Memórias de um lutador

Mesclando memórias e análises sobre origens e os desdobramentos do golpe militar de 1964, o ex-governador de São Paulo José Serra narra sua trajetória de filho único de um imigrante italiano vendedor de frutas no mercado de São Paulo ao batismo de fogo como presidente da União Nacional dos Estudantes, de exilado político na França e no Chile ao pesquisador de prestígio de um dos mais respeitados centros acadêmicos do mundo: a Universidade de Princeton

José Serra: da infância pobre no bairro Mooca, em São Paulo,  ao posto  de um dos mais expressivos  políticos brasileiros | Foto: Elza Fiuza/Agência Brasil

José Serra: da infância pobre no bairro Mooca, em São Paulo, ao posto de um dos mais expressivos políticos brasileiros | Foto: Elza Fiuza/Agência Brasil

Salatiel Soares Correia
Especial para o Jornal Opção

Uma cena de 25 anos a­trás me vem à memória. Lá estava eu, no au­ditório do Instituto de Eco­nomia da Universidade Es­ta­dual de Campinas — Unicamp, para presenciar importante homenagem a uma notável personalidade do mundo acadêmico latinoamericano.

O auditório repleto de estudantes, políticos e professores sinalizavam a importância do homenageado. Presenciei a renomada economista Maria Conceição Tavares transbordar em lágrimas sua emoção ao dirigir-se à plateia. “E vocês, bem sabem: a última vez que chorei em público foi quando da implantação do Plano Cruzado”, disse. Presidia aquela homenagem o reitor da Unicamp e futuro mi­nis­tro da E­ducação dos tempos de Fernando Henrique Cardoso, Pau­lo Renato de Souza, este velho com­panheiro daquela gente toda que viveu por anos exilados no Chile.

Marcava também presença, naquele dia solene, o ex-ministro da Fazenda Luiz Carlos Bresser-Pereira, bem como o primeiro time do pensamento heterodoxo brasileiro: Luiz Gonzaga Belluz­zo, João Manuel Cardoso de Mello, Paulo Baltar, Mário Luís Possas, entre outros.
Topei, casualmente, sem saber quem era, com o homenageado no banheiro do auditório. A im­pressão que ele me passou, ante a senilidade e a evidente calvície, foi a de simpatia e elegância. Cum­pri­mentou-me sorridente. Sentou na primeira fila e logo foi chamado pa­ra compor a mesa. Logo, fiquei sabendo de quem se tratava. Era dom Aníbal Pinto o grande ho­menageado daquela manhã gélida da intelectualizada Unicamp.

Para quem desconhece a im­portância de Aníbal Pinto vale res­saltar que foi ele juntamente com Raúl Prebisch e Celso Fur­tado os fundadores e ideólogos da mais influente escola do pensamento econômico que balançou os alicerces da hegemonia predominante na economia mundial até então: a liberal. Trata-se da mais criativa agência de desenvolvimento da Organização das Na­ções Unidas — ONU: a Comis­são para o Desenvolvi­mento da América Latina. Com sede em Santiago, capital do Chile, nos anos da ditadura, a CEPAL abrigou praticamente toda a intelectualidade do chamado pensamento de esquerda do continente.

Do Brasil rumaram para o efervescente ambiente intelectual do Chile vários estudiosos e políticos. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso encontrou, na ambiência intelectual da terra do poeta de Pablo Neruda, inspiração para escrever seu mais famoso livro: “De­pendência e Desenvolvimento da América Latina”. Por lá também estiveram Francisco Weffort, os poetas Tiago de Mello e Ferreira Gullar. Lá também viveu e constituiu família o mais próximo auxiliar do professor Aníbal Pinto na Uni­ver­sidade do Chile. Tes­te­munhei tam­bém, naquela manhã, aquele ex-au­xiliar de dom Aníbal Pinto, dono da mais absoluta racionalidade inglesa, transbordar de emoção ao referenciar-se ao homenageado. Trata-se do ex-governador, ex-senador, ex-pro­fessor da Uni­camp, ex-ministro da Saúde e do Pla­nejamento, José Serra. Ele nos conta sua trajetória de vida no li­vro “Cinquenta Anos Esta Noite: O Golpe, a Ditadura e o Exílio”.

E aqui vai um depoimento pessoal: quando cheguei para estudar na Unicamp, José Serra tinha acabado de sair para exercer cargos políticos. Dele, tive informações quanto à maneira cordial com que tratava os funcionários da Universidade. E de seus talentos como professor. Pos­teriormente, os trabalhos acadêmicos do professor José Serra me foram apresentados pelo meu orientador André Furtado, este, filho do saudoso ministro Celso Furtado. Posso testemunhar que a mais original interpretação que conheço da industrialização brasileira, inspirada no renomado economista polonês Michael Kalecki, foi escrita a quatro mãos: por José Serra e Maria da Conceição Tavares.

Nos tempos da une

“Presidente, nós defendemos que o pedido de estado de sítio seja retirado. Vai acabar se voltando contra o povo, contra seu governo e contra o senhor mesmo. — Olha, jovem, não precisas te preocupar, porque antes de vir aqui já tomei providências para retirar o projeto do estado de sítio.”

Só mesmo a política para proporcionar uma coisa dessas: um presidente da república, por acaso um dos homens mais ricos do Brasil, e o filho de um imigrante italiano, vendedor de frutas no mercado de São Paulo, e morador do humilde bairro da Mooca, que fazia um esforço danado para conciliar duas coisas realmente muito difíceis: presidir a ativa e politizada União Nacional dos Estudantes com sede no Rio de Janeiro e, ao mesmo tem­po, cursar engenharia na prestigiada escola politécnica da Universidade de São Paulo. Era um vaivém de um de esforço sobre-humano.

O autor dessa façanha — José Serra — mal entrava na casa dos 20 anos. O presidente da República do Brasil daqueles tempos, em que se vivia a mais pura ebulição política, era João Goulart. José Serra foi presidente da União Nacional dos Estudantes nos tempos em que essa instituição se notabilizava em ser uma entidade muita ativa e politizada, e não a UNE passiva dos dias de hoje.

A presença do líder dos estudantes se fazia notar nos principais movimentos políticos do país. Como é o caso daquele fa­mo­so comício da Central do Bra­sil. O futuro governador de São Paulo estava lá — e bem perto de Jango, que era bem observado pela lupa dos “milicos”. “Jango fez o melhor discurso da sua vida. Acompanhei-o do lado direito do palanque, surpreso com a qualidade da oratória. O presidente estava em uma espécie de púlpito, com sua esposa, a jovem e deslumbrante Maria Tereza. Ao final, ao cumprimentá-lo, ouvi: — e aí, rapaz, desta vez tu gostaste, não é?”, assim testemunha o então presidente da UNE.

Mas José Serra não foi só testemunha daquele evento histórico e de tanta tensão política que certamente foi decisiva para a cassação de Jango. Fez ele um discurso que, certamente, somado à sua a­tiva atuação política na UNE, mui­to contribuiu para sua saída do país e o longo exílio que viveria no exterior. Antes disso veria o su­plício a ser vivido aqui mesmo no Brasil no momento imediato em que o golpe de 1964 se mostrou vitorioso.

Em 1963, aos 21 anos, José Serra é eleito presidente da União Nacional dos Estudantes | Foto: O globo

Em 1963, aos 21 anos, José Serra é eleito presidente da União Nacional dos Estudantes | Foto: O globo

O clima político tornaria im­pra­ticável a permanência do presidente da UNE em território na­ci­o­nal. Se ficasse, seria imediatamente preso e muito provavelmente engrossaria a lista dos “de­sa­­parecidos” da ditadura. Naquele mo­mento, dúvidas pairavam na ca­beça do jovem José Serra, generosamente acolhido, nos momentos de perigo, na casa do deputado Tenório Cavalcanti, conhecido pela coragem, pela fortaleza que era sua residência e pela “lourdinha”, apelido de sua metralhadora.

Escondido na casa de Tenório Cavalcanti, o então presidente da UNE, indagava a si mesmo: “E se fôssemos presos naquela casa? Para onde ir, o que fazer? Que confusão ia dar o Brasil? […] Não poderia terminar a faculdade. E meus pais? Bem que eu poderia ter irmãos, não ser filho único. Minha mente vagueava, sentia-me partido”.

A situação de perigo de José Ser­ra chegou aos ouvidos do ex-presidente Juscelino Kubitschek por meio do então deputado do PTB Pau­lo Alberto Monteiro de Barros — conhecido pelo pseudônimo de Ar­thur da Távola. Resultado: com seus contatos, JK conseguiu asilo po­lítico para o líder dos estudantes na embaixada da Bolívia, no Rio de Ja­neiro. Lá Serra permaneceu por três meses até partir para seu primeiro exílio, primeiramente, com uma breve passagem pela Bolívia pa­ra, em seguida, estabelecer-se na França. Um exílio absolutamente sem caviar ante as dificuldades financeiras.

Creio ser oportuno reproduzir na íntegra a emocionante e rápida despedida de José Serra à família rumo ao exílio no exterior: “Mas aquela noite fria de inverno paulistano foi especialmente infeliz. Revi meus pais, avós e tios num restaurante acanhado, feio e mal-iluminado, de comida insossa. Eram pessoas simples, marcadas pela imigração, que queriam se adaptar. Viviam para o trabalho e a família, sem se importar com o cotidiano da política.

Nem sabiam direito a diferença entre asilo e exílio. Não compreendiam por que eu deveria deixar o Brasil às pressas, entre fugido e expulso. Se a compreensão era pouca, a reclamação foi nenhuma e a solidariedade, total. Nada de angústia, só afeto, que se manifestava na forma de uma tristeza imensa. Os ruídos altos e alegres de nossos encontros familiares — de têmpera peninsular, pontuados por gargalhadas e gritos — deram lugar a um silêncio lúgubre, semblantes pálidos e indagações mudas. Afinal, o que estava acontecendo? O que ocorrera com o filho único, o neto varão, o bom aluno, o orgulho das tias, exemplo para primos, destinado a obter o primeiro diploma universitário da família, ganhar bem, garantir a velhice dos pais e de quem precisasse? O que seria de mim, que nunca tinha viajado ao exterior, perdido no mundo? Quando me veriam de novo? Toda explicação sociológica, histórica e política, elementos de minha militância, perdia sentido ante a dos meus maiores”.

Resumindo: mil dólares, uma japona emprestada e o bem mais valioso do pai — um relógio folheado a ouro — que ele tinha quase como um tesouro, foram-lhe dados pela família. Se era muito ou pouco, eles não sabiam, o que todos eles sabiam é que junto com o limite das posses ia o coração da família Serra. Nem quem partia nem quem ficava saberia se veriam outra vez um ao outro. Coisas do exílio.

A França sem caviar

Antes de partir para o seu primeiro exílio em Paris, José Serra teve uma breve passagem pela Bolívia. Na capital da Bolívia, o ex-presidente da UNE pode sentir, pela primeira vez, o que era viver fora de seu país. “Em La Paz, aprendi que exílio não é a ausência do país, estar longe de casa. É falta de documentos e impossibilidade de voltar. Cruzava com brasileiros em férias, fazia amizades e, na hora de me despedir, sentia a diferença. Eles nem pareciam particularmente felizes por isso, mas tinham passaporte, tomariam o avião de volta, chegariam às suas cidades e retomariam sua rotina no ambiente que conheciam confortáveis e previsíveis”, relata o autor com certo amargor que causava a tristeza da lembrança.

José Serra, em Santiago, capital do Chile, em 1967 | Foto: Arquivo Pessoal

José Serra, em Santiago, capital do Chile, em 1967 | Foto: Arquivo Pessoal

E assim chegou o ex-presidente da UNE, com tão somente 200 dólares no bolso, numa das mais caras cidades do mundo: Paris. Lá, sem ter concluído a graduação na USP, começou a mergulhar no mundo da pós-graduação. Foi estudar no Instituto Internacional de Pesquisa e Formação Visando o Desenvolvimento Harmonizado — Irfed. Uma vida dura e sem dinheiro para poder apreciar delícias mais sofisticadas da melhor cozinha do mundo, como é o caso do caviar. “Eu vivia de sanduíches, comprados no balcão do café ao lado do foyer ou feitos por mim mesmo e escondidos no quarto […] Restaurantes, só os universitários, com comida nutritiva, mas ruim para o estômago, meu órgão mais vulnerável desde a primeira infância”, testemunha. O Irfed abriu a cabeça, do jovem José Serra, para um mundo mais cosmopolita, mostrando-lhe as várias faces do subdesenvolvimento que se manifestavam em diversas partes do planeta. Para estudar no instituto rumavam alunos de todos os recantos do mundo (principalmente do terceiro mundo). A convivência com eles foi de fato enriquecedora para a ampliação da visão de mundo daquele filho de imigrante e vendedor de frutas do mercado de São Paulo.

Em Paris, travou relacionamento com personalidades do jet set brasileiro. Foi o caso de Danuza Leão, que lá vivia com seus dois filhos do seu casamento com o jornalista Samuel Wainer. Ou de pessoas como Violeta Arraes, irmã do ex-governador Miguel Arraes, que residia na cidade luz, ou até mesmo visitas ocasionais como a do deputado Rubens Paiva, este barbaramente assassinado nos anos da ditadura. Em Paris, José Serra pôde aprimorar seu intelecto lendo autores que muito ajudaram a ampliar sua visão do mundo. Sua fome intelectual se mostra evidente em suas memórias: “Eu queria conhecer melhor os textos básicos do marxismo”, relata. Celso Furtado, Lênin e até mesmo Paul Samuel­son foram autores que ocuparam a cabeceira da cama dele. Nos tempos de Europa, o ex-presidente da UNE teve a oportunidade de conhecer, num Congresso da União Internacional de Estudan­tes, a realidade dos países socialistas. Passou três semanas em Praga. “A experiência de três semanas em Praga foi decisiva para consolidar minhas desconfianças em relação ao, chamemos assim, socialismo de modelo soviético — aquilo mesmo, coletivismo, planejamento centralizado, partido único, burocracia poderosa e escassas liberdades democráticas”, relata a respeito de sua experiência na chamada cortina de ferro. De Praga, Serra retornou a Paris, onde conseguiu 350 dólares emprestados com um amigo para assim, pelo Chile, via Ar­gen­tina, rumar para o Uruguai, onde en­contraria Leonel Brizola, que o ajudaria a retornar ao país. Relem­brando, em seus escritos, esse en­contro, descreve-nos José Serra que “previa [Brizola] um grande im­pacto político se lá estivessem os três últimos presidentes da UNE — Aldo Arantes, Vinícius Cal­deira Brandt e eu”. Brizola que­ria a luta armada. Em outras pa­lavras: o cunhado de Jango de­se­java a presença dos três na organização em uma pretensa resistência armada ao regime. Mas este não era o modus operandi de José Serra fazer política. Sua luta se dava muito mais com as armas da razão que o intelecto sempre fornece: “Queria preparar-me para ser um servidor público e um po­lítico racional”, expressa em seus escritos. Do Uruguai José Serra rumou enfim para uma nova e perigosa etapa de sua travessia de vida. Desta vez, estava ele clandestino em seu próprio país. Um país em plena ditadura: na terra em transe, chamada Brasil.

Breve retorno ao Brasil

No seu retorno clandestino ao Brasil, José Serra teve ajuda de um casal de amigos muito identificado com o mundo das artes: Maurício Segall e sua esposa Beatriz. Maurício era filho do famoso pintor Lasar Segall; Beatriz ainda é nos dias de hoje uma das mais talentosas atrizes do teatro e da televisão brasileira.

O casal conseguiu esconder o ex-presidente da UNE na casa de amigos por dez semanas. Do seu reduto, José Serra pôde avaliar o endurecimento do regime político. E, assim, relata o que observava em seu breve retorno ao país: “Com o golpe, ocorrera uma fratura profunda na vida democrática. O Brasil estalava, mudando para pior. Gradualmente, implantava-se o regime que terminaria virando ditadura aberta e repressiva, até a prática sistemática de tortura e dos assassinatos políticos”. Seu tempo de reclusão era preenchido com intensas leituras. Nessa época José Serra enfrentou livros desafiadores como “Os Sertões”, de Euclides da Cunha; e “Os Lusíadas”, de Luís de Camões. O passado se fazia presente na clandestinidade paulistana. É difícil acreditar, mas o sisudo ex-presidente da UNE chegou mesmo a tentar na juventude ser ator. “Cheguei a fazer o papel principal de uma peça de José Celso, ‘Vento forte para papagaio subir”, apresentou num festival de Porto Alegre de 1962”, relata.

Tenho a impressão de que o teatro não sentiu muita falta do ator que perdeu, mas a vida pública brasileira certamente sentiria se por ela não passasse um político da envergadura de José Serra. É como disse a atriz Irene Ravache: “O Brasil ganhou um grande político, e o teatro perdeu um belo canastrão!”.

A presença no Brasil de José Serra ia se tornando perigosa não só para ele, mas para alguns de seus companheiros ante o endurecimento cada vez mais intenso do regime político. Seus amigos de toda uma vida, como o futuro ministro das Comunicações do governo de Fernando Henrique Cardoso, Sérgio Motta, e Egídio Biachi eram da opinião de que o ex-presidente da UNE seguisse para um novo exílio. Antes de seguirmos em frente com a narrativa, façamos um parênteses para relatarmos uma curiosidade: uma presença histórica, sempre lembrada nos escritos do autor, é a do goiano Aldo Arantes. Lembranças como esta: “Biachi levava numa pasta algo potencialmente pior: a correspondência cifrada que mantinha com Betinho e Aldo Arantes no Uruguai. Entre outras temeridades, mencionava a tratativa com Brizola. Àquela altura, os dois faziam parte do grupo do ex-governador, que, em Montevidéu, discutia e planejava as guerrilhas de padrão cubano”.

E assim se encerra mais uma etapa na travessia na vida do futuro governador de São Paulo. Mais um exílio, mais uma despedida da família Serra de seu filho único. Desta vez, os pais sentem o peso da idade. “Como vamos fazer sem você? O que será de nós?” Indagava com melancolia seu progenitor. Serra conseguiu reunir toda a família na casa de uma de suas tias. “O astral era melhor do que o daquela noite de partida para La Paz. Mas eu tinha consciência de que via pela última vez meus dois avós”. Relata. Um país frio, imerso na cordilheira dos Andes, esperava-o e lá José Serra viveria por longos oito anos até chegarem anos mais difíceis do que os da ditadura militar brasileira: a ditadura chilena comanda pelo todo poderoso general Augusto Pinochet. Mas isso é assunto para um pouco mais adiante.

O segundo exílio

Só vim a entender a real dimensão daquela homenagem de 25 anos no auditório da faculdade de economia da Unicamp a dom Aníbal Pinto quando acabei de concluir a leitura da passagem de José Serra por terras chilenas.

Logo ele, um homem que transborda racionalidade (pelo menos socialmente). Veio-me à memória, ao ler esta parte de seus escritos, aquela voz repleta de emoção ao referir-se ao homenageado daquela fria manhã no auditório da faculdade de economia da Unicamp. Dom Aníbal Pinto foi diretor adjunto da Comissão de Estudos Para o Desenvolvimento da América Latina — CEPAL. Para quem desconhece, os estudos no Chile são muitíssimos rigorosos. José Serra teve de dar um duro danado para entrar na prestigiada Escolatina, como ele mesmo depõe: “Nunca estudei tanto em minha vida como naquele período. Para ser admitido na Escolatina, tive que prestar exames de micro e macroeconomia, estatística e matemática, equivalentes a cinco anos da Escola de Economia da Universidade do Chile. Se passasse, seria aceito no primeiro ano do ciclo avançado. Se não, nada. A fim de preparar-me, fechei-me durante dois meses no apartamento. Dormia seis horas e ficava acordado 20; ou seja, todo o dia ia dormir duas horas mais tarde, e a cada 12 completava a rotação. Não tinha tempo nem para ir comprar uma caneta esferográfica nova, de modo que usava uma velha, de cor verde, com a qual escrevia fichas intermináveis. Memorizei coisa à beça e tirei a nota máxima nos quatro meses”. A partir daí, por mérito absolutamente pessoal, Aníbal Pinto entrou na vida de José Serra. Este ganhou uma bolsa para seu sustento, assim, tornando-se auxiliar direto de Aníbal Pinto na prestigiada Universidade do Chile.

Dom Aníbal era mais que um chefe, era o grande mestre, o conselheiro e o sábio da grande visão como eram os grandes mestres que compunham o primeiro time da Cepal — Rául Prebisch e Celso Furtado. Dom Aníbal Pinto influenciou toda uma geração de jovens que iam para o Chile estudar no sentido de encontrar soluções para o subdesenvolvimento de seus países. A legião que o homenageava na Unicamp e que estava ali para reverenciá-lo reconhecia nele a magia e generosidade que só os grandes sábios têm.

Ainda no seu segundo exílio, José Serra conheceu uma bailarina da Universidade do Chile e por ela se encantou. Chamava-se Mônica Allende. Com ela se casou. Dessa união, nasceram seus dois filhos — Verônica e Luciano. Serra tinha enfim uma família.

Política se faz muito com a construção de identidades. Percor­rendo “Cinquenta Anos Esta Noi­te”, percebe-se claramente que muito da construção do futuro PSDB se deu em terras chilenas. Amizades como as de José Serra, Fernando Henrique Cardoso, Ruth Cardoso, Francisco Weffort, Paulo Renato de Souza, Artur da Távola ou de ami­gos que ficaram no Brasil, co­mo Sérgio Motta, sedimentaram-se em terras chilenas. Mesmo po­líticos que seguiram outros rumos (sempre na esquerda) como é o caso de Plínio de Arruda Sam­paio, Betinho, Almino Afonso ou até mesmo poetas que não se engajaram na luta partidária, como Ferreira Gullar e Tiago de Mello, fizeram parte da mesma identidade brasileira nos tempos em que José Serra viveu seu segundo exílio no Chile.

Enquanto isso … Bem… En­quanto isso, a terra voltava a ficar em transe, em plena cordilheira dos Andes. Chegavam os tempos da duríssima ditadura do general Augusto Pinochet. José Serra se via, assim, diante de uma situação inédita a enfrentar em sua trajetória de vida: a do exílio dentro do exílio.

Quinze mil pessoas assassinadas, 7 mil presas e 30 mil deslocadas de suas casas — esse é o balanço da mais sangrenta ditadura de todas as ditaduras que teve a América Latina: a do Chile. José Serra estava lá e de lá escapou, por muito pouco, de ser um dos milhares assassinados no Estádio Nacional do Chile, pela ditadura de Pinochet. O mesmo Estádio Nacional onde Pelé e Garrincha ganharam o bicampeonato mundial para o Brasil.
Para lá o futuro governador de São Paulo foi levado preso, mas, por um descuido de um major, que só a providência divina explica, foi solto sob a condição de voltar a apresentar-se no dia seguinte. Desconfiado, José Serra nunca mais voltou.

Resultado: o mesmo filme de 10 anos atrás voltaria a passar-se na sua vida: o de ficar recluso numa embaixada. Desta vez, não era a da Bolívia no Rio de Janeiro; desta vez, era a da Itália, em Santiago. Naquela ocasião, José Serra era um homem solteiro, nesta, um homem casado com duas crianças e mulher para cuidar. Tempos difíceis. Deixemos que o autor nos relate como lidou com essas dificuldades: “Os primeiros três meses foram os mais difíceis. A vida reclusa, a falta de privacidade, os dramas pessoais e a incerteza deixavam todos nervosos, alguns até histéricos. Verô­ni­ca, com quatro anos e meio, não com­preendia o que se passava, mas sentia totalmente a tensão e a anormalidade. Isso me afligia ao extremo. Houve só uma coisa boa: por três meses, tomei conta de Luciano quase o tempo todo; tornei-me um especialista em fraldas e mamadeiras. Lembro-me até hoje do primeiro alimento sólido que provou, um pêssego, que devorou aos poucos, guloso”.

Com a ajuda de dom Aníbal Pinto, José Serra conseguiu um salvo-conduto para deixar o Chile. Após uma breve estada na Europa, onde conheceu as raízes humildes de sua família italiana, e de uma estada com Celso Furta­do, que, na época, era professor visitante na Universidade de Cambridge, o futuro professor Unicamp seguiu para sua última morada no exílio com um objetivo específico: cursar o doutoramento na prestigiada Univer­sidade de Cornell.

Na terra do Tio Sam

A vida de José Serra nos Estados Unidos, certamente, foi um período em que ele pôde solidificar de fato seu lado de intelectual de expressão. Nos Estados Unidos, tratou logo, o futuro professor da Unicamp, de aprimorar o seu macarrônico inglês (já falava espanhol, italiano, francês, menos inglês), coisa que conseguiu em pouco tempo. Na Universidade de Cornell, por sugestão do cientista político Sérgio Abranches, que lá estudava (marido da jornalista Mirian Leitão), comprou um Mustang de 250 dólares e mergulhou fundo no seu trabalho doutoral que ele se propôs a concluir em dois anos. “Meu orientador em Cornell era o professor Tom Davis, do Departamento de Economia. Ele me emprestou sua pequena sala, no quarto andar da biblioteca, que transformei em escritório”, diz em seus escritos.

Serra precisava concluir a tese logo, pois o prestigiadíssimo Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Princeton (um dos melhores do mundo, onde Einstein lecionou) tinha lhe feito um convite para lá passar um ano, mas com a exigência de que terminasse a tese. Serra topou o desafio. Escolheu como tese um tema que lhe era familiar e o atraía: “A política econômica de Allende durante a Unidade Popular”. E colocou-se a trabalhar com afinco. Como ele mesmo depõe em seus escritos: “Trabalhei com urgência e sofreguidão. Passava até 15 horas seguidas soterrado por dados e escrevendo, buscando compreender por que e como o Chile de Allende descarrilara. Chegava a prender um aquecedor de plástico na nuca para aliviar a tensão.

Concluí o enorme texto em julho de 76 e, em setembro, três anos depois do bombardeio sobre o palácio presidencial de La Moneda [sede do governo do Chile], a tese foi aprovada”; e José Serra se tornou professor convidado do Instituto de Estudos Avançados de Princeton. O filho do vendedor de frutas do mercado de São Paulo já tinha chegado muito mais longe do que obter um simples diploma de graduação. Os ventos da democracia começam a soprar no Brasil. Estava na hora de voltar para casa. Agora, não mais como clandestino.

O regresso

E assim concluímos as memórias do homem público José Serra. Como ele mesmo delimitou, estas vão do golpe ao exílio. Não passam suas memórias pela história política que o notável professor da Uni­camp construiu depois que voltou do exílio. Prefeito da maior cidade da America Latina, governador e se­na­dor do mais rico Estado da federação, ministro do Planeja­men­to e o melhor ministro da Saúde, sem nunca ter sido médico, duas ve­zes candidato à presidente da Re­pública e, recentemente, reeleito se­na­dor por São Paulo. José Serra nasceu pa­ra a vida pública. Não se sabe de um único escândalo que possa macular sua honra.

Escolheu o caminho do preparo intelectual e não da luta armada como instrumento na arena política. Sincera­mente, ainda quero votar e vê-lo pre­sidente da República. José Serra sim­plesmente não sabe viver sem lu­tar. É uma liderança de primeiríssima qualidade. O Brasil precisa de sua virtude e de sua extraordinária capacidade de usar a razão na política.

Salatiel Soares Correia é crítico literário e mestre em Planejamento Energético pela Unicamp.

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