Malala a caminho na casa dos 20

Prestes a fazer 21 anos, a garota paquistanesa que aos 15 sofreu um atentado executado pelo Taleban tem um ativismo destemido; seu discurso encanta pela vontade que transmite de querer ajudar a mudar o mundo, sobretudo o islâmico

Malala Yousafzai, 20 anos, inteligente e hábil na oratória, sobreviveu a um atentado e ampliou para o mundo seu ativismo em favor da educação para as crianças, sobretudo para as meninas | Foto: Reprodução

“Alguns me chamam de a garota que foi ba­leada pelo Taleban, e outros, a garota que lutou pelos seus direitos. Alguns agora me chamam de ganhadora do Nobel da Paz, mas meus irmãos ainda me chamam de irmã chata e brigona. Eu me vejo apenas como uma pessoa dedicada e teimosa, que quer ver todas as crianças terem educação de qualidade, e as mulheres terem direitos iguais, e que quer paz em cada canto do mundo.”

Estas palavras são de Malala Yousafzai, a jovem paquistanesa, inteligente e hábil na oratória desde pequena, que sobreviveu a um atentado e ampliou para o mundo seu ativismo em favor da educação para as crianças, especialmente para as meninas islâmicas.

Ela é a entrevistada de David Letterman deste mês de março, no programa “O Próximo Convidado”, disponível no serviço de streaming da Netflix. O entrevistador, muito mais contido e menos engraçado do que era no “Late Show”, que ele fez por muitos anos na CBS, mas com a mesma sagacidade, o mesmo brilho de raciocínio, não poupou elogios a sua convidada. “Você é única na civilização, e sua história e sua missão são ímpares.”

Quem a viu falar, quem a ouviu, sabe o quanto Malala sabe escolher as palavras, que sempre saem com uma luz ímpar mesmo, capaz de inspirar muita gente. Muito pequena, já sabia por onde as palavras passavam, conhecia o significado delas em cada situação de fala, e por isso foi perseguida ao perseguir seu sonho.

Desde que sobreviveu ao ataque brutal de extremistas islâmicos que odeiam as mulheres, em 2012, quando tinha 15 anos, Malala é recebida como uma heroína por onde passa. Embora não passe por muitos lugares, porque as ameaças continuam, suas ações no combate à violência contra as crianças e pela educação de meninas alcançam o mundo todo, graças ao dinheiro do Prêmio Nobel da Paz que ela ganhou em 2014.

Atentado no Swat
Ela é natural do Vale do Swat, no município de Mingora, um lugar muito bonito e sossegado, de pessoas pacatas, segundo sua descrição, que foi aos poucos sendo ocupado por militantes do Taleban. Desde o ataque, até hoje não conseguiu voltar à terra natal.

O ano em que seu destino deu uma guinada de 180 graus, era o ano em que o grupo terrorista Estado Islâmico ascendia vertiginosamente, com líderes extremistas islâmicos de várias partes do planeta, da Somália à Indonésia, sinalizando reverência a Abu Bakr al-Baghdadi, o chefão que se autodeclarou califa (sucessor de Maomé).

A violência desses grupos era a mesma, embora atuassem em redutos diferentes. Quando Malala sofreu o atentado, já era mais ou menos conhecida internacionalmente. Escrevia num blog mantido pela BBC de Londres, assinando com pseudônimo, defendendo a mesma causa pela qual foi atacada e que continua defendendo com a mesma coragem.

Aos 11 anos de idade, portanto, em 2008, quando o Taleban disputava aquele território, Malala começou a escrever no blog, falando sobre a vida no Vale de Swat. Aos 12, começou a defender publicamente a educação para meninas, a que o Taleban se opunha radicalmente.

Em 2011, foi nomeada para o Prêmio Internacional da Paz Infantil.
Não ganhou o prêmio. Mas foi a gota d’água. O Taleban voltou sua ira contra ela. “Esse é um novo capítulo de obscenidade, e nós temos de encerrá-lo”, disse na ocasião o porta-voz do grupo, Ahsanullah Ahsan. Meninas recebendo educação, para os extremistas islâmicos, é obsceno.

Malala não titubeou com as ameaças, e continuou a defender sua causa, citando publicamente o Taleban como inimigo desse direito. Em 2012, quando a jovem ativista voltava para casa em um ônibus saindo de Mingora para o Vale do Swat, com outras alunas, um garoto da sua idade atirou contra ela várias vezes. Um balaço atingiu o ombro e outro acertou a cabeça e se alojou no crânio.

O mundo ficou chocado, e ao conhecer a história da menina corajosa, curvou-se admirado. Trans­fe­ri­da para um hospital em Birmingham, na Inglaterra, Malala foi se recuperando do atentado com um vigor no discurso que encantava. Seu ativismo destemido e seu poder de fala são incríveis. Seu gênio passa pela vontade de fazer os outros vencerem. É tocante ouvi-la falar sobre isso.

Nobel da Paz
A organização do Prêmio Internacional da Paz Infantil acabou concedendo a ela a outorga em 2013. Em 2014, dois anos depois de o Taleban tentar matá-la pelos discursos e pelo reconhecimento que vinha conquistando, dentro e fora do Paquistão, Malala surpreendeu mais uma vez ao vencer o Prêmio Nobel da Paz, junto com o indiano Kailash Satyarthi, que também luta pelos direitos das crianças.

Aos 17 anos, tornou-se a pessoa mais jovem a ganhar um Nobel, superando William Lawrence Bragg, que em 1915 havia vencido o Nobel de Física, aos 25 anos, junto com o pai dele.
Na cerimônia de entrega do prêmio da Academia Sueca, Malala fez um discurso tocante: “Uma garota tem o poder de ir adiante em sua vida. Ela não nasceu apenas para ser mãe, ela não é só uma irmã, ela não é só uma esposa. Uma garota tem – ela deveria ter – uma identidade. Ela deveria ser reconhecida, e deveria ter seus direitos reconhecidos tanto quanto os de um garoto, mesmo quando meu irmão acha que eles estão sendo ameaçados, que eu estou sendo muito bem tratada, enquanto eles não.”

A quem me espelhar
Na entrevista com o Letterman, Malala, com um semblante sério, mas sereno, e às vezes um discreto sorriso, demonstrou mais uma vez porque é vista como “única na civilização”, embora haja muitas Malalas pelo mundo, inclusive aqui no Brasil, cada uma com suas características, exatamente o que as fazem únicas.

Ela sempre sabe o que dizer. Letterman lhe perguntou “o que você acha do presidente Trump”. Sua resposta: “Eu moro no Reino Unido. O que você, que mora aqui, acha dele?” Sobre seu pai, Ziauddin Yousafzai, que sempre a encorajou a lutar, ela diz: “Meu pai é um bravo, corajoso. Se ele não dissesse o que pensa, eu não diria, porque é preciso ter um exemplo. Eu tive em quem me espelhar, e eu o segui.”

Apesar das ameaças, a jovem ativista não fica presa à Inglaterra, onde mora. Já viajou para a Jordânia e o Líbano, onde construiu uma escola para refugiados. Na África, foi à Nigéria e ao Quênia, desenvolvendo ações de direitos humanos. Segundo ela, suas ações se estendem à Ásia e à América Latina também.

No dia 12 de julho, ela fará 21 anos. Sua autobiografia, “Eu Sou Ma­lala: A História da Garota Que Defendeu o Direito à Educação e Foi Baleada pelo Taleban”, foi publicada no Brasil pela Companhia das Letras. Daqui a uma semana, seu segundo livro, “Malala e Seu Lápis Mágico” será lançado no mercado editorial brasileiro pela mesma editora.

Embora more em Birmingham, a cidade que lhe devolveu a vida, seu potencial de grande líder mundial está sendo construído na prestigiosa Universidade de Oxford, onde faz um curso com o tripé em Filosofia, Política e Economia e trabalha como guia da instituição.

Esse mesmo curso, em 1977, 30 anos antes de ela nascer, havia sido feito por outra mulher paquistanesa de coragem semelhante, mas muito mais rica e poderosa, Benazir Bhutto, assassinada por atentado a bomba quando Malala tinha dez anos, em 2007.

A coragem de Malala é tão expressiva quanto seu discernimento. Segundo ela, não seguirá a carreira política. Quer fazer a diferença no mundo de outro modo. “Quero terminar o curso e me dedicar à educação das meninas, para vê-las se tornarem líderes e empoderadas. São 130 milhões de garotas em idade escolar fora da escola. Quando empoderamos meninas, elas trazem mudanças.” l

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