Aconteceu quando não era uma vez. — Mia Couto

Soninha dos Santos

Especial para o Jornal Opção

Que Mia Couto, de 67 anos, escritor nascido em Beira, Moçambique, figura entre os grandes autores da atualidade ninguém duvida; que esse professor, jornalista e biólogo vastamente premiado é possuidor de um fazer prosa/poética dos mais refinados e intrigantes é uma grande certeza. Que sua obra faz bem à alma e ao coração ninguém também discute. O que sabemos é que este moçambicano, com mais de trinta livros publicados, consegue atravessar pontes mágicas com suas histórias. Pontes essas capazes de transformar de tal maneira quem o lê, como se é capaz de, também, traduzir a vida em imagens poéticas só alcançáveis em forma de metáforas inimagináveis. 

Em “A Água e a Águia” (Companhia das Letrinhas, 32 páginas), de 2019, ilustrado por Danuta Wojciechowska, Mia Couto nos brinda com uma obra infanto-juvenil dotada de uma poesia mágica escrita/descrita e digna dos grandes nomes da literatura universal.

A obra por si só, dada à criteriosa editoração, diagramação e ilustração, já nos chama a atenção e nos convida a abrir o livro e a ser surpreendido com o que vem logo em seguida. Mas isso só seria muito, não fosse a surpreendente frase que inaugura essa narrativa: “Aconteceu quando não era uma vez”. Como assim, se não era, como aconteceu? E se aconteceu, por que não era?

Era quando nada precisava ser. Os seres habitavam em uníssono juntamente com a natureza numa relação de codependência mútua onde águas e águias se misturavam e, se havia alguma diferença, ela só poderia ser percebida quando a águia se convertia em água.

Mia Couto: autor de mais de 30 livros | Foto: Reprodução

A fábula trata de um apelo ecológico à vida, à natureza como um ser vivo dependente de todos os seus recursos, renováveis ou não, para continuar vivendo. Um deles, imprescindível para a vida, é a água. Na narrativa afirma-se que o rio disputava o reino dos pássaros, talvez pela sua imensidão ancestral. Hoje em dia, percebemos uma queda dos recursos naturais e já é visível a consequência dessa perda, pois conforme a história, “a chuva esqueceu-se de acontecer”, “O rio emagreceu, tornou-se um fio”.

Desse fato, resultou a sede, bichos e plantas adoeceram e “Dava pena ver tanta pena”. Então, a água mais velha enfrenta o problema e devora a letra “i” e a palavra águia se torna água e a sede é vencida, mas temporariamente, pois sedentas como estavam esgotam os “iis” dos seus nomes e a sede volta com toda a força. Comem até o “i” do rio. E o mundo perde o fio, o rio e o pio. Para solucionar tal problema precisavam conhecer o alfabeto da vida, coisa que grande parte dos viventes desconhece, pois a existência humana é cheia de “letras desconhecidas”.

Sem me alongar em demasia, o que nos resta dizer é que vale a pena conhecer o fim dessa história. Não por ser bem escrita e bonita, de um autor consagrado, mas principalmente, porque se trata de uma reflexão sobre a própria existência humana na face de um planeta que já anda perdendo letras na sua composição. Recuperar o bom senso, a empatia e a graça de conviver, viver junto é necessário e urgente. Isso tudo se torna a real tarefa que traduz quem realmente somos: humanos.

Recomendo a leitura, também, além é claro, de ser de um dos grandes autores da atualidade, mas porque é poesia em forma de prosa, é sensibilidade e resgate da ideia de que o planeta é nossa casa e o que fazemos a ele repercute em nós mesmos.

Soninha Santos, crítica literária, é colaboradora do Jornal Opção.