Marketing exagerado é o maior vilão de Esquadrão Suicida

O filme é divertido, mas é uma pena que a Warner Bros. tenha preferido trocar as cenas tão propagandeadas do Coringa pelos closes de bunda da Arlequina

Arlequina tomou mais espaço do que deveria no filme, que acabou não desenvolvendo suas personagens da maneira devida | Foto: Divulgação

Arlequina tomou mais espaço do que deveria no filme, que acabou não desenvolvendo suas personagens da maneira devida | Foto: Divulgação

Ana Amélia Ribeiro
Especial para o Jornal Opção

Fugindo do padrão das críticas que escrevo para o Opção Cultural, dessa vez começo o texto com um spoiler: o marketing exagerado do “Esquadrão Suicida” é o maior vilão do filme. O longa-metragem chegou às telonas no início de agosto e já rendeu muita discussão. O que falar desse filme que tinha tudo para ser, mas não foi? Por onde começar a analisar um filme que foi salvo graças à atuação do elenco de estrelas escaladas?

Nos meses que antecederam a estreia, várias notícias sobre “Es­quadrão Suicida” circularam pelos portais de cinema e cultura pop, e ninguém aguentava mais ler notícias cujo o título era: “Jared Leto faz – alguma coisa óbvia, que qualquer bom ator que vai interpretar um papel difícil tem que fazer para representar uma personagem – para viver o Coringa nos cinemas”.

Esse marketing excessivo foi tóxico para o personagem, pois a atuação de Leto era muito esperada e, no final, a maior parte das suas cenas foram cortadas, reduzindo seu tempo em cena e não mostrando nem 1/3 da genialidade vendida pelo marketing do filme. Agora, por que houve cortes? Intervenção demais da Warner Bros.

A Warner estava apostando todas as suas fichas em “Esquadrão Suicida” para ser o grande sucesso de verão, mas começou a “tremer nas bases” depois das inúmeras críticas — na maior parte, injustas — que “Batman vs. Superman” recebeu após seu lançamento, em março. O presidente da Warner, Greg Silverman, e o CEO do estúdio, Kevin Tsujihara, se preocuparam com a empresa e com os demais executivos, que questionaram se “Esquadrão Suicida” realmente iria entregar a diversão e o tom prometidos nos trailers.

Segundo o site The Holly­wood Reporter, os executivos da Warner para “salvar” o filme — uma atitude um tanto desesperada — foi pro­curar a Trailer Park, empresa res­ponsável pelo segundo teaser, para ajudar na criação de uma versão mais “alegre” do longa. O site diz que, em maio, o estúdio exibiu, para parte do público no norte da Califórnia, duas versões do filme: a versão mais sombria do diretor David Ayer (“Corações de Ferro”), e outra mais otimista, feita pela Trailer Park — preferida pelo estúdio.

Como as opiniões não foram conclusivas, Warner e David Ayer começaram a trabalhar para ter um consenso no filme. Depois das análises sobre as opiniões do público a respeito das duas versões, o estúdio optou pelo o começo com a introdução dos personagens e gráficos empolgantes. Assim, devido à falta de confiança no material que tinham em mãos e para chegar no consenso que agradasse o público, eles gastaram milhões com filmagens adicionais.

Era realmente necessário tudo isso? Não. Mais: o resultado deu a impressão de que recortes foram feitos no roteiro, que ficou parecendo uma verdadeira colcha de retalhos. E, apesar do filme ter duas horas de duração, faltou espaço para desenvolvimento dos personagens. Também faltou coerência na construção da equipe de heróis; deram muito destaque para alguns, e outros apareceram ali só de enfeite. Apesar de ter um elenco tão diverso — com muitas mulheres e personagens japoneses, negros, latinos e nativos americanos — pouco se aproveitou dessa diversidade.

A jornada dos anti-heróis

Cena mostra Amanda Waller em reunião com representantes da Segurança Nacional estadunidense: o Esquadrão é “formado” nesta reunião | Foto: Divulgação

Cena mostra Amanda Waller em reunião com representantes da Segurança Nacional estadunidense: o Esquadrão é “formado” nesta reunião | Foto: Divulgação

Por que focar apenas nos filmes de heróis, quando se tem um time de vilões como os da DC? Partindo dessa ideia, o diretor e roteirista David Ayer teve apenas quatro meses para transformar vilões em quase heróis, mas a história vazou antes da entrega do script final e surgiram inúmeros atores querendo participar da produção, baseados apenas pelos conceitos criados pelo diretor/roteirista. O filme ganhou forma de maneira rápida: a ideia foi apresentada em julho de 2014, começaram a filmar em abril de 2015 e, em outubro do mesmo ano, já estavam em pré-produção. É possível perceber a rapidez de produção durante alguns momentos do filme.

O filme é dividido em duas partes: o início, que apresenta os personagens na prisão de Belle Reeve, penitenciária importante no Universo DC, já que os membros do Esquadrão Suicida estão encarcerados lá; e a segunda parte, que é a batalha final em Midway City — assim como Gotham e Metrópolis, essa é uma cidade fictícia da DC onde vivem o Gavião Negro e a Mulher-Gavião, que não aparecem e nem são mencionados durante o filme.

O longa-metragem começa dando mais enfoque ao eixo central da história, formado por Pistoleiro (Will Smith), Amanda Waller (Viola Davis) e Arlequina (Margot Robbie). É com o desenrolar da histórias deles que os outros personagens vão surgindo, à medida que os flashbacks vão se desenvolvendo para compor o enredo. No núcleo do Pistoleiro há a primeira aparição do Batman (Ben Affleck); nesse momento, já fica claro que seu amor pela filha será a motivação da personagem durante o filme. Além disso, a rivalidade entre Pistoleiro e Batman, em cena, se assemelha com a relação dos dois nos quadrinhos.

Depois desse flashback, o filme foca um pouco na história da Arlequina, que tem uma cena com os guardas da prisão. Nesse momento, é possível perceber que o núcleo dela é construído de forma malfeita, tendo como base as HQs “Mad Love” e “Novos 52”. Infelizmente, o relacionamento abusivo entre ela e Coringa foi romantizado — em um filme em que 46% do público da estreia americana foi de mulheres. E essa “romantização” não levou em conta que, na própria HQ da personagem em “Novos 52”, esse relacionamento tóxico é rompido para dar lugar à construção de um arco bacana da personagem; no filme, ao contrário, os estereótipos infantilizados da personagem foram reforçados, sem contar a hipersexualização — às vezes, muito desnecessária.

Viola Davis interpretando Amanda Waller roubou a cena todas as vezes em que aparece na telona. É um daqueles momentos em que você está assistindo a um filme e pensa: “Essa atriz nasceu para esse papel”. Ela chega mostrando quem manda, que sabe de todos os segredos, e que consegue qualquer informação que ela quiser porque é Amanda Waller; ela está ali para fechar negócio, e não está de brincadeira. Em uma reunião secreta com representantes da Segurança Nacional, Waller deixa claro que a morte do Superman deixou o peso de uma responsabilidade muito grande, pois se uma terceira guerra mundial acontecesse seria melhor ter os meta-humanos lutando ao lado deles do que contra. Então, Waller apresenta sua ideia audaciosa de criar a Força Tarefa X.

Durante esse jantar, ela apresenta cada um dos candidatos aptos a participar do programa; conta sobre o Pistoleiro e diz que ele vai aceitar porque o ponto fraco dele é a filha; conta sobre a Dra. Harleen Quinzel — sem surpresas, a Arlequina é resumida como a psiquiatra do Asilo Arkham, que acredita que realmente está mudando o Coringa (Jared Leto), mas que acaba se apaixonando por ele. É por meio do relato de Waller que é possível perceber que Harleen Quinzel foi usada pelo vilão e que, durante a rebelião que ela ajudou a iniciar, Coringa e outros pacientes do Arkham a capturam e a torturam na mesa de eletrochoque. A cena volta para Amanda, que continua a história da Arlequina, falando que ela é usada como troféu do gangster e que quem mexe com ela acaba se dando mal. Depois disso há outro flashback, aquele visto em praticamente todos os trailers, que mostra como Arlequina foi presa pelo Batman na cena da lamborghini roxa.

Nesse momento, percebe-se que o trio Pistoleiro-Waller-Arlequina são os principais do filme, pois boa parte da trama se desenvolve com eles e, por isso, sua apresentação é mais detalhada. Por isso só depois a história dos outros integrantes do Esquadrão Suicida é resumida: ela conta a história de June Moone (Cara Delevingne), uma arqueóloga que caiu na caverna errada e abriu um artefato misterioso e que liberou uma entidade poderosa que vive na Terra há milhares de anos — essa deusa antiga chamada Magia possui o corpo de June.

A Segurança Nacional fica impressionado com os poderes da entidade e pergunta a Waller como ela convenceu Magia a participar da Força-Tarefa X e aí que é possível perceber que essa história vai acabar mal. Waller explica que ela tem o coração mumificado da meta-humana — algo como o coração de Davy Jones de “Piratas do Caribe” — e, assim, ela tem o controle sobre a bruxa. Explica também que colocou seu melhor soldado para cuidar da arqueóloga, Rick Flag (Joel Kinnaman). Waller mostra que tem o controle de (quase) tudo. Ao dizer que um soldado com o currículo de Flag cuidando de uma mulher como June é obvio que acabaria em romance, ela deixa claro que controla não só o coração da bruxa como também o coração da mulher; é assim que ela pensava que iria controlar Magia. Nem preciso dizer que isse termina mal, porque essa é uma tragédia anunciada.

Depois de mostrar seu “controle” da situação, Waller apresenta Capitão Bumerangue (Jai Courtney), ladrão de joias australiano que não trabalha bem em equipe e que foi preso pelo Flash (Ezra Miller) — apesar da rápida participação do futuro integrante da Liga da Justiça, é possível ficar bastante empolgado com a aparição do personagem; os efeitos da velocidade e o uniforme dele impressionam. Waller ainda conta um pouco do enredo de El Diablo (Jay Hernandez), um meta-humano que domina o fogo e que se entregou, e também a história de Crocodilo (Akinnuoye-Agbaje), que durante o filme mal fala, mas quando fala diz coisas lindas.

Katana (Karen Fukuhara) aparece na metade do filme, depois que a equipe está reunida, e é apresentada como guarda-costas da bússola moral do grupo e responsável por mantê-los na linha, Rick Flag. Katana é a personagem cujo núcleo é mais similar com os quadrinhos: sua espada aprisiona a alma das pessoas que ela mata, uma delas seu próprio marido, com quem ela conversa em alguns momentos do filme.

Um brinde à honra entre os ladrões

Apresentados os personagens do Esquadrão Suicida, já fica claro que não é uma boa ideia mexer com uma entidade que vaga pela Terra há milhares de anos, que estava aprisionada em um receptáculo. Então, como esperado, Magia se rebela e se teletransporta até a casa de Amanda Waller. Nessa sequência, vem a conveniência de roteiro: Magia não consegue recuperar seu coração, que está preso dentro de uma caixa superprotegida, então ela vai ao armário de Waller e recupera a estátua em que está presa outra entidade, a quem Magia chama de “Irmão”.

Como era de se esperar, Magia e o Irmão são os vilões do filme, e a motivação deles é: “Os humanos pararam de nos cultuar, agora eles cultuam máquinas”. Partindo disso, eles resolvem construir uma máquina para destruir os humanos. Essa motivação da Magia, embora esteja dentro da proposta do filme, poderia ter sido melhor desenvolvida, pois parece uma mistura de “Os Caça Fantasmas” com “Lambada – A dança proibida” e uma pitada de dança de Elaine da série “Seinfeld”, isto é, não é tão bom, mas desempenha bem o papel que lhe foi dado.

O ponto que incomoda no filme são as oportunidades perdidas em desenvolver personagens como Amarra/Slipknot (Beach). Apesar de ser quase um fanservice, a cena em que a tragédia com ele acontece — nas HQs ele perde o braço —, ela deixou o personagem resumido apenas àquele que consegue escalar qualquer coisa. Poxa, custava dar mais 10 minutos de cena a ele? Pelo visto custava; não só ao Amarra, como também ao Coringa.

O personagem de Jared Leto foi o que teve mais cenas cortadas durante a refilmagem; pouco se aproveitou de sua boa atuação e, nas entrevistas após o lançamento do filme, ele falou sobre sua insatisfação com as cenas deletadas. As sequências em que Coringa aparece se resumem a alguns flashbacks de Arlequina — aliás, a cena do tonel de ácido, em que as cores deles vão se misturando, tem uma fotografia linda, mas passa uma ideia errada de romance, sendo que todos sabem que o relacionamento entre eles não é amor, mas cilada.

Outro flashback que chama atenção é a cena da valsa de Coringa e Alerquina, em que ela usa seu uniforme clássico, e que é uma referência direta à arte de Alex Ross — e quando ele tenta resgatar seu troféu favorito, mostrando uma obsessão sem limite. Quando a Warner resolveu interferir na montagem do filme, talvez ela tenha preferido trocar as cenas “geniais” do Coringa pelos closes de bunda da Arlequina.

Apesar de cortes desnecessários, closes errados, cenas de batalhas ruins e de a trilha sonora atrapalhar de vez em quando, “Esquadrão Suicida” é um filme dentro do que foi prometido: as piadas foram na medida certa — Capitão Bumerangue e o Crocodilo poderiam ter sido melhor aproveitados para a parte cômica do filme, pois quando eles têm de fazer o público rir, não tem para ninguém. Will Smith se entregou ao personagem do Pistoleiro, passando emoção na medida certa.

O crescimento de El Diablo é algo que dá gosto de ver, cria-se um vínculo com o personagem, uma empatia. El Diablo protagoniza a cena “Martha” do filme, quando diz que a equipe é sua família, pois, como é um personagem que carrega um núcleo pesado, esse comportamento se torna até aceitável.

Geoff Johns foi escolhido diretor da DC Entertainment e deverá supervisionar os futuros filmes para que não haja tanta interferência

Geoff Johns foi escolhido diretor da DC Entertainment e deverá supervisionar os futuros filmes para que não haja tanta interferência

Agora, seria bom se houvesse mais cenas da equipe interagindo igual à cena do bar. As cenas em que Rick Flag é feito de “donzela” em perigo são hilárias, ainda mais quando o Pistoleiro grita: “Harleen, o Flag foi capturado de novo!”. Não vou falar muito da cena pós-credito, pois é o ponto alto do filme e essa emoção é única e não quero estragar a experiência do leitor — caso ainda não tenha ido ao cinema ver o longa.

“Esquadrão Suicida” é a prova de que roteiro e edição ruins podem ser salvos por um elenco cheio de bons atores; o longa não seria tão bom quanto foi se não fosse a escolha dos atores. O filme é bom, simplesmente isso. Divertido, tem uma história simples, mas o elenco deu um show de atuação — o problema maior foi o hype e a sensação de que poderiam fazer mais e que muita coisa foi desperdiçada.

Agora que Geoff Johns foi escolhido diretor do grupo DC Entertainment, ao lado de Jon Berg, ele vai supervisionar os futuros filmes da DC Films em parceria com a Warner; acho muito difícil que ele deixe o estúdio interferir nas próximas histórias como aconteceu com “Esquadrão Suicida”. A DC precisava de alguém para tomar o controle de sua produção cinematográfica e essa pessoa é Geoff. Afinal de contas, a DC tem um potencial cinematográfico muito bom, e tem muito o que mostrar nessa nova fase nos cinemas.

A expectativa agora está no filme da Mulher Maravilha, o primeiro filme solo de uma personagem feminina dessa nova fase de longas de quadrinhos, que tem previsão de chegar aos cinemas no dia 1] de junho de 2017. Até lá, a Warner Bros. poderia aprender a confiar nos diretores que eles contratam para seus filmes, e deixá-los produzirem e editarem de forma livre, porque nós temos bons exemplos de como a pouca interferência dos estúdios podem fazer blockbusters de sucesso.

Ana Amélia Ribeiro é jornalista e fã incondicional de quadrinhos. DCnauta, Marvete e muito apaixonada pela Turma da Mônica

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