“A música é um instrumento de educação para o ser humano”

Pupila de Belkiss Spenzièri, a pianista goiana leva a música clássica de crianças para diversos cantos do mundo. Já se apresentou nos famosos Carnegie Hall e Opéra Bastille

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Yago Rodrigues Alvim

Na década de 1980, a ainda menina Ericka Vilela via seus estudos de piano se agigantarem ao conhecer um dos maiores nomes da música clássica goiana. Era Belkiss Spenzièri (1928-2005), que lhe ensinaria um toque de piano. Dali, faria seus a­prendizados valerem e passaria, ela mesma, a ensinar crianças e jovens.

Desde 1996, ano em que foi fundado, seu estúdio tem um método ím­par, cerceando o aluno de um universo que, hoje, é distante: o da música de Beethoven, Bach e muitos outros, que expande a uma realidade país-afora que é tocada por meio do projeto Músicos Goianos pelo Mundo. E, desde 2012, Ericka leva seus pupilos para se apresentarem em teatros de todo mundo. Ao Opção Cultural ela conta de sua jornada na música, do aprendizado com Belkiss e do projeto que sobreleva o valor da música.

Conte sobre seu caminho na música e os estudos com Belkiss Spenzieri.

Comecei meus estudos de piano aos nove anos com minha prima, que era uma excelente professora de piano em uma escola de Goiânia, onde, uma vez, na realização de um recital, Belkiss esteve presente. Ela me viu tocando, com meus 11 anos já, e disse que queria me ensinar. Por ela ser uma grande referência, minha professora me disse para aprender com ela. Foi assim que tive algumas aulas com Belkiss, até que isso se firmou e eu estive com ela por mais de 15 anos.

Até mesmo na universidade, eu tinha essas aulas, pois era difícil não estar com ela, já que era minha mentora, a pessoa que me abriu um universo e me apresentou a pessoas muito importantes, como Mozart Camargo Guar­nieri — com ele mesmo eu tive aula por três anos, em um estúdio em São Paulo, onde ele ensinava, até mesmo aqui em Goiânia, onde ele vinha muito, já que tinha uma relação muito grande com a Universidade Federal de Goiás.

Muito me dediquei, pois se quisesse aprender com Belkiss devia estudar por, no mínimo, quatro horas por dia, todos os dias da semana. E eu era uma menina de 11 anos. Mas isso foi um aprendizado inigualável, pois precisamos muito de disciplina, paciência e esforço e a música nos dá isso, nos ensina o que é um trabalho sério — claro, é diferente aprender por prazer ou hobby. De segunda a segunda, você se debruça sobre o piano e, quando tem um concerto, quatro horas são até pouco; é preciso muito mais.

Nascida na Cidade de Goiás, Belkiss Spenzièri foi reconhecida internacionalmente por sua atuação como pianista

Nascida na Cidade de Goiás, Belkiss Spenzièri foi reconhecida internacionalmente por sua atuação como pianista

Como analisa essa oportunidade e até mesmo o que ela acresceu a sua vida profissional?

Em toda essa trajetória, eu frequentei a casa de Belkiss, que era um reduto cultural frequentado por artistas, escritores, jornalistas e políticos. Grandes pianistas a visitavam e tocavam na casa dela. O que percebo é que isso me proporcionou grandes oportunidades; só de respirar naquele ambiente, não tem sequer como eu agradecer. E isto do professor de piano que se dedica ao aluno foi o que vivi com ela e que levei comigo. Quando um aluno diz que quer seguir carreira, o professor se desdobra — ela mesmo se desdobrou, recebeu-me aos finais de semana, e é o que faço hoje com meus alunos, que são crianças e até jovens mestrandos e doutorandos em piano. São minhas crias, de dentro da minha casa.

Algumas alunas passavam horas, até dormiam aqui no estúdio. Este contato de aluno e professor é muito sensível, pois lida com vários desafios, além das virtudes. Alguns alunos são inseguros e é preciso mostrar a ele que é capaz, é preciso trabalhar autoestima, dizer que ele consegue. O professor é um treinador e não só para que você toque, mas para a vida. A música é um instrumento de educação para o ser humano. Se todos pudessem estudá-la, teríamos certamente outra realidade, de pessoas mais sensíveis, capazes de lidar com os medos que têm. As artes proporcionam isso. Toda criança deveria aprender a tocar um instrumento, já que cada música é um desafio. Esta é uma experiência maravilhosa a cada ser humano.

E para além dos professores, é preciso o apoio dos pais. Eles precisam ajudar nos estudos, que é algo muito difícil — imagine só para uma criança de cinco ou seis anos. Eles precisam sentar e repetir tantas e tantas vezes. Como no esporte, que é preciso treinar várias vezes, a música precisa de repetição. Um atleta uma vez me disse que, enquanto não acertasse 3 mil vezes a bola na cesta, ele não parava de treinar. Por isso, eu digo, repita o trechinho até que acerte, por mais que seja difícil. Vamos combinando isso com os alunos e com os pais, para que cheguem a um objetivo.

E isso é lento. São passos de formiga, mas que têm um resultado esplendoroso e para a vida. As pessoas muitas vezes não entendem isso, já que vivemos em um mundo onde tudo é para ontem, usou não quer mais, onde tudo se perde e é fulgás — e, com isso, ensinar hoje um instrumento é muito mais difícil que antigamente. Eu, quando criança, lia livros, estudava piano, brincava só quando terminasse todas as minhas atividades e ai se tivesse reclamação na minha agenda. Mas eu não fui uma criança que deu muito trabalho para os pais, em contrapartida até, eles muito me ajudaram e me incentivaram nos estudos e foram estudos, de fato, e não o que hoje acontece, daquilo de estudar uma língua só para passar o tempo, por exemplo. É preciso ter um zelo pela aprendizagem.

No meu currículo, tenho várias premiações, dentre elas de Melhor Interprete de Bach, de Lorenzo Fernández, do Guarnieri e até mesmo em competições em que a faixa era de 12 a 21 anos e eu, com 12, levei o prêmio, o que só me incentivou a pegar peças ainda mais difíceis. Belkiss me dizia: “você tem toque de pianista”. O toque de pianista é sobre aquilo de tirar o som do piano sem muito esforço. Ela que não era de elogios, então, quando o dava, era algo inexplicável.

A sra. se enveredou em algum outro campo, além da música?

Concomitantemente à universidade de piano, cursei Direito. E é uma coisa que digo aos pais, que, por mais que estudemos um instrumento por quatro ou cinco horas por dia, não atrapalha os demais estudos. Eu consegui tudo aquilo sem muita dificuldade. Claro que, em um determinado momento, temos de ter foco no que queremos profissionalmente, mas o Direito foi muito enriquecedor, por ser um universo muito diferente, muito mais real e de situações únicas — eu vivi um choque, já que vivia só no mundo do piano.

Outra coisa que me acresceu na minha trajetória de adolescente, foi a propaganda, com o que aprendi muito. Eu atuava em propagandas, tenho até a licença de atriz. Fiz várias delas, o que me ensinou a lidar com câmera e me mostrou que eu tinha voz, pois lidava com texto. Belkiss tinha medo de que eu me enveredasse naquilo e até mesmo da minha descoberta de voz, pois eu passei a fazer aulas de canto; ela chegou a dizer para minha professora que não adiantava, que eu não iria virar cantora, mas sim pianista (riso). Eu não dei seguimento a nada disso e, falando sobre o assunto agora, até acho que podia ter dado (riso), pois somos uma soma de todas as experiências que temos em nossa vida.

Eu foquei no piano e a ele me dediquei. Quando o filho de Belkiss adoeceu, vivi um momento frágil, uma vez que ela muito se entristeceu e eu me vi a interromper todo o processo, o que foi muito doloroso. Nessa época, parei com as aulas e comecei a dar as minhas próprias. Só continuei com os estudos do Direito e, da vontade de renda e me sentir útil, empreitei as aulas, que tiveram muitos alunos. De cara, preparei alunos para fazer concurso na França e todos foram aprovados, com ótima colocação. Vi que dava para trabalhar muito bem nessa área.

E como tem sido esse trabalho? Qual é o método que aplicado?

De lá até os dias atuais, tenho tido muito sucesso, o que é fruto de muito trabalho e esforço, já que é complicado engendrar nas pessoas que elas têm que estudar e vislumbrar um mundo que não faz parte da realidade goiana, que é o da música clássica, o de Beethoven, Chopin, Bach e Mozart. Como falar deles? Precisei montar toda uma metodologia para apresentar essa música, que não é ouvida hoje. É raro, principalmente entre os jovens que escutam muito da indústria, de cantores que nem se dedicam a aulas de canto. A mídia parece até que pede isso; sem contar as letras que são chocantes. Portanto, trazer os alunos para esse mundo é dificílimo.

As crianças, em audições, mu­dam até a postura, a inquietação na plateia — ensinamos a ouvir. A música é transcendente. Só que isso precisa ser ensinado. Por isso, vejo nas crianças um futuro, que vem desse aprendizado. Eu montei o estúdio de modo singelo e a coisa foi acontecendo. Os dez alunos viraram 20 e, assim, 40 e por aí foi. O nosso método é muito envolvente e entusiasma os alunos a aprender. Eu digo que vou comendo pelas beiradas, pois até chegar a Beethoven, a Mozart, vamos fazendo um trabalho de musicalização, ensinando uma seleção de estilos musicais, como o jazz, a música popular brasileira, o da Broadway, com seu mundo imaginativo. Isso prepara o terreno para a música clássica acontecer, de fato.
Diversificamos um repertório e, aos poucos, a criança diz que quer tocar Beethoven ou Bach, o que para nós é uma vitória. Os alunos também se apresentam sempre, o que é emocionante para os pais. Mesmo tímidas, apresentam-se. Os pais ficam emocionados com algo que é de qualidade.

Existe algo específico de Belkiss que passa a seus alunos?

Eu fui moldada por ela, portanto não tem como eu não dar continuidade ou passar o que ela me ensinou aos meus alunos. Ensino, por exemplo, o que ela dizia “não adianta correr, pois quando se tem pressa é preciso andar devagar”, pois às vezes queremos que a música saia logo, para tocar rápido, mas precisamos aprender devagar. E ensino ainda que não se deve olhar o tamanho da montanha, e sim subi-la — isso quanto aos objetivos, à técnica.
Meus alunos tiram bons lugares em concurso, pois o som veio dessa técnica que ela me passou. Eles tiram o som. Você sabe que um instrumentista, um musicista é bom pelo som que ele tira do instrumento. Muitos o agridem, e não é isso. Tenho uma equipe que ensina o toque, que é a técnica de se tirar esse som do piano, sem força alguma, de um jeito que se conta uma história ao construir as frases feitas não de palavras, mas sim de notas. É uma interpretação, e cada música, de cada período, seja clássico, romântico ou qualquer outro, tem seu jeito de interpretar.

Quando se é moldado por um grande pianista, ele faz toda diferença em sua vida. Esta fase que antecede a faculdade, uma vez que vocês já adentra a vida acadêmica pianista, é essencial. Hoje, meu sucesso se deve a professora que eu tive. É preciso agradecer, pois não adianta ter talento se não for trabalhado. No meio do cerrado, temos professores que ensinam com conhecimento, propriedade e eu sou uma das que teve sorte de ter um deles.

Conte um pouco mais do pro­jeto Músicos Goianos pelo Mundo.

Em 2012, quis inovar, criar algo. Mas como não tinha jeito de inventar a roda, propus algo que me orgulhasse e que ajudasse ao próximo. Pensei nos meus alunos e, ao contrário de correr sozinha pelo mundo, tocando — que é o que muitos já fazem —, juntei o amor que a Belkiss me passou pela música clássica a eles, aos que realmente se preparassem e almejassem viajar pelo mundo. Isso veio também do pai do Mozart que o levou, ainda criança, a uma turnê pela Europa. Isso foi fazendo o nome dele; e a primeira apresentação dele foi no Palácio de Schönbrunn, na Áustria. Eu me propus a essas turnês e, a cada edição, passar por lugares diferentes. A primeira delas foi justamente no Palácio de Schön­brunn, seguindo os citados passos. Foi maravilhoso sair do cerrado e chegar ao Pa­lácio, receber críticos, sair na mídia, e isso em 2012.

Pianista Ericka Vilela com seus alunos, em frente ao Carnegie Hall, em Nova York, EUA: “Se todos pudessem estudar música, teríamos outra realidade, de pessoas mais sensíveis, capazes de lidar com os medos que têm”

Pianista Ericka Vilela com seus alunos, em frente ao Carnegie Hall, em Nova York, EUA: “Se todos pudessem estudar música, teríamos outra realidade, de pessoas mais sensíveis, capazes de lidar com os medos que têm”

No ano seguinte, fomos para Roma, na Itália. Fomos recebidos pela embaixada do Brasil, no Palácio Pamphili, um dos mais lindos que já vi. O embaixador era pianista, já não atuante, mas que ficou muito encantado de nos ver lá. E, por pouco, não tocamos no Vaticano para o papa Francisco. Isso não aconteceu porque foi quando ele tomou posse e, com a agenda cheia, não conseguimos. Mas uma carta, inclusive, já tinha sido enviada.

Depois disso, a embaixada da Tunísia no Brasil me convidou para que nos apresentássemos na Tunísia, uma vez que o governo de Goiás estava com relações com o país, mas por conta dos conflitos lá existentes, optamos por não levar os alunos. Fui apenas eu, da Itália para Tunísia. Eu me senti lisonjeada, pois fui representando o Brasil.

Em 2014, viajamos para Madri, na Espanha. Demos entrevistas para um canal que era transmitido para inúmeros países latinos. Tocamos em Madri e, depois, apresentamo-nos em Barcelona, onde o neto de Lorenzo Fernández muito se emocionou, pois tínhamos interpretado uma canção dele. Foi um momento inesperado e belo.

No ano passado, na dúvida de para onde ir, muitos falavam “ah, vamos para os EUA” e foi o que aconteceu. Na proposta de oferecer um contato cultural com outro país, incrementar a rede profissional, o que se leva para vida, fomos para o Carnegie Hall, em Nova York, onde músicos incríveis já tocaram. O máximo que eu podia ouvir na tentativa de apresentar lá era ouvir “não”. Tentei, com um projeto bem elaborado, e eles nos concederam a vaga, assim, escolhemos a data, para dali um ano. Para o currículo de alguém que vive da música, tocar no Carnegie Hall é ímpar, pois abre inúmeras portas. É uma maravilha profissional.

Este ano, decidimos ir a Paris, na França. Queria, antes até, apresentar no Palácio de Versalhes, mas devido os atentados, preferimos ficar mesmo em Paris. Apresen­tamo-nos, portanto, no Opéra Bastille. Nisso, foi difícil por não ter­mos tido o apoio da Lei Esta­dual de Cultura, mas não desistimos de fazer o projeto, que leva o nome do país afora. Tivemos o apoio da lei no primeiro ano apenas, quando fomos para a Es­pa­nha. Era preciso ter mais apoio, pois é muito caro, mas ela nos ajudou na estrutura, uma vez que é preciso alugar salas para ensaios, antes das apresentações, e tem os pianos que também são alugados e até a locação do teatro. Investimos em figurino, fotos, filmagem, pois nada disso é barato. Precisamos do apoio das leis de cultura.

Ainda assim, seguiremos. O ano que vem mesmo vamos para a Rússia — esse é o plano. Muitos dizem que sou corajosa e vejo que preciso mesmo tê-la, já que lido com sonhos, e não só os meus. Lido com sonhos de crianças, de famílias que nos acompanham e envolve treino, dedicação, amor pela música. Hoje, não é só com a tevê que competimos, tem ainda computador, celular e seus aplicativos; portanto, requer um malabarismos para atrair a atenção das crianças ao que é importante: a música.

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