“Mesmo que vivamos de maneira automática, ainda somos humanos”

Mexicano-brasileira, a banda que nasceu em Campinas tem rodado países com ritmos e palavras de esperança

“É bom poder terminar o ano e agradecer a todos que ajudam não só a Franscisco, el Hombre, mas a todas as bandas que trabalham independentes e que lutam para se reinventar e colorir o mundo” | Foto: Nube Abe/Reprodução

“É bom poder terminar o ano e agradecer a todos que ajudam não só a Franscisco, el Hombre, mas a todas as bandas que trabalham independentes e que lutam para se reinventar e colorir o mundo” | Foto: Nube Abe/Reprodução

Yago Rodrigues Alvim

“Francisco, o Homem, assim chamado porque venceu o diabo num desafio de improvisação de cantos, e cujo verdadeiro nome ninguém soube, desapareceu de Macondo durante a peste da insônia e certa noite reapareceu sem aviso na taberna de Catarino. Todo o povo foi escutá-lo, para saber o que tinha acontecido no mundo.”
Gabriel García Marquez

Irmãos de sangue, Sebastián e Mateo Piracés-Ugarte fizeram família no Brasil. Do México, e do mundo já que com os pais quando pequenos andarilharam países e mais países, eles em Campinas se arredaram e, ao lado de Andrei Martinez Kozyreff, Juliana Strassacapa e Rafael Gomes, deram vida a Francisco, el Hombre, banda que encanta e faz cantar cada vez mais plateias da América Latina e do mundo e a crítica, que tenta tecer a festa que é sua pachanga ou, hoje, seu batuque tropical.

Foi ao som de Roberto Carlos, vindo dum radinho de uma pamonharia do centro goiano, pouco antes do show que fariam em Goiânia (penúltimo do ano), que à mesa me fizeram parte da família que são e contaram sobre os laços que fizeram musicais. Contaram de si, do mundo, do humano, do que tem por vir, guardando dezembro de um jeito carinhoso e esperançoso, feito flor amarela de Drummond. Se notarem que Andrei não deu pitaco, é que a pamonha não largou o guri. Ei-los, Franciscos.

Como se deu a banda, como se conheceram e decidiram fazer música juntos?
Sebastián — A ideia inicial de “e se fizéssemos um som nosso?” aconteceu no final de 2012 e começo de 2013. No entanto, não era algo sério, até que um amigo nosso nos mandou uma mensagem, dizendo que tínhamos um show marcado. Esse foi o nosso primeiro show, em fevereiro de 2013. Nisso, pegamos algumas músicas, mais alguns covers e foi muito massa, tanto que fizemos outro show no mesmo ano, quando não tínhamos tantos planos traçados ainda; até que, no último mês, decidimos fazer uma loucuragem, que era ir de Campinas ao Chile de carro, sem pensar muito em grana, levando os instrumentos para um show acústico, tocar em praça, hostels, restaurantes, teatros e onde fosse mais, em troca de passar o chapéu.
A banda, portanto, teve início nessa viagem pela América Latina, com nós cinco — já com o Gomes, que jurava e jurava tocar conosco um único show como substituto e isso já faz três anos (risos). Tínhamos todos muita pouca grana e foi algo bem vida loka mesmo. Quando voltamos para o Brasil, lembro que tínhamos uma caixinha de banda simbólica e vimos que acabávamos de tocar dois meses fora, em um lugar por onde nunca passamos, e voltamos tranquilos. “E se continuarmos fazendo isso?”, perguntamo-nos, e isso durou todo o ano de 2014. Viajamos do nordeste ao sul do país e até voltamos a América Latina, onde aconteceu um assalto, mais especificamente na Argentina, e que foi o que nos colocou de cabeça na música.

Vocês se conheceram em Campinas?
Juliana — Em Campinas e em Sorocaba, que são cidades por onde a maioria de nós se deslocava, até mesmo com outras bandas — Andrei tinha banda em Sorocaba e o Sebastián em Campinas. Éramos todos moleques que foram se conhecendo pela vida. E o contato maior foi quando passamos na faculdade e nos mudamos para Campinas; isso todos, exceto eu que só fui me enfiando na banda.

Gomes — Eu cheguei a Campinas em 2007, ano em que tinha outras bandas por lá. Do cenário musical, íamos compartilhando palcos até que surgiu essa ideia maluca e, já amigos, fomos juntos para estrada.

Como foi sair de Goiânia, Gomes?
Gomes — Quando eu era moleque, boa parte da minha geração de goianos não via valor na cidade, e achava que precisava ir para São Paulo, descobrir que aqui [Goiânia] é muito legal. E foi muito bom para mim, pois eu fui construindo uma vida nova, com a família que somos hoje e isso é louco, já que passamos por muitos lugares e vamos, com isso, entendendo a beleza de cada um deles.
Goiânia tem uma cena linda e adoramos vir para cá — eu inclusive pela minha família — e tem uma galera que desde a adolescência está na música e mesmo por muitas bandas que muito nos inspiram e até pela pamonha (risos), que comemos nesse momento maravilhoso. É massa sair daqui, descobrir que tem muita coisa pelo mundo, inclusive aqui. Era uma necessidade que eu tinha, mas fico sempre feliz de poder voltar e desfrutar da minha terra.

“La Pachanga!” como foi viver este EP?
Sebastián — Polêmica essa pergunta, pois gravamos com uma produtora que hoje não nos damos bem. É bem conhecido que produtores pesquem bandas e que deem calotes, seja pela tática da “geladeira” ou por outras. “La Pachanga!” foi sofrido porque precisávamos muito lançar o EP e rolou isso de um calote resultou em mais de 1 ano de dor de cabeça, em advogados e uma causa perdida.
Temos, ainda assim, muito carinho pelo disco, já que é fruto dos anos que passamos viajando — e por isso ele é em espanhol, uma vez que precisávamos nos comunicar lá. Ele é uma bela raiz. E foi muito gostoso ainda, termos nos emancipado dele com “Soltasbruxa”, que é uma fase que começou com essa briga judicial com os produtores. Nós começamos a emanar esta vibe, desde então.

Vocês se definiam com um estilo pachanga folk; a emancipação aconteceu também no sentido de som? Se sim, qual seria hoje?
Sebastián — Depois de uma longa conversa no interior da Bahia, conversa bem difícil até, chegamos ao conceito batuque-punk-tropiCarlos, que define perfeitamente o que somos nesse momento.

E o que seria?
Sebastián — É um batuque-punk-tropiCarlos, tal como o som nosso.

Mateo — É batuque? É. É punk? É. É tropique? É. É Carlos? Por que não? (risos)

E o nome da banda?
Sebastián — Vem do melhor livro de todos os tempos, em minha opinião, claro, o “Cem Anos de Solidão”, do Gabriel García Marquez. Francisco é um músico viajante que existiu e, teoricamente, viveu até seus 200 anos, e que viajava, cantando sobre aquilo que via. Como era o que começamos a fazer — isso de cantar e viajar e viajar e cantar e depois cantar sobre aquilo que aprendíamos nas viagens, para poder viajar mais — foi esse o nome, sem muito pensar. “Vamos começar com ele e é isso?” e cá estamos Francisco, três anos depois.

Nisso de sempre estar em viagem, vocês aprenderam coisas que levam para as músicas, desembocaram em um novo álbum, que fala de um ser político, que fala de se desatinar e desatar nós; como foi este aprendizado e levar isso para o álbum?
Juliana — Foi uma necessidade muito orgânica, pois já tínhamos uma veia política, vários ideais dos quais falávamos, mas os quais nós não tínhamos gritado, até então. Era muito sutil a nossa mensagem em “La Pachanga!” e isso incomodava a todos nós. Podíamos falar algumas coisas durante o show, mas as músicas não diziam algo. Foi uma necessidade orgânica por isso e até pelo momento, o qual nós precisamos retratar. Levo sempre comigo a Nina Simone, que dizia que o artista que não fala de seu tempo, não faz arte. É isso. Não tem como fugir. Precisamos cumprir este papel de comunicar, esclarecer e discutir.

O que seria, então, o álbum?
Gomes — Para mim, ele é um grito acompanhado de uma dança. Você solta o quê está dentro preso e, a partir disso, consegue chegar a uma catarse, a qual em um coletivo, você se reconhece nas angustias e enxerga, assim, motivos para se juntar ao outro. E não podemos nos esquecer de nos estimularmos positivamente, que é o que dança traz. Ela soma isso de fazer uma troca de energia, de um momento de escarro, que é o “Soltasbruxa”, para que não deixemos energias negativas guardadas, que a coloquemos para fora de um jeito positivo.

Sebastián — Também tem uma questão, que o Mateo sempre comenta, que é quanto a nossa volta depois do assalto. Foi um momento muito traumático, tenso e pesado e que nos marcou no sentido de que podíamos ter morrido e que foi por muito pouco, por um tiquinho que isso não aconteceu. E olha o quão chato teria sido termos ido embora sem falar o que queríamos, e lógico, falar de um jeito melhor, cantando. Queríamos um disco que simbolizasse tudo o que queríamos falar no momento.

E quanto à música “Triste, Louca ou Má” que diz da cultura que se engendra e que vai atando o ser humano, nela, por onde o machismo também se perpetua, como é se refazer e tocar nesse lugar?
Juliana — Foi um momento de descarrego. Eu lia na época um texto que dizia da tendência que as pessoas têm, e cada vez mais existe, de viverem sós. E, entre as mulheres, isso é maior. Uma tendência onde, mesmo além do relacionamento, você vive no seu canto, e se não tem relacionamento fixo com alguém, você segue sua própria vida, pois é muito fácil cair numa receita e reproduzir valores e costumes, hábitos sem se dar conta. É tão inerente que é impossível fugir.
Eu o li e comecei a pensar sobre tudo que vivi com os meus pais, de tudo que vi que não dava certo e que eu pensava “não vou reproduzir isso, não vou, pois isso não serve para mim”, já que não me representavam aqueles valores. E a música foi um desabafo, foi “acorda, galera, vamos sair daí, pois não está dando certo”.

Como avaliam esta jornada?
Mateo — Esse ano, nós listamos todas as coisas que queríamos fazer e fizemos um orçamento para saber como seria fazer todas essas coisas. E, durante o ano, estabelecemos onde queríamos chegar e vimos que eram muitos dígitos e que envolvia um disco, já que tínhamos acumulado muito conteúdo durante as viagens — fosse cultural, político ou musical —, e precisávamos pôr um disco que nos representasse para fora, uma vez que se acabasse tudo no dia seguinte, que pelo menos acabássemos num sorriso.
Ao mesmo tempo, tínhamos que documentar uma turnê, o modo como vivemos numa turnê, que é o que sempre fizemos — viver como uma família na estrada, e viver da música e para música, acreditando nela como comunicação. Sempre fizemos isto de um show na praça e, dali, criar amigos e amigos são os que permanecem respondendo realmente no WhatsApp. Foi então que percebemos tudo o que queríamos fazer e que não daríamos conta, mas que nos propomos a fazer mesmo assim. “Vamos, pois queremos mostrar tudo o que é o Franscisco, el Hombre, mesmo que tudo acabe em um acidente de carro ou em um que decide ser matemático ou ter de ir viver pelo mundo; se tudo acabar queremos deixar o que aquilo é e foi para nós”.

Gravamos em Cuba um documentário, depois de termos conseguido rodar cinco países da América Latina, que é uma proposta nossa. Conseguimos fazer um disco que nos representa, politica, cultural e musicalmente, que representa aquilo que a gente viu e viveu. E é isso que continua em 2017, ano em que colocaremos o disco ainda mais e o documentário na internet e na estrada.

Sofremos para fazer tudo isso. E sofrer é bom, pois estamos cansados, sem dormir, com olheiras, mas felizes. Tenho certeza que chegaremos ao dia do Ano Novo, perguntando-nos “que ano foi esse?” e é isto de nos depararmos para onde podemos ir agora; onde? Uma pergunta que só chegamos a partir do momento que realmente representamos tudo o que sentimos na turnê. O próximo passo do que fazer, pois já nos demos conta de como cada um canta e toca e isso é mega importante.

Juliana — Foi o tempo de perceber nossa integridade, de nos acharmos, pois ainda patinávamos entre referências, entendendo o que fomos absorvendo nas viagens, e o disco é o regurgito de tudo.

Numa das músicas, vocês perguntam “Somos humano ou máquina”; ainda existe esperança?
Mateo — Eu tenho certeza que sim. É uma pergunta retórica e acho que por isso ela funciona tão bem nos shows, pois quando perguntamos, gruda na cabeça de quem ouve e todos já sabem, ainda que vivam de maneira automática, que ainda somos humanos.

Gomes — Ainda que a maquinita queira fazer-nos um bando de pecinhas, sempre lutaremos para continuar sentindo as coisas. É poder desabrochar como uma flor e não se deixar consumir dentro de uma engrenagem que não nos deixa felizes.

Sebastián — A gente só está aqui, tocando, com a possibilidade de vir para tantas cidades por termos recebido muito apoio. Só existimos enquanto banda, enquanto grupo, por termos recebido tanto carinho e é bom poder terminar o ano e agradecer a todos que ajudam não só a Franscisco, el Hombre, mas a todas as bandas que trabalham independentes e que lutam para se reinventar e colorir o mundo que, às vezes, é cinza. Que continuem, quem sabe pela cultura não mudaremos o mundo…

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