Meu segredo será sua herança

Em novo romance, Micheliny Verunschk dá voz a uma garota que constrói um relato com ares de faroeste e de mistério

Escritora pernambucana, Micheliny Verunschk conquistou o Prêmio São Paulo de Literatura com seu romance anterior, o intitulado “Nossa Teresa — Vida e Morte de uma Santa Suicida”, publicado em 2014

Escritora pernambucana, Micheliny Verunschk conquistou o Prêmio São Paulo de Literatura com seu romance anterior, o intitulado “Nossa Teresa — Vida e Morte de uma Santa Suicida”, publicado em 2014

Sérgio Tavares
Especial para o Jornal Opção

O romance “Aqui, no coração do inferno”, de Micheliny Ve­runs­chk, emula, em seu conceito estético e escopo narrativo, as pulp fictions, publicações feitas com papel barato, cujo conteúdo dedicava-se às histórias de fantasia, ficção científica, crime e faroeste. Traços desses dois últimos gêneros catalisam a trama, que expõe suas referências de maneiras explícita e implícita. A certa altura, é citado Tex Willer, o famoso caubói dos quadrinhos. Já o elemento de mistério faz parte de uma subtrama insinuante que percorre toda a obra, sendo decifrada nas últimas linhas.

A história começa dois anos depois de a narradora, uma garota recém-chegada à adolescência, mudar-se para Santana do Mato Verde, uma cidade no sopé de um morro, onde “Judas perdeu as duas botas”, enfatiza. Seu pai é o delegado local, porém não é prerrogativa do cargo a proximidade da violência. Embora pequeno, o lugar tem uma incidência de crimes tão alta que foi necessário a construção de dois cemitérios. “Um monstrengo, uma curiosa aberração”, ela compara. Uma terra de ninguém, um velho oeste.

A família se completa com a irmã mais velha, a bebê, fruto de um segundo casamento, e a madrasta. “Minha mãe mesmo morreu quando eu e minha irmã mais velha éramos pequenas”, conta. O não dito sobre o fato e, acima de tudo, essa mudança marcam a rotina da casa num quadro de conflitos e isolamentos. O pai autoritário, fechado em morais próprias e decisões arbitrárias, é constantemente enfrentado pela rebeldia da primeira filha, inconformada com a nova vida. A narradora prefere o silêncio ao protesto, ao passo que a madrasta cumpre à risca as funções de dona de casa, mãe e esposa, sempre pronta a obedecer e defender o marido, mesmo quando este traz um rapaz que cometeu assassinato para conviver com eles.

Na lógica absurda do delegado (e a autora maneja com consciência o disparate da situação), aquele que praticou uma carnificina (e, comenta-se, canibalismo) ficará em sua casa para ser protegido, já que a população pode invadir a delegacia e linchá-lo. A garantia de segurança — se é que dá para afirma-la — para sua família é que estará a todo o tempo algemado, num canto da cozinha, até a fundação responsável pelo menor levá-lo. O caso é que começa a chover muito — e aqui cabe ressaltar um outro aspecto da cidade: quando chove muito, as estradas ficam intransitáveis —, de modo que os dias passam e o assassino permanece lá.

O prolongar desse episódio dá início, portanto, a um processo gradual de atração da narradora em relação ao hóspede proibido. Do temor à curiosidade, depois a fantasia e, por fim, o contato. Os questionamentos sobre o passado inacessível, do porquê de um garoto, de idade semelhante a dela, ter cometido tamanha brutalidade, infiltram seus pensamentos anteriormente ocupados por trânsitos prosaicos sobre a cidade, a família, os colegas e a escola, numa experiência de formação que acaba por despertar reflexões selvagens e iluminar zonas cinzentas de seu próprio passado. “Eu já pensei em matar algumas pessoas. Não me culpo por isso. Acho que todo mundo pensa nesse tipo de coisa em algum momento da vida”, considera.

Ela se recorda de uma conversa entre o pai e a irmã, quando esta perguntou o que ele fazia em 1968. A resposta dá a entender que o pai era agente da repressão a serviço da ditadura militar. Mexendo às escondidas nas gavetas do escritório dele, a narradora descobre um envelope recheado de documentos de outras pessoas, “todos jovens, parecendo ser estudantes”. Para sua surpresa, ali também está o documento de identidade de sua mãe morta. A busca por desvendar esse mistério ganha, então, revelo, remodelando a trama numa história de amadurecimento, na qual elucidar a própria vida passa pelo esforço de tirar da sombra a vida de um outro: “(…) em todo romance, a pergunta central fica sem resposta, o importante é a investigação”.

Pernambucana de Recife, Micheliny, que com seu romance anterior conquistou o Prêmio São Paulo de Literatura, demonstra incrível habilidade ao costurar um enredo a partir de pedaços de um longo relato de uma garota astuta, audaciosa e, ao mesmo tempo, pueril. Apesar de, em diversos momentos, desviar-se da trama central, o fluxo narrativo nunca deixa escapar o leitor, contagiado pela veracidade da voz reinante que muito lembra as dos narradores faulknerianos, tenazes em seus testemunhos e em suas divagações.

Lá para o fim, o discurso se dobra a uma tentativa de ficcionalizar o drama de uma mãe, a fim de se fechar lacunas e escutar os mortos, mas, como a narradora irá perceber tardiamente, os mortos falam por quem eles deixaram. Como escreveu Faulkner, na obra-prima “Enquanto agonizo”: “É preciso duas pessoas para fazer alguém e uma para morrer. É assim que o mundo vai acabar”. Aqui, é assim que o mundo começa.

Trecho do romance “Aqui, no coração do inferno”

Na obra, a autora habilidosamente costura um enredo a partir de pedaços de um longo relato de uma garota astuta, audaciosa e, ao mesmo tempo, pueril

Na obra, a autora habilidosamente costura um enredo a partir de pedaços de um longo relato de uma garota astuta, audaciosa e, ao mesmo tempo, pueril

O rapaz entrou de cabeça baixa. Loiro, um pouco mais alto do que eu, podia ser meu colega de classe. Papai deixou ele na cozinha com um soldado e se reuniu com a gente. E disse basicamente a mesma coisa que a minha madrasta, que o garoto matou umas pessoas, que não achava certo ele ficar na delegacia porque teve um tumulto, mas que a gente não se preocupasse. Papai sempre diz pra gente não se preocupar. É um pouco irritante, mas finjo que tudo bem porque, como eu já disse, meus confrontos são de outro tipo. Mas quando ele falou isso, julguei, por um momento, que havia uma coisa meio perversa, não porque ele quisesse proteger o garoto, mas porque achei que havia um brilho de orgulho em seu olhar, satisfação não por ter prendido o menino, mas exatamente por aquilo que o menino fizera. Eu queria os detalhes, circunstâncias, meios, vítimas. Tiro, foice ou faca? Homens, mulheres e crianças? Todos de uma vez ou aos poucos, um por um?

Como um menino assim pode ter matado muitas pessoas?

Mas papai nunca foi de dar detalhes de nada. O que me faz fazer o que faço. E os tênis puídos do garoto, eu percebi, eram mesmo de dar pena.

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