O “Barulho do Duro” à luz da História e da Literatura

Os trágicos desdobramentos são reiteradamente alvo do interesse e escrutínio de estudiosos. Eliézer Cardoso de Oliveira (UEG), Lena Castello Branco (ex-UFG) e Edvaldo Bergamo (UnB) falam do impacto e das lições que podem ser tiradas do episódio cem anos depois  

Os trágicos desdobramentos do Barulho que se deram há cem anos em São José do Duro (GO), hoje Dianópolis (TO), ecoam ao longo dos anos, sendo reiteradamente alvo do interesse e escrutínio de estudiosos, tanto da área de História como de Literatura. Entre eles, está Eliézer Cardoso de Oliveira, professor do curso de História e do Mestrado em Territórios e Expressões Culturais no Cerrado, da Universidade Estadual de Goiás (UEG/Anápolis). No seu entendimento, a tarefa dos historiadores frente a episódios como o Barulho do Duro é afastar o peso da força de uma obra de ficção reconhecida nacionalmente e o esforço de reconstrução identitária da memória familiar efetivada pelos descendentes dos coronéis de Dianópolis. Também pondera que seu significado maior é evitar pensar a evolução das nossas instituições de forma linear e ingênua.

Eliézer Cardoso de Oliveira (UEG): tarefa dos historiadores é afastar o peso da força de uma obra de ficção e o esforço de reconstrução da memória familiar. Foto: Acervo pessoal

Para Eliézer, o episódio da Chacina do Duro na historiografia é tratado essencialmente como um episódio das distorções do sistema coronelístico em Goiás, um conflito entre os coronéis. O estudioso debruçou-se sobre o tema “Chacina do Duro” durante a pesquisa para seu doutorado em Sociologia da UnB, que resultou na tese “As Representações do Medo e das Catástrofes em Goiás”, defendida em 2006 e posteriormente publicada em 2012 com o título “Chacinas, Combates & Massacres: medo e violência em Goiás”, numa edição conjunta da PUC e da Editora Kelps.

Eliézer afirma que a tragédia do Duro representa uma época em que a aristocracia, proprietária de terras, gado e homens armados era forte o suficiente para desencadear uma guerra – e quase vencê-la – contra o Estado. “Uma aristocracia que, talvez como os imperadores romanos, pensasse que fosse imortal, ou que pelo menos que não teria a morte inglória das pessoas comuns. Talvez esse seja o sentido transcendente da catástrofe e o que explica a sua atualidade.”

A professora aposentada da UFG, historiadora e cronista Lena Castello Branco destaca que, com os trágicos acontecimentos que ali se desenrolaram, a pequenina localidade adquiriu notoriedade. A ampla divulgação dos dramáticos episódios ali transcorridos reforçou, no imaginário popular, o perfil de truculência atribuído aos políticos de Goiás. “Persiste entre seus habitantes a lembrança das lutas e dos sofrimentos vividos naqueles dias turbulentos. Em memória dos mortos do tronco, foi erguida a Capelinha dos Nove, onde ‘as andorinhas cantam alegremente ao amanhecer’”, detalha.

Segundo Lena, os trágicos acontecimentos havidos em São José do Duro são indicativos da aceitação local de certa banalização do clima de violência e de insegurança que grassava no Nordeste goiano. “Nas décadas iniciais do século 20, essa região pouco se desenvolvera em comparação com o Sul e o Sudoeste do Estado de Goiás. Ali continuavam a serem predominantes os valores da “macheza” e da “brabeza”, dando lugar a um tipo de liderança calcada na força pessoal, na violência e no desprezo pelos códigos escritos, com o predomínio da lei do mais forte e do mais ousado”, explica. Os membros da família Wolney – personagens centrais do “Barulho” – bem expressavam tais valores: dispunham de forças particulares, as quais armavam, municiavam e comandavam; e contavam com o apoio de seus iguais, os coronéis da Serra Geral, com poder e influência no cenário federal.

Ao perderem o prestígio em Goiás – que fora obtido com a aliança ou a conivência de sucessivos governos estaduais – o coronel Joaquim Ayres Cavalcanti Wolney e seu filho, o bacharel em direito, Abílio Wolney, não se conformavam com os rigores impostos à oposição, expressos no aforisma: “Para os amigos, tudo; para os inimigos, a lei”. Julgavam-se perseguidos; revidaram com violência crescente, aliando-se a malfeitores sobre os quais não detinham, de fato, o comando. Documentos indicam que Abílio Wolney chegou a pensar em algum tipo de negociação com as autoridades; teria mesmo admitido possibilidade de render-se às forças da lei, talvez pensando em libertar os familiares e amigos presos como reféns, mas não teve como fazê-lo. “Foram de violência brutal os combates travados no Duro, entre os homens que invadiram a vila e a força policial, a quem competia guardá-la, mas que exorbitou de suas atribuições, ao executar ignominiosamente os reféns do tronco.

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Dentre seus inúmeros trabalhos, Lena documentou em sua obra “Poder e Paixão: A Saga dos Caiado” (Editora Canone, 2009) a biografia da família Caiado, que entre seus membros tinha Antônio Ramos, o “Totó”, um dos personagens centrais da política local à época dos acontecimentos. Ao avaliar até que ponto as autoridades foram responsáveis por tais fatos, Lena aponta a correlação entre a reestruturação do Partido Democrata em 1909, inclusive a organização de seus diretórios no Norte do Estado de Goiás e a proposital marginalização dos Wolney em relação ao centro do poder representado pela Comissão Executiva. “Pode ser vista como parte do jogo da política a nomeação de desafetos de Abílio para cargos estaduais em São José do Duro. O procedimento seguia os padrões vigentes e não significava, necessariamente, estímulo à violência, muito embora tenha contribuído para o acirramento dos ânimos e a inexorabilidade das posições conflitantes.

Abílio Wolney proclamava a inimizade que nutria contra Totó Caiado em contundentes artigos publicados no jornal O Estado de Goyaz. Teria Ramos Caiado agido em represália e influenciado negativamente o presidente do Estado, na condução dos problemas do Nordeste goiano? Ao que indicam os documentos, a atitude do governo e de seus adeptos era estritamente legalista. Em seu relatório, o juiz Calmon assinala que ouviu sempre, do presidente Alves de Castro, do senador Eugênio Jardim e do deputado Ramos Caiado as palavras: “A sua comissão é de imparcialidade, é de juiz alheio às paixões locaes (sic), é de rigorosa justiça”.

Como deputado federal, Ramos Caiado passava mais tempo no Rio de Janeiro do que na cidade de Goiás. “Ao se agravarem os fatos em São José do Duro – em dezembro –, discutiam-se no Congresso as emendas ao orçamento da União, momento em que os parlamentares não se afastavam da capital federal.” Supõe-se que, mesmo à distância, Caiado tenha acompanhado o desenrolar dos acontecimentos. Sua influência, todavia, deve ter sido limitada, até porque o presidente do estado era homem de caráter independente e, entre ambos – que eram cunhados -, já se haviam registrado divergências.

A professora aposentada da UFG, historiadora e cronista Lena Castello Branco: valores da “macheza” e da “brabeza” vigoravam na política goiana no início do século 20 | Foto: Arquivo/Jornal Opção

Para o historiador Eliézer Cardoso de Oliveira, os 100 anos da Chacina do Duro é um lembrete para que as instituições policiais e judiciárias façam uso comedido do poder que lhes foi atribuído. Muitas outras chacinas e injustiças aconteceram na história de Goiás, mas não tiveram a ressonância por que não envolveram personalidades poderosas. O significado maior da tragédia do Duro é evitar pensar a evolução das nossas instituições de forma linear e ingênua.

“O episódio revela o lado sombrio da modernização brasileira, no qual ocorreram inúmeras chacinas e massacres. Chacina que se explica estruturalmente por um Estado fraco, esforçando-se por monopolizar a violência (a premissa básica da definição de um Estado segundo o sociólogo Max Weber), enfrentando uma aristocracia poderosa, proprietária de gados e homens, capaz de enfrentar e colocar para correr a força estadual. Atualmente, no que pese episódios isolados de ‘novo cangaço’ a força militar do Estado é suficiente para sufocar e vencer qualquer ‘senhor da guerra’. Como o Estado era fraco, era obrigado a fazer uso da força bruta, empregando homens valentes, violentos e rudes na força policial. Um lembrete para aqueles que defendem a atuação ‘dura’ da polícia: polícia violenta é sintoma de fraqueza e não de força; num país com grande força institucional, basta a presença simbólica da polícia para coibir a resistência. No episódio do Duro, observa-se a atuação desastrosa da polícia, comandada por um juiz ambicioso, que agiu nos limites da criminalidade: assassinou a sangue frio, prendeu pessoas em cárcere privado, chacinou inocentes.”

Respostas da literatura
O grande divisor de águas para que o fato ganhasse notoriedade foi, sem dúvida, “O Tronco”, quarto livro de Bernardo Élis, no qual o escritor apresenta uma versão fictícia de fatos históricos ocorridos no início do século 20. Mesmo sendo um romance, o livro trouxe o fato histórico à baila, tornando-o conhecido, quiçá eternizando. É provável que, sem a literatura, o fato estivesse esquecido como mais um de tantos confrontos entre coronéis. A ficção afirma e firma fatos. Mas o que dizer do livro como resposta a um fato histórico? Há quem questione o romance como descrição histórica de um período. Há quem diga que é impreciso. Mas, sem mimese, a literatura tem obrigação de ser precisa?

Nascido em Corumbá, Bernardo Élis conquistou, em 1975, a cadeira nº 1 da Academia Brasileira de Letras

Albertina Vicentini, professora do Mestrado em História da PUC Goiás e Doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP, encaixa a obra na categoria de romance histórico realista. Publicado em 1956, no momento em que Guimarães Rosa apontava também para o mesmo momento da história mineira – segunda década do século 20 – em seu “Grande Sertão: Veredas”, o romance de Élis enquadra-se aos moldes clássicos do gênero. “Sobretudo, como dissemos, numa perspectiva moral de que podemos aprender e mudar comportamentos com a lição do passado. Esse sentido ético, no caso bernardiano, relaciona-se à discussão do atraso e do progresso do Estado, do descaso do governo nacional para com o Estado, e da ‘vingança’/reivindicação dos sertões, um tema recorrente na sua obra”, diz a professora em seu artigo acadêmico “Romance Histórico, Realismo e Lisibilidade N’o Tronco, de Bernardo Élis”. O argumento foi corroborado pelo próprio autor diretamente ao Jornal Opção em entrevista, cujo trecho vem destacado abaixo:

Euler Belém – Nas memórias que está escrevendo, o sr. afirma que o romance “O Tronco” nasceu de um projeto de um livro de sociologia, de história. Por que o senhor mudou de ideia?
Na época, os romances de José Lins do Rego e Graciliano Ramos me encantavam muito, mas eu queria escrever uma obra científica sobre aqueles episódios de Dianópolis. A história que originou o romance “O Tronco” me foi contada por um tio do Haroldo de Britto, o Sebastião de Britto, fazendeiro, comerciante, promotor público. Era uma grande figura, um homem muito emotivo. Eu tinha ouvido umas cem pessoas, porque queria escrever uma obra científica, examinando os aspectos atrasados da região. Mas o Sebastião de Britto era um grande contador de história. Ele se emocionava com os fatos até as lágrimas. Um dia teve uma crise de choro tão forte que precisei chamar um médico para atendê-lo. Então percebi que era besteira querer fazer ciência quando eu tinha nas mãos um material excelente para um romance. Conversei com o Zoroastro Artiaga e ele disse: “Larga de bobagem. É melhor fazer um romance. Fica muito mais emocionante”. Então, desisti de fazer ciência e escrevi “O Tronco”. O José Godoy Garcia detestou o romance. O “Tronco” tinha uma certa orientação ideológica. Eu enxergava, na região, uma pureza originária e, depois, um pessoal que defendia o atraso e outro queria o progresso. Achei esse conflito interessante e resolvi transpô-lo para o romance. Essas guerras do sertão marcaram a minha infância. Por Corumbá passavam fugitivos, soldados. Todo mundo em petição de miséria. Essas cenas ficaram na minha cabeça, constituindo uma espécie de literatura de vingança do sertão, uma espécie de reivindicação. O sertão era tão grande, importante, mas vivia isolado. Éramos pessoas honestas, trabalhadoras, mais ou menos cultas, mas ninguém se lembrava de nós. Em minha casa, era comum meus pais e tios dizerem: “Somos apenas bucha para canhão. Quando o governo precisa fazer uma guerra, vem aqui e leva todo o mundo”. (Trecho de entrevista concedida por Bernardo Élis ao Jornal Opção, em duas partes, originalmente publicada em duas edições, as de número 1.099 e 1.100, entre agosto e julho de 1996)

Para o professor da UnB e doutor em Letras pela Unesp na área de Literatura Comparada, Edvaldo Bergamo, o romance “O Tronco”, de Bernardo Élis, permanece significativo para a literatura brasileira, ao indagar os movimentos da História nacional, sem perder de vista a dimensão do regional, especialmente no tocante à nossa trágica modernização conservadora. “A obra aparece posteriormente ao importante ciclo de 1930 do romance brasileiro, herdando certos princípios estéticos e ideológicos. Está assim irmanado com obras das décadas de 1940 a 1960, como ‘Cascalho’, de Herberto Sales, ‘Vila dos confins’ e ‘Chapadão do bugre’, de Mário Palmério. Todas ensombradas pela hecatombe literária que foi e é ‘Grande sertão: veredas’, de Guimarães Rosa”, explica.

Bergamo ressalta o interesse que Bernardo Élis demonstra no romance pelos tipos humanos que habitam aquele território ermo e incivilizado, que convivem com o poder despótico de origem estatal ou privada, sofrendo as consequências de uma disputa cruenta de maiorais. São indivíduos que padecem com um Estado de Direito a serviço dos donatários de imensos latifúndios, que suportam os lacaios desse mesmo Estado de Direito oriundo das capitanias hereditárias. “São as vítimas dos notáveis verdugos afastados historicamente por desconhecimento programado da miséria e do desmando correntes que permanecem arraigados nas brenhas, mas não só, de um país de múltiplas distâncias como o Brasil”, arremata.

O pesquisador faz questão de lembrar, no entanto, que o romance não é, obviamente, reprodução ou documentação direta de um episódio histórico, não tendo compromisso com o teste de veracidade, mas sim com o teste de ficcionalidade, que toda obra de extração histórica deve ostentar. “O constructo literário redimensiona aspectos considerados relevantes de um tempo histórico caracterizado pela violência e pela desmedida, numa região esquecida, onde a justiça é arremedo de um Estado moderno claudicante e o exercício abusivo da força excessiva apresenta traços arcaicos e antiquados.”

Edvaldo Bergamo (UnB): romance “O Tronco”, de Bernardo Élis, permanece significativo para a literatura brasileira. Foto: Acervo pessoal

“Assim, a luta entre jagunços e policiais não é um embate que visa a sanear a justiça debilitada, mas uma peleja entre grupos beligerantes a mando de, no mínimo, duas ordens coronelísticas que disputam a hegemonia do poder no Estado de Goiás. Bandos descartáveis e corporações manipuláveis, portanto, à mercê de uma movimentação política que tinha sua dimensão nacional (República Velha) em tensão dialética com a dimensão local (coronelismo goiano). Uma contenda política ancorada nas transformações econômicas que ocorriam no Sul do Estado de Goiás as quais explicitavam um maior descompasso do norte na mesma unidade da federação”, diz.

Segundo Bergamo, o trabalho estético de Bernardo Élis dá contornos ficcionais instigantes a um episódio polêmico da história regional, que poderia ter caído no esquecimento, como tantos outros episódios da “agitada” vida brasileira interiorana, marcada pela pobreza e brutalidade renitentes. “A potente simbologia de um tronco invulgar, metáfora poderosa de uma formação social de longeva memória medieval e/ou escravocrata ainda encontrável no (de)sertão do Brasil Central, é o maior trunfo do romance, por figurar um certo país que parece mudar para permanecer o mesmo de sempre, uma nação notoriamente violenta e desumana com aqueles que contestam ou sobrevivem à ordem dominante instituída, desde a colonização, tendo como marca d’água de sua efetiva crueza a escravidão, que passou sem ter sido superada efetivamente”, comenta.

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