Não se surpreenda se um dia você reconhecer que Rei do Gado é melhor que Game of Thrones

Não existe fidelidade absoluta no orgiástico universo de seriados. O único caso cientificamente registrado são os trekkies, fãs do jurássico “Star Trek”

game-of-thrones-rei-do-gado

De um lado, “O Rei do Gado”, com Antônio Fagundes à frente da telenovela e, do outro, Kit Harington, o Jon Snow de “Game of Thrones” | Foto: Reprodução

Ademir Luiz*
Especial para o Jornal Opção

Na internet, circula duas frases particularmente significativas sobre a série “Game of Thro­nes”. A primeira, geralmente acompanhada da imagem de um nerd descolado se sentindo o máximo, é “não julgo mais uma pessoa por sua posição política, mas por sua opinião sobre ‘Game of Thrones’”. A segunda, normalmente acompanhada de uma figura pálida e cabisbaixa, é “será que sou só eu que nunca assisti nenhum episódio de ‘Game of Thrones’?”. Ambas são igualmente tolas, por motivos diferentes.

Quando alguém declara que “não julgo mais uma pessoa por sua posição política, mas por sua opinião sobre ‘Game of Thrones’”, está explicitamente afirmando que “eu só te respeito se você tiver a mesma opinião que eu tenho sobre tal coisa que eu gosto de assistir, comendo pipoca no sofá de minha casa, porque essa coisa é, tipo assim, muito legal”. Existe alguma palavra melhor para definir esta postura do que fanatismo?

A segunda frase é sociologicamente mais complexa. Por que uma pessoa precisa se mostrar preocupada por não acompanhar uma respectiva série de televisão, seja ela qual for? Por nenhum motivo, claro. Porém, a sociedade con­temporânea, movida pelos “ho­mens mas­sa”, postulados em termos conceituais pelo mestre José Ortega Y Gasset no clássico “A Rebelião das Mas­sas”, cria a falsa noção de que é preciso gostar do que a galera gosta para estar por dentro, para participar das rodinhas de conversa, até para arrumar namorada, namorado ou mesmo sexo casual.

Sem estar inserido no gosto médio, ou do que é considerado legal, bacana ou sofisticado pelo gosto médio, o indivíduo sente-se segregado socialmente. Só lhe resta se perguntar “onde foi que errei?”, ou, no presente caso, se seu pou­co interesse por “Game of Thrones” é o motivo da condenação, já que a tal série parece ser o atual agregador social dos machos e fêmeas alfa, dos nerds de ocasião, dos nerds virgens e até mesmo dos PIMBA (pseudo-intelectuais metidos a besta). Uma preocupação absolutamente superficial. Uma mesma angústia seria gerada por uma obra-prima clássica? Alguém se mostraria preocupado, perguntando-se “será que sou só eu que nunca li nenhuma peça de Shakespeare?”. Certamente não. “Game of Thrones” é melhor do que a menor das peças de Shakespeare? Certamente não.

A cultura pop possui o poder de fazer o homem comum se sentir superior. No passado, fazia quem imitava os passos de Michael Jackson se sentir um grande dançarino diante do primo do interior que só dançava catira. Hoje, faz um leitor das “Crônicas de Gelo e Fogo” [título do livro que deu origem à série] sentir-se um erudito diante das tietes dos vampiros da saga “Crepús­culo”. Em sua embriaguez pop, são incapazes de reconhecer que são apenas livros divertidos e nada mais.

O mesmo fenômeno que aconteceu com “O Código Da Vinci”, do Dan “Umberto Eco bizarro” Brown. No artigo “‘Ga­me of Thro­nes’ e a geração de leitores inteligentes (mas imaturos)”, publicado no Opção Cul­tural (Edição 2099), defendi a tese que as duas sagas literárias, a despeito de suas qualidades, estão atrapalhando o desenvolvimento de uma geração de leitores. A série da HBO multiplicou o problema. Trans­formou os fãs de George R. R. Martin, autor das crônicas, em uma seita de fanáticos.

Para esse tipo de fã extremista não basta que seu objeto de adoração seja considerado bom, é preciso ser o melhor, e o melhor de todos os tempos. Estar acima do bem, do mal e da crítica especializada. Tal atitude acaba com o senso de humor. Nem mesmo uma piadinha é permitida. São incapazes de reconhecerem, por exemplo, que o programa possui estrutura dramática de novela. “Novela é coisa de velhos, somos jovens ‘muderninhos’ ligados em sexo, violência e intrigas políticas”, pensam enquanto abrem mais uma embalagem de iogurte natural desnatado. Ficam impressionados com a nudez e a morte dos personagens importantes, como se isso fosse novidade. O citado Shakespeare já fazia isso há séculos. Mas nem precisa ir tão longe: será que nunca viram um filme de zumbi?

Os sacerdotes do culto ao profeta barbudo Martin não veem que, mesmo na escala pop de valores, “Game of Thrones” está muito abaixo de outros produtos. Daqui a alguns anos, por qual papel o ator Sean Bean será lembrado: Boromir de “O Senhor dos Anéis”, ou Eddard Stark? Khal Drogo, embora seja a melhor atuação do canastrão Jason Momoa, não foi uma escada para o ator chegar aos papeis de “Conan” e “Aquaman”? Os bonequinhos da capitã Phasma não vendem mais do que os de Brienne de Tarth?

Resta um consolo: vai durar pouco.

O quê? Como assim? Que absurdo! Então, estou insinuando que os fieis e abnegados admiradores de “Game of Thrones” vão esquecer seu objeto de culto? Que aqueles que hoje estão dispostos a brigar com meio mundo para defender sua série preferida um dia não vão dar mais importância para esse evento televisivo que dá sentido a suas vidas? Que chegará um momento em que pouco vai importar quem se senta no Trono de Ferro? Que todos aqueles DVDs comprados a peso de ouro vão ficar acumulando poeira, na estante? Que vão preferir rever a versão estendida de “O Senhor dos Anéis” ou a décima edição especial definitiva de “Star Wars”? Que o único Stark relevante será o Tony? É isso mesmo? Estou defendendo esse absurdo?!

Deixe-me pensar (meio segundo de suspense)… sim.

Exatamente isso. A história é conhecida. Uma série estreia. Faz sucesso de crítica. Começa a chamar atenção do público. Torna-se fenômeno pop. Domina a internet. As críticas negativas são rechaçadas com violência. Duas opções se desenham: a série é esticada desnecessariamente ou a série termina na hora certa. A série acaba. O último episódio é muito comentado. O interesse pela série começa a esfriar. Os DVDs da série entram em promoção no bacião de refugos das Lojas Americanas. A série é lembrada, de vez em quando. Outra série entra no lugar daquela. Começa tudo de novo.

Lembram-se deste padrão, meninas e meninos? Lembram-se de “Lost”? Lembram-se de “Breaking Bad”?

Acha que estou subestimando o tamanho de seu amor por “Game of Thrones”? Se você tem tanta certeza de sua paixão que está pensando em tatuar o mapa de Westeros nas costas, ou melhor, na testa, cuidado. Lembrem-se do arrependimento de quem tatuou símbolos de “Lost”. Depois do lamentável último episódio, estes infelizes viravam motivo de piada. Na verdade, mesmo quem tatuou a cara fechada de Walter White, a despeito do final mais do que digno de “Breaking Bad”, hoje, passada a empolgação, não pareceu uma boa ideia. O olhar 43 do professor-químico-traficante carecão não é tão sexy quanto uma tribal, um unicórnio ou uma estrelinha bem localizada.

“Lost”, “Breaking Bad” e inúmeras outras séries vêm e vão, deixando orfãos seus fãs. Exceto “Star Trek”

“Lost”, “Breaking Bad” e inúmeras outras séries vêm e vão, deixando orfãos seus fãs. Exceto “Star Trek” | Foto: Reprodução

Crianças, aprendam: no orgiástico universo dos seriados só há um caso cientificamente registrado de fidelidade absoluta: os trekkies, fãs do jurássico seriado “Star Trek”. Eles são os lobos e falcões do mundo pop. Um parceiro para toda vida. Coisa de outras gerações. Em tempos de internet banda larga, mil novidades por segundo, este tipo de monogamia televisiva é quase impossível.

Só resta um conselho: divirtam-se com a bola da vez, e só. Nada de fanatismo. Logo, logo vem outra coisa no lugar. E escutem o titio: pensem duas vezes antes de tatuar “Game of Thrones” em qualquer parte de seu corpo. Um dia você pode acordar, mais velho e mais maduro, e perceber que uma terceira frase que ronda a internet é que está certa: “‘Rei do Gado’ é melhor do que ‘Game of Thrones’”.

Ademir Luiz é professor da UEG.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.