“Me Chame pelo Seu Nome” e a jornada para escrita de um nome próprio

Com cores e aromas do verão em uma Itália dos anos 80, o filme finalista de quatro categorias do Oscar 2018, dirigido por Luca Guadagnino, encena o drama do despertar da sexualidade na adolescência

Filme narra o despertar da sexualidade de Elio (Timothée Chalamet), 17 anos, e sua aproximação afetiva com um rapaz mais velho, Oliver (Armie Hammer), 24, num verão ensolarado na Itália | Foto: Divulgação

HENRIQUE LOPES
Especial para o Jornal Opção

“Me Chame pelo Seu Nome” (2017), do diretor italiano Luca Guadagnino, é um filme sensorial, não só pela perspectiva audiovisual, mas pela experiência quase tátil e gustativa que nos proporciona. Ele possui cores, cheiros e sabores de pêssegos e cerejas, damascos e romãs, colhidos em uma tarde quente “em algum lugar no norte da Itália”. Um longa-metragem para degustação paulatina que encena o drama do despertar da sexualidade na adolescência.

O adolescente em questão é Elio (Timothée Chalamet), 17 anos, cujos dias de verão se resumem à leitura de livros, transcrição e estudo de música clássica, mergulhos e passeios noturnos. É filho único de um casal de intelectuais de classe alta, uma família poliglota, que a cada ano seleciona um estudante/assistente para um projeto de residência em sua casa de campo. Em 1983 foi a vez do estudante americano de 24 anos, Oliver (Armie Hammer).

A película é baseada no romance homônimo do escritor egípcio André Aciman, uma narrativa em primeira pessoa – Elio já adulto e contando suas memórias. No filme, por sua vez, não se trata de rememoração, mas mantém-se a perspectiva da primeira pessoa, na medida em que Oliver nos é apresentado pelo viés de Elio, seja diretamente por seus comentários sobre ele ou pelos enquadramentos da câmera, como quando de costas, Elio observa Oliver caminhar lá embaixo.

Além do mais, a todo instante o rosto de Elio é enfocado de maneira a nos mostrar por meio de suas expressões faciais os mais diversos sentimentos que Oliver lhe provoca – desde o início, um misto de admiração curiosa e indignação.

Um olhar apressado sobre o filme pode-se deixar distrair com a sua já comentada beleza estética e seu visual ensolarado, mas ao nos atermos sobre algumas passagens com a mesma paciência com que o filme se desenrola, podemos captar os vários momentos de crise com os quais Elio se encurrala.

Durante um jogo de vôlei, Oliver arrisca uma massagem nos ombros de Elio que se esgueira assustado; à noite já não consegue dormir rolando inquieto sobre os lençóis. Noutro dia, depois de folhear um dos livros da tese de Oliver, vaga pela casa, adentra o quarto e coloca um dos calções do americano na cabeça. E o que se nota em todas essas circunstâncias é a presença “da Coisa”, para ser bem freudiano, que agita seu corpo. É mais que o puro caráter biológico da puberdade, é o real da pulsão encurralando a ordem simbólica da linguagem.

Flores
Em referência à peça teatral “O despertar da primavera”, de Frank We­dekind, comentada tanto por Freud quanto por Lacan para situar os impasses presentes na adolescência, foi que Philippe Lacadée intitulou seu livro, a saber: “O despertar e o Exílio. Ensinamentos psicanalíticos da mais delicada das transições, a adolescência.”

Segundo Wedekind, nesse mo­mento da vida de um sujeito irrompe algo do real da sexualidade, que de tão furioso pode conduzir o adolescente à fuga e errâncias, como as protagonizadas pelo poeta Rimbaud, seja em sua poesia, seja em sua biografia, sempre “em busca do lugar e da fórmula” e da “verdadeira vida” fora de casa, longe de sua família.

O despertar da adolescência encerra em si um caroço, algo indizível, que não encontrando tradução na linguagem comum do outro, dos pais, por exemplo, conduz o adolescente num exílio onde não encontra lugar que o caiba. Resta ao adolescente a árdua tarefa de encontrar um nome pelo qual possa ser chamado. Alguns conseguem achar esse lugar e nele se fixar mediante a escrita, como parece ter sido o caso de Rimbaud, o eterno príncipe errante dos poetas.

A primeira impressão que Elio tem de Oliver é que se trata de uma pessoa confiante, com uma enorme desenvoltura tanto para chegar aos lugares quanto para deles sair, como quando entram num bar e o estudante de imediato se senta e se entrosa com o grupo que joga cartas ou quando de forma recorrente e abruta termina as conversas e se despede com um breve “Até!”.

Tal interjeição de despedida, curta e seca também no original em inglês, “later”, aponta para o caráter despojado de Oliver, que facilmente se desvincula nos momentos de partida. É com raiva, que na primeira semana de convivência, após inúmeros “laters”, Elio desabafa com os presentes na mesa do almoço: “Só repare, é assim que ele vai nos dizer adeus quando chegar a hora. Apenas com o seu “até!”.

Ternura
Já em um momento posterior, a câmera flagra Elio com um sorriso discreto de canto de boca ao vislumbrar Oliver caminhando de costas entre as ruínas de um castelo na beira do Lago Garda. Assim, é quase tangível a crescente implicância e ternura que se desenvolve entre os dois, cada vez mais a primeira cedendo lugar à segunda.

Nos entremeios desses ensaios de aproximação entre Elio e Oliver, em que os afetos comparecem com força em toda sua ambiguidade (amor e ódio se imiscuem), Elio tem experiências sexuais com uma garota, Marzia (Esther Garrel). No entanto, mais que função de autoconhecimento e curiosidade, o envolvimento com Marzia tem a estrutura de um “acting out”, ou seja, uma atuação, um colocar-se em cena para realização de um comportamento que se destina a um outro, clama pelo olhar desse Outro, pede uma interpretação.

No caso, ainda que não soubesse e provavelmente não tivesse consciência disso, Elio queria atingir Oliver, visto que após vê-lo dançando e flertando com uma garota numa espécie de discoteca ao ar livre ao som de “Love My Way” da banda The Psychodelic Furs, Elio se mostra visivelmente atordoado, lacrimeja, e mais tarde no meio da noite toma um banho seminu com a garota em um lago.

Na manhã seguinte, enquanto toma café ao lado de Oliver, e quando o pai também chega à mesa de forma súbita, declara quase ter transado com Marzia na última noite. E assim todas as abordagens de Marzia por parte de Elio se dão após um atordoamento frente ao enigma que Oliver encerra para o adolescente.

Ao pé de um monumento da primeira guerra mundial, após Oliver elogiar a breve explanação de Elio sobre tal monumento, dizendo que ele “sabe mais que todos naquele lugar”, o jovem diz não saber nada, ao menos, não das coisas que importam. “Você está dizendo o que eu acho que está dizendo?”, o americano lhe questiona.

E é assim que falando sem falar, pela primeira vez eles se tocam, sem se tocar. Deste momento em diante, Elio parece mais seguro e mais incisivo, toma mais iniciativas, se mostra mais provocador. Ainda se encontra admirado pela figura de Oliver, mas esta já não o inibe tanto. Em um lago no pé de uma montanha, entre empurrões e trocas de olhares, o clima se encandece. Dali, vão para o gramado na beira do rio, e um primeiro beijo acontece. Mas Oliver barra o prosseguimento de qualquer coisa que fosse. Voltam para casa.

“Me Chame pelo Seu Nome”, do italiano Luca Guadagnino, é um filme sensorial, não só pela perspectiva audiovisual, mas pela experiência quase tátil e gustativa que nos proporciona.” | Foto: Divulgação

Do amor tácito ao que ecoa nas colinas
Os intertextos são diversos, e a cada revisita, mais deles se revelam. Não há tempo para nos determos em cima de todos, mas vale lançar um olhar às esculturas que permeiam diversos momentos da narrativa. O filme se inicia com a exibição dos créditos de abertura acompanhados por imagens de estátuas do período helenístico. Em determinado momento,

Mr. Perlman (Michael Stuhlbarg), o pai de Elio, o leva juntamente com Oliver para o Lago Garda, onde estão trazendo à superfície da água parte de um navio afundado em 1827.

Dentre as peças, encontra-se uma estátua masculina, a qual se cogita ter sido presente do Conde Leichi a seu amante Contalto Adelaide Malanotti. Mais tarde, Oliver analisa junto ao professor uma série de estátuas como as apresentadas no início do filme, em que não há “nenhum corpo reto, todos curvados, às vezes, impossivelmente curvados. E tão indiferentes… como se tivessem te desafiando a desejá-los.” Isso aponta para a esfinge que Oliver encarna para Elio, cujo enigma clássico “decifra-me ou devoro-te” é a força motriz de toda a narrativa e o erotismo que nela permeia.

De passos leves e cuidadosos para não correr o risco de acordar suspeitas ao adentrar o quarto, passando por mordidinhas nos ombros e pelo ato meigo de triscar a ponta dos dedos do pé até culminar em um rápido pulo de Elio para o colo de Oliver, numa manifestação bruta de desejo, é que se inicia o marco da primeira relação sexual entre eles.

O enfoque do diretor se mantém nos aspectos sutis, de brincadeiras singelas e desajeitadas. Quando enfim nus, a câmera vira o rosto para uma árvore lá fora, provavelmente um pessegueiro, e respeita a intimidade dos amantes. No dia seguinte, Elio parece distante, o que deixa Oliver inseguro; à princípio, acha que Elio pode usar o acontecido contra ele. Depois teme que tenha sido só uma curiosidade do adolescente que não o quererá mais, até verificar de um jeito cômico que as ereções do outro ainda se sustentam.

Como sublinhado, vez ou outra os pessegueiros recebem enquadramento especial, de maneira que não pude deixar de me lembrar do poema “Os Pêssegos”, do poeta português Eugenio de Andrade, não somente pela alusão direta ao fruto que o título do poema faz, mas pela semântica dos versos. No entanto, o ápice do protagonismo desse fruto é uma cena de masturbação, com a polpa do mesmo por parte de Elio, que em seguida, cai no sono.

Oliver, ao despertá-lo, percebe o que acontecera, faz alguns comentários jocosos, mas não o censura, e tenta comer o fruto num ato erótico. Desesperado, Elio cai aos prantos por se ver naquele momento como “desprezível”. É que, para além do ero­tismo púbere envolvendo o pêssego enquanto símbolo, resta seu caroço, aquilo de que se falou sobre a parcela de indizível de cada um, que não sendo simbolizada aparece em Elio como vergonha de si e lhe causa horror.

E é na manhã seguinte à primeira relação, que o nome do filme se explica, quando Oliver propõe à Elio: “Me chame pelo seu nome, que eu te chamarei pelo meu!”. Essa brincadeira aparentemente singela e do feitio de adolescentes apaixonados é na verdade emblemática sob o ponto de vista de como se dá o amor – estruturalmente narcísico.

Narcísico
Freud, em seu célebre texto “À Guisa de Introdução ao Narcisismo”, sistematiza que se ama sempre no outro o que se é, o que se foi, ou o que se gostaria de ser. Desde o princípio, Oliver encarna para Elio um ideal, portanto, cabendo todas as gamas de sentimentos a que dirigimos a um ideal, do louvor a tentativa de golpeá-lo. Ele se preocupa constantemente com a opinião que Oliver faz dele, tenta sutilmente impressioná-lo com seus conhecimentos históricos e musicais, e ainda assim, suspeita sempre, sobretudo no primeiro ato da narrativa que o outro não se agrada de sua companhia.

Ao fim, Elio ainda declara “acho que ele é melhor do que eu!”. Também a partir das considerações de Lacan em “O Estádio do Espe­lho”, sabe-se que o eu é constituído do discurso do outro. Somos narrados desde bebês. Tal relação de especularidade se torna mais evidente se levarmos em conta que um apelido comum para Oliver na língua inglesa é Olie, quase o inverso de Elio (um anagrama). É assim que de toda imagem do outro que nos atravessa algum detalhe dela em nós permanece.

Outro aspecto relevante a respeito da enunciação de tais nomes, ora sibilado de forma terna entre os lençóis, ora gritado de forma efusiva entre as colinas de Bergamo, é seu caráter político. Se houve uma época em que uma relação entre dois homens era “um amor que não ousa dizer o seu nome” – conforme último verso do poema, de lorde Alfred Douglas, “Two Lovers”, mas popularizado por Oscar Wilde que inclusive fora preso por manter uma relação com o lorde – na Itália dos anos 80 do filme, durante o governo do progressista Bettino Craxi, e no contexto de acolhimento que a família de Elio representa, o nome de tal amor pôde se enunciar.

Os pais
Por fim, é fundamental para uma melhor compreensão do despertar de Elio um olhar para a relação que ele mantém com seus pais. É constante a troca de afagos deles para com o adolescente e palavras do tipo “você pode contar conosco sempre que precisar”. Ao fim, não sabemos com exatidão o momento em que os pais descobriram, mas temos a certeza de uma compreensão e respeito sem medidas.

O que faz o filme desembocar numa das cenas mais tocantes, a meu ver, do cinema recente, um monólogo do pai para com Elio. As palavras do pai são belas e acolhedoras: “Você é muito inteligente para não saber o quão raro, o quão especial foi o que vocês dois tiveram. […] Neste momento há tristeza. Dor. Não a mate… e, ao fazer isso, também a alegria que você sentiu […] E você obviamente sentiu alguma coisa.”.

Ainda que reconhecendo que provavelmente não era a pessoa com quem o filho mais gostaria de conversar sobre aqueles assuntos, naquele momento o pai funcionou como um ponto de onde Elio ainda pudesse se ver amável e não fosse condenado ao ponto indizível de que falei no decorrer do texto, aquele o qual, se o jovem a ele permanece identificado, põe-se a cair de todos os laços afetivos e sociais, buscando meios de ser eliminado, como uma mancha que precisa ser apagada. Portanto, o despertar da sexualidade é sem dúvida um acontecimento traumático, mas a depender da rede de palavras de apoio que se tece ao redor do adolescente, ele não caí no vazio.

Há provavelmente um longo caminho para Elio, ainda. Enquanto os créditos sobem, somos deixados de mãos dadas com o jovem no ápice de sua dor pela notícia do noivado de Oliver. Ao som de “Visions of Gideon”, de nada mais nada menos que Sufjan Stevens, o cantor americano abertamente cristão, mas ícone gay, cuja ambiguidade de algumas de suas letras não nos permite saber ao certo, se o eu-lírico masculino canta seu amor a Jesus ou a outro homem qualquer.

Enquanto o verso “eu te toquei pela última vez” é melancolicamente cantado, misturada ao pranto do rapaz, percebemos que o discurso dos pais, o que vai além das palavras, depreendido pela maneira sempre afetuosa que olham para Elio, é o que embala e amortece a sua queda.

Henrique Lopes é psicólogo clínico (PUC-GO) e especialista em docência do ensino superior (FABEC). Atua com psicanálise, integra o Coletivo e/ou, a diretoria executiva da gestão 2016/2021 da Casa da Cultura Digital, e é editor do segmento literário do blog Tambatajá. Também é escritor de ficção, publicado na antologia de contos “As dores de Josefa” (Nega Lilu Editora)

Serviço

l Filme: “Me Chame pelo Seu Nome” (132′)
l Mostra: O Amor, a Morte e as Paixões
l Local: Cine Lumière Bougainville
l Ingresso: R$ 15,00
l Indicação: 14 anos

Sessões
l 11/02/18 – Domingo
Sala 1 – às 20:20
Sala 2 – às 19:10
Sala 3 – às 12:45
Sala 5 – às 16:45

l 12/02/18 – Segunda-feira
Sala 2 – às 18:00
Sala 3 – às 17:20
Sala 4 – às 22:10
Sala 5 – às 14:45

l 13/02/18 – Terça-feira
Sala 2 – às 16:10
Sala 3 – às 10:30
Sala 4 – às 18:40
Sala 5 – às 16:30

l 14/02/18 – Quarta-feira
Sala 1 – às 20:40
Sala 3 – às 12:00
Sala 4 – às 13:30
Sala 5 – às 22:40

l 15/02/18 – Quinta-feira
Sala 2 – às 16:40
Sala 3 – às 12:45
Sala 3 – às 21:15

l 16/02/18 – Sexta-feira
Sala 2 – às 18:00
Sala 3 – às 14:30
Sala 4 – às 16:30

l 17/02/18 – Sábado
Sala 3 – às 10:30
Sala 5 – às 14:00
Sala 5 – às 21:00

l 18/02/18 – Domingo
Sala 2 – às 10:30
Sala 2 – às 21:00
Sala 5 – às 19:50

l 19/02/18 – Segunda-feira
Sala 1 – às 21:20
Sala 2 – às 13:40
Sala 3 – às 16:50

l 20/02/18 – Terça-feira
Sala 3 – às 14:30
Sala 3 – às 19:30
Sala 5 – às 10:30

l 21/02/18 – Quarta-feira
Sala 2 – às 12:50
Sala 2 – e às 17:45
Sala 3 – às 22:30

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