O barqueiro da poesia

Em conversa com Ademir Luiz, o poeta fala sobre poesia, catolicismo, erotismo, hereges, Bento XVI, Francisco e diversos outros temas. Um vasto mundo de temas foi conquistado pelo menino goiano de Dickens

Adalberto em meio aos livros: “Sou um cristão que vez por outra escreve Poesia” | Foto: Arquivo pessoal

Ademir Luiz
Especial para o Jornal Opção

O poeta Adalberto de Queiroz é um gentleman à inglesa. Não por acaso, sua trajetória lembra alguns personagens de Dickens. Nascido em Goiânia em 1955, cresceu como órfão em um abrigo de Anápolis, de onde a saiu em 1973 para iniciar sua formação universitária e, posteriormente, se tornar um bem-sucedido empreendedor na área de tecnologia da informação. Formado em Física pela UFG, Comunicação Social pela URGS e Jornalismo também pela UFG, pós-graduou-se em marketing pela FGV do Rio de Janeiro. Paralelamente, sempre se dedicou às artes, sobretudo ao labor poético.

Publicou em 1985 o livro de poemas “Frágil Armação”, recebendo muitos elogios, mas justamente neste ponto da vida as atividades empresariais e compromissos diversos exigiram muito tempo do poeta, que continuou a escrever, mas só voltou a publicar em 2014, com o volume de poemas e crônicas “Cadernos de Sizenando”. No ano seguinte organizou “Literatura Goyaz – antologia”.

Em 2016 lançou “Destino Palavra” e em 2017 relançou “Frágil Armação”. Neste fluxo caudaloso de produção, lança agora “O Rio Incontornável”, uma obra onde o mundo contemporâneo é visto e medido pela régua da milenar tradição poética católica. Nesta entrevista, o poeta Adalberto de Queiroz fala sobre poesia, catolicismo, erotismo, hereges, Bento XVI, Francisco e diversos outros temas. Um vasto mundo de temas foi conquistado pelo menino goiano de Dickens.

O sr. é um poeta cristão ou um cristão poeta?

Sou um cristão que vez por outra escreve poesia.

O sr. está lançando o livro de poemas “O Rio Incontornável”. Umberto Eco dizia que algumas imagens literárias são tão fortes e tradicionais que muitas vezes evocam interpretações destoantes das intenções dos autores. É o caso de palavras como “rosa”, “estrelas” e mesmo de “rio”. Como interpretar o seu rio?

Este meu rio é uma sanga clara que vai desaguar no rio Letes, que teve seu maior canto na voz do maior poeta católico de todos os tempos – Dante Alighieri. Meu rio é escatológico, sim, com ínfimo talento para descrevê-lo, mas com muita intuição. O livro todo é escatológico, diz respeito a destinos, decisões, balanço de vida, lembrança, memória (a arca da vida) e o esquecimento.

Em “A Subida do Mendanha” o sr. evoca no ato de subir o Morro do Mendanha, em Goiânia, a subida ao Monte Carmelo de São João da Cruz. Esse santo poeta é muito presente no livro. São João da Cruz é um santo de sua devoção ou o sr. é mais um leitor de sua obra poética e devocional?

São João da Cruz primeiro me conquistou pela poesia da “Noite Escura”, assim como havia acontecido com Santa Teresa D’Ávila de “Castelo Interior e Moradas”. Esses versos de João da Cruz me motivaram a entender o místico-poeta: “Em uma noite escura,/De amor em vivas ânsias inflamada/Oh! Ditosa ventura!/Saí sem ser notada/Já minha casa estando sossegada”… Depois, tomei conhecimento da sua obra de meditação espiritual, não propriamente poética, em dois volumes traduzidos pelas freiras carmelitas descalças do convento de Santa Teresa do Rio de Janeiro. Só, então, penso que minha devoção tenha dobrado em relação a ele, quando o passei a denominar por São Joãozinho, quando tornamo-nos amigos, São João da Cruz passou a ser alguém a quem procuro nos meus momentos de maior busca do Sagrado.

Permita-me citar uma passagem de “Noite Escura Lida Hoje”, do sacerdote espanhol Jesus Ballester, em que ele diz que ouvira do papa Paulo VI (em 1969) que havia já naquela época “uma irreligiosidade de tantas pessoas e que isso tornava muito difícil inflamar a oração fácil, espontânea, jubilosa nas mentes de nossos contemporâneos” e que homens como São João da Cruz podem se tornar exemplos de oração e de busca mística. Eu sempre tive um chamado para o misticismo, mesmo na infância de um orfanato protestante; havia algo que interiormente me atraía para Deus, para o eterno, para o sagrado. A poesia tornou-se o lugar dessa contínua busca na idade adulta e tem sido meu refúgio na velhice.

Ainda sobre São João da Cruz, acho que um dos mais belos poemas do livro é “Lições de São João da Cruz”, onde o senhor escreveu que “um pós-moderno, último tipo, contemporâneo/não sobe o Carmelo; desce ao profundo inferno”. Achei esses versos de uma sutileza crítica admirável! É um resumo de sua forma de ver o mundo contemporâneo?

Eu creio que é mais do que uma síntese de como o poeta-narrador enxerga o século XXI. É também uma forma de lembrar os preceitos que tanto faltam à formação atual. Visto e lido de hoje, as chamadas “potências da alma” – vontade, disciplina e memória – têm sido muito esquecidas. Harold Bloom diz que uma das formas de se ler (e passar a amar a) poesia é memorizando, só pra falar da atualidade dos ensinamentos do santo-poeta João da Cruz. A citação a Gilberto Mendonça Teles ao final do poema é uma forma de o narrador dizer “a arte de armar o discurso” não é bastante! É preciso mais: só o sagrado nos salva e a prece é o refúgio final.

“O Rio Incontornável” é dedicado a memória de dona Carmelita Gomes Corrêa, a quem chama de sua “sogra-mãe”. Como dona Carmelita passou de sogra a mãe e daí para musa?

É preciso entender a dedicatória não como a uma musa, mas como um preito de gratidão à pessoa que me acolheu. Quando saí do orfanato em Anápolis, para enfrentar “o mundo aqui fora…”, tendo passado no vestibular da UFG de 1973, conheci minha namorada e atual esposa (há 44 anos!). Foi dona Carmem que nos incentivou a ficarmos juntos, que acolheu um jovem “pé-rapado” que não tinha onde cair morto, pra usar a linguagem que alguns aplicavam a este velho escriba. Então, com a perda de nossa matriarca em 2017, decidi dedicar o livro a ela. Isso se reforçou porque eu seguia um conselho do professor Heleno Godoy de “sentar pra escrever um livro” – o que já vinha fazendo desde 2016, quando em fevereiro de 17 recebemos a notícia do primeiro AVC que a acometera.

Voltamos de um período que tiramos, anualmente, na América e acompanhamos longos cinco meses de sofrimento por parte dela até o desenlace em 14 de julho de 2017. Foi uma gestação às avessas, foi uma “cerimônia de adeus” (como dizia a Simone de Beauvoir) e o livro foi sendo concluído ao longo desse tempo. Talvez daí porque “O Rio…” tenha o signo da morte e do purgatório.

O sr. escreveu muitas poesias de amor e mesmo algumas elegantemente eróticas.  O senso comum separa radicalmente catolicismo de erotismo. Isto é mero preconceito?

Sim, isso é um preconceito. As pessoas associam a vida de um católico a um puritanismo que não existe nem historicamente, nem como preceito. Basta referírmo-nos a Santo Afonso de Ligório e sua teologia moral para sabermos que o catolicismo não afasta o corpo e nem reprime os atos conjugais e a imaginação humana nas questões pertinentes ao sensual, que é totalmente diferente do pornográfico, deturpação que, esta sim, pode conduzir ao vício e não à virtude. Veja, por exemplo, a etimologia de “castidade” (e de casto) e vamos descobrir que é alguém “conforme aos ritos”, uma pessoa em busca da realização da plenitude do amor humano, o que inclui a beleza corporal, a admiração do ser amado e as palavras de amor, de resto: a poesia. No poema “Ao Nosso Amor”, há essa evocação do erótico, no sentido do amor que se opõe à morte.

Adalberto durante relançamento de “Frágil Armação”, em 2017, pela Editora Caminhos | Foto: Arquivo pessoal

O poeta Carlos Willian Leite costuma afirmar que sua obra poética é uma das mais consistentes de Goiás, e até do Brasil. Após o livro “Frágil Armação”, de 1985 e relançado em 2017 pela Editora Caminhos, o sr. ficou um longo período sem publicar. Lamenta esse hiato ou, pelo contrário, considera que ele foi importante para maturar sua voz poética, garantindo a consistência de sua obra? 

Costumo dizer que os anos dedicados ao comércio, em que abdiquei de publicar, mas continuei escrevendo foram como aqueles sete anos de pastor de Jacó, no soneto de Camões: “Sete anos de pastor Jacob servia/ Labão, pai de Raquel, serrana bela;/ Mas não servia ao pai, servia a ela,/ E a ela só por prêmio pretendia.” A vida me cobrara constituir família, assumir compromissos, “não fugir no momento da tempestade”, conforme ao que diz Bento XVI. Passado o período de dedicação quase que exclusiva às nossas empresas, tirei um “ano sabático”, fui para os Estados Unidos, estudar a Idade Média, curtir os netos, ler… Então, renasceram “Os Cadernos de Sizenando”, que é um livro que precisa ser consertado, isso dar-se-á na próxima edição, donde aparecerão apenas os poemas e as crônicas, reescritas e revisadas (foi um livro mal revisado!).

Depois, não parei mais – de 2014 para cá, é um livro por ano, além da dedicação semanal à “Destarte”, coluna no Jornal Opção. Fiquei muito satisfeito que pela primeira vez alguém da universidade reconheceu meu trabalho e registrou em livro uma crítica consistente, no livro “Considerações sobre a Poesia Goiana” (2018). Avaliações de leitores como o poeta Carlos Willian e Jamesson Buarque muito me animam, sabendo mesmo que são generosos com este escriba.

Gustavo Corção, em um dos capítulos do livro “A Descoberta do Outro”, narra o que chamou de “história de minha conversão à fé católica”, não sem receio de ter “fabricado uma novela e exibido um certo triunfo intelectual”. O sr. poderia apresentar ao menos a sinopse da novela de sua conversão?

Fui criado num “lar protestante”, porque considerava o Abrigo Evangélico Goiano, orfanato em que fui criado um lar, mas os Queiroz eram católicos desde a origem lusitana. Ao me casar, optei pelo rito evangélico e a noiva católica assim concordou. Com o passar dos anos, fui aprendendo com a catolicidade da Helenir e de dona Carmem (que era católica e espiritualista) que era baseada ambas no exemplo. Depois de uma infância voltada às celebrações do rito protestante, vi-me em meio à Universidade num mar de ateísmo, descrença e cheguei à vida adulta meio descrente, sem nunca ter perdido a fé, o sopro do sagrado no dia-a-dia.

Costumava dizer que os aviões eram minhas catedrais, pois ao voar sempre rezava um Pai-Nosso e uma Ave-Maria. Um empresário responsável pela área comercial, voei o país inteiro em busca e na manutenção dos clientes. Um dia em São Paulo, tive um chamamento à volta ao lar. Entrei numa igreja católica e conversei longamente com um sacerdote – não à guisa de confissão, mas de orientação espiritual. Em seguida, de volta a Goiânia, comecei a frequentar a Paróquia Nossa Senhora Aparecida e Santa Edwiges próxima à minha casa, no Jardim América. Tomei, então, a decisão de buscar a confirmação (crisma), tendo escolhido para madrinha justamente minha “sogra-mãe”, dona Carmem.

Nesse caminho de aprendizado e de leituras, pois foi um processo muito mais da Razão do que de pura emoção, li muito Gustavo Corção (“A descoberta do Outro” eu considero fundamental nesta “novela da conversão”), Chesterton, C. S. Lewis (que era anglicano!) e São Bernardo. Todos foram importantes para minha reconversão, mas acima de todos o meu vigário na paróquia, padre Rubens, que pacientemente me conduziu para o conhecimento e a prática de uma vida espiritual mais devota. Em todo esse percurso, dois amigos sempre me acompanharam de perto: meu compadre Francisco Sena e o amigo de longa data César Miranda. A todos eles, sou muito grato.

Um de meus livros preferidos de G. K. Chesterton é “Hereges”, onde ele analisa com seu humor peculiar alguns de autores seus contemporâneos, incluindo amigos queridos, procurando mostrar o que há de errado em seus pensamentos, e de que forma uma aproximação com a religião poderia suprir essas lacunas. Entram no baile nomes como Bernard Shaw, H. G. Wells e Kipling. Quem seriam os seus hereges?

Euler Fagundes de França Belém, Mário Zeidler Filho e o sr. entrevistador. Há outros dois de um passado recente que não posso esquecer: o sr. Milton Ribeiro (RS) e Nelson Moraes.

Fico honrado de constar na lista dos hereges! Como bem sabe, embora seja um “ateu maldito”, tenho profundo respeito pelo sentimento religioso em geral e pelo catolicismo em particular. Mas voltando à entrevista, a moda contemporânea é ser pacifista, naturalista, ecologista e outros “istas”. No livro “O Peso da Glória”, o escritor e acadêmico inglês C. S. Lewis mostra porque o católico não deve ser necessariamente pacifista. O sr. concorda com Lewis? Falta senso de combate ao catolicismo atual?

Sim. A história da inteligência católica do Brasil, quando esta ainda era combativa, mostra-nos o fiasco em que nos tornamos. Há uns poucos que ainda combatem o bom combate, mas são poucos e parece mesmo que estamos “jogando a toalha” na disputa com o príncipe das trevas. Quando penso numa inteligência que reunia em torno da revista “A Ordem” intelectuais da estatura de Jackson de Figueiredo, Alceu Amoroso Lima e Gustavo Corção, fico triste com o cenário atual, onde parece termos vergonha de fazer a defesa da fé cristã!

Considero Bento XVI um grande papa. Acho inclusive que sua abdicação foi um ato de extrema humildade. Contudo, de modo geral, o papa emérito é malvisto pela imprensa, muitas vezes sendo retratado como um “papa nazista”, um inquisidor arrogante, um perseguidor de minorias e outras bobagens. O que motiva essa visão tão negativa? 

Curiosamente, tenho um post antigo em que escrevi exatamente isso: a renúncia de Bento XVI foi um ato de expressão de humildade, mas a imprensa parece ter um conluio com “o príncipe deste mundo”. E o demônio é bem arrogante. Surgem muitos entendidos na Igreja, sua história e seus ritos quando o assunto é a ação papal. As campanhas midiáticas, os complôs e os ataques dos círculos anticatólicos são realidade notável no século passado e neste. E há interesses financeiros em torno desses ataques também, porque, afinal a Igreja é também parte de uma máquina de Estado e lida com aspectos monetários, como no caso do Banco do Vaticano.

O papa Bento XVI em seu “Último Testamento” esclarece muito bem este tipo de ataques orquestrados e, às vezes, o ataque por dentro da Igreja, relembrando-nos daquilo que Jacques Maritain dizia ser a ação “do pessoal da Igreja” que é totalmente diferente da “Pessoa da Igreja”, santa e pecadora – a noiva de Cristo. Aos que desejarem saber mais sobre como é criada (e mantida) essa “visão negativa” sobre o papa emérito e como ele reagiu de forma soberana e humilde, recomendo a leitura do livro citado que é uma longa conversa com o jornalista alemão Peter Seewald.

“Pessoas boas e ruins se misturam no Vaticano” – diz o papa emérito e destaca “que em um organismo com muitos milhares de pessoas é impossível que haja apenas os bons. É preciso admitir esse lado, com toda a tristeza que acarreta, mas não se pode ignorar o outro. Fico emocionado com tantas pessoas que encontro aqui [na Igreja Católica] que querem fazer algo e estão lá realmente de coração para servir a Deus, à Igreja e às pessoas. Quantas pessoas realmente boas, puras eu encontrei aqui! Isso para mim compensa o outro lado, e eu digo: esse é o mundo! Sabemos disso pelo Senhor: os peixes ruins também vêm na rede” (“O Último Testamento”, Bento XVI / Peter Seewald, Ed. Planeta, 2ª. Ed., 2017, pág. 267).

Diferentemente de Bento XVI, Francisco é um queridinho da mídia. Um papa pop, como se diz. Qual será a marca do pontificado de Francisco?

Não sei responder sobre a marca do pontificado de Francisco. Costumo repetir um amigo muito focado que diz “o problema do Papa é na sua essência um problema de Deus” e não cabe a mim, como fiel, senão a obediência ao papa. No limite, posso rezar para que o pontificado dele não seja de demérito para a história da Igreja no século XXI. Um homem como São Bernardo e uma mulher como Santa Hildegard de Bingen podiam (e o faziam) chamar a atenção dos papas, debater suas atitudes, cobrar-lhes coerência com a tradição, mas isso não é para o baixo clero em que se situa um fiel indisciplinado como eu.

“O Rio Incontornável”: obra onde o mundo contemporâneo é visto e metido pela régua da milenar tradição poética católica | Foto: Reprodução/Mondrogo

Leia o poema “Nascentes (II) – Goyaz”, de Adalberto de Queiroz:

Nascentes (II) – Goyaz

No outono da vida o sol do cerrado
seca as mesmas sementes — sol a pino;
sementes de abóbora comidas assadas,
coisas de antanho com igual desatino.

Cajá-manga devorado com sal, à sexta hora
o gosto arcaico na boca desata o sonho —
feito pamonhas ao leite ou tortas de amora,
só o torniquete do acerbo deixa tristonho

Minha avó comendo manga com faca
nas tardes de outrora, espectro se evade:
uma sombra morna no sonho somos.

Lembrança similar aperta de mansinho
a segunda costela à sinistra do sono;
— Esquecer, dormir, sonhar quem há de?

2 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
1 Comment authors

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Cesar Miranda

Belíssima entrevista, de meu grande amigo e poeta. Fiquei muito honrado com a citação do meu nome, embora imerecida.

Cesar Miranda

Belíssima entrevista de meu grande amigo e grande poeta. Fiquei muito honrado com a citação do meu nome, embora imerecida.