O livro não é responsável pelo déficit público do Brasil. Mas o governo de Bolsonaro-Guedes quer taxá-lo

Carlos Magno de Melo

Pintura de Jonathan Wolstenholme | Foto: Reprodução

O maciço de eucaliptos. O madeireiro, ao sair da casa na periferia, deixou o dinheiro para a mulher fazer as compras. O padeiro terá a farinha que veio do moinho, que trouxe o trigo argentino do porto, que transformou em farinha, que entregou ao atacadista, que o buscou de trem ou de caminhão e o colocou na rede varejista, que o vendeu ao padeiro, que fez o pão e vendeu à mulher do madeireiro, que está no maciço florestal, maciço que ocupou terras, que foram compradas ou arredondadas, que pagaram impostos e que dão emprego ao madeireiro, que calça botinas feitas no Rio Grande do Sul, que usaram couro de Mato Grosso, maquinário da China, que o enviou em navios gregos, que usou diesel do petróleo da Arábia Saudita.

O madeireiro no maciço florestal abaterá eucaliptos com motosserras fabricadas em São Paulo, o eucalipto será levado à indústria de papel celulose nos caminhões fabricados nas indústrias do Brasil, com aço, extraído do minério de Carajás e feito aço, importado pelo Porto de Santos, da China.

Pintura de Jonathan Wolstenholme | Foto: Reprodução

Nas indústrias de papel celulose o eucalipto será feito polpa, que será exportada para a China, que fará papel e o exportará para o Brasil e acabará chegando ao parque gráfico e poderá ser transformado em livro, depois de ter gerado uma movimentação transnacional imensa, com reflexos sócio econômicos que mantêm o equilíbrio de nações em uma intrincada rede de interesses que vão desde a mulher do madeireiro que vai comprar o pão de manhã, aos impostos do Brasil e negócios internacionais do poderoso Li Kegiang que causa desconforto ao sr. Trump.

Deve ser por isso tudo que estão querendo colocar impostos sobre o livro, por certo, o grande responsável pelo déficit público do Brasil.

Carlos Magno Melo é médico e escritor.