Grupo Uccelli transporta Goiás para a Europa medieval

Com base em pesquisa e instrumentos históricos, os músicos revivem música popular de oito séculos

No centro do Brasil, um grupo executa as canções que se podia ouvir nas tabernas européias há setecentos anos. O grupo Uccelli pesquisa as compilações musicais mantidas pela Igreja Católica ao longo dos séculos, decifra a notação neumática em que a melodia foi escrita, escreve arranjos e toca instrumentos que se aproximam o máximo possível daqueles medievais. O projeto é formado por Beatriz Pavan (espineta e viela de roda), Cristiane Carvalho (flautas), Jeferson Leite (rabecas), Ronan Gil (percussão) e músicos convidados.

Membros do Uccelli executam Música Medieval em Goiânia

Da esquerda para a direita, Cristiane Carvalho, Beatriz Pavan e Jeferson Leite| Foto: Italo Wolff / Jornal Opção

Durante a baixa Idade Média, em toda a Europa, trovadores espalharam canções sobre lendas e os feitos de reis e heróis. Em tabernas, peregrinações e festejos, os bardos executavam danças como o Saltarello; cancioneiros populares como o Livro Vermelho de Montserrat; e músicas folclóricas tidas pela Igreja Católica como pagãs. Os trovadores podiam ser de origem nobre ou humilde; viajantes ou vinculados à cortes. Eram multi instrumentistas que dominavam a recitação da lírica bem como a técnica de alaúdes, vielas de roda, rebecs (um ancestral árabe da rabeca), percussão, flautas, gaitas de fole e outros instrumentos que se perderam na história.

De sonoridade própria, a música medieval tem várias características diferentes da nossa, mas uma em comum. Em distinção, os instrumentos eram diversos, afinados em outros temperamentos e utilizavam a escala de forma distinta. A mesma canção podia ser executada em andamento rápido, para dançar, ou lento, em meditação. A música era modal e não havia a noção de tensão e alívio causada por mudanças harmônicas. Mas, como a música popular de hoje, a de então era acessível e contagiante.

Cristiane Carvalho explica que, como os materiais e o conhecimento da escrita era detido principalmente pela igreja, os registros que chegaram até nós foram compilados por membros do clero – especialmente estudantes que tinham convívio com a rua e a cultura cotidiana. “Algumas compilações são de músicas profanas, como Carmina Burana. Outras, são de melodias tradicionais com letras substituídas por temas sacros, como o Livro Vermelho de Montserrat. O nosso repertório é exclusivamente do cancioneiro do povo”, afirmou a flautista e gaitista de fole.

Uccelli toca Música Medieval em Goiânia

Grupo Uccelli executa uma dança italiana: Trotto – Saltarello | Foto: Ítalo Wolff / Jornal Opção

As composições mais antigas são do século XII, mas a maioria vêm do Livro Vermelho de Montserrat, um manuscrito do século XIV localizado em um monastério próximo a Barcelona. O livro é um registro de canções entoadas pelos peregrinos, que foram consideradas profanas por conta das letras inapropriadas aos ouvidos da igreja. Os padres de Montserrat convenceram os peregrinos a mudar o assunto da poesia para a Virgem Maria e registraram a história e as melodias no texto neumático.

Alguns dos instrumentos históricos utilizados pelos músicos permaneceram semelhantes através do tempo, como as flautas; outros se modificaram com os anos, como a rabeca e a espineta; e há ainda aqueles que deixaram de ser utilizados quase completamente, como a viela de roda. “Não dá para saber exatamente como soavam”, disse Cristiane Carvalho, “temos poucos registros da idade média. Mas nossa proposta é reproduzir o mais próximo possível a sonoridade que se imagina”.

Como apenas as melodias são preservadas, e como poucos instrumentos restam da época, o estudo da iconografia – tapeçaria, pinturas, desenhos e imagens em geral – e de tratados da época é fundamental. Beatriz Pavan afirmou sobre o processo de aprender a tocar instrumentos tão distantes: “Temos toda a dificuldade do instrumento novo, principalmente sem professores em Goiânia. Vamos atrás de professores fora. Em junho, vamos fazer um curso em Besalu, na Espanha, uma cidade medieval com festival tradicional. Na região havia um trovador nobre e há preservado um acervo da época que iremos estudar”.

Cristiane Carvalho e viela de roda| Foto: Ítalo Wolff

Em seus concertos, o grupo experimenta com a forma medieval de apresentação. Como os menestréis eram multi instrumentistas, os músicos do Ucceli trocam os instrumentos entre si durante os concertos. Letras são traduzidas latim para o português e em algumas peças há recitação de poesias líricas. Beatriz Pavan afirmou sobre a recepção do público: “As pessoas saem apaixonadas porque é um repertório muito fácil de gostar. Não precisa ser iniciado em música histórica nem entender música de qualquer tipo, porque é música popular. Era muito popular na época, ela tem essa característica de ser acessível”.

Segundo o rabequista Jeferson Leite, o contato que o público tem com o gênero vem de filmes, jogos e séries, como “Game of Thrones”, que utiliza na composição de sua atmosfera músicas históricas. “Esse estilo era muito popular no tempo dele. Hoje em dia ela não mais, mas não quer dizer que a música não é boa – ela é excelente. Em 2017, fizemos uma série de concertos por antigas estações ferroviárias no interior do estado – uma série de concertos para um público não-iniciado – e a aprovação foi total; gostaram da instrumentação e do repertório e do universo medieval”.

Quando perguntada por que a música medieval caiu do gosto, se é de qualidade, Beatriz Pavan respondeu: “Exatamente como acontece hoje, o público se interessava pelas músicas recentes. Hoje queremos o lançamento do mês, a mesma coisa com Beethoven: as pessoas queriam ouvir a última sinfonia dele. A partir do Período Romântico, com o nacionalismo, houve a busca pelo passado musical. A prática de ir fazer um resgate historicamente informado, tentando imitar sonoridade da época, isso é moderno”.

O Uccelli também faz parte do projeto de extensão e cultura da Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás “Grupos de performance historicamente informada”. Para realizar as atividades, o grupo conta com convites de cursos de história medieval, convites para jornadas de estudos, e até convites para fazer festas de pessoas que se interessam pelo período. Além disso, outro suporte imprescindível para o projeto são as leis de incentivo.

Atualmente, o grupo tem um projeto aprovado pela Lei Goyases, mas o Governo do Estado descontinuou todas as leis de incentivo à cultura. “Já temos tudo acertado com o patrocinador, toda documentação pronta, e só precisamos da aprovação final para que possamos circular com um projeto pelo interior do estado. É do dever do estado promover a diversidade cultural para a população”, afirmou Jeferson Leite.

Concerto Uccelli em Goiandira

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