Mary del Priore, A Tamoia de Bonifácio

O livro “As Vidas de Bonifácio” tem cheiro de pasquim, de imprensa marrom. Estou me sentindo decepcionado, como leitor, e logrado, como consumidor

Everardo Leitão

Especial para o Jornal Opção

Em “As Vidas de José Bonifácio” (Estação Brasil, 328 páginas, 2019), Mary del Priore diz que o título de Patrono da Independência é fruto de uma campanha de manipulação da opinião pública feita por jornais amigos, principalmente “O Tamoio”, editado pela própria família dos Andradas. Pois acabo de ler “As Vidas de José Bonifácio”. Foi uma experiência cansativa por conta da indisfarçada tentativa de fazer o leitor acreditar que Bonifácio não foi aquilo que as próprias evidências trazidas no livro demonstram que ele foi. Ou seja, para mim Mary del Priore escreveu a obra determinada a ser “A Tamoia de José Bonifácio”. Só que com sinal contrário. A depender dela, o leitor sairia da experiência de enfrentar o livro com a imagem de um personagem mesquinho e menor na história do Brasil. Para sua biógrafa, talvez fosse mais adequado o título de “Bonifácio, o Reles”.

Lutei para chegar até o fim da leitura, porque a má vontade inexplicada da autora incomoda bastante. Esse partidarismo panfletário não é uma ofensa só para o biografado — é uma ofensa maior para o leitor. Antes de prosseguir, quero dizer que, ao iniciar a leitura do livro, não tinha nenhuma predileção especial pelo personagem, sobre quem não li outra biografia. Quero também adiantar que não incenso os heróis festejados da história oficial, mas que também não tenho a menor simpatia por iconoclastia destemperada. Não tenho tempo a perder em leitura com diatribe de botequim, e sou obrigado a confessar, por honestidade, que essa qualificação chegou perto de ser minha opinião pessoal sobre a biografia. Muito perto mesmo.

Não tenho elementos bastantes para discordar do juízo de valor sempre negativo da autora. Não sou historiador e escrevo aqui do ponto de vista de um leitor leigo nessa ciência. Por isso, vou ficar restrito à compreensão e à interpretação das informações trazidas na obra de Mary del Priore.

Em resumo, a impressão que tive do começo ao fim é a de que a avaliação dela sobre o biografado não bate com os dados apresentados no próprio livro. Aí fiquei na dúvida: haveria algum pré-requisito que me faltasse para entender o tom demolidor da obra? Em algum outro livro da autora ficaria explicada a má vontade para com o biografado? Não me meto a discordar de que alguém possa ter fundada má vontade em relação a Bonifácio, mas não há, no livro, elementos históricos que justifiquem a “opinião” da historiadora. Ao contrário.

Acho o livro tendencioso, mas não é o que me espanta nele, porque não creio mesmo no mito da imparcialidade. Aliás, até gosto de autor apaixonado pelo que diz. A questão para mim é outra. A questão quanto ao livro, que é de história, é a impressão de que a avaliação conflita com as fontes em que deveria estar baseada. Fiquei com a impressão de que a autora diz uma coisa e mostra outra. Fiquei também com a impressão de um engajamento capenga: desce a lenha em Bonifácio e família por muito menos do que aquilo que registra acerca de outros sem indignar-se.

Mary del Priore, historiadora, escreveu um livro para depreciar, não para entender José Bonifácio | Foto: Reprodução

Não é que não gostei da obra — não gosto de alguns livros, mas não fico indignado com os autores, não fico com a impressão de ter sido enganado. O caso agora é que terminei a leitura indignado com a historiadora. Acho que o leitor merece o alerta de capa de que se trata de obra livremente debochada e sem rigor analítico, que é preciso dizer que é um livro de história, mas não é um livro em que a autora assuma o papel de historiadora. Não estou, é claro, dizendo que Mary del Priore não é historiadora, que fique claro. Estou dizendo que, no livro de que trato aqui, ela não desempenha essa função técnica.

Diferentemente do que faz a autora com o personagem, vou procurar demonstrar minha posição crítica.

Historiadora diz uma coisa e depois outra que a contradita

1) O livro registra, acerca do avô de Bonifácio, que “Seus filhos também correram atrás de cargos” (página 12). Sinceramente, e daí? Correr atrás de cargo na época não me parece algo intrinsecamente ruim, como o livro inteiro dá a entender. (Não sei nem dizer se seria intrinsecamente ruim hoje.) Até porque o livro diz que um dos filhos estudou “ciências físicas e médicas em Coimbra”; o outro “também estudou em Coimbra”; e o terceiro era “matemático e filósofo”. Não eram, portanto, nulidades em busca de sinecuras. Ora, o livro diz, por exemplo, que um deles “instalou clínica própria” (p. 12) e tinha outras rendas (p. 13). Ou seja, não vivia apenas do dinheiro público. Os Andradas ficaram pobres, não eram nobres, mas buscavam vencer na vida segundo dados históricos que encontro no livro. O personagem principal mesmo, pelo que já se lê até a p. 28, não era um preguiçoso. Ao contrário, saiu por aí em busca de atividades. Não vi nada de negativo nisso. Perdi alguma coisa?

José Bonifácio de Andrade: livro não consegue diminuir seu papel na história | Foto: Reprodução

2) “Teria estudado muito, nosso jovem Bonifácio? Dificilmente”, responde Del Priore na p. 20. No entanto, na página seguinte, informa que “Bonifácio se debruçou” sobre uma das duas coleções de livros da cidade, “com algumas obras históricas e velhos clássicos que poderiam representar um meio regular de instrução para os jovens seminaristas”. Era pouco para um adolescente? Como, a partir dos dados concretos apresentados, concluir que “Dificilmente” Bonifácio tenha estudado muito? E se ele leu todos ou boa parte desses livros do bispo, não seria muito para um adolescente? Não vejo fundamentação no texto para o “Dificilmente”. Não há nada que leve a essa conclusão. Má vontade da autora? Fiquei com a impressão.

3) “Foi frente a essa figura notável que Bonifácio passou a curvar a espinha”, p. 48. Que gratuito me pareceu esse “curvar a espinha”. Nesse ponto, tive enorme vontade de abandonar o livro. Não porque tivesse qualquer interesse em preservar Bonifácio de “revisão histórica”, mas porque a atitude diante do biografado não me pareceu a de um historiador que respeite o tempo e o dinheiro de quem lhe comprou o livro. Que se podia esperar de Bonifácio, um brasileiro jovem e sem títulos, diante do criador da Academia das Ciências? Que lhe metesse a mão na cara, que fosse desrespeitoso, que exigisse “igualdade de tratamento”?

4) “O interesse no ‘Reino das Pedras’ já existia e Bonifácio não foi pioneiro”, p. 48. Qual é a grande relevância que há em dizer que ele não foi pioneiro em interessar-se por mineralogia? Precisava ser? E, em não sendo pioneiro, estava errado em dedicar-se ao assunto? Não vejo, nos dados históricos da obra, a razão da má vontade reiterada.

5) P. 62: “O texto mais trata de história e a parte mineralógica foi realizada, dizem especialistas, de maneira superficial”. A essa altura do livro, como eu não acreditava mais num mínimo de distanciamento da autora, desconfiei desses “especialistas”. Está bem que a historiadora tenha escolhido não atulhar o texto com notas, mas, para aceitar o argumento de autoridade dos tais especialistas, é preciso saber quem são eles. Para aceitar que os especialistas fossem mesmo dignos de confiança seria necessário eu confiar na autora como biógrafa de Bonifácio. Só que isso já não era mais possível na p. 62.

6) “Conhecido por sua arrogância, ele podia estar falando de si mesmo” ao criticar os suecos, p. 66. A frase me pareceu frívola num livro de história. Gratuita, até porque descontextualizada e sem nenhum exemplo dessa arrogância atribuída a Bonifácio. Mesma gratuidade de “Bonifácio não tinha aparência suntuosa nem falava bem o alemão — e quando o fazia soltava perdigotos”, p. 68. Acredito que detalhes como o dos perdigotos podem trazer calor humano à caracterização de um biografado, claro, mas não devem vir em menção solta, como uma maledicência, principalmente em se tratando de característica física ou fisiológica, como é o caso. A maledicência fala mais de quem a usa que da vítima do comentário preconceituoso. Hoje esse comentário de “um observador” seria admitido como politicamente correto?

7) “Como de praxe, espinha curvada”, p. 72. Bonifácio dizer que aguardava ordem de quem lhe era mesmo superior é curvar a espinha? Como combinar essa “espinha curvada” com o “Pouco modesto” que a autora aplica ao texto da mesma carta a D. Rodrigo? Afinal, diante do interlocutor, ele curvava a espinha ou era pouco modesto? A mim, a impressão que fica é a de uma autora que não perde a oportunidade de fazer apreciação negativa, ainda que incoerente com outra feita imediatamente antes.

8) Não vejo contradição entre “temperamento férvido” e “alma pouco férvida”, p. 74. Para mim, a autora talvez não tenha se dado conta do jogo de palavras, da oposição que li como um recurso de estilo intencional, até porque “alma pouco férvida” vem em seguida a “temperamento férvido”. Entendi temperamento como comportamento e alma como espírito. Tanto que Bonifácio diz “meu primeiro movimento” quando se refere ao temperamento. Ou seja, repito que não vejo contradição. Mas, ainda que fosse contradição, ele mesmo confessa: “Meu caráter reúne contradições palpáveis”, p. 73. Outra coisa: na p. 74, está o seguinte reconhecimento nas palavras de Bonifácio: “sempre quis falar bem, falei mal e disse asneiras”. Essa confissão continua respaldando o julgamento de “pouco modesto”?

Silêncio diante da realidade portuguesa que Bonifácio criticava

9) “Preferiu frases soltas que se acomodassem à realidade de uma vida que já começava a se gastar”, p. 74. O texto da página anterior pode até conter “certo traço de juventude”, mas tem começo, meio e fim. Não são frases soltas. Quisera eu, professor de redação, conseguir ajudar ainda que uma pequena parcela dos alunos a escrever com a coesão que Bonifácio demonstra.

José Bonifácio escrevia com lógica | Foto: Reprodução

10) “O que Bonifácio teria trazido dessas experiências?”, p. 76, é pergunta sobre a viagem do biografado por diversos países que é respondida assim: o orgulho, os pecados dissimulados, o apetite de sobressair-se , a atenção ao grão das coisas, o sabor de uma fruta ou de uma pele, a experiência de ser o Outro. Que orgulho? Que pecados? Que apetite de se sobressair? Não sei de onde vem, no livro, esse julgamento. Nada está justificado. Não digo que Bonifácio não tenha sido orgulhoso, mas onde isso vem fundamentado no raciocínio da p. 76?

11) “Porém os esforços de Bonifácio, além dos dez anos de exílio, não foram o bastante para catapultá-lo às altas instâncias do poder. Como recompensa recebeu o lugar de intendente-geral das Minas e Metais do reino”, p. 80. Não conheço o organograma do Portugal da época, mas ser intendente-geral do reino era pouco para um brasileiro plebeu e pobre em Lisboa? Dr. Google me diz que Napion, figura de “credenciais” superiores com quem Bonifácio é confrontado pela biógrafa, foi inspetor real do Exército. Era muito mais que intendente-geral? Leio, também no Google, que “Esse cargo público, longe de ser meramente burocrático, de ‘intendente das minas e metais’, era de suma importância, e, por isso, deveria ser ocupado por uma pessoa que tivesse conhecimentos profundos e experiência na área de mineração. Isso porque a Revolução Industrial tornava imperioso todos os países saberem utilizar da melhor forma possível os seus recursos minerais” — Alex Gonçalves Varela, em Atividades científicas na “Bela e Bárbara” capitania de São Paulo (1796-1823). Me pareceu lógico, até porque a própria biografia mostra várias iniciativas do governo português, envolvendo Bonifácio, que demonstravam essa preocupação com os recursos minerais. De novo, pergunto: era pouco um zé-ninguém, como a autora não nos deixa esquecer, ser intendente-geral das Minas e Metais do reino?

12) Criticar um governo por ser “fundado em favores e no desprezo do mérito individual” é esvaziar a bile, como diz a p. 80? Ou o comentário depreciativo feito pela autora tem a ver com o propósito de apontar negatividade em tudo relacionado a Bonifácio? A autora aplaudiria o biografado se ele apoiasse a prática do governo português? As críticas que Bonifácio fazia à ignorância dos intelectuais da universidade são vistas como resmungos. Sempre adjetivando, sempre emitindo juízo de valor quando se trata do personagem, a autora, no entanto, se cala diante da realidade portuguesa que Bonifácio criticava.

Na seguinte observação que ele faz sobre a disciplina Mineralogia, de que seria professor, a autora vê uma chula alfinetada: “Esta nova cadeira exige alunos já com todos os conhecimentos teoréticos e práticos de mineralogia e geologia, que não se ensinam de modo nenhum na Universidade e de física e phoronomia, que poucos ou quase nenhum tem”, p. 83. Isso é uma reles alfinetada? Não é uma avaliação relevante dos pré-requisitos da disciplina?

13) Nada está bem em Bonifácio. Ele aponta a falta de minas e oficinas em Coimbra, o ano letivo encurtado por feriados e férias, o saber livresco e oco dos professores? À biógrafa não importa saber se há fatos que justifiquem o que diz o biografado — o importante é registrar que ele “cedia às queixas, às cobranças”, que ele “reclamava”, que ele escrevia “martelando D. Rodrigo”, pp. 84-85. Estou vendo chifres em cabeça de cavalo?

14) A sanha crítica da autora não arrefece. “Embora não fosse acatado, pedia sempre. Pedia muito”. P. 86. “Bonito, porém banal. Tantos escreviam da mesma forma, pedindo, pedindo”, p. 87. “Eles [os resultados da ‘submissão’ e dos pedidos] vieram. Não os esperados, mas os que o Erário o considerava merecedor”, p. 87. “Seu ressentimento crescia” e “Fel puro”, p. 88, “invejoso”, p. 89. “Mas essa intimidade o incentivava a fazer, também, mais e mais exigências: ‘Porque estou já radicalmente curado da mania tola de ser desinteressado.’ E, batendo o pé, ‘se eu continuar a ser intendente-geral e V. Exª quiser que dê lições docimásticas na Casa da Moeda, além de meu malfadado ordenado, devem-se me dar casas em Lisboa, porque não posso nem devo estar a pagar duas ao mesmo tempo”, p. 91. Me pareceu que o raciocínio de Bonifácio sobre as casas é mais que razoável, porque teria atividades públicas em Coimbra e Lisboa. “Batendo o pé” é que me pareceu mais deboche que análise histórica. E para mim maniqueísmo indisfarçado é um desrespeito maior ao leitor que ao personagem.

José Bonifácio: vítima de maniqueísmo

Qual cargo a autora esperava que Bonifácio ocupasse?

15) “Quatro anos após seu retorno, deprimia-se com a constatação de que a burocracia funcionava como um obstáculo quase intransponível a qualquer tentativa modernizadora”, p. 92. Estaria certo Bonifácio? Tão pródiga em julgar Bonifácio, a autora não dá um pio para analisar historicamente o entorno do personagem.

16) “Entre 1805 e 1806, outra migalha de reconhecimento: tornou-se desembargador da Relação do Porto”, p. 92. Como leitor, gostaria muito de saber por que o governo português dava tantos cargos a Bonifácio? Via nele algum valor? Via correta ou incorretamente? Os portugueses não reclamavam pelo fato daquele brasileiro levar tantos cargos públicos? Era normal isso? Por exemplo, não existiria mais ninguém com vontade, necessidade, posição política ou familiar que também quisesse ser desembargador, “prestigioso título”, segundo o livro? Esse é um ponto importante que saímos sem ver analisado no livro.

17) Bonifácio tinha “temperamento explosivo”, p. 93, e falava um “alemão defeituoso”, p. 94. Fico imaginando que a autora deve ter batido palma ao encontrar um alemão que “notou a pobreza da casa em que vivia Bonifácio: a modesta mesa de pinho, as cadeiras de palhinha, bancos de pedra e uma cozinheira, em tamancos, sem meias e dona de um portentoso bigode para lhe esconder a falta de dentes”, p. 94. Viver numa casa pobre é desdouro para Bonifácio? A falta de dente da cozinheira é motivo para deboche? Porque, se não é deboche, a que vem essa descrição da empregada? A autora não se refere à descrição para fazer qualquer análise histórica.

Como leigo, significativo historicamente para mim é saber se Bonifácio era ladrão do dinheiro público. Saber se a cozinheira era uma desleixada com a toalete ou era uma pobre, sem condição de cuidar da saúde. Os outros pobres da época em Portugal cuidavam da dentadura? Ou era o malvado do Bonifácio que arrancava os dentes à pobre serviçal? O significado e a análise do contexto me parecem mais importantes num livro de história que o registro da condição física da personagem. O texto, no entanto, não perde tempo em explicar características esclarecedoras do Portugal da época ao leitor.

A comida também não agradou ao alemão: “Sopa de pão tão grossa que a colher mal se mexia, carne, linguiça, toucinho, couve e arroz com azeitonas, frango assado com salada e queijo com figos”. O alemão achou pouco a sequência de nove pratos, falou mal do anfitrião, e a autora transcreve a grosseria como se Bonifácio é que devesse ficar com vergonha? Ah, mas em seguida vem a paulada esclarecedora: “Bonifácio não era gourmet e bebia com sobriedade”. Em outros isso até pode ser virtude — em nosso demonizado personagem e talvez em nós vira-latas latinos, deveria ser motivo de constrangimento diante do barão europeu. “Bonifácio pareceu-lhe vaidoso e imoderado nas suas expansões”. E o que pareceu esse hóspede grosseiro à autora? Nada. Pelo que se depreende, a culpa pelo fracasso da reunião estava na falta de sofisticação do anfitrião. Preconceito contra a latinada grosseira e bárbara? Só por parte do alemão?

José Bonifácio era especialista em mineralogia | Foto: Reprodução

18) Lá vem mais um cargo para o plebeu brasileiro: “Em 1807, foi feito diretor de Obras Públicas de Coimbra e do Rio Mondego”. Fato positivo? Que nada: “Ia lidar com encanamentos e esgotos”, p. 94. A autora zomba dos que lidam com encanamentos e esgotos? Fiquei com a impressão. Pois é, mas há uma outra coisa: apesar do novo cargo, o livro pergunta: “Por que Bonifácio não ascendia?” Como assim “não ascendia”? A autora ainda queria mais cargos? Durante a leitura, não tinha como me esquecer do que o próprio livro não me deixava esquecer: Bonifácio era um zé-ninguém brasileiro na corte. Mesmo assim, o livro sempre acha pouco o desfiar de cargos e títulos.

Acho que a análise histórica deveria ter sido feita para cima e para baixo na hierarquia portuguesa da época. O livro não diz qual seria o cargo que a autora esperava que ele estivesse desempenhando para que ficasse satisfeita com sua ascensão profissional. É certo que não era ministro, mas também não se pode dizer que fosse um nada na burocracia. Qual seria o percentual de funcionários da corte que tinham cargos inferiores ao de Bonifácio? Essa é uma resposta que gostaria de ter para saber se a passagem dele por Portugal foi mesmo o fracasso que o livro tenta o tempo todo fazer o leitor crer.

José Bonifácio e a invasão francesa em Portugal

19) Os franceses invadem Portugal. “Junto com Simão de Cordes Brandão, seguiram ambos ‘como deputados de Universidade aos governadores do reino”, para tratar com o ‘general Junot’”, p. 100. Como leitor, fiquei intrigado: por que o reles Bonifácio teria sido um dos dois deputados a ir falar com o general invasor? Isso não chamou a atenção da autora. Mais uma vez, senti falta de uma análise do contexto que permitisse ao leitor entender por que Bonifácio foi escolhido. Del Priore preferiu registrar que “foi paga pelo Cofre Acadêmico uma ajuda de 192$000 a cada um”. Mas não disse o que a quantia significava. Era muito ou pouco na época? Quanto seria em dinheiro de hoje? Na época, que daria para comprar com essa quantia?

20) O Bonifácio militar contra o invasor francês também foi uma nulidade para a autora, pp. 102-103, apesar de: ter ficado “encarregado do fabrico de cartuchos de pólvora”; ter sido escolhido um dos “oficiais maiores para comandar 206 fuzileiros e 80 artilheiros”; ter frequentado os exercícios militares “com exação”; ter estado “Num lugar de destaque na hierarquia militar, o de tenente-coronel”; ter sido do Conselho de Segurança do Exército; ter sido inspetor de polícia; ter recebido menção elogiosa no Livro Mestre de Registro; ter, de um marechal, comentário sobre “a grande aprovação que faziam os seus bons ofícios”; e ter feito “em quatro dias” o planejamento e a execução de uma obra de proteção da cidade de Coimbra.

Corte portuguesa no Brasil, em 1808 | Foto: Reprodução

Em vez de fazer um mínimo comentário de reconhecimento pela atuação do brasileiro, a autora preferiu destacar “Uma passagem exagerada”. Segundo texto oficial do corpo militar, Bonifácio teria, sozinho, “‘com a mais louvável e assombrosa intrepidez’, posto a correr cavaleiros inimigos”. Não, Bonifácio não: “Um feito inverossímil para quem fabricava cartuchos de pólvora”, debocha a autora. Ela finge esquecer o que acabara de escrever sobre a carreira militar do personagem. Era inverossímil para o fabricante de cartucho, mas e para o oficial maior, o tenente-coronel, o membro do Conselho de Segurança, o que recebeu elogio do marechal? Nada disso tem valor, porque pode engrandecer a figura de Bonifácio? É minha forte impressão.

Nem tem valor nada do que vem depois: na segunda invasão, Bonifácio “integrou o Estado-Maior e presidiu o Serviço de Segurança do Exército”, p. 103; foi inspetor, intendente interino; quando se demitiu da Intendência e voltou à Universidade, “foi louvado pelas ‘melhores provas de patriotismo, conhecimentos e valor”, p. 105. Na última invasão francesa, ainda comandou um corpo de acadêmicos e ficou em armas “até o final da luta”. Ou são também feitos inverossímeis para o fabricante de cartuchos? Parece.

21) D. Rodrigo felicitou Bonifácio “pela Restauração da pátria e sua ação no combate” e chamou o brasileiro de “herói”. Mas a ênfase da autora é para o Bonifácio reclamão, que rosnava diante dos feitos do regente, p. 107.

22) “Em 1812, as ausências de Bonifácio eram tão evidentes que a Junta da Fazenda da Universidade perguntou se devia continuar a pagar-lhe. Resposta do regente: ‘Atendendo a ele ter sido encarregado pelo governo deste reino de importantes comissões muito úteis ao seu Real Serviço’, que o pagassem”, p. 114. A declaração do próprio regente é deixada de lado sem comentário algum, sem nenhuma análise. Não chama a atenção o prestígio do brasileiro zé-ninguém e o reconhecimento oficial da importância de seus feitos? A autora prefere mudar de assunto na frase seguinte e, claro, diminuir mais uma vez o personagem: “Deixado para trás, Bonifácio saltava de um posto a outro, sem aprofundar realizações”. Como assim? E as “importantes comissões muito úteis ao seu Real Serviço”? Mais uma vez, salta o conflito entre a análise da autora e as evidências históricas que traz ao livro.

23) Bonifácio passa a secretário-geral da Academia Real das Ciências de Lisboa? Grande coisa, debocha a autora: “A casa estava vazia de notáveis”, p. 115. Digamos que, sim, não fosse grande coisa ser o secretário-geral da Academia. Para mim, leigo leitor, teria grande relevância a autora procurar explicação para o fato de, mesmo assim, o cargo ter sido assumido por Bonifácio. Ninguém mais o queria? Se, mesmo não valendo nada, houvesse mais gente na disputa, por que Bonifácio foi escolhido? Teria algo de reconhecimento nisso? Era resultado de algo desonesto, por baixo do pano? Eram favores impróprios? O livro nada explica, apesar de não ser algo desimportante numa biografia. Aí vejo a principal debilidade do livro: o personagem desempenha um sem-fim de cargos, recebe elogios de altas autoridades, mas não foi mais que um zé-ninguém para a autora. Que precisaria ter feito Bonifácio para escapar da demolição ácida pela biógrafa? Não consegui descobrir.

Biografado era lembrado para resolver problemas. Cadê a biógrafa?

24) Na p. 116: “a pedido da Junta de Saúde Pública, envolveu-se numa pesquisa para evitar a entrada em Portugal, via correio, da peste ou da febre amarela. Acreditava-se que as cartas podiam ser transmissoras de doenças. Recomendou a aplicação de gás oximuriático, pois se mantinha, assim, a privacidade da correspondência, que não era aberta”. Surpreende que Bonifácio seja indicado pela Junta para tratar de um assunto de saúde pública? Por que a Junta se lembrou dele? A autora não vê nada de significativo que merecesse uma análise, ainda que breve, na biografia. Que raios de personagem insignificante é esse que é sempre lembrado para resolver problemas? A mim, que sou leigo em história, chama muito a atenção. Mas nada que ele faça tem a menor importância para a biógrafa. Outro exemplo: escreveu artigos num jornal, p. 116, mas o periódico era “para poucos lerem”, p. 117.

25) “Como todos os homens que, de ano em ano, se apagam cada vez mais, Bonifácio entregou-se, entediado, aos misteres a que ficou reduzido”, p. 120. Não tem coerência com o restante do livro, porque, para a autora, ele nunca foi nada de importante. Como se pode apagar uma luz que nunca brilhou?

26) Mais uma vez, o elogio que outros fazem a Bonifácio estão no livro, mas não influem em nada no deboche da autora. “Aos 56 anos, deixou a imagem descrita pelo colega Francisco Manuel Trigoso de Aragão Morato: ‘Eu conhecia já de Coimbra a José Bonifácio; era um homem de grandíssimo talento e instrução, de muita vivacidade, de gênio forte e empreendedor, e muito espirituoso e engraçado em sociedade de amigos’”. Tirando o gênio forte, as demais características nunca são admitidas pela autora, apesar de, pela minha leitura, os elementos factuais reunidos no livro apontarem mais para elas que para a conclusão de que Bonifácio foi sempre um fracassado.

27) Bonifácio trouxe ao Brasil, de sua estada em Portugal, “seis mil livros”, p. 121. Seis mil livros! Que comenta a autora sobre isso? Nada. É uma informação dada assim como se nada. Quantas são, mesmo hoje, as insignificâncias broncas que se preocupam em reunir uma biblioteca de seis mil livros? O livro continua: “e sua coleção de minerais, que considerava a melhor do mundo”. Considerava e não era? Era uma grande coleção? Tinha algum mérito? Que comenta a autora? Nada.

28) Diz um inimigo da família sobre os irmãos do biografado: “julgo pouco conveniente a sua existência nestes Estados, onde só a vaidosa confiança que lhes inspira o valimento de José Bonifácio…”, p. 130. Mas Bonifácio não era uma nulidade? De que “valimento” o governador Franca e Horta falava nessa carta? A autora deu algum valor ao reconhecimento que partia de um inimigo? De jeito nenhum. O livro segue contando que os outros Andradas pediram a interferência do irmão, e, “Não por acaso, em 1815 Antônio Carlos foi nomeado para uma auditoria na riquíssima cidade de Recife”, p. 131. Quanto poder tinha a nulidade que vinha tendo o brilho apagando cada vez mais! Não é discordância com a historiadora (não tenho competência para isso), mas é uma perplexidade de leitor diante do que me parece incoerência e tendenciosidade tóxica da obra.

29) De volta ao Brasil, o homem de brilho em desaparecimento gradativo recebeu pessoas na chegada ao Rio de Janeiro “desde as oito horas da manhã até as onze da noite” e foi convidado para ajudante do ministro Tomás, “homem forte de D. João e ministro de várias pastas” e para “a reitoria do Instituto Acadêmico, espécie de universidade que se queria fundar”, pp. 134-135. O insignificante não aceitou os convites: “aceitou apenas o título de membro do Conselho de D. João VI”. Apenas? Para uma nulidade com o fogo se apagando? É difícil não ver em tudo isso um comprometimento além da conta para a biógrafa.

Adversário de Bonifácio passa a ser “excelente”

30) Já os adversários de Bonifácio contam com o beneplácito (desculpe o trocadilho) da autora: “Franca e Horta, que, aliás, foi excelente administrador”, p. 137. Confesso que nunca tinha lido nada sobre o governador. Mas fui ao Google e encontrei o estudo “O governador de São Paulo Antônio José da Franca e Horta — subsídios para a sua biografia”, de Lourenço Correia de Matos, publicado na Revista do IHGSP, vol. XCIX, de 2015. Está lá: “O seu governo é controversamente tratado na bibliografia brasileira que tive oportunidade de consultar”. Ou seja, o “excelente administrador” da autora é no mínimo discutível. Ou era um adversário de Bonifácio e, por isso, deve ter sido excelente? Como entender essa diferença de tratamento entre Bonifácio e inimigos, a não ser como consequência do engajamento da autora na missão destrutiva?

31) Mais um trecho que achei muito significativo do quanto a autora escreveu com a missão de acabar com Bonifácio de qualquer modo, ainda que em conflito com o que ela própria escolheu para o livro: “Bonifácio não gostou do que viu no planalto: ‘Se eu pudesse alguma coisa para com Deus, lhe rogaria quisesse dar muita geada anualmente nas terras de serra acima, onde se faz o açúcar, porque a cultura da cana tem sido muito prejudicial aos povos.’ Os prejuízos decorriam, segundo ele, da diminuição da lavoura de subsistência, do encarecimento de produtos básicos e da introdução de escravos africanos que substituiriam os índios. A combinação de escravidão e latifúndio levava à corrupção dos costumes e à devastação das matas”, p. 139. A autora toma o cuidado de não concordar nem mesmo com o discurso de Bonifácio contra a monocultura e o latifúndio: “segundo ele”! Segundo a autora, não são prejuízos? Não merece nem um tantinho de aplauso, uma palma que seja, um homem do século XIX que fala contra os prejuízos da monocultura e do latifúndio? Para a autora, não merece nada. Olhemos para onde vai a análise: “Opinião original? Não. Já havia um consenso sobre os males da plantação, em larga escala, de um só produto”. Naquela época já havia esse consenso? Sério? Pois seria bom avisar aos sojeiros de hoje, porque eles estão desatualizados. Mas digamos que a opinião não fosse original. E daí? Por isso, não tinha mérito?

32) “Mas Bonifácio voltou cheio de ideias”, p. 140. Finalmente, um comentário positivo? Calma, porque a autora continua: “Algumas, prosaicas”. Nenhum reconhecimento a Bonifácio é sempre a política no livro. Bonifácio defendia adaptar roupa e alimentação ao clima, criticava gordura e hábitos sedentários, estava preocupado com espantar cobras e mosquito, mas tudo isso era prosaísmo inútil naquela terra de gente culta (sim, estou sendo irônico), que, pelo que se depreende do comentário da autora, já conhecia e praticava todas essas ideias prosaicas. Para a terra de cegos, o um olho de Bonifácio não tinha nenhum valor. Seus cuidados são tratados com desdém pela biógrafa.

33) Pelo que fica muito claro no livro, a autora não concorda com as críticas que Bonifácio fazia aos brasileiros da época. Ele diz: “trabalho de dia e de noite e tudo isso com gente livre e alugada, sem precisar de escravatura que detesto e querendo dar a essa gente o exemplo do que devem fazer”, p. 141. Mais: “Os brasileiros mostram altivez nas baixezas, amor-próprio nas bagatelas e obstinação em puerilidade”. Tinha alguma razão o personagem? Zero de razão, segundo o comentário da autora: “Bonifácio não escondia o sentimento de superioridade frente aos patrícios”. Ou seja, a autora se volta contra as críticas de Bonifácio à escravatura, às baixezas, às bagatelas e à puerilidade pelo artifício argumentativo de desmerecê-las como manifestação de complexo de superioridade. O parágrafo conclui sarcasticamente a discordância com Bonifácio: “Em resumo, os compatriotas não eram frequentáveis”. A autora frequentaria os escravocratas?

34) Como sempre, o que me chama a atenção como leitor é a incoerência, o conflito entre o que a autora mostra e o que diz. Apesar de admitir que “Da viagem dos irmãos Andradas resultou um minucioso trabalho de reconhecimento e análise dos locais onde se poderia desenvolver a mineração e a fundição do ferro”, a autora acha importante é alfinetar: “E, também, de vilas onde poderia soldar contatos políticos”, p. 142. Apesar de registrar que Bonifácio criticava os que viviam do trabalho dos outros, a destruição das matas e as queimadas e que ele defendia toda a atenção para a questão indígena, a autora dá destaque é ao fato de ele criticar tanto (“Mas o choque de realidade com a pobreza da colônia o levava a esposar outras críticas”). Ou seja, nenhum reconhecimento às posições que, mesmo hoje, seriam consideradas progressistas. Era, é o que fica claro no livro, um encrenqueiro que vivia arranjando encrenca a torto e a direito. “De colisões com autoridades ele entendia”, p. 144. A autora defende que o zé-ninguém tinha de abaixar a cabeça, tinha de saber qual era seu lugar diante das altas autoridades? Parece.

No livro só cabe o que diminui o brasileiro

35) “João Carlos Augusto de Oyenhausen-Gravenburg, primeiro e único visconde e marquês de Aracati, foi um nobre”, p. 144. Foi, mas a não tão douta Wikipédia me informa que o João “Era filho ilegítimo do conde de Oyenhausen-Gravenburg”. Epa, isso a autora não traz para a biografia, porque no livro só cabe aquilo que diminui Bonifácio: “Ah, esses alemães que Bonifácio detestava e que o trataram com frieza, pois que não ‘dirigiam a palavra aos de baixo’”. Injusto Bonifácio, que detestava os que não dirigiam a palavra à gentalha. “Porém mais um quadro com todas as características que acendiam os sentimentos antiaristocráticos de Bonifácio. E ainda era um governador adorado”, p. 145. A autora é contra sentimentos antiaristocráticos? Ou, diante de um nobre (apesar de filho ilegítimo), o reles Bonifácio tinha também que cair de joelhos e adorar?

36) Bonifácio escreve ao rei pedindo que “não olvidasse os socorros da botânica, da medicina e da química, pois somente elas despedaçariam ‘a imunda vestidura da pobreza’”, p. 145. Em resposta, o rei “deu-lhe o título de Conselheiro pelos bons serviços, ‘inteligência, zelo e distinção’”. Em vez de tentar explicar por que diabos o rei dava mostras de reconhecimento ao biografado, a biógrafa prefere insistir no deboche: “Bonifácio é que se esqueceu de tê-lo um dia chamado de João Burro!”

37) Mesmo, “segundo biógrafos”, Bonifácio tendo sido convidado para presidir a eleição do governo provisório de São Paulo e tendo, “de uma janela da Câmara”, indicado o presidente desse governo, p. 154, a autora ironiza o fato de ele se considerar digno de ser um dos legisladores: a monarquia constitucional “tinha de ser conduzida por ‘sábios’, e ele se considerava um”, p. 157, e “Por que não ele como legislador?” Sim, por que não? Por que a autora insinua que era muito ele achar que estaria preparado para ser um legislador?

38) Bonifácio defendia o fim da escravatura, “Porém o medo sempre foi mais forte do que a compaixão”, p. 162. Ou seja, os sentimentos nobres não combinariam com a personagem. De que tinha medo nosso personagem? “Enquanto não fossem libertados, que fossem bem tratados, pois não eram ‘brutos animais’, explicava Bonifácio. E o alerta: ‘Tudo isto com tal circunspecção, que os miseráveis escravos não reclamem estes direitos com tumultos e insurreições que podem trazer cenas de sangue e horrores’”, p. 163. A autora preferiu entender que ele não estava querendo evitar sangue e horrores — estava era com medo. “Em público, gostava de acusar o ‘o urro dos sórdidos interesses que protegiam a escravatura e contra o lucro dos traficantes de escravos’. Mas, em privado, o tom polêmico era substituído pela ambiguidade e a cautela”. Cautela, está bem, as palavras de Bonifácio são mesmo cautelosas. Mas onde a ambiguidade na fala que a autora transcreve? Só a má vontade pode ver em tudo a interpretação mais negativa, ainda que forçada e enviesada.

39) Sobre escravos e indígenas, a posição do personagem era: “Nada de políticas isolacionistas, mas integração. Bonifácio dizia que a América podia ser o seio de uma confraternização racial”, p. 163. Palmas para ele? Calma. O mais importante, que apaga qualquer possibilidade de leitura positiva das ideias de Bonifácio, era que “o que estava em jogo era evitar a desordem e a incivilidade de tais povos por meio de sua educação”. E? Digamos que ele estivesse errado aos olhos politicamente corretos de hoje. Mas de uma coisa a autora quer que nos esqueçamos: Bonifácio viveu no século XIX, num país escravocrata e profundamente ignorante e injusto. Pensar como ele pensava, defender o que defendia, ainda que com suas imperfeições, é motivo para o apedrejamento sistemático a que a biógrafa o submente nesse livro?

40) “Latifúndios eram um mal, pois não cultivados e improdutivos. Em função deles, a população rural se dispersava, vivendo ‘como feras no meio de brenhas e matos’ – dispersão, aliás, que era velha queixa dos governadores setecentistas. Também esse tema não introduzia inovação”, pp. 164-165. Está bem: digamos que Bonifácio não merecesse o Oscar da criatividade. E daí? Aliás, quantos criticavam os latifúndios, a escravatura e o isolacionismo entre seus contemporâneos? Estar no grupo dos que se preocupavam com esses temas desmerece ou favorece Bonifácio? Será que, para a autora, melhor apoiar a escravatura que ser o segundo a condená-la?

A autora tem uma obsessão por inovação, por ser o primeiro. Um dos critérios que nunca deixa de aplicar à vida do biografado é sempre esse: alguém já fez isso antes? E daí se alguém já fez algo útil, desejável, humano ou justo antes? Qual é a relevância de verificar se o primeiro ou o segundo a defender uma boa ideia? O conceito moderno é que ninguém pode registrar direito autoral sobre ideia, mas o livro nunca explica essa fixação em avaliar o ineditismo das posições do biografado em vez de aferir o valor dessas ideias para a formação do país.

41) “Bonifácio dividido? Era preciso ganhá-lo para a revolta”, p. 170. Por que a preocupação com esse insignificante? Por que os revoltosos queriam a adesão dele? Precisavam dele? Por quê? Não há análise no livro, porque talvez aí fosse obrigatório admitir que Bonifácio tinha influência, o que está em desacordo com a tese de que ele foi uma nulidade com nenhuma ideia inédita.

42) “A carta de Bonifácio chegou às mãos do príncipe no Rio a 1º de janeiro de 1822 e foi por ele divulgada imediatamente, deixando que seu conteúdo vazasse entre a população, com aparência de segredo. O texto foi lido em voz alta em pontos de reunião política: livraria na Rua São Pedro, Alfândega e Quartel do I Regimento de Cavalaria, e, a 8 de janeiro de 1822, saiu impresso na Gazeta do Rio”, p. 172. Mais um exemplo de elementos históricos juntados no livro que entram em conflito com a imagem, que a autora quer impor ao leitor, de um José Bonifácio insignificante.

O encontro com Maria Leopoldina

43) Sobre o encontro de Bonifácio com Maria Leopoldina, diz o livro que “As impressões da arquiduquesa depois de deixar os delegados paulistas foram registradas por Rendon: ‘Tornou a voltar a trote e a galope e conversou muito em francês com o excelentíssimo Senhor José Bonifácio’”. Reconhecimento da importância de nosso apedrejado biografado? “Não é improvável que o médico que a acompanhou em sua vinda ao Brasil, Francisco de Melo Franco, colega de Bonifácio em Coimbra, lhe tenha dito boas palavras sobre o paulista.” Ou seja, a boa conta em que Leopoldina tinha Bonifácio não tinha sido fruto de reconhecimento legítimo — era influência de Melo Franco. O que importa é dar uma paulada a cada vez que o personagem ousar colocar a cabeça um milímetro acima da altura própria à ralé.

44) “Com a chegada de Bonifácio ao Rio, a 17 de janeiro, ele foi logo nomeado para chefiar o Ministério dos Negócios do Reino e Estrangeiros, sendo o primeiro brasileiro a ocupar cargo semelhante. Finalmente um cargo, e no primeiro escalão. Finalmente saía do deserto. Era reconhecido”, pp. 174-175. Finalmente um cargo??? “Mas antes mesmo de tomar as primeiras atitudes como ministro, Bonifácio ganhou a cena no enterro do príncipe D. João Carlos”, p. 175. Aleluia: a realidade mostra um pouquinho sua cara sem ser abafada por análise negativa da autora. Comentário do barão austríaco Wenzel de Mareschal sobre Bonifácio: “Num país onde a preguiça e a dormência são gerais, sua superabundância de vivacidade é talvez necessária”. Como era um nobre e ainda mais europeu que estava chamando o brasileiro de preguiçoso, a biógrafa não estranha o “sentimento de superioridade” que não deixava de assinalar em Bonifácio. Afinal, o tom do livro é sempre de respeito quase subserviente com os nobres e aristocratas, panteão a que Bonifácio nunca chegaria, o que, pelo que se interpreta das palavras da autora, ela acha muito bem feito.

45) As duas legendas da p. IV do encarte de ilustrações não deixa dúvida sobre o objetivo do livro: “Para Bonifácio, Paris, que visitou em 1792, foi uma cidade de poucos estudos, muitos teatros, ceias, compras e passeios” e “Estocolmo: cidade de águas e ilhas. Ali Bonifácio criticou os suecos por julgarem-se ‘perfeitos’. Parecia estar falando de si mesmo”. Os seis mil livros que o biografado trouxe da Europa e os conhecimentos que ele queria ver implantados na administração e na economia do Brasil certamente lhe entraram na cabeça por osmose, porque, pelo que se depreende do livro, Bonifácio era mais de esbórnia que de dedicação, independentemente do reconhecimento em forma de inúmeros cargos e das avaliações positivas dos governos português e brasileiro.

46) E volta mais uma vez a obsessão: “Mais uma opinião original de Bonifácio? Não”, p. 177. E volta mais uma vez a outra obsessão: “Sua personalidade ressentida e ambiciosa, bem como a arrogância, que era um traço de família, não o ajudariam na aproximação com políticos fluminenses liberais, homens com reconhecimento internacional, tanto quanto ele”, p. 177. Qual foi o episódio contado no livro para justificar essa avaliação? Nenhum. Nenhum exemplo da arrogância no trato com os políticos fluminenses. A autora segue com a informação de que os adversários de Bonifácio “defendiam a exploração do trabalho escravo e do comércio de escravos”. A biógrafa condena de alguma forma essa posição? Não. “Estavam, portanto, na contramão do tolerantismo de Bonifácio”. Os outros toleravam a escravatura e o tráfico, mas o rótulo odioso (apud Schopenhauer) no livro é para Bonifácio: tolerantista. Defender escravatura, vá lá. Mas ser tolerantista, ah, isso não.

47) E tome simpatia para com o biografado: “A pessoa frente a quem ele doravante curvaria a espinha…”, p. 179. Para a autora, o reles Bonifácio curvaria a espinha para o príncipe governante. E que há de ultrajante em respeitar o príncipe? Aliás, importante confrontar essa “avaliação” de subserviência com o que aparece mais na frente no livro: “Precisando conversar com seu ministro, o príncipe ia a cavalo até sua casa no Largo do Rocio, esquina da Rua do Sacramento”, p. 183. “Um agente consular chegou a comentar, malevolamente, que, ao perguntar certa feita a alguém se era mesmo D. Pedro que se encontrava no interior da residência, ouviu em resposta: ‘Sim, é o príncipe, ajudante de ordens de José Bonifácio’”. Ora, ora, que é que vale, afinal, senhora historiadora? Era Bonifácio que ia ao palácio, de espinha curvada, bajular o príncipe ou era o príncipe que sentia necessidade de consultar Bonifácio? O leitor minimamente interessado e atento não tem como não se perder nessa peleja sem tréguas entre juízo de valor da biógrafa e fatos biografados.

48) “Bonifácio tinha pontos comuns com D. Pedro: a vida de pandegarias, a poesia e a música, o hábito de contar histórias sem filtrar palavras, o gosto de viver entre tabernas e prostíbulos”, p. 180. Se o personagem fosse nosso contemporâneo, daria no mínimo um bom processo por acusação leviana.  Gosto de viver entre tabernas e prostíbulos? Então, o livro não conta a vida de Bonifácio. Das quase 300 páginas, em quantas há menção a tabernas e prostíbulos? Ora, se o viver entre tabernas e prostíbulos é tão importante assim na vida dele, não se pode aceitar que sua biografia não demonstre isso. Seria preciso ambientar boa parte das páginas nesses lugares ou pelo menos mostrar com fatos essa frequência tão assídua. Vida de pandegarias? Então, a biografia não é honesta com a vida que aborda. O que se vê é alguém assoberbado de cargos, correndo de um trabalho a outro, engatando uma missão pública na outra. Aliás, há uma menção às pandegarias, mas de D. Pedro: “Precisando conversar com seu ministro, o príncipe ia a cavalo até sua casa no Largo do Rocio, esquina da Rua do Sacramento. Lá passava mesmo depois de suas noitadas de ‘pandegarias’”, p. 183.

49) Nas p. 185, o livro cita ações de D. Leopoldina em defesa do biografado, avisando-o de que grupos contrários “procuravam tirar Bonifácio do governo”, de que existiam inimigos e de que havia gente querendo semear discórdia entre os dois. Ou seja, as palavras de Leopoldina denotam que ele era alguém com prestígio com D. Pedro e com sua mulher. No entanto, a autora, na página seguinte, faz questão de dar uma alfinetada: “Bonifácio alimentava a ligação com o príncipe com contínua informação. Não hesitava em exibir-se na correspondência”. “Exibir-se”. Não há trégua. O livro é um deboche depois do outro. Depois de transcrever um trecho de correspondência ao príncipe (“não durmo e vigio sobre tais energúmenos”), mais deboche: “Era a volta do soldado que lutara contra Napoleão”. Lembremo-nos que, apesar de ocupar vários postos e desempenhar com sucesso várias missões contra os franceses, a autora faz, no livro, gozação em cima de Bonifácio.

50) Na p. 188, o livro faz referência às publicações de um adversário de Bonifácio sobre o Apostolado da Nobre Ordem dos Cavaleiros da Santa Cruz, fundado pelo biografado “com o objetivo de combater os chamados liberais mais radicais liderados por Ledo e Januário da Cunha Barbosa, que não contavam com o apoio popular”. Repita-se: o Apostolado queria combater ideias que não contavam com apoio popular. A autora resume as críticas ao Apostolado feitas no jornal do adversário: “Era um clube de espiões corrompidos e estúpidos que se espalhavam pelo país, em conluio com o ministério, só para restabelecer o absolutismo”. Onde os fatos? Quem tinha razão? Certamente não Bonifácio a depender da opinião da autora: “esse objetivo nasceu de sua arrogância de ilustrado recém-chegado ao Brasil”. Mais uma vez o crime de falta de originalidade: “A elite já sabia disso havia tempos”. Que a elite já tinha feito ou dito que demonstrasse que já sabia? A historiadora não nos conta. Quer apenas que confiemos em sua análise isenta e sóbria sobre os acontecimentos que cercaram Bonifácio em sua insossa vida de plebeu obscuro. (Sim, estou ironizando mesmo!)

51) Idas e vindas, inimigos fustigando Bonifácio, Bonifácio fustigando inimigos, tramas, conspirações. “A reintegração dos irmãos no Ministério teve lugar no mesmo dia, amparada por cerca de duas mil assinaturas, junto com uma proclamação, distribuída às portas do Teatro de São Pedro, que alardeava a necessidade de o povo se vingar dos ‘perversos’ e ‘demagogos’ que tentaram erguer o ‘decantado republicanismo’. No mesmo dia, D. Pedro e D. Leopoldina foram à busca de Bonifácio”, p. 195. Mas as 2.000 assinaturas e o gesto de D. Pedro e D. Leopoldina não têm relevância histórica para a biógrafa: “Anos mais tarde, o Despertador Constitucional lembraria que a dita manifestação foi armada — o povo teria sido insuflado”. A autora pesquisou os fatos ou os indícios e concorda com a revisão feita “anos mais tarde” pelo jornal? Onde estão as provas de que a informação do jornal é que é a verdadeira? Parece não importar. Se é para diminuir ou incriminar Bonifácio, qualquer voz tem fé pública, mesmo e principalmente os adversários.

Pé atrás e vale até citação sem análise

52) “Às vésperas do dia da Aclamação, Bonifácio, que já tinha retomado as rédeas dos acontecimentos, pecou novamente”, p. 196. Pecar era o feijão com arroz do biografado, não era? Quando alguém chega à página 196 do livro e vê o relato do que teriam sido desmandos repressivos violentos por parte de Bonifácio, não dá mais para crer no mínimo de objetividade da autora. O pé atrás atrapalha a leitura factual, e a impressão que se tem é de mais uma manifestação de antipatia difamante da autora para com o personagem. Esse é um grande problema no livro. É difícil lê-lo e sair com um mínimo de conhecimento acerca dos fatos históricos do período, porque o leitor atento certamente dará enormes descontos sobre o que diz a autora, que não desarma o sangue nos olhos em nenhum momento da obra.

Na p. 199, a citação do publicado num jornal português sobre a coroação de D. Pedro: “Todos confirmam que José Bonifácio é duque. Agora subirá os degraus da baixeza porque o novo imperador tem subido para a consumação do ato de hoje”. Era falsa a informação sobre o título de duque para Bonifácio. Quer dizer, o jornal não tinha boas fontes de informação. Então, que podemos entender do trecho transcrito no livro, vindo de um veículo sem credibilidade? Que o jornal era contra Bonifácio e que Bonifácio certamente ajudou a contrariar interesses defendidos pelo jornal. Que comenta a autora, além de dizer que o jornal “envenenou os leitores portugueses”? Nada. Se é contra Bonifácio, está valendo a citação sem análise.

53) Aparecem informações aparentemente positivas: “sua preocupação em demonstrar a superioridade do trabalho livre sobre o escravo tomava forma”, p. 202; “Segundo o ministro, a América do Sul seria um espaço formado por estáveis monarquias constitucionalistas!”; e “Devemos ser os chins do mundo, sem escravidão política e sem momos. Amemos, pois, nossos usos e costumes, ainda que a Europa se ria de nós”, p. 204. Defensor da soberania e da afirmação das nações americanas? Não para a autora, que crava o veredito: “ufanista”. Bonifácio é sempre o reles Bonifácio, faça o que fizer, diga o que disser, defenda o que defender.

54) “Segundo especialistas, eram quatro os pontos que Bonifácio queria atingir com seu projeto: abolir a escravidão, integrar o indígena, promover a mestiçagem e civilizar povo e elite segundo padrões europeus”, p. 205. Que vê a autora? Mais uma vez o pecado grave da falta de originalidade: “Pregava a um Brasil que havia muito já era mestiço”. “Seu bordão: a necessidade de abolir o tráfico negreiro, de melhorar a sorte dos cativos e de promover sua progressiva emancipação. A razão: a escravidão era uma injustiça e a abolição, um ato de cristandade.” Podemos marcar um ponto, um mísero pontinho para Bonifácio? De jeito nenhum: a autora sapeca-lhe imediatamente um rótulo negativo para que o leitor não se esqueça de quem é o biografado: “toleracionista”. Sem contar que, de novo, não há originalidade em Bonifácio: “Lembrou ainda os argumentos dos eminentes antecessores para atacar a escravidão colonial”, p. 212. Os antecessores do reles biografado eram, claro, “eminentes”. Não há nada de positivo nas ideias de Bonifácio. Nunca a autora reconhece mérito nele. Em nada. Quando é obrigada a transcrever (não escrever) algo que soe positivo, dá em seguida uma paulada.

55) Os Andradas saem do governo “em honrosa pobreza”, segundo o representante de uma firma inglesa, p. 217. Que análise se faz sobre tão importante informação acerca de um homem poderoso que estava deixando o governo? A autora não dá importância a isso. Prefere ficar com a acusação de sempre: autoritarismo e intolerância, p. 220. Num país de velhacos, exploradores e ladrões do dinheiro público, a autora não vê nada de significativo na “honrosa pobreza” do biografado.

56) E de onde veio o título de “Patrono da Independência”? A autora explica que dos elogios feitos a Bonifácio nos jornais amigos O Regulador Brasileiro e O Tamoio. Ora, o livro aponta jornais inimigos fazendo, ao mesmo tempo, a campanha contrária. Então, é muito difícil aceitar a conclusão ligeira de que a importância da presença de Bonifácio na história do Brasil tenha sido construída graças a matérias tendenciosas de um ou dois jornais. Por que será que a voz dos jornais inimigos não preponderou?

57) D. Pedro dissolve a Constituinte. Bonifácio tem a casa cercada, deputados são presos. Comentário da autora: “Depois da ‘noite de agonia’, como ficou chamada, os deputados que tinham se declarado prontos a enfrentar as baionetas imperiais voltaram para casa, com o rabo entre as pernas”, p. 231. De que lado está a autora tão ciosa em sempre julgar cada ato ou ideia de Bonifácio? Que diz contra a violência do imperador? Nada, apesar de tratar os constituintes com a piadinha do “rabo entre as pernas”.

Sistemática cacetada no cocuruto do Andrada

58) Bonifácio vai para o exílio. “Porque Bordeaux era uma cidade fiel ao Antigo Regime que Bonifácio dizia abominar”, p. 243. A biógrafa não se desarma um minuto sequer: “dizia abominar”! Não mesmo: “O fechamento da Constituinte significava, para ele, a consagração do despotismo e do absolutismo”. Para ele? Para a autora, não? “A derrota pessoal lhe parecia tão mais dura quanto ele considerava a Independência uma conquista sua. Esquecido da campanha que fizera em causa própria no jornal O Tamoio, achava-se o único paladino da pátria.” Na p. 245: “ele chorou, numa gramática estropiada, as ilusões perdidas”. Está bem a observação, mas isso diminui a figura histórica de Bonifácio? A autora também parece ter-se esquecido da vírgula depois de “Regime” na frase “Porque Bordeaux era uma cidade fiel ao Antigo Regime que Bonifácio dizia abominar”, mas isso não a diminui como historiadora. De todo modo, importante parece ser, para ela, não perder uma oportunidade de dar uma sistemática cacetada no cocuruto do Andrada. Para não perder o costume.

A escolha das palavras é cirúrgica para cumprir o objetivo do livro: “fustigando”, p. 246; “ressentimento” e “subterfúgio”, p. 247; “Atreveu-se”, p. 250.

Mesmo com pouco dinheiro, Bonifácio “comprava livros e revistas” e “Lia de obras científicas aos clássicos”, p. 250. Palmas para ele? Não que a autora é coerente. E, surpresa!, olha a obsessão da autora de novo aí, gente: “Atreveu-se a fazer comentários, sem originalidade, sobre a literatura espanhola e portuguesa”. “Sem originalidade”! O homem era um político e mineralogista — qual o pecado de não ser original em crítica literária? Já a historiadora, sim, parece entender de literatura: “era um mau poeta”, p. 250. Com base em que argumentos de técnica literária? Nenhum é apresentado, nenhuma autoridade literária é citada, mas, em se tratando de Bonifácio, o “mau” pode ser acrescentado a tudo.

D. Pedro I, o primeiro imperador do Brasil | Foto: Reprodução

59) “Vivendo numa França que voltara ao absolutismo, ele insistia na ideia do Império Constitucional para o bem da nação”, p. 251. Por que a escolha de “insistia”? Que teria feito a autora nas mesmas circunstâncias? Teria virado absolutista? Será que, com base nas mesmas evidências, a frase não poderia ser escrita assim: “Mesmo vivendo numa França que voltara ao absolutismo, ele mantinha sua defesa da ideia do Império Constitucional para o bem da nação”? A autora escreveu como escreveu porque tem simpatia pelo absolutismo ou porque tem antipatia por Bonifácio? Tenho a pretensão de dizer que adivinho a resposta.

60) “Eles listaram as benesses que trouxeram ao país: saneamento das finanças, criação de um Exército e de uma frota, unidade da América lusitana, expulsão dos inimigos portugueses e compromisso com a monarquia constitucional”, p. 254. A autora, pródiga em distribuir juízos negativos sobre tudo que se relacionasse a Bonifácio, nada comenta sobre essas benesses. A autora concorda que são importantes contribuições ao Brasil? Por que não diz nada sobre um resumo tão importante, para a biografia, dos feitos dos Andradas? Ou é um resumo mentiroso?

61) Domitila é feita marquesa e “Dezenove viscondes e 22 barões ganharam títulos, contrariando a vontade popular de conquista de cargos na administração pública por méritos”, p. 256. Como a autora, que a tudo julga em Bonifácio, não comenta nada sobre a amante de D. Pedro ter virado marquesa, fiquei com a impressão de que avalia como positivo o ato do monarca.

“Ele, que na juventude sonhara com distinções, agora não perdoava os brasileiros que se deixavam comprar com títulos e decorações”. Sonhar com distinção é o mesmo que se deixar comprar com distinção? Ou o sonho em Bonifácio era crime tão grave quanto a venalidade nos outros?

62) Bonifácio volta do exílio e chega ao Brasil com “dificuldades financeiras”, p. 259. Por que Bonifácio não ficou rico na vida pública? Era idiota ou honesto? Uma mistura dos dois ou nem uma coisa nem outra? Para mim um ponto mais que importante na biografia, mas não há uma análise dessa singularidade na história do Brasil.

63) No Rio, “D. Pedro foi visitá-lo, junto com a nova imperatriz” e “Bonifácio não teria se contido: além de pedir a ela que reconciliasse o marido com a nação, fez críticas à situação, no que foi interrompido pelo imperador. Bonifácio não mudara”, p. 262. “Bonifácio não mudara” — esse é o comentário que a historiadora faz sobre o episódio de um ex-exilado que tinha o desprendimento de, antes de pedir algo pessoal, pedir pela nação? Bonifácio não mudara na coragem de dizer na cara do imperador, na chegado do exílio e sem medo de represália, o que pensava sobre a situação do Brasil? A autora acha que teria sido mais louvável se ele tivesse “curvado a espinha” para o todo poderoso monarca? “Na época, D. Pedro se afastava lentamente da imagem de monarca constitucional que colou, provisoriamente, à de imperador. Tornou-se impopular”. E a autora reclama é da coerência de Bonifácio?

D. Pedro I abdica | Foto: Reprodução

64) D. Pedro abdica e a quem recorre? “O imperador recorreu a Bonifácio, em cujas mãos queria deixar seus filhos: as três meninas e o menino imperador”, p. 268. Tome elogio: “mui probo, honrado e patriótico cidadão José Bonifácio de Andrada e Silva, meu verdadeiro amigo”, p. 269. Em seguida, a infaltável paulada da vigilante autora: “E, sempre fiel ao seu estilo de tratar o imperador como um rapazola, enviou-lhe uma carta em que o repreendia por ter confiado seus negócios ao corretor e negociante judeu José de Buschental”. E segue: “Mas frente a quem doravante Bonifácio curvaria a espinha?”, p. 271. O livro tinha acabado de contar o episódio de Bonifácio repreendendo o imperador, mas nada muda a opinião (historicista?) da autora de que ele sempre foi um sabujo a curvar a espinha para os poderosos.

Possível, biógrafa, tirar uma interpretação elogiosa de um episódio?

65) “Recusou — sabe-se lá por que razão, pois estava pobre — os vencimentos de ministro de Estado que lhe cabiam. Gabava-se de que, para ele, bastavam a honra e a glória em fazer do menino rei um ‘bom cidadão’”, p. 272. Arrisco um porquê: será que ele não recusou os vencimentos por achar suficientes a honra e a glória em fazer do menino rei um bom cidadão? Idiota, o livro demonstra que ele não era. Possível, biógrafa, tirar uma interpretação elogiosa do episódio?

66) “Bonifácio seria, sim, traiçoeiro, inepto, irresponsável e sem compostura. Dizia palavrões na frente dos pequenos príncipes, desacatava as damas do Paço e ali reunia gente suspeita. A decrepitude o impedia de exercer o cargo. Acusações choviam para empurrá-lo para fora do palácio”, p. 282. Afinal, era decrépito ou articulador de gente suspeita? Era decrépito ou traiçoeiro? Como era que o decrépito fazia para ter energia de dedicar-se a suas atividades demoníacas? E por que a autora usa uma palavra tão forte para destacar o processo normal de envelhecimento, como decrepitude? A biógrafa tem preconceito contra velho?

Alguém que não podia, pela velhice, exercer o cargo de tutor, ainda que cercado da ajuda do pessoal de apoio do palácio, como é que tinha energia para articular um movimento de traição? Por que a autora não analisa esse aparente paradoxo?

Outra coisa: o livro mostra Bonifácio cercado de inimigos, e a autora não acha importante fazer uma análise contextualizada do movimento para empurrar o biografado para fora do palácio? Era um movimento que atendia a algum interesse? De quem? A autora confia nas boas intenções e na integridade dos personagens inimigos de Bonifácio?

67) Confrontemos “A tudo isso se somou a campanha movida pelo Aurora Fluminense”, p. 282, e “o menino-imperador vai para bordo da nau inglesa’, alarmava o jornaleco A Formiga”, p. 283. O primeiro jornal, inimigo de Bonifácio, é apenas o Aurora Fluminense, sem adjetivos. O segundo, partidário de Bonifácio, é “o jornaleco A Formiga”. Senhora biógrafa, precisava tanto? Era para sentir vergüenza ajena, mas preferi escolher o sentimento de indignação reforçada.

68) Bonifácio foi destituído da tutoria dos príncipes e do imperador mirim. Resistiu, e foi preciso mobilizar “mais de cem homens da cavalaria e da infantaria” para que ele entregasse o cargo, p. 284. Afinal, o fabricante de cartucho não era de tão improvável coragem, não é mesmo?

“Entre os que mais gostaram de sua destituição? D. Mariana de Verna, que recebeu do aliado Aureliano de Souza Coutinho, ministro da Justiça, uma cartinha: ‘Parabéns, minha Senhora. Demos com o colosso em terra’”. Que essa “cartinha” revela? Como entender a aliança entre o ministro e a babá? A queda de Bonifácio foi boa para o país ou para os que tramaram sua destituição? Que explicação a biógrafa nos fornece? Nenhuma.

69) Acusado em juízo, “Na sessão de 14 de março foi absolvido por unanimidade”, p. 286. “Na imprensa, porém, sua figura continuava a dividir opiniões. Enquanto o Diário do Rio de Janeiro estampava a manchete ‘Triunfo da Probidade’, comparando-o ao patriarca bíblico José, ‘salvador do Egito’, atribuindo-lhe o título de ‘Salvador do Brasil pelos conselhos dados a D. Pedro” e acusando a ‘maquiavélica tramoia urdida pela malignidade de seus inimigos’, o Aurora Fluminense descrevia outro quadro”. O quadro do Aurora, dos inimigos, é obviamente contrário a Bonifácio. A biógrafa continua: “Ou seja, os métodos empregados desde sempre pelos Andradas fizeram-se presentes também no julgamento”. Dois jornais, um contra, o outro a favor, um a um, imprensa dividida, mas, para a autora, o jornal que merece total credibilidade é – surpresa! – o inimigo. O uso do “Ou seja” deixa claro que a biógrafa optou por adotar a posição dos inimigos de Bonifácio como verdade indiscutível. Por que seria?

Priore não percebe grandeza de Bonifácio nem quando ele morre

70) Situação no fim da vida? “Não era pobre nem rico”, p. 287. Que pensava nessa época? “Os políticos da moda querem que o Brasil se torne Inglaterra ou França; eu quisera que ele perdesse nunca os seus usos e costumes simples e naturais, antes retrogradasse do que se corrompesse”, p. 289. A autora poderia ter encontrado pontos de coincidência com alguns pensadores atuais tidos como progressistas. Mas só se fosse outra pessoa, não a biógrafa. Para Bonifácio, só a pior das interpretações sempre: “Esquecia que achava que ‘os brasileiros (…) são bons para padres, rábulas e escrivães’, ou seja, eram retrógrados mesmo?”

71) Morre Bonifácio. “O corpo deixou Niterói numa galeota imperial, chegando ao Largo do Paço às 19 horas. À sua passagem, navios de guerra e mercantes cruzaram as vergas e baixaram suas bandeiras a meio pau. Grande massa de populares e oficiais o aguardava. Na rampa do cais, pegaram nas alças do caixão os senadores marquês de Paranaguá, Luís José de Oliveira, João Evangelista de Faria Saião Lobato e Antonio Francisco Holanda Cavalcanti. Em meio ao largo, foram substituídos por membros da Sociedade Imperial de Medicina. Ao fundo, ouviam-se peças fúnebres executadas por uma banda. O caixão aberto desfilou, entre alas da Guarda Nacional, até a porta da Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo e nele via-se o corpo de Bonifácio revestido da insígnia de cavaleiro da Ordem de Cristo que recebera de D. João. De uma das janelas do Paço, o menino-imperador, agora com 13 anos, assistiu passar o cortejo fúnebre”.

Segue a descrição: piquete da Cavalaria; criados da Casa Imperial perfilados; coche mortuário e carruagem de honra; três descargas de artilharia e infantaria; discursos das diversas corporações… “O Diário do Rio de Janeiro noticiou: ‘Faleceu ontem às três horas da tarde, com grande sentimento de seus numerosos amigos e de todos os brasileiros sinceros o ínclito Patriarca da Independência, o benemérito cidadão José Bonifácio de Andrada e Silva”, p. 291. Grande acontecimento, o que seria prova do destaque do biografado? Que nada. O enterro foi excepcional? “Não. Enterros eram cerimônias públicas e, no século XIX, um verdadeiro acontecimento social”. Ou seja, a autora quer fazer o leitor acreditar que enterro com acompanhamento do imperador, senadores carregando o caixão, descargas de tiros por militares, bandeiras a meio pau, luto de oito dias etc., etc., etc. era para qualquer um. “Para grandes conhecidos, como Bonifácio, ou pequenos desconhecidos, a cerimônia ensejava a mesma emoção, os mesmos gestos de contrição e ostentação. Nesse dia, a diferença foi a presença de políticos e as honras militares”. Precisa dizer mais?

72) A síntese do descompasso entre os elementos de conteúdo e o propósito da historiadora na biografia está no capítulo final da obra, a partir da p. 293. Está ali, por exemplo, a frase: “Odiava o Antigo Regime, que o impediu de crescer”. Ora, se crescer é, para o homem público, galgar a hierarquia, não vejo base para a conclusão de que qualquer força o tenha impedido de crescer. Ele cresceu. Foi muita coisa mesmo na corte, em Portugal. E foi quase tudo no Brasil, inclusive ministro e tutor do imperador. Só não foi monarca, porque até aristocrata a autora enfim admite que foi: “Sem ser fidalgo, fez-se aristocrata”.

Ao criticar outros livros sobre Bonifácio, ataca Del Priore: “Relataram os feitos do biografado, mas só os bons”, p. 294. Sobre o que ela fez, eu diria: “Emitiu juízos de valor sobre o biografado, mas só os maus”. Até porque os feitos que ela também trouxe no livro são, no frigir dos ovos, mais bons que maus para o personagem da história do Brasil.

Diz ainda: “A partir de 2000, biografias baseadas em novas perspectivas historiográficas analisaram o personagem a partir de suas ideias políticas e seus interesses científicos, enriquecendo definitivamente sua múltipla personalidade”, p. 294. Não creio que tenha sido o que ela fez em “As Vidas de José Bonifácio”. A personalidade de Bonifácio é rasa e monocromática para Del Priore: “Foi insistente, violento e vingativo”, p. 293. Não há nuances, não há flutuações. Não há nem sombra de um Bonifácio paciente, pacífico ou complacente em nenhum episódio, segundo a ótica da autora. Ela nunca vê traço minimamente positivo em nada que ele diga ou faça ou defenda. Portanto, não concordo que seu livro possa ser inscrito no rol daqueles baseados “em novas perspectivas historiográficas”.

Ele pode não ter sido “muito”, mas também não foi “pouco”

Enfim, existem tese antes de conhecer os fatos (preconceito), tese depois de conhecer os fatos (ciência) e tese apesar dos fatos, que é o caso de “As Vidas de José Bonifácio”. Se a posição demolidora sobre o biografado for realmente embasada em suficientes elementos de convicção, esse Bonifácio foi sonegado ao leitor, esses fatos não foram oferecidos. Ele pode não ter sido tão muito como alguns dizem, mas os fatos no livro não me dão a impressão de que tenha sido tão pouco como Del Priore quer.

Aliás, tenho a firme convicção de que daria para escrever um poderoso livro de elogio a Bonifácio com o mesmo conteúdo de citações e fatos que o livro utiliza.

Com todo o respeito que a festejada historiadora merece, esse livro sobre Bonifácio (ainda não li outro dela) tem cheiro de pasquim, de imprensa marrom. Estou me sentindo decepcionado, como leitor, e logrado, como consumidor.

Everardo Leitão é professor de português e autor do livro “Guia do Idiota Globalizado”.

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