Miles Davis entre dois mundos: jazzista se reinventou e reinventou seu público

Documentário mostra trajetória do jazzista que reinventou o gênero

Documentário Miles Davis – Birth of the Cool

“Nova Iorque é como um Grand Canyon em que o som do trompete reverbera pelos prédios”, diz a certa altura o pianista Chick Corea no documentário Miles Davis — Birth of the Cool, produzido pela BBC, dirigido por Stanley Nelson e disponível na plataforma de streaming Netflix. Ele se referia às sessões de Bitches Brew, álbum que inaugura a fase final do jazzista norte-americano.   

Cercado de músicos jovens, Miles Davis, em 1969, se reinventava ao observar que a era do jazz morrera. Vendo seus shows em clubes cada vez mais vazios e a ascendência do rock e do funk, o músico nascido na cidade de Alton, no Illinois, intuiu que era preciso abandonar o gênero que ajudou a forjar a partir da década de 1950. 

Ele, então, pede a Ron Carter que troque o baixo acústico por um instrumento elétrico. O baixista, no entanto, se recusa alegando que tudo seria diferente caso ele o fizesse. “Só as notas seriam as mesmas”, respondeu. De fato, nada seria como antes. Com a recusa, o segundo quinteto de Miles se desfaz. Ali nasce o fusion e o líder Miles troca os ternos bem cortados por espalhafatosas roupas coloridas.

Fusion

O que Miles Davis fazia ali era mais do que uma mera mudança de marca para acompanhar a moda. Munido apenas com esboço de ideias, anotadas em uma partitura, o músico arregimentou o saxofonista Wayne Shorter, o pianista Chick Corea, o baterista Jack DeJohnette, o pianista Joe Zawinul, o guitarrista Larry Young, os percussionistas Juma Santos e Airto Moreira (este brasileiro) e partiu para o estúdio.

O caminho experimental que culminou em Bitches Brew vinha sendo trilhado desde Circle in the Round (disco lançado em dezembro de 1967), mas ali, em 1969, ele rompe com a zona de conforto do jazz padrão. A ponto de depois ser acusado de aderir à música pop. O fato é que, ao inaugurar o fusion, Miles não facilitou para a audiência. Afinal, onde estão os ganchos melódicos, os temas assobiáveis ou mesmo o swing (ponto que os detratores destacam para jogar o fusion para fora da etiqueta de jazz) nas oito faixas que compõem o álbum?!

O grupo de Miles entregou algo provocativo e sem volta. A música praticada ali era algo muito diferente do que ele, no final da década de 1940, pegou com os gênios que fundaram o bebop (Charlie Parker e Dizzy Gillespie) e burilou no cool jazz e no jazz modal. Levou a ideia de voltar ao básico, de Stravinsky, que já havia praticado para gravar Kind of Blue, ao limite. 

Charlie Parker e Miles Davis | Foto: Reprodução

Células musicais, às vezes formadas por uma única nota, eram repetidas de forma hipnótica, substituindo o swing pelo groove, reverbs enfatizavam o trompete (o que dá a sensação de Nova Iorque como um Grand Canyon de prédios, sinalizado por Chick Corea) e improvisos sem lei formaram uma música mais próxima da psicodelia e da música africana. Foi a partir daí que Miles criou uma nova audiência.

Como ser cool

O fio narrativo do documentário é justamente a trajetória linear de Miles, da sua infância privilegiada, encontro com mestres do gênero até os estertores de sua decadência física e criativa no fim dos anos 1970. Enquanto mostra pontos bem ilustrados da vida do jazzista, com ricas imagens de sessões de gravações e apresentações, o filme compõe um retrato do músico como uma ponte entre dois mundos.

São dois mundos porque Miles ajudou a construir (e é parte) da vibração artística e intelectual do pós-Guerra. Sobretudo da geração do pós-bop. A tese do documentário de Stanley Nelson é que ele mesmo inventou o cool. Parece fazer sentido quando olhamos, não só a economia estilística dele enquanto músico, quanto sua maneira de portar, na elegância ao se vestir e no despojamento superior de sua postura enquanto artista.

A forma cool nasce do respeito que Miles tem de suas limitações. Os anos que excursionou com Charlie Parker lhe ensinou que não poderia tocar como bird, mas que isso não deveria ser um problema. Seu encontro com Gil Evans e o casamento de ideias entre os dois puderam desacelerar o jazz e torná-lo mais cool. Ali nasce o trompete de Miles, com notas precisas, alongadas e sinuosas. “Como uma pedra que quica em um lago”, resumiu alguém.

John Coltrane, Julian “Cannonball” Adderley, Miles Davis e Bill Evans

Ao sair The Birth of The Cool, o disco lançado em 1957, Miles já estava em outra. Abordava a relação esquecida do jazz com a música gospel e o blues através do hard bop. No entanto, o caminho já estava traçado. O trompete de Miles se tornava cada vez mais introspectivo e concentrado. Ele passou a adotar uma surdina com o tubo central removido em seu trompete, que precisava ser posicionada bem próximo ao microfone.  

Modal

Toda essa construção estilística parece ter sido feita para encontrar com o chamado jazz modal. Ele nasce com o primeiro sexteto de Miles — que tinha ninguém menos que os saxofonistas John Coltrane e Julian “Cannonball” Adderley, o pianista Bill Evans, o baixista Paul Chambers, e o Jimmy Cobb. E por jazz modal fala-se Kind of Blue, que viria a se tornar o disco de jazz mais vendido de todos os tempos.

O sexteto basicamente mudou a forma como se toca jazz adicionando um poder maior à improvisação, saindo da estrutura tonal — com encadeamento de acordes a partir de um tônica — e partindo para um tipo de música sem uma progressão de acordes pré-definida, o que simplificava para o músico, mas deixava a liberdade de inventar seu próprio padrão melódico.

Essa ode ao improviso é a ponte que Miles Davis fez entre os dois mundos, ao pegar dos mestres do bop e entregá-lo em uma nova roupagem à juventude que ascendia no final dos 1960. Mas para isso teve que escolher um novo público. Ao receber seu cheque após o lançamento de Bitches Brew, o músico norte-americano teria dito: “me sinto um ladrão”.

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