Neil Thomson, o homem à frente da Filarmônica de Goiás

Maestro britânico completará, em março de 2019, cinco anos como Regente Titular e Diretor Artístico da Orquestra. Conheça mais um pouco de sua história e carreira

Neil Thomson, na regência de um de seus inúmeros concertos: “Já perdi as contas”. Foto: Rafaella Pessoa

Já fazem quase cinco anos que o público goianiense que acompanha as exibições da Orquestra Filarmônica está acostumado à sua presença, sempre à frente do corpo orquestral. No entanto, muitos sequer sabem seu nome. Outros tantos podem até saber, mas sequer tem noção de que este simpático inglês já rodou praticamente o mundo todo antes de vir parar em pleno cerrado. Que ele já se apresentou diante das mais exigentes plateias do mundo e até mesmo um sultão já fez parte de sua audiência.

Assim tem sido a trajetória de Neil Thomson, o maestro com uma carreira de feitos incalculáveis – literalmente. “Não tenho ideia de quantos concertos eu realizei”, diz o regente, que, só em território britânico, já esteve à frente da Orquestra Sinfônica de Londres, a Orquestra Filarmônica de Londres, a Orquestra Filarmônica Real, a Orquestra Filarmônica, a Orquestra Filarmônica Real de Liverpool, a Orquestra Nacional Real da Escócia, a Hallé, a Orquestra Sinfônica da BBC, a Orquestra de Ulster e a Orquestra da Ópera Nacional de Gales. Quem diria que esse seria o destino daquele jovem de 14 anos que, em sua primeira ‘atuação’, deixou a orquestra simplesmente fora de controle!

Pelo mundo, a lista também é ampla. Recentes estreias incluem concertos com a Orquestra Sinfônica Yomiuri Nippon, Filarmônica de Tóquio, Orquestra do Século Osaka, Filarmônica de Kansai, Cork, Orquestra de Concerto, Lahti Sinfonia, Orquestra Nacional Romena, Britten Sinfonia, Orquestra do Ulster, Orquestra de Concerto RTE, Orquestra da Ópera de Gotemburgo, Orquestra Sinfônica de Aarhus, Orquestra da Ópera do Norte, Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, Orquestra Sinfônica Brasileira, Orquestra Filarmônica de Minas Gerais e Orquestra Filarmônica de Buenos Aires.

Thomson nasceu em Londres em 1966. A música surgiu em sua vida logo aos 7 anos, mas sua formação acadêmica se deu com os estudos de violino e viola na Royal Academy of Music (1984-87) e regência com Norman Del Mar no Royal College of Music (1987-89). Na sequência veio o curso de regência na escola de verão de Tanglewood em 1989, estudando com ícones como Gustav Meier, Seiji Ozawa, Kurt Sanderling e Leonard Bernstein. De 1992 a 2006, atuou como chefe de regência no Royal College of Music, onde tornou-se o maestro mais jovem a ocupar este cargo (a primeira pessoa a ocupar este cargo foi Sir Adrian Boult, em 1919). Foi nomeado membro honorário do RCM, em 1994, pelos serviços prestados à instituição.

Todos esses fatores só contribuíram para a construção de uma reputação invejável como instrutor orquestral, fazendo de Thomson uma referência na Europa. Naturalmente, passou a ser convidado para lecionar nas mais respeitadas instituições e a compor o júri de importantes festivais de música erudita, como o Festival de Campos do Jordão, Workshop de Regência de Los Angeles, a Maazel Conducting Competition e o Concurso de Regência Internacional Eduardo Mata na Cidade do México.

Além de seus trabalhos sinfônicos, Neil também trabalha com projetos de filmes. Em 2013, ele estreou a partitura reconstruída de “Singin’ in the Rain” no Royal Albert Hall em Londres. Outras performances de “live-movie” incluem “Psycho”, “Vertigo”, “Casablanca”, “O Mágico de Oz”, “Fantasia”, “Amadeus” e “Titanic”. Recentemente Neil regeu o espetáculo “Gene Kelly: A Life in Music” com a Royal Scottish National Orchestra, um projeto desenvolvido pela viúva de Gene Kelly, Patricia Kelly, para preservar a herança musical do artista.

Thomson já regeu concertos com consagrados solistas, incluindo Sir James Galway, Dame Moura Lympany, Sir Thomas Allen, Dame Felicity Lott, Philip Langridge, Sarah Chang, Antonio Meneses, Nelson Freire, Alice Zawadzki, Steven Isserlis, Julian Lloyd Webber, David Geringas, Natalie Clein, Gyorgy Pauk, Brett Dean, Jean-Philippe Collard, Stephen Hough, Peter Jablonski, Jean-Louis Steuerman, Dama Evelyn Glennie e Sir Richard Rodney Bennett.

Desde março de 2014, Neil Thomson é o Regente Titular e Diretor Artístico da Orquestra Filarmônica de Goiás. A orquestra, que já gozava de muito prestígio, teve em Neil um verdadeiro divisor de águas. Suas performances dinâmicas e o amplo repertório (com ênfase especial na música brasileira e contemporânea) fizeram com que a Filarmônica alcançasse o posto da terceira orquestra mais importante do Brasil. Atualmente, Neil está envolvido em um projeto para gravar as 14 sinfonias de Claudio Santoro para Naxos com a Filarmônica de Goiás.

Com o fim da temporada 2018 da orquestra neste último sábado (15/12), Neil partiu para a Europa, mas nada de férias. O maestro já tem apresentações marcadas na Rússia e Irlanda, e depois segue para a Coreia do Sul. Antes, ele concedeu uma entrevista exclusiva ao Jornal Opção, na qual falou um pouco mais sobre a prodigiosa carreira, música erudita e revelou curiosidades interessantes, daquelas que só um músico de grande prestígio consegue vivenciar. Confira:

Thomson: no currículo, apresentações pelo mundo todo, presença em juri de importantes festivais e parcerias com consagrados solistas. Foto: Rafaella Pessoa

Qual a primeira lembrança do senhor em relação à música? Há influência de algum familiar? Ou de algum artista? Como a música surgiu na vida do senhor?

Minha primeira memória musical foi ouvir Frank Sinatra no LP, quando eu tinha 4 anos. Meus pais não eram músicos, mas amavam a música (popular e clássica) e eu cresci rodeado de música.

Como foi sua formação musical? 

Comecei aprendendo violino aos 7 anos de idade. Toquei em muitas orquestras de jovens e várias orquestras profissionais quando adolescente. Aos 18 anos, fui para a Royal Academy of Music, em Londres, para estudar violino e viola. Sempre quis ser maestro, desde os 11 ou 12 anos. Aos 14, organizei um concerto em uma igreja local e reuni uma orquestra de amigos da escola e amadores locais. Claro que eu não fazia ideia do que estava fazendo! Não tinha controle sobre os músicos e me lembro do último movimento da Sinfonia n.41, de Mozart, ficando cada vez mais rápida e mais rápida e não havia nada que eu pudesse fazer sobre isso! Eu saí do palco e disse à minha mãe que nunca mais queria reger novamente, mas ainda estou fazendo isso 40 anos depois…Assim que terminei meus estudos na Royal Academy of Music, mudei para o Royal College of Music, onde fiz meus estudos de pós-graduação com o grande regente britânico Norman Del Mar, que tem sido uma influência duradoura em mim. Depois disso, terminei meus estudos frequentando a Tanglewood Summer School, nos Estados Unidos, onde tive a extraordinária experiência de estudar com o grande Leonard Bernstein. Uma experiência que nunca esquecerei.

Qual é a sua maior inspiração como músico?

Eu tenho muitos “heróis” musicais. Os grandes regentes do passado, como Furtwangler, Barbirolli, Bernstein e Karajan. Mas hoje existem duas pessoas que são uma constante fonte de inspiração: Bernard Haitink e Sir Simon Rattle. Haitink tem quase 90 anos e para mim é o maior maestro vivo. Sua produção musical é simplesmente linda. Rattle foi uma inspiração para mim na construção do projeto da Filarmônica de Goiás. Eu o vi transformar a Orquestra Sinfônica da Cidade de Birmingham de uma orquestra provincial em um conjunto de classe mundial. Sua abordagem foi extremamente dinâmica e moderna. E sempre cheio de energia. Ele é um ótimo modelo para mim, tanto como músico quanto como pessoa.

Como foi o convite para vir para Goiás?

Eu estava ensinando uma masterclass no Royal College of Music, em 2005, e Eliseu Ferreira de Goiânia era um dos alunos. Mantivemos contato e, com o tempo, ele me convidou para vir e reger aqui.

Quem o senhor destaca no cenário erudito local ou brasileiro (compositor, maestro, músico…)?

A pessoa que mais admiro na cena musical local é o maestro Eliseu Ferreira. Ele fez o mais surpreendente trabalho de construção de música clássica em Goiás. A Filarmônica de Goiás, a Orquestra Sinfônica Jovem de Goiás e agora sua incrível rede de orquestras de jovens. E o que mais admiro em Eliseu é que ele trabalha sem interesse próprio; ele só se importa com o resultado musical do projeto. Esta é uma qualidade humana muito rara e especialmente entre os regentes! Alguns dos meus colegas poderiam aprender com ele. Há muita boa música brasileira contemporânea que apresentamos na Filarmônica de Goiás. Recentemente, performamos obras de Edino Krieger, Ronaldo Miranda e João Guillherme Ripper. Estou sempre procurando obras da geração mais jovem. No ano que vem, vou estrear uma grande peça de Felipe Lara em São Paulo com a OSESP.

O que você acha do público goiano?

Eu amo o público goiano! Provavelmente o público mais receptivo e de mente aberta que eu já vi!

Fale sobre o projeto “Música Impopular”. Como foi a recepção do público ao diferente, uma vez que, em Goiânia especialmente, os concertos têm trazido repertório mais populares, com trilhas sonoras e clássicos de musicais, por exemplo?

Foi o maestro e professor Marshal Gaioso que criou este título (não posso receber nenhum crédito por isso!) e realmente capturou a imaginação do público. Minha ideia era tocar músicas desconhecidas, às vezes extremamente “difíceis”, em locais interessantes. Foi realmente um grande sucesso com o público e é certamente algo que vou continuar.

Qual a diferença entre trabalhar com música erudita na Europa e no Brasil? Sentiu alguma diferença?

Não vejo absolutamente nenhuma diferença em trabalhar aqui ou na Europa. Os músicos da Filarmônica de Goiás são um grupo extremamente motivado e disciplinado. Nós sempre começamos os ensaios no tempo e a atmosfera é sempre silenciosa e concentrada. Na verdade, isso é algo que eu sinto falta com algumas orquestras europeias.

Você tem alguma ideia de quantos concertos você regeu? ” Você ainda fica empolgado?

Não tenho ideia de quantos concertos eu realizei! Mas muitos nos últimos 40 anos, isso é certo. Eu ainda amo reger! Nem todo concerto será como você gostaria, mas, às vezes, algo realmente especial acontece. As estrelas se alinham e tudo flui. Este é o maior sentimento que se tem como regente.

“Eu amo o público goiano! Provavelmente o público mais receptivo e de mente aberta” – Neil Thomson

Já passou por algum episódio curioso / engraçado / emocionante?

A coisa mais estranha que já fiz foi o Concerto de Ano Novo para o Sultão de Omã (país de monarquia árabe na costa sudeste da Península Arábica), em seu palácio, no qual ele construiu uma bela sala de concertos. A orquestra tem que esperar toda a noite até ele e seus convidados terem terminado o jantar. O protocolo é muito rigoroso. Diferente de quando você está regendo, você não pode virar as costas para o Sultão e tem que esperar por sua permissão para iniciar cada peça. Você não deve se curvar de uma maneira que possa ser confundida com a reverência que é usada nos serviços religiosos nas mesquitas (o que seria considerado ofensivo). Você também não pode usar um pódio para ficar de pé, pois ninguém pode ser maior do que o Sultão! E o público consistia de cerca de 15 pessoas, incluindo o rei e a rainha da Espanha, o rei e a rainha da Suécia, alguns britânicos e alguns dos antigos amigos do exército britânico do sultão, que o ajudaram a derrubar seu pai em 1973! Uma noite para lembrar. Nós terminamos de nos apresentarmos às 2 da manhã!

Quais são seus projetos atuais e futuros?

Estarei em Moscou em dezembro, depois em Dublin para o concerto do Ano Novo e depois direto para a Coreia do Sul para dois concertos em Seul. A Filarmônica de Goiás está envolvida em um grande projeto de gravação com a Naxos e gravará 13 CDs nos próximos anos. É um projeto patrocinado pelo Itamaraty e tem como objetivo divulgar a música orquestral brasileira em todo o mundo. Três orquestras foram escolhidas para fazer parte disso; a Filarmônica de Goiás, a Filarmônica de Minas Gerais e a Orquestra Sinfônica de São Paulo. Este é o projeto mais importante da história da música orquestral brasileira e é uma enorme honra para participarmos. Tocamos no concerto de lançamento em Brasília em novembro e a orquestra foi premiada com a Ordem do Rio Branco pelo ministro do Exterior. O fato da Filarmônica ser agora reconhecida como uma das três orquestras mais importantes do país é motivo de grande satisfação para mim e ser homenageado publicamente dessa forma é uma grande homenagem aos músicos e a todos que estiveram envolvidos no projeto.

Você ouve outros estilos musicais? “Quais são as suas preferências fora da música clássica?

Eu ouço muita música diferente. World/Folk Music realmente me fascina, assim como muito rock e jazz experimental. Da música pop contemporânea, eu amo Radiohead. No momento estou revisitando a música da minha juventude e ouvindo bandas como The Jam, The Clash e os grandes grupos synth-pop dos anos 80, como The Pet Shop Boys e Tears for Fears. Todo dia eu tento ouvir uma nova peça. Você nunca pode achar que conhece muita música!

Que conselho você daria para jovens que estão começando ou querem entrar no mundo da música clássica?

Esteja preparado para trabalhar muito. Nunca pare de ouvir música. Leia o máximo possível. Seja “do bem”.

Nas “horas vagas”, maestro ouve rock e jazz. Está revisitando a música da juventude, ouvindo The Clash e Pet Shop Boys. Foto: Rafaella Pessoa

 

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