Muletas, erros e acertos encerram mega saga da Marvel em Vingadores — Ultimato

Com a obra é possível que filmes de herói se enfraqueçam. Conclusão da saga Marvel, que construiu um universo coeso e interligado, deve diminuir o ritmo de produções

“Vingadores — Ultimato” é a sequência direta de “Vingadores — Guerra Infinita”, do ano passado. O longa é o penúltimo filme da fase três da Marvel nos cinemas (“Homem Aranha — Longe de Casa”, que estreia em 4 de julho, será o último), mas encerra a mega saga cinematográfica iniciada com Homem de Ferro, em abril de 2008.

Apesar de ter estreado em 25 de abril, o filme já ultrapassou a arrecadação mundial de US$ 2,5 bilhões em bilheteria. O longa, só em campanha de marketing, segundo o Deadline, custou US$ 200 milhões. O custo de produção, dividido com “Guerra Infinita”, foi de US$ 400 milhões.

Ordem cronológica

Em ordem cronológica para a história — não a de lançamento — os filmes da Marvel são apresentados da seguinte forma: “Capitão América — O Primeiro Vingador” (1943-1945), “Capitã Marvel” (1995), “Homem de Ferro” (2010), “O Incrível Hulk” (2011), “Homem de Ferro 2” (2011), “Thor” (2011), “Os Vingadores” (2012), “Homem de Ferro 3” (2012), “Thor — O Mundo Sombrio” (2013), “Capitão América 2 — O Soldado Invernal” (2014), “Guardiões da Galáxia” e “Guardiões da Galáxia 2” (2014), “Vingadores — Era de Ultron” (2015), “Homem-Formiga” (2015), “Capitão América — Guerra Civil” (2016), “Homem-Aranha — De Volta ao Lar” (2016), “Doutor Estranho” (2016-2017), “Pantera Negra” (2017), “Thor — Ragnarok” (2017), “Homem-Formiga e a Vespa” (2017) e “Vingadores — Guerra Infinita” (2017).

A sinopse deste último longa traz o seguinte: “Após Thanos eliminar metade das criaturas vivas, os Vingadores precisam lidar com a dor da perda de amigos e seus entes queridos. Com Tony Stark vagando perdido no espaço sem água nem comida, Steve Rogers e Natasha Romanov precisam liderar a resistência contra o titã louco”.

O texto não diz, absolutamente, nada. O medo de revelar qualquer informação sobre o filme, de apresentar um spoiler, entregou trailers e sinopse que não informavam nada do longa. O objetivo, claro, era dar ao espectador uma surpresa. E como a conclusão de mais de dez anos de história é algo que se vende sozinho…

Sinopse com spoilers

Atenção, apresento spoilers leves, que não vão afetar quem ainda não viu. Em tempos passados, esse tipo de informação não chegaria a incomodar, mas, de qualquer forma, leia por sua conta e risco. Talvez queira ver o filme primeiro.

Tony Stark vagou perdido no espaço por uns pouquíssimos minutos. Ele é resgatado pela Capitã Marvel e volta à Terra a tempo de colocar a culpa no Capitão América, encontrar Pepper Potts grávida e se mudar com ela e com a filha (que virá) para uma casa afastada.

Alguns Vingadores se reúnem mais uma vez — sem Tony mas com a Capitã Marvel, Rocket e Nebula — para atacar Thanos, recuperar a manopla do infinito e estalar novamente os dedos e trazer os desaparecidos de volta. Infelizmente, o titã usou as joias para destruir… as joias.

Desta vez, Thor acerta na cabeça e mata o monstro, que já estava debilitado. Cinco anos vão se passar até que o Homem-Formiga ressurja. Ele estava preso em um universo quântico (veja “Homem Formiga e a Vespa”). Com a aparição do herói, um novo plano, que envolve viagem no tempo, é construído e a equipe irá se reunir mais uma vez.

É preciso ressaltar que, neste período, também é mostrado o que houve com o Gavião Arqueiro. Ele perdeu sua família no estalar de dedos (primeira cena do filme) e se tornou um justiceiro solitário — nos moldes da personagem Justiceiro —, executando criminosos pelo mundo afora. Afinal, a família dele não teve chance e essas pessoas que tiveram ainda agem como bandidas…

Muleta

Agora, quem não viu, não deve ler se quiser preservar a surpresa. O termo “muleta” serve para designar aquela ajuda para o roteiro, que não seria natural. É roteirismo, mesmo. E, em “Vingadores — Ultimato”, ela está presente.

A viagem no tempo para resolver uma situação é, por si só, uma enorme muleta. No filme, é usada sem consequência nenhuma para o passado. Equipes são mandadas em três linhas temporais para pegarem todas as joias do infinito — e mesmo que, no fim, estas sejam colocadas no lugar, no mesmo momento, eles foram tiradas, o que ao menos faz pensar.

Os heróis como humanos: sem os trajes de guerra

Em uma das viagens temporais, Hulk e a então maga suprema (antecessora do Doutor Estranho) debatem sobre a lógica de mundos paralelos para que o Verdão possa pegar a pedra sem impactar o tempo. É outra explicação sobre as alterações no passado e sobre multiversos, que serão mais bem trabalhados em “Homem-Aranha — Longe de Casa”.

Fora isso, há uma série de encontros que poderiam causar algum impacto, mas Tony, antes da ação, deixa claro que a viagem no tempo não funciona como nós conhecemos pelos filmes (“De Volta para o Futuro”, “Exterminador do Futuro” e outros mais). E todo mundo releva pela diversão.

Mas de volta ao… presente ou quase, digamos assim: as equipes foram enviadas em formato que só poderia dar certo. Para pegar a joia da alma, só serviria quem realmente foi (a briga para ver quem vai se sacrificar é emocionante). Uma interferência de sinal entre a Nebula do passado e a Nebula do presente que faz Thanos descobrir todo o plano dos heróis é muito, mas muito forçada, mas necessária para a principal cena do filme: a batalha.

Batalha

Com sacrifícios, sequestros e algumas dificuldades — que dão uma certa fadiga — ,os heróis reúnem todas as joias e voltam no presente. Hulk estala os dedos (o que o debilita, como foi com Thanos) e traz os desaparecidos de volta. Nesse momento, o Titã do passado vem para o presente e uma luta épica se inicia.

Aqui, o Titã sai em vantagem em uma luta sozinho (seu exército brigava em outras frentes) contra Thor (que está incrivelmente gordo e cervejeiro), Homem de Ferro e um Capitão América capaz de portar o Martelo do Trovão (o irresponsável do Thor pegou sua arma no passado, mas Tony Stark falou que não afeta igual aos filmes, então tudo bem). Mas, quando tudo parecia perdido, os magos, liderados por Doutor Estranho, trazem todos os heróis e o exército de Wakanda para a luta.

P.S.: Não há cena melhor que o Homem Formiga, Gigante, dando um soco em uma daquelas naves em formato de cobra que aparece no primeiro Vingadores.

O Homem de Ferro: o grande herói e… nada de spoiler… | Foto: Divulgação

Outros pontos

O filme todo “se prepara” para essa batalha. É esse embate que vale o filme de mais de 3 horas dos irmãos Anthony Russo e Joe Russo. O final previsto pelo Doutor Estranho é o que acontece. Os heróis vencem com uma grande perda — que é revelada no trailer de “Homem-Aranha — Longe de Casa” (e que foi exibido antes da minha sessão, preciso esclarecer).

Este longa, como todos que reúnem muitos personagens, dá pouco tempo de cena a cada um. Destaques para Tony Stark, Capitão América, Viúva Negra, Gavião Arqueiro, além de Thor, Homem Formiga, Hulk e Nebula em uma escala um pouco menor. Os demais participaram, por assim dizer, mas o encontro do Homem-Aranha com o Homem de Ferro e também o desfecho foram muito bonitos, emocionantes.

Ademais, este é um bom filme, com um bom encerramento. É blockbuster. É entretenimento puro e não nega isso. Não se vende como obra de arte — só os mais ardorosos fãs verão dessa forma. A verdade é que amamos esses longas-metragens, mas 90% não passa do razoável. “Vingadores — Ultimato”… bem, este passa.

Elenco

Além da direção dos irmãos Russo, o roteiro é de Christopher Markus e Stephen McFeely. No elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Scarlett Johansson, Chris Hemsworth, Karen Gillan, Tom Holland, Mark Ruffalo, Josh Brolin, Jeremy Renner, Paul Rudd, Chris Pratt, Sebastian Stan, Gwyneth Paltrow, Tom Hiddleston, Bradley Cooper, Benedict Cumberbatch, Evangeline Lilly, Don Cheadle, Jon Favreau, Danai Gurira, Anthony Mackie, Tilda Swinton, Benedict Wong, Tessa Thompson, Zoe Soldaña, Chiwetel Ejiofor e mais.

Visão técnica

Ana Helena Borges é jornalista e graduada em audiovisual. Segundo ela, “Vingadores — Ultimato” é a “coroação do universo pop dentro do cinema. É a maior franquia da história, foi construída ao longo dos anos com acertos e erros e teve uma estrutura gigantesca para popularização dos personagens até chegar ao ‘filme final       . A popularização do universo ‘nerd’ passa pelo crescimento da franquia e chega ao auge com os recordes de bilheteria, alcançando diversos tipos de públicos”.

A expert diz não ser possível fazer avaliações técnicas sem falar do que o filme representa como fenômeno cultural. “‘Ultimato’ é uma ode ao mundo nerd, a uma corrente estética, que a Marvel participou com papel principal, evoluiu, cresceu e de certa forma a fez da forma como a conhecemos.”

Para Ana Helena Borges, não se trata de um filme-arte, uma ode ao cinema, mas uma ode ao pop. “O filme traz também uso de tecnologia e avanços em efeitos especiais acumulados ao longo das últimas décadas. Não é surpreendente que os filmes bancados pela Disney apareçam na lista do Oscar de efeitos especiais sempre e, possivelmente, deva repetir a dose.”

Ana Helena Borges observa que os efeitos especiais são impecáveis e há uma exploração do 3D bem-feita, sem ser enjoativa, nas cenas de ações e no espaço. “Um dos maiores exemplos está no início, com a cena de Tony Stark no espaço. É bem construída para o 2D e tem excelente resultado no 3D.”

Oscar

A jornalista sublinha que a indicação ao Oscar (e uma possível vitória) poderia ser feita até como uma homenagem à saga. “Isso aconteceu no encerramento da trilogia de ‘O Senhor dos Anéis’. Apoiam essa corrente dois pilares que levaram nomes populares ao reconhecimento na principal categoria da premiação: realização técnica e marco de gênero. O mesmo se repete para efeitos sonoros (ou mixagem de som), com cenas de explosões, uso de trilhas e silêncio em alguns momentos.”

Segundo a profissional de audiovisual, também dentro dos efeitos visuais/especiais, mas com ênfase na montagem, “Guerra Infinita” traz uma separação estética bem realizada entre os universos dos super-heróis. “Ou seja, ao acompanhar um grupo de personagens, como os Guardiões da Galáxia, o espectador é visualmente transportado para aquele universo, ao retornar o foco para a Terra, muda-se também a estética.”

Neste longa, conforme Ana Helena Borges, essa divisão se torna mais sutil estrategicamente para mostrar o desolamento, independentemente do local, bem como a união das personagens que, agora, só passam ter uns aos outros. “Isso fica claro em diálogos também como o de Viúva Negra, quando avisa que tem conversado, teoricamente, com um animal [Rocket], deixando claro que não há mais separação.”

Atuação

Na atuação, a jornalista destaca que o longa explora mais o talento de Robert Downey Jr., “que rouba a cena muitas vezes”. Por mostrar um lado mais humano do personagem, até então somente egocêntrico e playboy, ela destaca que se tem cenas de atuações fortes e marcantes, que deixam claro um outro Homem de Ferro, que busca novos motivos de sua existência e até uma certa felicidade pelo novo rumo tomado, com a vida na fazenda e filha. “Ele segura o início do filme como um todo. A empatia criada pelo personagem se dá pela mudança na atuação ao longo do filme: aceitando a morte, no mix de revolta e desolação ao retornar na Terra, no pai de família e, em seguida, na redescoberta do herói.”

Roteiro

Para a especialista, o filme é bom para quem gosta de super-heróis e uma “loucura” para os fãs pelo roteiro bem trabalhado com referências a todos os filmes da Marvel que construíram a saga. “Todos os momentos mais importantes fazem menções a filmes anteriores, desde sutis como a valsa de Capitão América com Carter, a conversa invertida com Buker no fim do filme, e o ‘à sua esquerda’ que marca o retorno dos personagens. E, ainda, as escancaradas, como a de Thor ao acertar Thanos na cabeça e de Homem de Ferro ao concluir ‘’e eu sou o Homem de Ferro’”.

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