela Editora Indiana.

Luís Nhazilo conquistou o 10º lugar no concurso Projectos Trechos de Poesias, organizado pelos escritores brasileiros Paulo Vasconcelos e Conceição Maciel.

Por si, “Infinito Poema”, de Luís Nhazilo, tem uma força que agarra os leitores pelo cérebro e pela alma. A força literária de uma escrita, poema ou prosa, deriva do poder de imaginação de seu autor. A imaginação cria uma realidade paralela — para além da realidade que avaliamos como real —, que ilumina o que existe, ao firmar outra existência. Por isso a poesia(e a prosa) “mente”? Na verdade, aponta para novas e outras verdades. O poeta brasileiro Mario Quintana disse que “a mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer”.

Quando Luís Nhazilo declama o poema é que, finalmente, se percebe toda a sua força criadora (a habilidade como mestre que faz as palavras dançarem) — sua, digamos, musicalidade e a ferocidade de sua linguagem. É como se, inflamado, o poema se tornasse outro poema, como se ganhasse vida e, por assim dizer, pernas. Tal a sua força poética, tal o poder inflamável do bardo africano.

 

Infinito Poema

Luís Nhazilo

Quantas vezes menti que sou poeta?

Violei a gramática, matei os significados e atropelei cada verso desta vida, mesmo assim me condenas ao sofrimento poético amador?!

Quantas vezes atalhei as metáforas de algum sorriso suspenso num papel mal usado?

Quantas? Quantas?

Quantas vezes estuprei as ancas anafóricas e fui exilado dos meus próprios olhos?

Eu sou criminoso sim,

pois matei o sentido da poesia, adulterei os advérbios, os adjectivos e causei um pânico nos ouvidos da alma,

que alma?

Quantas almas inventei para desconseguir um simples corpo de um poema?

Menti poemas e abortei poesias,

senti poesias e, vomitei cagadas, cagadas, cagadas verdes

que completam esse julgamento.

Eu não sei ser poeta, nem transbordar poesia, mas sei com todas violências e transgressões, escrever um poema.

Quantas vezes mordi fonemas de alguns lábios e ardi nos pronomes de cada ser?

Quantas vezes causei estirilidade numa estrófe vácua e obriguei um poema a suicidar-se?

Eu sou assassino sim,

pois estuprei substantivos gritos de um verso que não era verso!

Quantas vezes menti um poema,

que na verdade, nunca foi poema, era uma doença recitalmente empregue nos verbos do cansaço, inventado…

Quantas vezes menti um poema afinal?

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