Meu adeus ao cinema prosaico de Pedro Almodóvar

Inexiste fabulação no filme “Dor e Glória” e a história é rasa. Os filmes neorrealistas italianos continham muito mais fantasia. Cinema é fantasia

Herondes Cezar

Andei vendo no cinema os primeiros filmes de Pedro Almodóvar. Consegui acompanhá-lo até “Fale com Ela” (2002), onde a única coisa que gostei foi ouvir a canção mexicana “Cu Cu Ru Cu Cu Paloma” cantada por Caetano Veloso. Depois, desisti de Almodóvar.

Pedro Almodóvar e Penélope cruz no set de filmagem de “Dor e Glória” | Foto: Divulgação

Na quarta-feira, 26, resolvi ir ver “Dor e Glória”, porque ouvi por aí que se trata de um filme pessoal, no qual Almodóvar fala da sua própria vida e experiências como cineasta. De fato, parece ser um filme pessoal, até porque Antonio Banderas usa o cabelo espetado e uma barba curta, tal qual Almodóvar. Mas não gostei nem um pouco do filme. Devo dizer que a minha referência, para filmes pessoais de cineastas, é “Oito e Meio” (1963), de Federico Fellini.

Em vários momentos do filme, tive o ímpeto de me levantar e picar a mula, seguindo a lógica racional de que, se já perdi o meu dinheiro, não vou perder o meu tempo. Mas fiquei até o fim, na esperança de ver uma cena interessante, que demonstrasse alguma criatividade; e nada. Se “Oito e Meio” é poético, “Dor e Glória” é prosaico. E prosaico, a meu ver, no pior sentido da palavra. Inexiste fabulação e a história é pobre, rasa. Os filmes neorrealistas italianos continham muito mais fantasia. E, para mim, cinema é fantasia.

Antonio Banderas, Penélope Cruz e Pedro Almodóvar | Foto: Divulgação

Fiquei lá no cinema chateado. O filme tem 113 minutos, mas me pareceu que tinha quatro horas.

Trilha musical

Já não me lembro se “Dor e Glória” tem trilha musical. Só me lembro de ter ouvido duas canções. A primeira foi “A Noite do Meu Bem”, da nossa Dolores Duran, mas cantada na versão espanhola. A segunda canção era italiana, possivelmente cantada por Mina e que entra no filme em duas cenas. Acho que, a primeira vez, na cena em que o garoto tem a revelação da sua homossexualidade; a segunda vez no final, quando o cineasta dirige o suposto filme “O Primeiro Desejo”. Digo acho porque não tenho certeza. Talvez, ao fazer essa relação da canção italiana com tais cenas, eu esteja melhorando “Dor e Glória”, que me pareceu conter muita dor e pouca, pouquíssima glória.

Herondes Cezar, crítico de cinema, é colaborador do Jornal Opção.

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Homero Mendes

Ter uma única referência para ver filmes e achar que cinema é fantasia, isso sim, é prosaico. Desde a metáfora da imersão no líquido amniótico da piscina até o parto, Dor e Glória é pura fábula. Caso ainda não tenha lido, sugiro a leitura da bibliografia do João Maria Mendes, para abrir (caso queira) o seu espeque para falar sobre cinema. Abraços