Nota sobre o livro “As emas do general Stroessner e outras peças”

Na terceira peça, é proposto um ritual em que o pastor ou guia, possivelmente um robô, inicia os fiéis num novo tipo de atividade espiritual que consiste em levar a antropofagia ao seu ponto extremo

Sérgio Medeiros, escritor e ensaísta

Sérgio Medeiros
Especial para o Jornal Opção

Meu novo livro reúne três peças breves que satirizam o autoritarismo reinante no Brasil “profundo”.

Na primeira delas, “As emas do general Stroessner”, eu falo de dois generais, Médici e Stroessner, que se encontram no meio da “ponte da amizade”, recém-construída entre o Brasil e o Paraguai, a qual eles não podem inaugurar, pois são atacados por emas nada amistosas. É a revolta dos animais contra os ridículos tiranos que brilham ao sol com suas condecorações militares inúteis (não são heróis, são palhaços).

Na segunda, “A revolução dos munícipes e das plantas”, exploro comicamente as mazelas da política populista que prefere manter tudo sempre no mesmo lugar; as plantas carnívoras então caem sobre os “salvadores da pátria” e seus estúpidos eleitores, não poupando ninguém.

Finalmente, na terceira peça, “Atividades espirituais na nova igreja do Brasil”, proponho um ritual em que o pastor ou guia, possivelmente um robô, inicia os fiéis num novo tipo de atividade espiritual que consiste em levar a antropofagia ao seu ponto extremo: ninguém se salva, pois todos serão devorados no fim por sua própria alma canibal.
Desta última pe­ça ofereço agora um fragmento aos leitores do jornal.

 

PERSONAGEM
Pastor
Descrição do personagem
Um grande homem cinza: os cabelos são cinza, a roupa é cinza, os sapatos são cinza…
Como num quadro de Fernand Léger, jatos de luz colorida varrem o interior asséptico de um grande templo numa das metrópoles brasileiras, provavelmente São Paulo.
Em pé no fundo de um templo imenso, o pastor cinza é banhado por grandes feixes de luz colorida, que vão se sucedendo uns aos outros e às vezes também se sobrepõem mo­mentaneamente; depois ele avança vagarosamente na direção da comunidade de fiéis.

***

PASTOR: (falando para a comunidade de fiéis) Palavras podem ser difíceis de pronunciar…
[Pausa]
Por favor, imaginem que vocês têm dentro de vocês uma palavra prestes a sair da boca… mas que ficou presa na sua boca… na sua garganta…
[Pausa]
Primeiro, imaginem um objeto, uma massa… qualquer coisa…
[Pausa]
Agora imaginem uma palavra…
Não posso dizer qual…
Dizer essa palavra é a tarefa de vocês…
Uma palavra… qualquer…
Ela sobe talvez como uma bola de pingue-pongue… e não sai…
Não chega à boca…
Fica entalada na garganta…
[Pausa]
Ou fica flutuando…
Parece agora presa numa teia de aranha… vibrando levemente…
[Pausa]
Sentiram isso?
Não sentiram?
[Pausa]
Se não sentiram… balancem negativamente… sua cabeça interior…
A cabeça interior…
Não quero ver ninguém balançando a outra cabeça… a visível…
[Pausa]
Não a cabeça real… visível…
Por isso até convém vocês ficarem na penumbra… no escuro…
Só eu ficarei na luz…
Mas talvez não seja necessário…
Basta vocês não balançarem a cabeça visível… real…
Só a cabeça interior…
[Pausa]
Se vocês conseguiram fazer isso… balancem agora positivamente a cabeça…
Positivamente… a cabeça interior…
Só para vocês mesmos…
[Pausa]
Espero que vocês estejam concentrados…
Espero que todos prestem muita atenção nos meus comandos…
E obedeçam… balançando positivamente… a cabeça interior…
[Pausa]
Pois pedi que sentissem a palavra presa na teia de aranha… vibrando suavemente…
[Pausa]
Observem o que vocês fazem… observem mais…
Isso é digno de interesse para vocês mesmos…
[Pausa]
Isto é um culto introspectivo…
Repleto de palavras não ditas em voz alta…
Mas encenadas interiormente…
Isto é um teatro introspectivo…
Culto interior…
Culto oculto…
Pois tudo se passa dentro de vocês…
Eu não ouço nada…
Não vejo nada…
[Pausa]
Agora que vocês já treinaram… já treinaram bem…
Agora vamos então começar de verdade…
Digam para si mesmos a palavra… fogo…
Um fogo quieto… interior…
Imaginem que a palavra fogo… começou a pegar fogo… na boca…
A chama queima… queima…
E não sobrará nada… além de… cinzas…
Eu sou a cinza… se estiverem olhando para mim… verão isso…
Eu… o monte de cinzas…
Mas seria bom manterem os olhos fechados…
Sobraram cinzas úmidas…
A boca novamente úmida…
Morna por natureza…
[Pausa]
Por falar em umidade… digam para si mesmos a palavra água…
E imaginem que a água lhes encheu a boca…
[Pausa]
Uma água… doce…
[Pausa]
Se era fria… a­go­ra ela se tornou mor­na…
[Pausa]
Ela veio de fora… e não desceu…
Ficou na boca… e rapidamente evaporou…
[Pausa]
Sangue…
Digam interiormente sangue…
E o sangue lhes encheu a boca…
Morno… denso…
De onde veio?
[Pausa]
Imaginem-no bem vermelho… envolvendo a língua… que está intacta…
[Pausa]
Pensem na palavra mão…
Ou melhor… pensem num punho… numa mão fechada…
Erguendo-se solene como um cogumelo… digamos… na ponta da língua…
Inclina-se… a mão inclina-se…
Parece desejar dar um soco nos dentes cerrados…
A mão fechada… é uma frase… interiormente visível
[Pausa]
E a frase não se abre…
Nem abre a boca com um soco…
Não arrebenta os dentes…
Então por que o sangue?…
[Pausa]
Pensem na palavra mão…
Uma mão aberta…
Que perdeu a força… e a fúria…
Uma mão sem ímpeto…
[Pausa]
Ela pousou serena na língua… que antes… como pedi… era uma língua que… imergiu em sangue… numa boca cheia de sangue…
Os dedos retos… abertos…
A mão escorre para trás… sem arranhar a língua úmida de saliva e sangue…
[Pausa]
A mão escorre rapidamente para dentro do corpo… e some…
Restam agora apenas fios de cabelo… na garganta…
Não pelos do braço… mas fios de cabelo… longos ou curtos…
Quero dizer que devem imaginar a palavra cabelo…
Ou fios de cabelo…
[Pausa]
Quem precisar fechar os olhos… que feche…
Se é que alguém ainda os mantém abertos…
Não olhem para mim…
Nada mais sou do que um… digamos… robô humanoide… renascido das cinzas…
[Pausa]
Mas não pedi que imaginassem a palavra olho…
Pedi que imaginassem a palavra fio…
Quem imaginou olho por engano… agora imagine cílios…
Depois pelos…
Depois cabelos…
[Pausa]
Um fio de cabelo apenas…
[Pausa]
Um fio de cabelo solto… que sobrou na garganta…
[Pausa]
Pois o resto da cabeça já desceu…
Foi engolida como uma bola de futebol…
Foi marcado… digamos… um pouco grosseiramente… um gol…
Alguém… cada um de nós… marcou um golaço…
Cada um de vocês marcou um gol…
Vocês marcaram um… contra vocês mesmos…
[Pausa]
Sabem o que isso significa?…
[Pausa]
Alguém aqui talvez ache que esse fio de cabelo na garganta…
Esse fiozinho… seja de outra pessoa…
Da pessoa que está ou estava ao lado… ou atrás… ou na frente…
De um vizinho que não seja… careca…
[Pausa]
Como se vocês fossem todos… antropófagos… e comessem o próximo…
[Pausa]
Não… não é nada disso…
Ou não é… nem isso…
[Pausa]
Aquela mão na sua língua era a sua própria mão… não era a mão do próximo…
E esse fio de cabelo na sua garganta é um fio de cabelo da sua cabeça…
Então esqueçam os vizinhos…
Fixem só nesse fio de cabelo interior…
[Pausa]
Cada um de vocês tem um fio na garganta…
Pode ser um fio claro ou escuro…
Um fio de cabelo liso ou crespo…
[Pausa]
Isso… a cor… o tipo… não sou eu que decido…
[Pausa]
Deve ter alguém careca aqui?…
[Pausa]
Estou seguro de que lhe deram uma peruca quando entrou…
Então imagine um fio de sua peruca… mesmo que não a esteja usando agora…
[Pausa]
Cada um de vocês engoliu… saibam… cada um aqui engoliu a si mesmo…
Cada um de vocês é feito… de fogo… de água… de sangue… de dedos… de fios de cabelo…
Não são robôs humanoides… cheios de… de…
Eu provei isso para vocês mesmos…
Sim… provei bem provado…
Vocês são humanos… e por isso… engoliram a si mesmos…
Vocês se consumiram…
Autocanibalismo… é isso!…
[Pausa]
Imaginem agora a sua boca vazia…
Depois de tudo… vazia…
[Pausa]
Imaginem a sua garganta limpa… sem fios de cabelo…
Sem um mísero fio de cabelo…
[Pausa]
Não insistirei mais nesse fiozinho…
Ele já desceu…
Foi engolido também…
[Pausa]
Vocês são só… uma… boca fechada…
Mantenham-na fechada…por favor…
Imaginem seus lábios… interiores…
[Pausa]
Boca interior fechada…
Essa é a frase…
[Pausa]
Bem… então só existem bocas no mundo…
Nada mais… além de suas bocas fechadas…
[…]
(Afasta-se com passos vacilantes; tropeça duas ou três vezes nos feixes de luz colorida que varrem o chão diante dele. Sai.)

Sérgio Medeiros é poeta, dramaturgo e ensaísta.

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ADALBERTO DE QUEIROZ

Bravo!