Morte de Gregory Rabassa passa (quase) em branco e mostra a pouca importância da literatura no Brasil

Um dos grandes responsáveis pela difusão da literatura latino-americana ao traduzi-la para o inglês faleceu na segunda-feira, 13. No dia, nenhum veículo brasileiro noticiou o fato

Gregory Rabassa, um dos grandes tradutores do mundo, difundiu a literatura de um continente e precisa ser lembrado pelo trabalho que fez | Foto: Chester Higgins Jr./The New York Times

Gregory Rabassa, um dos grandes tradutores do mundo, difundiu a literatura de um continente e precisa ser lembrado pelo trabalho que fez | Foto: Chester Higgins Jr./The New York Times

Marcos Nunes Carreiro

Quarta-feira, 15, 13h41. Estou sentado na redação do Jornal Opção me preparando para entrevistar o tradutor estadunidense Eric M. B. Becker. Por acaso, fico sabendo da morte de Gregory Rabassa, falecido na madrugada da segunda, 13, mas que só teve a morte divulgada na terça, 14.

Rapidamente, leio as matérias do “Washington Post” e do “La Na­ción”, publicadas ainda no dia 14. O que me chama a atenção, entretanto, é o fato de nenhum jornal brasileiro ter dado a notícia. Antes que Eric chegue para a entrevista, marcada para às 14h, escrevo a nota para publicar no site do Jornal Opção. Uma hora depois, a notícia se espalha pela grande imprensa brasileira.

A história que inicia este texto tem como único objetivo mostrar como o Brasil pouco se interessa por sua literatura. Por quê? Bem, nas palavras de Eric Becker, seu conterrâneo, Rabassa foi um dos grandes da tradução literária no mundo. “A giant”. Sua tradução mais conhecida, a de “Cem Anos de Solidão”, teve um papel fundamental na grande difusão do escritor colombiano Gabriel García Márquez, o Gabo, que ganhou o Nobel de Li­teratura em 1982.

Além de Gabo, Rabassa traduziu para a língua inglesa obras de outros três ganhadores do Nobel: do guatemalteco Miguel Ángel Asturias (1967), do mexicano Octavio Paz (1990) e do peruano Vargas Llosa (2010). “Mas”, pode perguntar o leitor desavisado, “todos os nomes citados são de países hispânicos. Qual a ligação disso com o Brasil?”. Res­posta simples: grandes escritores brasileiros, como Machado de Assis, Jorge Amado, Osman Lins e Clarice Lispector, passaram por Rabassa.

Machado, nosso maior escritor, foi difundido nos Estados Unidos pelo trabalho de Rabassa. Osman, que era um escritor deveras criterioso, trocava correspondências com ele, abrindo-se ao tradutor estadunidense, deixando-o entrar no mundo onde habitava seu “Avalovara”. Clarice, seguramente a escritora brasileira mais difundida no exterior atualmente, chegou lá também pelas mãos do estadunidense.

(Sim, é certo que Clarice andou por muito tempo esquecida e foi “ressuscitada” por Benjamin Moser, autor de “Why this world?”, biografia da autora que foi muito bem aceita nos Estados Unidos, e que motivou a publicação de “The complete stories”, coletânea que reúne todos os contos de Clarice — ironicamente, a coletânea da brasileira só chegou ao Brasil recentemente. Porém, é certo dizer: tal difusão teve uma participação importante de Rabassa.)

Então, por que os jornais de nossos vizinhos hispânicos deram a notícia da morte do escritor com uma diferença pequena de tempo, mas os brasileiros só o fizeram muito depois? Em grande parte, porque as redações da grande imprensa nacional, mesmo as que têm bons cadernos de cultura, geralmente só se interessam pelas notícias de fácil acesso ou pelos autores de editoras influentes como a Companhia das Letras.

Mais: a verdade é que o Brasil pouco se interessa por literatura. Uma parte considerável dos jornalistas, por exemplo, lê pouco, o que explica muito da pobreza palpável de seus textos. Mesmo muitos professores de literatura, engolidos pelas falhas do sistema educacional brasileiro, acabam lendo pouco, por mais irônico que isso possa parecer. Logo, é esperar muito que as pessoas conheçam Osman ou Rabassa.

Ainda é possível ir além: mesmo entre aqueles que leem consideravelmente bem ou que leem muito — estes são raros —, poucos se dedicam a fazer o trabalho necessário de divulgação da literatura brasileira fora dos limites do país. O motivo é a clara falta de diálogo entre o Brasil e o restante do mundo, pelo menos de forma maciça.

Existem algumas ações nesse sentido, mas que são geralmente propostas pelos próprios escritores, que querem ver suas obras lidas por mais pessoas. Editoras e revistas também têm atuações nesse sentido, mas isso deveria ser feito de maneira mais ampla. Afinal, os escritores de um país são representantes de sua cultura.

Políticas públicas para difusão da literatura e da língua brasileiras começaram a ser desenhadas a partir do governo Fernando Henrique Cardoso, mas não foram aprimoradas ou aprofundadas e, portanto, mostraram-se inócuas. No fim de 2014, em conversa com o professor italiano Gian Luigi de Rosa, da Università do Salento, em Lecce, na Itália, ouvi reclamações sobre a falta de políticas de incentivo à difusão da língua brasileira pelo mundo. Portugal o faz.

O que isso mostra? Que “o Brasil é um continente fechado em si mesmo”. A fala é de Omar Nieto, professor da Universidad Nacional Autónoma de México. Encontramo-nos no Peru, durante um congresso sobre literatura fantástica que reuniu pesquisadores de vários países da América Latina. A conversa começou quando perguntei a ele o que havia lido da literatura brasileira atual. A resposta: Guimarães Rosa. Espanto.

Segundo ele, o Brasil não dialoga com seus vizinhos e não parece fazer questão de que seus autores sejam lidos. (Ok, existe certa negligência na fala de Omar. No mesmo dia em que me falou isso, no salão do Centro de Estudios Lite­rarios Antonio Cornejo Polar, em Lima, Marina Colasanti palestrava em Bogotá, na Colômbia, a convite de outro congresso sobre literatura.)

Contudo, se a assertiva não é completamente acertada (perdão pelo trocadilho), há verdades na afirmação do mexicano. A questão é: o mundo conheceria Clarice, Osman, ou mesmo autores recentes como Milton Hatoum ou Adriana Lisboa, se não fosse pelo trabalho de tradutores estrangeiros que, como Rabassa, têm interesse na literatura brasileira? Se dependesse da importância dada pelo Brasil aos seus autores, é provável que não.

Logo, lembremo-nos de Rabassa e honremos seu trabalho, assim como o de outros tradutores. Seu papel é essencial pa­ra um país que ainda não se importa o suficiente com sua arte.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Ronaldo Soares

Lamentável o pouco destaque que nossa literatura tem na nossa imprensa. E a falta da devida divulgação da literatura brasileira no exterior. Portugal faz excelente trabalho de difusão da literatura e da língua portuguesas com o Instituto Camões. E nosso País nem sequer tem uma instituição semelhante para esse trabalho no exterior! Faz mais de 10 anos que ouço falar do “Instituto Machado de Assis”, que nunca saiu do papel!

Uma observação: o que este artigo chama de “língua brasileira” chama-se –língua portuguesa–, ou pelo menos –língua portuguesa do Brasil–.

Fabiane Ariello

Como tradutora e jornalista, vou tentar redimir a classe. Para começar, se a família não divulga o acontecimento, não tem como escrever nada a respeito – ninguém fica conferindo se a pessoa está viva ou não. Além disso, ele morava nos EUA. A família é de lá. Não tem muito contato com a imprensa do Brasil. Quando as agências de notícias divulgaram a morte, a Folha de S.Paulo publicou no site, mas o que mais poderiam fazer? Todos os dias morrem pessoas que fizeram imensa diferença em suas áreas de atuação, e nem sempre os jornais podem homenageá-las como mereceriam.… Leia mais