Na inventividade do “Por Acaso” da Rua Sem Saída

“Por Acaso – Tarde de Improviso” é uma jam session que nasceu em 2012 com os grupos ¿por quá? e Vida Seca e já ganhou até o Museu de Arte do Rio de Janeiro

A primeira edição de 2015 será no sábado 30 de maio, ali perto da casAcorpO. É só improvisar

A primeira edição de 2015 será no sábado 30 de maio, ali perto da casAcorpO. É só improvisar | Leandro Araújo

Yago Rodrigues Alvim

Quão difícil é estender a mão e convidar alguém para bailar alguns passos? Passinhos bobos, às vezes. E mais, vez e outra, são passos quase borboletas no estômago, dedos dos pés, estremece todo quem quer que seja, pois caminham de mãos dadas ao acaso, a imprevisibilidade do depois do gesto, que sempre desemboca noutra coisa. Começa assim, a dança. E foi num encontro em fim de tarde, que assim a vida improvisou.

Tinha camisas coloridas, calças balançantes, pés já destemidos e nus, brincando de dança. Tinha outro pessoal que embalava sons em instrumentos, em corpos entregues a inventividade da vida. Era tarde de “Por Acaso”, coisa de improviso. É vida, dança, música, teatro. É intervenção urbana livre. Aberta. Numa mistura de artistas e não artistas, os desavisados vão se convidando a entrar no tatame, após verem tanta entrega ao desconhecido. É encontro.

Da coragem, nasceu da mão que se estendeu num 31 de março de 2012, quando a primeira edição da jam session ganhou a calçada da Rua 3, ali onde o casarão abrigava a Casulo Moda Coletiva, que se ajuntava aos grupos ¿por quá? e Vida Seca, a antiga Fábrica de Cultura Coletiva, extinta aquele ano mesmo. Foram eles que deram à luz uma tarde de brincadeira, de experenciação. Fora ¿por quá?, Vida Seca.

O grupo de dança ¿por quá? ganhou as paredes e assoalho da Escola Superior de Educação Física e Fisioterapia (Eseffego), da Universidade Estadual de Goiás (UEG). E logo deu seus passos, avoando. Até porque, os provocadores de dança Luciana Ribeiro e Adriano Bittar queriam democratizar a experiência artística dentro da universidade e vivenciar performances e intervenções nos espaços mais variados da cidade. O requisito do grupo, por onde 52 pessoas já passaram, era e é o corpo disponível, nada daquele treinado a vida toda para a dança.

Já o Vida Seca surgiu de um movimento estudantil da Universidade Federal de Goiás, em 2004. Os provocadores de som e também produtores Thiago Verano e Ricardo Roqueto, na época estudantes em manifestações em prol de algum objetivo específico, faziam batuques em instrumentos improvisados, objetos reciclados. É que a fragilidade de um instrumento tradicional e a própria dificuldade de encontrar qualquer pandeiro numa situação daquelas, faziam com que eles procurassem outro modo de fazer som. Virou bloco e eles começaram a pesquisar.

Ambos os grupos indagam “ah, só até aqui é dança? Só até aqui é música?”, pois para eles não. Dá sempre para ir um pouco além. E sempre atados um no outro, até por integrantes em comum, estreitaram laços em 2007, quando Lina Reston, integrante do ¿por quá?, foi convidada pela Associação das Vítimas do Césio 137 para criar um trabalho artístico na data-marco de vinte anos do acidente radioativo. “Rua 57/ n°60” reuniu ambos os artistas.

Em 2011, o espetáculo foi aprovado num edital e virou videodança, filme. E já era no casarão da Fábrica de Cultura onde moravam. Numa reunião rolou o “bora fazer uma jam session? Olha essa calçada!” e, na empolgação que subia o corpo, alumiando os olhinhos, pá! Nasceu “Por Acaso”. Afinal, era algo assim, de caso com o acaso. Foi um alívio para o ¿por quá?, que tinha aprovado um projeto de circulação no edital Klauss Vianna.

Por isso, veio dum desejo coletivo de brincar de alívio, de movimentar a cidade. O balanço foi bom. Ganhou um design de Rodolfo Brasil para lá de legal. A identidade visual pegou. “Aquela letra gordinha, mais um cartão de visita.” Assim, rolaram seis edições apenas em 2012. A cada uma, o todo do que era e seria aquela Tarde de Improviso foi se delineando. “Cresceu, fomos descobrindo o que era essa jam session”, diz a provocadora de danças e coordenação de produção, Lu Celestino.

Na última edição daquele ano, se estatelaram. É que não foi das costumeiras cinco às oito. Três DJs embalaram até a meia-noite e, ainda que sem cerveja e com um som zoado, para lá de experimental, o pessoal continuou ali. Lu contou que os grupos entenderam que existia certa suspensão, o lugar de “Por Acaso” era outro. A jam deveria continuar.

E ainda que timidamente, continuou em 2013, quando a Fábrica já não mais existia e o ¿por quá? precisava de um novo lar. A única edição do ano marcou o nascimento da casAcorpO, a liberdade da Rua Sem Saída. Eram muitas crianças e elas corriam por ali, os vizinhos adoraram e se empolgam até hoje na espera de cada edição. E foi em 2013 também que receberam a resposta da Lei Municipal: o ano seguinte ganhou cinco edições, cujo recurso possibilitou investimentos para uma melhor estrutura.

Em 2014, o “Por Acaso” dançou até no Museu de Arte do Rio de Janeiro, a convite do Grupo Empreza. Fora outro contexto, outros desafios, aprendizados. Ao fim, alcançaram um lugar mais maduro. O encontro se apresentou.

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“O ‘Por Acaso’ é nosso melhor brinquedo, pois conseguimos a partir do ritual –– temos um tatame, um jeito de adentrar –– ocupar um espaço urbano da maneira que ocupamos”, conta deste espaço livre, aonde regras tácitas vão se estabelecendo. De quem ali já improvisou, seguem as (minhas) próximas palavras: “É como se fosse uma liberdade que respeita outra liberdade. E elas estão dentro de uma proposta de experimentar, improvisar, de dançar. Tem muito disso, de troca de liberdades, que vão se encontrando. E ambas têm o seu lugar”.

Dessa dança-ação do desassossego, de experimentação estética, cujas assinaturas pessoais, danças particulares se encontram num vazio, donde os móveis são arrastados e colocados à parte de cada um, o “Por Acaso” valoriza histórias corporais –– “a minha é diferente da sua” ––, valoriza a escuta, a respeita. E, para isso, embaia certos cuidados para que não seja apenas uma festa, para que a cidade seja um lugar a ser ocupado e transformado com ludicidade, vivência e comunhão; para dessacralizar a arte. Para que os cidadãos sejam cidadãos: “Adoramos quando termina e não tem lixo no chão e lixeiras transbordando. E praticamente 95% do lixo produzido são encaminhados pra reciclagem”.

Em 2015, um dos grandes desafios tem sido a espera pela Lei Goyazes. Ainda que aprovado, não há perspectiva de captação para o projeto. “Aprovamos, sentamos e estamos esperando.” É que eles não querem diminuir a estrutura; até porque o objetivo é sempre avançar, crescer, não é mesmo? Por isso, esta primeira edição, no sábado 30 de maio, tem investimentos de bolso próprio. Já a edição de junho também está na espera que a iniciativa de vaquinha dê certo. O grupo lançou a proposta de arrecadação para uma construção coletiva no site Vakinha.com.br. É só pesquisar.

E construção é bem a palavra. Não só para uma melhor estrutura para o “Por Acaso”, que necessita de investimentos no tatame, na aparelhagem de som, caixotes, banheiros químicos e até água potável; a ação propõe movimentar a Rua: “Queremos pintar a rua, mudar a pele dela, da própria ponte; cuidar das lixeiras e queremos mais ações, até mesmo fazer um cinema na Rua Sem Saída”. E, ó, Lu deixa o aviso para as inúmeras pessoas que aguardam os sábados de “Por Acaso” e se extasiam só de ver o cartão de visita, com a data que sempre parece mais que distante: “Faremos pelo menos quatro edições este ano”.

Portanto, se você se achegar na Rua Sem Saída, neste sábado, 30, encontrará um tatame cheio de gente se mexendo ao som de músicos experimentais –– quiçá você, se quiser tocar, pois pode também. Leve sua garrafinha de água e uma roupa levinha para se jogar no improviso. Se quiser, pode levar também seu instrumento musical, sua câmera e fotografar à beça –– a arte do improviso vai amar!

Assista ao registro de Venâncio Cruz, produzido numa das Tardes de Improviso:

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