Mulheres que brilham na música erudita em Goiás

Apesar de ser um universo ainda dominado pela presença masculina, as mulheres estão batalhando para romper com este paradigma e ganhar cada vez mais espaço. A profissionalização ainda é o maior desafio

Mulheres da Filarmônica, da esquerda para direita: Juliana Leal (violoncelo), Stefânia Benatti (flauta e piccolo), Ana Carolina Rebouças (violino), Simone Elenciuc (violino), Camila Ribeiro Rodrigues (viola), Jaqueline Dourado (percussão – convidada) e Fernanda Rosa Machado (violoncelo) | Foto: Rafaella Pessoa

Quando se pensa em música erudita, alguns nomes de imediato surgem em nossa cabeça. O de Mozart, por exemplo. Se confunde com a própria história do gênero. Mas o que muita gente desconhece é que o legado dos Mozart não está limitado à prolífica obra do caçula, Wolfgang Amadeus. Isso mesmo! Ele não era o único expoente musical da família. Sua irmã mais velha, Maria Anna Walburga Ignatia Mozart – que atendia pelo carinhoso apelido de ‘Nannerl’-, era igualmente talentosa. Muitos chegaram a afirmar que a primogênita era tecnicamente superior como instrumentista. As crianças percorreram a Europa em turnês e, por um momento, o nome dela chegou a aparecer em primeiro lugar em muitos dos concertos. No entanto, o destino se encarregou de dar aos irmãos destinos bem distintos.

Enquanto ainda celebramos a vida e obra de Wolfgang séculos após sua morte, à Maria Anna restou apenas o papel da “ilustre desconhecida” irmã. E a razão para que isso ocorresse foi única e exclusivamente o fato de Nannerl ser mulher. Enquanto o pai deles, Leopold, se dedicava ao talento do ‘filho-homem’, a primogênita era cada vez mais deixada em casa, para costurar e ‘caçar’ marido. À medida que foi se tornando adulta, apresentar-se em público foi se tornando algo inapropriado. Consequentemente, o trabalho musical de Maria não resistiu ao tempo e foi levada pelas brumas do esquecimento. Essa história veio finalmente a público com o monólogo The Other Mozart, espetáculo teatral da diretora e atriz Sylvia Milo, que entrou em cartaz há alguns anos nos Estados Unidos. Se Nannerl tivesse nascido cerca de três séculos mais tarde, muito provavelmente sua história seria bem diferente.

Atualmente, apesar de ser um universo ainda dominado pela presença masculina, as mulheres estão conseguindo romper com este paradigma e ganham cada vez mais espaço na música erudita. Elas não ficam atrás deles no que diz respeito à dedicação aos estudos e aos treinos, e resultado não poderia ser outro: um número crescente de instrumentistas de destaque. No entanto, a profissionalização ainda é o grande desafio para elas. Se a quantidade de mulheres é praticamente equivalente à de homens em cursos livres e conservatórios, o mesmo não ocorre em orquestras, por exemplo. Por uma série de questões culturais, as mulheres declinam de encarar a música como uma carreira e acabam optando por outros caminhos. Na Filarmônica de Goiás, são 6 mulheres do total de 52 músicos; enquanto que na Sinfônica de Goiânia, dos 80 músicos integrantes, 12 são mulheres. Já na Orquestra Sinfônica Jovem de Goiás (OSJG), segundo informa o maestro Eliel Ferreira, a proporção é ainda maior: são cerca de 25 mulheres em um total de 70 – pouco mais de um terço.

A seguir, vamos destacar algumas das mulheres que estão ajudando a dar contornos femininos ao cenário da música erudita em Goiás. Elas se encontram até mesmo em naipes que eram considerados ‘pouco femininos’ e até mesmo uma maestrina nós já temos em nossos quadros. Apesar de, pouco a pouco, conquistarem terreno, os desafios ainda são muitos. Mas conhecendo a trajetória destas mulheres, veremos que não há limites para elas. Com muita entrega, disciplina e paixão, musicistas vão construindo sua história de sucesso. Se Nannerl estivesse hoje aqui, estaria muito orgulhosa e talvez brilhando junto a elas. Mas para total malogro da Mozart primogênita, o “se” foi, literalmente, uma outra história.

Mulher no comando

Estando na linha de frente dos concertos, a maestrina Katarine Araújo vive esse desafio diariamente, a cada apresentação. Com muitos anos de dedicação, a goiana adquiriu um currículo invejável e chegou a um posto em que pouquíssimas mulheres alcançam na música erudita: a de maestrina. Mas engana-se quem pensa que os desafios terminaram por aí. Com grandes conquistas, surgiram grandes responsabilidades. “A posição de regente é geralmente ocupada por homens. Quando entramos nesse meio, precisamos nos esforçar e ser muito melhor do que eles para termos, pelo menos, aceitação. Nem sempre conseguimos”, lamenta.

Katarine Araújo, maestrina/regente | Foto: Ana Paula Lazari

Segundo Katarine, a exemplo do que ocorre em quase todos os segmentos da nossa sociedade, a ideia de que as mulheres são inferiores em sua capacidade técnica infelizmente ainda existe no meio erudito, ainda que de forma velada. “Não nos falam, mas você percebe no olhar de alguns. O que, na verdade, não deixa de ser um medo de perder o lugar e por isso tentam nos intimidar. Já ouvi comentários de que não poderia fazer algo, ou dar alguma advertência a alguém, por ser mulher. Questionei a pessoa e ela não soube responder qual o problema em ser mulher. É algo enraizado, ainda temos muito a caminhar”.

E o que não faltam a Katarine são credenciais que a respaldam para qualquer desafio. Graduada em piano pela Escola de Música da Universidade Fe­deral de Goiás e mestre em Música- Per­formance em Regência Orquestral na mesma instituição, participou de vários festivais e masterclasses com renomados professores de piano, música de câmara e regência, como Ale­xan­der Liebreich, Catherine LarsenMa­guire, Isaac Karabtchevisky, Kirk Tre­vor, Marin Alsop, Neil Thomson, entre outros. Atuou como regente assistente na Orquestra Sinfônica Jovem de Goiás, Orquestra Acadêmica Mozar­teum e no Coro da graduação da USP.

Atualmente, é uma das regentes do Ateliê Contemporâneo em São Paulo (Escola de Música do Teatro Municipal de São Paulo), o que faz com que Katarine esteja constantemente em trânsito pela conexão Goiânia/São Paulo. É também regente titular do Coro Sinfônico de Goiâ­nia e professora substituta na Escola de Música e Artes Cênicas da Uni­ver­sidade Federal de Goiás (E­mac/UFG). Em 2016, obteve o 1o lu­gar no 2º Concurso Nacional de Jo­vens Regentes do Theatro Mu­ni­cipal de São Paulo, onde foi assistente na Orquestra Expe­rimental de Re­per­tório, durante o mesmo ano. Como regente convidada, regeu a Orquestra Sin­fônica de Santo André (SP), Or­questra Sinfônica de João Pessoa (PB) e Orquestra do Teatro São Pedro (SP).

Na condição de professora e artista consciente de onde chegou, e qual a sua missão, Katarine procura não apenas formar, mas informar e estimular as futuras musicistas para as quais leciona e que convive. “A sociedade, como um todo, ainda é muito machista. Tem muita mulher musicista supercompetente, mas falta espaço e aconselho às jovens que nunca deixem de lutar por eles”, pontua.

Pianista que ganhou o mundo

Com toda a precocidade sapeca, peculiar à uma garota de 10 anos, ela decidiu: “Mamãe, quero fazer aulas de piano”. Em uma família sem qualquer relação com a música erudita, o pedido pode ter soado como uma surpresa. Mas foi ele que selou o destino desta goiana. E o destino de Ana Flávia Frazão foi ganhar o mundo. A pianista já foi aplaudida por audiências de países como Itália, Alemanha, Croácia, Japão e Estados Unidos e nas principais salas de concerto do País e da América do Sul. Já brilhou ao lado de músicos como Laurent Albrecht Breuninger, José Maria Blumenschein, Alfonso Mujica, Mark Neumann, Alexandre Razera, Massimo Macri, Dennis Parker, David Gardner, Milton Masciadri e Quarteto Carlos Gomes. Nas palavras do jornal alemão Badische Neueste Nachrichten, Ana Flávia é provida de uma interpretação que “possui uma mágica secreta”, que impressiona pelo toque refinado e bastante expressivo.

Natural de Goiânia, Ana Flávia Frazão iniciou-se nas aulas de piano com a professora Ivana Carneiro. Formou-se na Universidade Federal de Goiás (UFG) e deu sequência aos estudos na Alemanha, onde morou por oito anos para fazer mestrado e doutorado, com nota máxima pela Escola Superior de Música de Karlsruhe. Sucesso de crítica e de público, dedica-se especialmente à música de câmara. Em seu currículo, estão prêmios como os primeiros lugares no Concurso Nacional JK realizado em Brasília, em 1992, e na Série de Concertos da Sala Barroca em Kyoto, no Japão, com o Trio Augarten, em 2001. Por seu trabalho artístico e contribuição à cultura goiana, foi eleita uma das 75 Mulheres de Referência de Goiás pelo jornal O Popular (2013), recebeu Troféu Buritis, do Conselho Municipal de Cultura da Cidade de Goiânia (2014), e o diploma de “Mérito Cultural do Ano — 2015”, concedido pelo Conselho Estadual de Cultura do Governo de Goiás.

Ana Flávia Frazão | Foto: Maria Cristina Diniz

Em paralelo à movimentada carreira de pianista, Ana Flávia Frazão é professora associada de piano e música de câmara da Emac/UFG desde 2004. Dedicada e com larga experiência como docente, é frequentemente convidada para ministrar cursos, masterclasses e ser jurada em concursos de piano. Foi professora do Programa de Intercâmbio com a Universidade da Geórgia no Conservatório de Alessandria na Itália. Ana também participa da direção artística de projetos que oferecem programação dedicada à música de câmara em Goiânia, como as séries Concertos na Cidade e Concertos UFG.

Com o contrabaixista Milton Masciadri, lançou seu primeiro CD, Vocalize, em 2004, na Europa, pelo selo Sinfônica. Posteriormente, em 2012, gravou toda a obra de Heitor Villa-Lobos para piano e violino com o violinista alemão Laurent Albrecht Breuninger, trabalho também lançado na Europa pelo selo Telos. Em 2015, repetiu a parceria em CD e DVD com obras de compositores franceses e brasileiros. Mas Ana Flávia tem novos projetos no horizonte. “Pretendo trabalhar na gravação e divulgação do repertório brasileiro para violino e piano pelo meu duo com o violinista alemão, Laurent Albrecht Breuninger”, adianta.

Na avaliação da musicista, o mundo da música erudita é ainda predominantemente masculino. “Se a gente observar as orquestras do Brasil e do mundo, e o quadro de professores convidados para ministrar oficinas em festivais de música, a maioria ainda é de homens”. Mas ela afirma que o cenário que está mudando. “De uns anos pra cá, tenho percebido um número cada vez maior de mulheres, inclusive em áreas como a regência e a composição, que até então era domínio dos homens. Assim, nós mulheres estamos cada vez mais abrindo esse espaço e recebendo o merecido respeito”, completa.

“O violoncelo me escolheu”

Natural de Montenegro, pequena cidade da Região Metropolitana de Porto Alegre (RS), Fernanda Rosa cresceu imersa na cultura da música tradicionalista gaúcha, no seio de uma família de músicos amadores. “Meu tio e meu avô eram autodidatas. Acredito que herdei esse ouvido musical. Admiro muito esse talento de músicos que aprendiam sozinhos e se tornavam ótimos instrumentistas, mesmo sem ter uma formação. Ainda mais em uma época em que não havia internet”, recorda-se. Começou a aprender música aos 8 anos, em aulas de violão e com a ajuda das famigeradas revistas de cifras, com as músicas de sucesso da época. Por volta dos 16 anos, formou banda com colegas da escola e passou a tocar guitarra. “Neste período da adolescência, passei a experimentar, além da música tradicionalista, outros estilos musicais, como o rock”. Foi quando Fernanda também se aventurou a cantar na noite, como artista de voz e violão.

Fernanda Rosa, violoncelista | Foto: Patrício Orosco

Fernanda só cogitou em seguir na música profissionalmente às vésperas do vestibular, mas algumas dificuldades para concretizar a escolha surgiram, como as condições financeiras da família e a falta de formação teórica. “Eu não tinha esse conhecimento, pois só sabia a tocar de ouvido”, afirma. O tempo urgia para Fernanda que, em pleno terceiro ano do Ensino Médio, viu que precisava correr. Decidiu então se inscrever na Fundação Municipal de Artes de Montenegro (Fundarte), instituição pública que oferecia cursos gratuitos. Como a lista de espera para violão, instrumento de sua preferência, era “interminável”, ela optou por um que “ninguém quisesse”. A estratégia era entrar na instituição e, estando lá dentro, fazer a troca. “Vi que tinha vaga para um tal de violoncelo”, recorda-se rindo. “Mal sabia o que era. Sabia que era de orquestra. Como não havia nenhum candidato interessado, logo fui chamada e consegui a bolsa. Quando cheguei para a primeira aula, e a professora passou o arco nas cordas, aquele som preencheu toda a sala. Fiquei encantada! Foi amor à primeira vista. Por isso, sempre digo: não escolhi o violoncelo, ele me escolheu. E minha vida mudou completamente”, afirma.

Foram 4 anos de preparação para, em 2008, aos 22 anos, entrar para a Faculdade de Música na Universidade Federal em Santa Maria (RS), onde graduou-se. Logo o destino se encarregou de levar Fernanda ao mesmo local onde tudo começou. “Surgiu uma vaga para professora de violoncelo na Fundarte, justamente onde comecei meus estudos. Trabalhei lá durante 2 anos, o que foi muito gratificante, pois vi que todo meu esforço valeu a pena”, avalia. A próxima parada de Fernanda foi o nordeste brasileiro, para fazer mestrado em Música Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, em Natal. Após dois anos de estudos de aperfeiçoamento em violoncelo e inserção em pesquisa acadêmica, seguiu para João Pessoa (PB), onde atuou como violoncelista na Orquestra Sinfônica da Paraíba até 2017.

Após a temporada no Nordeste, a gaúcha acabou retornando para a terra natal, onde passou a viver de cachês em apresentações e como professora. Fernanda chegou a ‘subir a serra’ ao saber de uma vaga para professora na rede pública de Veranópolis (RS), mas este ano o destino interveio novamente e a trouxe para o cerrado. “Fui surpreendida com a notícia de uma vaga que surgiu aqui, na Filarmônica de Goiás, mais ou menos no mês de abril. Fui selecionada e acabei ficando pouquíssimo tempo em Veranópolis”. As mudanças nunca assustaram Fernanda, mas agora ela se diz satisfeita de ter se fixado em Goiás. “Minha vida sempre foi bem surpreendente e aberta às possibilidades. Faz pouco tempo que estou aqui e estou muito feliz. A Filarmônica de Goiás é uma orquestra de renome no País, com um trabalho artístico muito reconhecido. Tenho vários colegas muito talentosos e nosso maestro, o Neil Thomson, é um excelente regente”, elogia.

Na visão da musicista, a cultura tem avançado ao longo destes anos e hoje existem muito mais oportunidades, especialmente para aqueles estudantes mais carentes, por meio de projetos sociais. Mas a artista acredita que ainda há muito a melhorar e frisa a necessidade de se estimular especialmente as mulheres. Fernanda conta que na Filarmônica de Goiás, o naipe de violoncelos é composto de duas mulheres e quatro homens, mas em naipes como o de violinos, essa diferença numérica ainda é mais discrepante. “Precisa­mos impulsionar isso e tentar buscar a igualdade, tanto financeiramente, quanto em termos de reconhecimento. No mundo erudito, é nítido que o número de mulheres é bem menor. É o que acontece em nossa orquestra. Algumas mulheres chegaram na mesma época que eu e logo construímos um laço forte de amizade. Acho muito importante essa união”, reflete.

Sopro na mudança

Foi na terra da Rainha e dos Beatles que, ainda na infância, Sabrinna Costa percebeu que seguiria os passos do pai, trompetista que, em meados dos anos 70 e 80, tocava na noite e na banda marcial da cidade de Orizona. A família da menina, que tinha instrumentos musicais entre os brinquedos, mudou-se para Londres quando ela tinha 6 anos. “Gosto de pensar que foi ali que teve início a minha musicalização. Fui alfabetizada no Reino Unido, que tem uma tradição muito forte em música coral e lírico. Lá que fui ter contato, de fato, com a música erudita”, comenta. Logo quis aprender violoncelo, mas a falta de dinheiro para pagar aulas obrigou Sabrinna a adiar os planos. “Lá não é igual aqui, que tem projetos sociais e escolas gratuitas. É tudo pela iniciativa privada. Os conservatórios são todos pagos e custam muito caro. Tentei estudar sozinha, ‘fuçando’ no teclado e no violão”, lembra-se risonha. Chegou a fazer balé, porque era mais barato.

Sabrinna Costa, oboísta | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Ao retornar para o Brasil, aos 13 anos, finalmente pôde aprender a tocar instrumento, ao ingressar no curso Técnico Integrado em Instrumento Musical, no Instituto Federal de Goiás (IFG). Passou pela percussão e sax, até que finalmente viu no oboé a ‘porta’ para o universo da música orquestral e erudita em geral. O ‘encontro’ se deu na passagem da turnê da Osesp por Goiânia, em 2011, em apresentação única no Teatro Rio Vermelho. “Esse evento me marcou demais. Foi quando reparei no oboé. Fiquei muito interessada e quis aprender”, conta Sabrinna, que começou a prática do instrumento aos 16 anos, no terceiro ano do curso. “Para aprender qualquer instrumento é muito tarde. Mas esse é um problema que temos aqui no Brasil. É muito difícil comprar instrumento e nem sempre temos condições de pagar aula”, justifica.

Mas a musicista conseguiu recuperar-se do início tardio. Logo ingressou na Orquestra Jovem do Itego Basileu França e na banda Nilo Peça, e desde maio de 2016 é oboísta da Orquestra Sinfônica de Goiânia, sua primeira atividade como profissional. Neste ínterim, já se apresentou na Alemanha e participou de vários festivais. Tem planos de estudar em São Paulo, mas o grande sonho é estudar fora do Brasil para, no futuro, tornar-se uma oboísta de projeção internacional, preenchendo uma lacuna que a própria musicista identifica. “Meu instrumento não tem muita representatividade feminina. Existem diversos oboístas de fama mundial que admiro, mas não tem uma mulher sequer! E disso sinto falta. Parece que o oboé não é um instrumento muito feminino. Até mesmo em festivais, quase não encontro outras mulheres. Geralmente, é somente eu e mais uma só”, completa rindo.

A atuação feminina na música erudita, especialmente no segmento orquestral, é, inclusive, um assunto que lhe instiga como pesquisadora musical. Tanto que foi a temática que elegeu para seu trabalho de conclusão de curso na UFG, onde irá se graduar em música. “Até uns 20 anos atrás, praticamente não existia mulheres neste cenário. Tive o privilégio de ter começado a estudar Música na ‘época certa’. Eu nunca tive qualquer problema pelo fato de ser mulher, mas pode ser que tenha tido muita sorte. Nunca passei nem presenciei qualquer situação constrangedora, mas sei que ainda acontece. Observo que, nos conservatórios, a presença de homens e mulheres é quase igual. Isso nos leva à conclusão de que, infelizmente, as mulheres não estão se profissionalizando e encarando a Música como uma carreira”, conclui.

Kesyde Sheilla Souza Reis, clarinetista | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Profissionalização esta que já é praticamente certa para Kesyde Sheilla Souza Reis. Com 8 de seus 20 anos de idade dedicados ao clarinete, a jovem atualmente cursa bacharelado na Emac/UFG. Começou a estudar música na igreja, cantando no canto coral infantil. Aos 12 anos, começou a fazer aulas de clarinete. “Eles queriam formar uma orquestra. Fui pegando gosto. Percebi que gostava muito deste ambiente e meu professor me sugeriu que entrasse no Basileu França para estudar”, relata. Após cursar o nível básico e técnico nesta instituição, Kesyde entrou para o grupo B da Sinfônica Jovem, em 2012, e logo em 2014 passou para o grupo principal.

Desde os 15 anos, já vem tendo a experiência de participar de festivais fora de Goiânia e eventos em Brasília (DF), Poços de Caldas (MG), Lages (SC) e Rio de Janeiro (RJ). Assim como a grande maioria das promessas do meio erudito, seu objetivo é partir para outros horizontes. “Na igreja, eles não me levavam muito a sério, digamos assim. Tinham mais consideração e apoiavam mais os músicos homens. Não sabia porquê. Mas isso já foi. Hoje pretendo me formar e sair de Goiânia, e do Brasil. Fazer mestrado, conservatório. Estudar e seguir, profissionalmente”.

“Lindo, porém muito difícil”

Foi assistindo às aulas de piano da mãe, Patrícia, e às apresentações do pai, Josias, na banda de música da PM em Goiânia, que a menina Samara Gadelha pegou gosto pela música. O primeiro contato com aquele que seria, no futuro, seu maior companheiro, aconteceu logo aos 6 anos. “Nos mudamos para o interior, Rio Verde, onde meu pai deu início à uma orquestra de cordas na Igreja Evangélica Assembleia de Deus. Foi quando tive meu primeiro contato com o violino. Achei o instrumento lindo, porém muito difícil de se aprender”, recorda-se. Essa dificuldade inicial fez com que Samara desanimasse e chegasse a pensar em parar de tocar. Passou a se interessar por canto, frequentando aulas e participando de apresentações do coro como solista.

Samara Gadelha, violinista | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Até que, aos 14 anos, um episódio reascendeu a chama. “Participei do meu primeiro festival de música, no conservatório da cidade de Uberlândia (MG). Foi lá que tive o primeiro ‘susto’. Vi a quantidade de pessoas da mesma idade tocando violino e muito bem. Foi quando decidi que queria ser violinista e que a música seria o trabalho dos meus sonhos”, relembra. Plano que tinha apoio total dos pais e, aos 16 anos, Samara retornou para Goiânia para ter aulas com o professor Salmo Lopes. “Tive que aprender tudo do zero, pois adquiri muitos vícios que precisavam ser corrigidos”. Logo, a jovem reencontrou o caminho de volta ao instrumento e dele não largou mais.

Aos 19 anos realizou um de seus primeiros sonhos, o de entrar na Universidade Federal de Goiás, (UFG). Logo aos 20, ingressou na Sinfônica Jovem, onde pôde participar da primeira turnê internacional para Espanha. Formou-se na faculdade aos 23 anos, e após o período da colação, começou a dar aula em um projeto de música em Cachoeira Dourada, através do qual teve a oportunidade de viajar para a Itália, com a Orquestra Sinfonia do Amanhã. Retornou para a Sinfônica Jovem e participou de mais uma turnê internacional; dessa vez, para a China.

Atualmente, Samara se dedica totalmente aos estudos do violino, tendo sido aluna de Thierry de Lucas e hoje com o renomado professor Luciano Pontes. Já participou de festivais, como o de Campos do Jordão, agora em 2018. Recentemente foi aprovada na Orquestra Sinfônica de Goiânia, o que considera “mais um sonho realizado”. Parece muito para quem lê, mas para a jovem musicista é só o começo. “Sei que ainda falta muito para mim. O caminho de um violinista é longo e árduo, principalmente pela falta de emprego nessa área. Porém, o prazer e a gratificação por tocar esse instrumento tão ‘belo’, tanto aos olhos como aos ouvidos, compensa todo o esforço. E continuo correndo atrás dos meus sonhos, por que sem eles eu não seria o que sou”, completa.

Quando ‘tudo era mato’

Se hoje as musicistas encontram em Goiás uma gama enorme de oportunidades para trilharem seus passos na carreira, é graças a mulheres de garra e talento, que desbravaram esse território e deixaram o caminho pavimentado para as futuras gerações. Saiba quais foram algumas destas pioneiras:

Belkiss Spenzieri Carneiro de Mendonça

Mesmo quase 13 anos após sua morte, o posto de Belkiss de grande dama da música goiana continua intocável. Dona de uma personalidade adorável, querida em todas as rodas da sociedade. Assim era conhecida a pianista virtuose, que teve uma carreira de sucesso que extrapolou as fronteiras e conquistou a admiração de público e da crítica no Brasil e no exterior. Responsável pela formação de boa parte dos músicos goianos, ela ocupava a cadeira 17 da Academia Brasileira de Música. Nascida na cidade de Goiás no dia 15 de fevereiro de 1928, iniciou o estudo de piano com a avó Maria Angélica da Costa Brandão (Nanhá do Couto), grande incentivadora da música e especialmente da neta. Concluiu com louvor o curso na Universidade Nacional de Música, no Rio de Janeiro, na classe dos mais brilhantes professores da época, como Camargo Guarnieri e Arnaldo Estrella. De Villa-Lobos, obteve informações preciosas para a montagem do Conservatório de Música (atual Emac/UFG) que ajudaria a fundar, realizando o sonho da avó Nhanhá. Belkiss foi professora titular e diretora da escola desde sua fundação em 1956 até agosto de 1977, quando se aposentou. Como solista, apresentou-se com várias orquestras em praticamente todos os Estados brasileiros e em países da Europa, da América Latina e nos Estados Unidos. Foi eleita para a Academia Brasileira de Música em 2002. Em 2004, a convite do então embaixador brasileiro no Marrocos, Lauro Moreira, fez um concerto especial naquele país. Gravou música brasileira para as Rádios Suisse, Romande (Genebra), BBC (Londres), Rádio Viena, Rádio Difusão Portuguesa, Rádio Nederland e outras. Faleceu em Goiânia, em novembro de 2005.

Belkiss Spenzieri Carneiro de Mendonça | Foto: Divulgação

Maria Lucy Veiga – “Fifia”

Nome fundamental para se pensar a música em Goiás, é uma das fundadoras da Emac, ao lado de Belkiss Spenzieri, Maria Luiza Póvoa da Cruz e Dalva Bragança. Formadora de gerações de músicos e professores de música no cenário goiano. À frente dos coros do Conservatório Goiano de Música (1956-60), da Escola Técnica Federal (1955-76) e, de 1960 a 1983, do Coral da Universidade Federal de Goiás, Maria Lucy estabeleceu novo padrão de excelência e disciplina para gerações futuras de regentes e cantores. No último dia 4, aos 92 anos, Maria Lucy Veiga Teixeira recebeu o título de Professora Emérita da UFG.

Maria Lucy Veiga Teixeira recebeu o título de Professora Emérita da UFG | Foto: Divulgação

Maria Luíza Póvoa da Cruz

Também teve imensa colaboração na fundação da atual Emac/UFG. Conhecida como Dona Tânia, estruturou a escola, firmando-a como uma referência de qualidade no ensino da música em Goiás. Também foi coordenadora técnica da Orquestra Sinfônica de Goiânia. Nasceu na Cidade de Goiás. Foi diretora da Escola de Música do Centro Cultural Gustav Ritter e superintendente e diretora da Fundação Orquestra Sin­fônica de Goiânia. É membro titular da Academia Nacional de Música, e da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (Aflag).

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