Carlos Augusto Silva

Especial para o Jornal Opção

Imagine-se em uma noite especial com quem ama. Antes de se recolherem, uma música, em uma festa, toca. Um dos dois, depois da canção, fecha o semblante, ganha ar telúrico. Em meio a beijos e desejos prontos a serem saciados, o que viu o efeito da música indaga a respeito da virada no estado de humor. Sem culpa, a outra parte diz: “Aquela música me fez lembrar alguém”. Algo se quebra. A curiosidade cega a outra parte. “Lembrou-se de quem?” Sem culpa, de um lado; cego de insegurança, do outro lado.

Este o duelo verbal é ágil e sui generis. “A música me lembra uma pessoa de quem eu muito gostava.” O outro diz, irônico: “Deve estar com saudades. Quer vê-lo?” Outra resposta sem culpa: “Não entendi”. “Ora, deve estar com saudades. Quem sabe não o revê?” Frágil, a parte que tem saudade revela: “Ele está morto”.

O pavor de sentir ciúmes de alguém com quem não pode competir assola o inseguro. Mas ele quer saber mais: “E morreu de que?” A resposta o sepulta e o ensina que o ciúme não vale a pena, tornando o vivo, morto, e o morto, vivo: “Ele morreu por mim.”

O lugar no passado que esse jovem ocupa jamais será ocupado. A morte precoce privou aquele que é rememorado até da velhice: para sempre jovem na memória. Em Joyce, não adianta vasculhar o passado do outro, pois a ausência é a mais elevada forma de presença.

Este conto encerra o livro “Dublinenses”, seu único volume de contos, e de quebra consegue ser, para muitos críticos, o melhor conto de toda a literatura.

Para um conto, é extenso, quase uma novela. Cerca de cinquenta páginas, nas quais o ambiente propõe um sofrimento do qual se prova gota a gota.

Joyce era apaixonado por sua mulher, Nora Barnacle, a Molly Bloom do romance que reinventou o romance. A ela dedicou “Ulysses”, fazendo com que a ação se passe no dia em que se conheceram, 16/6/1904.

Molly tinha, em sua lembrança, a figura de um amor perdido, do qual jamais se esquecera. Ela dizia, sem embargo, que Joyce e ele se pareciam fisicamente.

Joyce foi atormentado por essa figura, como o personagem Gabriel, no conto “Os mortos”, passa a ser, é “assassinado” por Michael, o jovem relembrado. Gretta, dona do tempo, entre o passado e o presente, tem os dois na cama.

Carlos Augusto Silva, crítico literário, é colaborador do Jornal Opção.