Manas do rap e do rock

De forma deliberada ou mesmo não intencional, o engajamento acaba sendo uma marca no trabalho das novas compositoras goianas. Letras abordam temas como aborto, machismo, racismo e violência contra a mulher, estabelecendo um lugar de fala feminina

“Tantos casos na mídia,
Alguns ficam escondidos
Tanta mulher sofrida,
Com sonhos impedidos
Todo dia uma notícia,
Mostrando humilhação
É sobre isso que se trata
Essa minha canção”,
Mana Black | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Se o termo “empoderada” ainda não existisse no nosso vocabulário, ele teria que ser inventado para definir a arte e a atitude da rapper Mana Black. Artista independente, Mana Black usa o rap como voz meio de resistência e representatividade da mulher negra contra a opressão social, o machismo e o racismo. “Meu empoderamento vem da força de outras manas que me inspiram, que me fazer continuar. Mulheres de força e guerreiras. Que nos fazem realmente ter orgulho da nossa voz. Não vamos mais ser silenciadas. Vamos ocupar todos os espaços para mostrar como nossa luta é importante e merece ser reconhecida”, dá o seu recado sem delongas.

Essa postura contestadora e nada conformista é marca da artista, que também é atriz e modelo e atua como representante negra e feminista no rap goiano. “Desde que comecei fui atrás das minhas coisas, sozinha. Bati em portas, busquei parcerias, fiz trocas e tem dado tudo certo. Fui atrás das oportunidades. E eu sei que vai continuar assim, porque independente do que alguém falar para mim, eu acredito no meu potencial e de todas nós mulheres”, afirma.

Mana Black começou a cantar em 2017 e já possui cinco músicas autorais no repertório do seu show, sendo quatro delas com videoclipes produzidos e dirigidos pela própria artista em parceria com algumas produtoras. Entre locais pelos quais já passou e mandou a letra estão a Batalha da Freecção na UFG, Batalha da Norocity, Sesc, Sofar Goiânia, Evoé Café com Livros, Diablo Pub, Roxy, Chorinho no Grande Hotel, Galpão Complexo Criativo, Sarau da Bal dentre outros. Um dos momentos mais marcantes de sua trajetória, sem dúvida, foi quando subiu no palco e cantou sua música “Machistas Não Passarão” no show da Karol Conka, durante o 42º Congresso da União Brasi­leira dos Estudante (UBES), em 2017.

O engajamento de Mana Black é explícito em tudo que realiza. Na música “Manas de Poder”, ela aborda a união, resistência e militância entre as mulheres. No seu último videoclipe, “Noticiário”, ela aborda o tema feminicídio e expressa como as mulheres já estão cansadas de ver e ouvir notícias todos os dias da violência, sofridas por conta de uma sociedade machista. “Quanto aos desafios, o machismo e o racismo estão no nosso dia a dia. Se algum machista e racista me fechar alguma porta, eu vou atrás de abrir mais umas mil só para mostrar que, se eu quero chegar, lá eu consigo. Ninguém vai me parar!” Não mesmo. Go, Mana, go!

Salma Jô

Não vai nascer
Porque eu não quero
Porque eu não quero e basta eu não querer
Não vai viver
Porque eu vivo
Sou o deus vivo
Sua razão de ser
De uma praga a um chá
Sabe a índia, sabe a química
Que o seu desencarnar
É da minha natureza
É da minha arquitetura. Salma Jô | Foto: Filipa Andreia

“Particularmente gosto das coisas que são ditas inconfessáveis. Gosto de cavar cada vez mais fundo nos sentimentos.” A declaração dada em entrevista à revista Trip em 2016 revela muito sobre a identidade artística de Salma Jô, rosto, voz e alma da Carne Doce, banda que integra ao lado do marido Macloys Aquino e dos músicos João Victor Santana, Ricardo Machado e Aderson Maia. Antes, Salma foi por dois anos vocalista na banda de rock 70, a Galo Power, quando a música ainda era apenas um simples “escape” para as angústias e rotina da então estudante de Direito de 21 anos. “Comecei tarde. Achei que não tivesse talento para a coisa, que não tinha nascido para isso”, revela.

Foi mais ou menos na mesma época, em 2009, que começou a morar junto com o jornalista Macloys, integrante da banda Mersault e a Máquina de Escrever. Ambos começam a compor canções vindas de conversas à mesa ou à cama, onde discutem suas inquietações, curiosidades, angústias. Foi da união dos dois e seus respectivos “divórcios” musicais (ambos deixaram suas bandas na mesma época) que nasceu o projeto do Carne Doce, que chega agora a seu terceiro ‘filho’: o álbum “Tônus”, lançado neste mês. O disco explora novas nuances, mas não se furta do caráter visceral, não há “entre quatro paredes” que se interponham entre banda e público. As letras fazem com que elas se dissolvam e a intimidade se desvela nua, crua, agridoce, revigorando esse vínculo afetivo tão delicado quanto profundo com seus ouvintes.

Para Salma, no entanto, chegar a esse grau de entrega e de maturidade artística foi fruto de um processo no qual teve que, antes de tudo, encarar suas inseguranças não apenas como compositora, mas como mulher artista. “É difícil para nós, mulheres, enxergarem a possibilidade da carreira artística, pois os homens são mais estimulados a serem mais criativos, mas independentes e perseguirem seus sonhos. Ao passo que as mulheres são desde cedo treinadas a serem mais obedientes e ordeiras, como também a focarem em uma vida mais estável e a ajudarem mais em casa.”

Além desta questão mais abrangente, Salma chegou a pensar que o ofício de compor lhe era algo distante. “Antes de entrar na Galo Power, eu havia conhecido um cara, o Fernando Simplista. Um dia, simplesmente brincando, ele sugeriu de fazermos uma letra. Foi quando percebi que poderia ter essa experiência sempre e que eu poderia ser uma boa letrista. Que compor canções exigia simplesmente o exercício e se dispor a fazer”, recorda-se.

“Tem algo de terapêutico nisto de compor. Ao me inspirar em algum sentimento negativo, em alguma dor que já vivi, em alguma experiência triste e tentar reelaborar isto, de forma poética, não ajuda exatamente a curar a dor, mas viver de forma mais confortável com ela. Isso faz bem para mim sim. Colocar esses sentimentos para fora e ver que outras pessoas se identificam e se emocionam com eles”, afirma Salma Jô, para a qual não há temas tabu.

Até mesmo algo tão delicado, como a experiência do aborto pela qual passou em 2012, já veio à luz por meio de “Artemísia” (letra em destaque). Claro que a exposição e suas consequências é algo que pode assustar e até incomodar o artista, uma vez que lhe foge ao controle a reação e interpretação do público. “Eu já fiquei um pouco ansiosa e já pensei brevemente se eu deveria escrever sobre alguns assuntos. Penso na minha família e pessoas que me conhecem e que podem se assustar com as revelações, mas nunca tive problemas, pois sempre encontrei muito apoio”, revela.

Um exemplo foi a faixa “Falo”, que passou a ser rotulada como “hino feminista”, algo que nunca foi a pretensão de Salma Jô. “Ela passou a ser divulgada, não pela banda, mas por fãs e jornalistas e ouvintes, como uma obra ‘lacradora’. Eu nem gosto desta ideia de ‘lacração’ pois prefiro mais a ideia de debate e problematização. Da mesma forma que foi tomada como ‘hino feminista’, ela foi contestada como ‘hino feminista’, suscitando várias críticas que eu não estava prevendo, por parte até mesmo de pessoas que têm perfil do nosso público. Elas passaram a dizer que não havia legitimidade da minha parte. Até as minhas ações e questionamentos passaram a ser questionadas, pois segundo estas pessoas não teria credibilidade para fazer músicas que contemplassem o discurso feminista. Mas ‘Falo’, antes de tudo, é como todas as outras músicas minhas. A expressão de um sentimento, de raiva e indignação, de uma personagem específico, que tem suas limitações e fraquezas. Então, não acho que ela seja um hino e nem responda às necessidades do feminismo”, desabafa.

Questionada sobre os desafios que a mulher compositora ainda encontra no meio musical, Salma reflete que na Carne Doce, não só por ter a companhia do marido, mas por estar neste lugar de ‘diva’, de compositora, este lugar é um pouco mais blindado do machismo do que as outras posições das mulheres na música. “Acredito que a cantora e compositora sofre menos que a instrumentista, que a engenheira de som e a produtora musical, pois estas mulheres têm que enfrentar os homens e disputar no nível técnico, onde a disputa é muito mais acirrada. A Björk mesmo já até comentou sobre isto.”

Salma Jô credita à pauta do feminismo essa valorização da mulher na música, especialmente no meio independente. “Nós mesmo fomos convidados para alguns eventos por haver uma mulher na banda. Os festivais estão sentindo essa necessidade de contemplar esta representatividade feminina”, diz ela, que não considera a Carne Doce uma banda feminista. “Não é esta minha pretensão e nem acho que seja minha competência. Hoje tudo que é feminino está sendo vendido como feminista. Há vantagens e desvantagens nisto”, pondera.

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