Nazistas abriram concorrência pública para a construção das câmaras de gás e crematórios

O genocídio organizado por Hitler e Himmler era uma política do Estado alemão e empresas viram os assassinatos como meros negócios

Carlos Russo Jr.

As câmaras de gás não foram o primeiro método de extermínio em massa usado pela Alemanha. Até 1941, oficiais da Polícia Militar de Hitler (as S.S.) eliminavam pequenos grupos de prisioneiros em caminhões de transporte, trancando-os em caçambas fechadas que recebiam o monóxido de carbono do escapamento.

Sobreviventes de um dos mais letais campos de extermínio dos nazistas da Alemanha, Auschwitz, localizado na Polônia | Foto: Reprodução

A técnica do caminhão foi adaptada para salas trancadas, câmaras, e logo a fumaça foi trocada por um pesticida, mais barato e eficiente. O pesticida era o Zyklon B, produzido sob encomenda pela Bayer, e a primeira aplicação em humanos deu-se em agosto de 1941.

Logo as câmaras de gás aumentaram enormemente a produtividade da aniquilação de homens, mulheres e crianças. Somente em Auschwitz, as câmaras de gás produziam 800 cadáveres por dia. Covas comuns não suportariam tal volume. Logo, os crematórios tornavam-se absolutamente necessários.

No livro “Anatomia do Genocídio — Uma Psicologia da Agressão Humana” (Rosa dos Tempos, 544 páginas, tradução de Ruy Jungman), de Israel W. Charny publica o resultado de uma pesquisa nos arquivos nazistas, realizada por Harry Shapiro: “Os nazistas abriram concorrência pública para construção das câmaras de gás”.

Heinrich Himmler e Adolf Hitler, dois líderes nazistas da Alemanha: os principais arquitetos da Solução Final, o Holocausto | Foto: Reprodução

Chegaram até nós, diz Shapiro, os orçamentos de três empresas, todas elas contratadas pelo III Reich para o holocausto nazista:

1

Tpos e Filhos, de Erfurt, fabricantes de equipamentos de aquecimento. “Acusamos o recebimento de sua encomenda de cinco fornos triplos, incluindo dois elevadores elétricos para retirar os cadáveres e um elevador de emergência…”.

2

Vidier Works, de Berlim: “Para introduzir os corpos nos fornos, sugerimos simplesmente um garfo de metal movendo-se sobre cilindros…”.

3

C.H. Kori, de Munique: “Garantimos a eficácia dos fornos de cremação, bem como sua durabilidade, o emprego dos melhores materiais e nossa perícia impecável”.

Após a instalação dos crematórios, o limite imposto por Adolf Hitler e pelos líderes nazistas foi a “Solução Final”, ou seja, a total eliminação do povo judaico, um genocídio que fez 6 milhões de vítimas.

A palavra genocídio foi cunhada em 1930 pelo jurista Raphael Lemkin, judeu polonês, que requereu à Liga das Nações, antecessora da ONU, que proclamasse uma lei contra o assassinato em massa de grupos raciais ou nacionais escolhidos para serem aniquilados.

Embora como palavra tenha uma origem de menos de um século, genocídio é um tema do presente, do passado e do futuro. É o tema que revela a natureza real de nossa espécie, capaz do trabalho mais vil que possa sair de mãos humanas: matar outros seres indefesos.

Nos últimos 100 anos nós, seres humanos, massacramos mais de 150 milhões de membros de nossa própria espécie. Diz Ronald Laing que “todos nós vivemos sob a ameaça de total aniquilação por nossos próprios atos. Aparentemente precisamos tanto de morte e destruição, quanto de vida e felicidade. Somos tão impelidos a matar e a ser mortos como o somos a viver e a deixar que outros vivam”.

Se, como escreveu André Malraux, a morte transforma certas vítimas em destino, é espantoso para a imaginação solidária e moral em todas as sociedades que haja incontáveis indivíduos prontos para cometer o mal intolerável: torturar e matar outros seres humanos.

Mas a lembrança do sofrimento pode se transformar em uma salvaguarda contra o sofrimento. Com essa intenção, Elie Wiesel nos ensina: “Auschwitz é o ponto zero da história, o começo e o fim de tudo o que existe. É a referência final e em relação a ele tudo será julgado. Porque vimos o triunfo das trevas, temos que falar sobre o sofrimento e a resistência de suas vítimas. Porque vimos o mal em ação, temos que denunciá-lo. Temos de combatê-lo sem dar um minuto de trégua para salvar o mundo do contágio”.

O que quer que transforme pessoas em destruidores monstruosos existe, de alguma maneira, potencialmente em todos nós. As sementes da cura, também.

O “caso Eichmann”

Otto Adolf Eichmann foi um tenente-coronel da Polícia Militar da Alemanha Nazista, e um dos principais organizadores do Holocausto. Gerenciou a logística das deportações em massa dos judeus para os guetos e campos de extermínio das zonas ocupadas pelos alemães. Em 1960, foi capturado na Argentina pela Mossad, o serviço secreto de Israel. Uma vez em Israel, foi submetido um longo julgamento por crimes de guerra, crimes contra a humanidade e contra o povo judeu, tendo sido condenado à morte.

Adolf Eichmann: julgamento em Jerusalém | Foto: Reprodução

Hannah Arendt, acompanhou todo o processo, entrevistou diversas vezes o prisioneiro em reportagens para a revista “The New Yorker”. Em seu livro “Eichmann em Jerusalém —Um Relato Sobre a Banalidade do Mal” (Companhia das Letras, 344 páginas, tradução de José Rubens Siqueira) descreveu Eichmann como representante da “banalidade do mal”.

De todos os modos, o caso deste comandante nazista constituiu um dos estudos mais abrangentes sobre a personalidade de um genocida. Vejamos suas mais importantes conclusões:

1 — Eichmann carecia inteiramente do senso de ser.

2 — Ele ficava perturbado com temas emocionais de agressão.

3 — O que lhe importava era reduzir toda a vida à ordem, ao não movimento, à não emoção, de modo a que toda a vida pudesse ser controlada.

Conclusão psiquiátrica: perfeito estado de sanidade mental. Era um funcionário calmo, “bem equilibrado”, imperturbável, desincumbindo-se perfeitamente de seu trabalho burocrático, ou seja, a supervisão administrativa dos assassinatos em massa. Sentia profundo respeito pelo sistema, pela lei e pela ordem, funcionário fiel de um grande Estado. Não possuía remorsos, era “mentalmente são” e bem adaptado.

4 — Seus chefes poderiam ser até mesmo psicóticos. Mas quem confiaria um serviço de inteligência a um psicótico? Os psicóticos são suspeitos; já os mentalmente sãos são pessoas bem adequadas, cumpridoras das regras, lógica, que estarão obedecendo a ordens que consideram sensatas, que lhes chegaram por meio da cadeia de comando. E devido a sua sanidade mental não terão remorsos depois das ordens cumpridas.

5 — O foco real na vida de um destruidor talvez não seja a destruição como tal, mas a imposição da ordem e a uniformidade em tudo.

6 — A coisificação do outro que o transforma em escravo, com agressão e exploração cada vez maior da vítima.

Existem muitos genocidas impelidos por emoções, outros por ambição desmedida, loucos pelo poder. Alguns até mereceriam o rótulo de paranoicos ou psicopatas. Estes desempenharam um papel decisivo no núcleo do poder nazista.

Mas sem o apoio de líderes “normais e respeitáveis” da sociedade, sem uma grande adesão em massa do povo e sem certas tendências culturais, dificilmente a catástrofe nazista teria assumido sua magnitude.

Muitas lideranças nazistas foram submetidas ao julgamento de crimes de guerra e contra a humanidade no que se denominou Julgamentos de Nuremberg. Conclusões do doutor Kelley sobre tais prisioneiros: “Os líderes nazistas não eram tipos sem igual, nem personalidades que aparecem uma vez por século. Eles tiveram três notáveis características em comum e a oportunidade de tomar o poder: ambição arrogante, baixos padrões éticos e um nacionalismo fortemente desenvolvido, que justificava tudo que fosse feito pela pátria alemã”.

Apenas como para confirmar esta assertiva, transcreveremos as últimas palavras do genocida Eichmann, “a banalização do mal”, antes de sua execução: “Viva a Alemanha. Viva a Argentina. Viva a Áustria. Estes são os três países com os quais tive mais ligações e os quais não esquecerei. Agradeço à minha mulher, à minha família e aos meus amigos. Estou pronto. Voltaremos a encontrar-nos em breve, tal é o destino de todos os homens. Morro acreditando em Deus”.

Carlos Russo Jr. é crítico literário.

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