Na janela da minha casa eu a vejo

Fabiane Braga Lima e Samuel da Costa em prosa e versos

“L’Embarquement pour Cythere”, pintura de Antoine Watteau | Foto: Reprodução

Por Fabiane Braga Lima: texto e argumento

Samuel da Costa: texto e revisão 

Renan Fillipi da Costa: revisão

Eu estava acostumado a vê-la brevemente todos os dias, como se fosse uma pintura vívida, aquela jovem, ela era uma bela mulher, porém sempre estava triste. Logo de manhã, bem cedo, saia apressada, com sua mochila nas costas, para enfrentar as lutas diárias. Colocava o lixo no portão e respirava ofegante e seguia em frente. E eu sempre apreciava essa cena tão comum para muitos, mas ela me chamava a atenção. No final da tarde estava ela de volta ao lar, parecia chegar triste e muito abatida.

Em um novo dia, lá estava ela, de novo segundo a mesma rotina, mochila nas costas, olhar triste, partindo para o ponto de ônibus próximo. No começo de um dia, percebi que a rotina tinha sido quebrada, ela demorava para ir ao trabalho. Tinha acostumado vê-la partir e chegar todos os dias, apesar de não a conhecer pessoalmente. Como moro ao lado, fui ver o que tinha ocorrido.

— Olá, tem alguém em casa? — Resolvi chamá-la assim, eu não sabia sequer o nome da mulher, tive um mal pressentimento. De repente ela aparece na porta. Estava machucada, havia hematomas em seu rosto.

— Estou aqui, ando gripada vizinho. — Constrangida me respondeu ainda dentro de casa.

 Mas era mentira dela, pois não estava com gripe. Ela, uma dedicada professora de história em início de carreira, que trabalhava em três escolas todos os dias, mas estava sofrendo várias agressões. E eu, um completo estranho, um desconhecido qualquer, me convidou para entrar em sua casa. Era uma casa simples e modestamente decorada, mas tinha as melhores de todas as decorações possíveis, livros variados e mais livros de todos os gêneros e por toda a parte e em todos os cômodos da casa.

          A dona da casa, me conduziu para a sala de estar, ela tinha acabado passado um café no coador de pano. Sentamos à mesa, ela me serviu uma xícara de café preto e, sem sequer perguntar o meu nome, contou das agruras que estava passando naquele exato momento da vida. Confidenciou-me que era de origem humilde e conseguiu se formar em história as duras penas. E uma vez formada fez concurso público foi dar aulas na rede pública de ensino e depois na rede privada de ensino também. Depois contou dos assédios morais e agressões sofridas dentro e fora da sala de aulas, por alunos, alunas e colegas de profissão. Ameaças de morte e até uma agressão física, nas duas redes de ensino. E eu sem nada dizer sobre isso, ouvi de tudo isso com profundo pesar no coração e na alma, depois disto forjamos uma bela e profunda amizade.

Eu filho de professora primária, além de vê-la partir e chegar do trabalho, agora no começo da noite, eu vejo aquela mulher forte, sentada na varanda da casa, preparando as aulas, corrigindo trabalhos, tão dedicada, ao mesmo tempo desvalorizada da vida…!

Sinta (o meu ser-mais-que-perfeito no infinito)

Sinta como te quero,

 E o desejo em meu corpo aflora,

E grita bem alto!

Não desdenhe do meu amor,

Nem faça dele uma repugnante demência.

Um pueril devaneio meu

***

Que o nosso eviterno amor

Trespasse o tempo atemporal

Aquieta-te ninfeia do rio claro

Eu estou aqui entre os astros-mortos 

***

Rendo-me aos teus caprichos

E inúmeros fetiches.

***

És tu!

E somente tu

Que eu desejo sibilina prima donna

Postada na pós-modernidade

Liquefeita  

***

Então, me sinta!

Ajoelhada em tua devoção,

Desnuda-me por completa.

Espero! Acalenta-me em teus braços

Eu quero provar os teus beijos

Saciando os mais intensos

Desejos libidinosos.

***

Abro em profusão as portas

Do meu negro coração mecânico

E com ardor cálido te possuo

Na mítica floresta negra 

Que arde em chamas eviternas

***

Provoca-me quero sentir 

O teu corpo impregnado de pecado,

Pesando no meu.

Tua pele e teu líquido sagrado

Descendo entre minhas pernas

***

Leva-me contigo acorrenta-me

Em teu corpo, apenas, me sinta

Quero ser a complexidade que te desatina,

Os nossos corpos despidos, amedrontados!

Submissão de ambos…

***

Amo-te à luz dos nossos tempos

Amo-te na completa imensidão astral

Fabiane Braga Lima e Samuel da Costa

Sonhos crepusculares (cumplicidades e intimidades)

Tentei olhar nas vastidões dos teus olhos

E não consegui poeta de ébano

Tentei ao menos te escutar! impossível…

Entendi, melhor assim, liberta das sombras

Estava enganada e esquecendo de mim.

***

Nas ausências dos estelares

Intervalos inaudíveis 

Nas nossas cósmicas múlti-plas pausas 

Entre o nós dois

Olhe para dentro as álgidas

 Imensidões olhos meus

E diga que será minha

Para todo o sempre

***

Hoje fui te buscar,

 Vejo-te em todos os lugares

Minha outra metade, minha cumplicidade

E, mesmo se quisesse te ter, seria loucura

Tocar em ti será o evanescer

De todas as infindas incertezas,

 Infinitas e seculares dores….

***

Busco em ti

Como um perdido naufrago

Perdido entre as eviternas

Estrelas da noite

Procura um paraíso insular

***

Então, melhor transbordar de amor e viver,

Viver sem dores, trocando conversas fúteis

Mesmo que tudo se desfaça, tentar seguir.

***

Abriga-te nos meus estribilhos 

Que sejam o teu porto

 Mais que seguro sacrossanta

Ninfeia minha

***

Tu és a poesia que sempre esteve comigo

Fiz de ti o protagonista das minhas prosas

Aparência!? Desconheço! Minha alma gêmea!

Fabiane Braga Lima e Samuel da Costa

Perdida no tempo atemporal

Como chorei, foram tantas noites em vão

Com os olhos inchados procurei paixões

Despertei de sonhos e infindos pesadelos

Toda essa fraqueza cessei, agora me acalmei!

***

Ebúrnea poetisa

Que habita as águas tranquilas

De um límpido rio claro

Abriga-me no estre teu

 Nas dulcíssimas éclogas tuas

***

Poderia ter pensado mais, usado a razão

Mas não, ingênua dei liberdade ao coração

Entrei num labirinto de sombras e medos

E, oscilando fui muito além das incoerências.

***

Adensamos as brancas nuvens

Adentremos de mãos dadas

 Nas nossas quimeras 

Tornamo-nos um só

***

Hoje me sinto plena, enxerguei meus erros

Caminho com certeza de poder recomeçar

Reconhecendo que o amor é reciprocidade.

***

Adensamos as hialinas brancas nuvens

Flanamos livremente no tempo atemporal

Adentremos nos nossos sonhos 

Tornamo-nos um só

***

Se não tivesse exagerado e ficasse intacta

Poderia ter colocado ponto final no início,

Mas usei reticências, dando voz a demências…!

Fabiane Braga Lima é poetisa e contista em Rio claro São Paulo

Samuel da Costa é poeta contista em Itajaí Santa Catarina

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