“Luta Por Justiça” denuncia sistema corrompido e racista

Mesmo após mais de 30 anos da prisão de Johnny D., condenado injustamente à pena de morte, sistema de Justiça dos Estados Unidos ainda é mais cruel baseado na cor da pele

Cena de longa-metragem “Luta Por Justiça”, com Jamie Foxx e Michael B. Jordan / Foto: Reprodução

“[Se você é negro] Você é culpado no momento em que você nasce.”

Não é difícil encontrar filmes que contem histórias de pessoas negras condenadas injustamente nos Estados Unidos. Inclusive, muitas inspiradas na realidade. “Hurricane”, “Um sonho de Liberdade” e a famosa série da Netflix “Olhos que condenam” são narrativas que trataram do tema e são conhecidas do público.

Em “Luta por justiça”, Michael B. Jordan interpreta Bryan Stevenson, um jovem negro de periferia recém formado em Direito pela Universidade de Harvard. Com consciência de que ninguém se importa com a comunidade negra fora dela, ele funda em Montgomery, no Alabama, a Equal Justice Initiative (Iniciativa de Justiça Igualitária), uma instituição destinada a defender negros no corredor da morte.

O longa-metragem é inspirado no livro de memórias de Stevenson, lançado em 2014. No enredo, o foco é a prisão contraditória de Walter “Johnny D.” Mcmillian (Jamie Foxx), acusado injustamente de assassinar de maneira brutal a adolescente Ronda Morrison, de 18 anos, em Monroeville. Pescador, pai de família que havia tido no passado um caso extraconjugal com uma mulher branca, Johnny D. se torna alvo fácil devido a reputação maculada. Ignorando dezenas de testemunhas, que haviam visto ele no momento em que a moça foi morta, o xerife da cidade e o promotor o incriminam, após manipularem o testemunho de Ralph Meyers (Tim Blake Nelson), um condenado da Justiça, que topou mentir em troca de um acordo.

Após seis anos preso, Johnny D. reencontra a esperança no advogado Stevenson, disposto a reabrir e escrutinar os erros da investigação, ir atrás novamente de todas as testemunhas e lutar por um novo julgamento. O caso ganhou notoriedade nacional após ser exposto, à época, no programa 60 Minutos. E é nessa desesperadora batalha judicial que o filme se desenha, denunciando um sistema de Justiça corrupto, racista e deturpado e, ainda por cima, respaldado pela sociedade. Se não se pode confiar na própria Justiça, em quem confiar?

“Você sabe o que eles me disseram quando me pegaram? Um de vocês [negros] fez isso e, se não foi você, você vai pagar por um dos seus colegas”

Um sistema cuja premissa é que sua índole e sua moralidade é definida pela cor da pele e que, 30 anos depois, ainda não mudou. Bryan Stevenson pode ter salvado mais de 140 negros do corredor da morte, mas o modelo da Justiça americana continua o mesmo. No Brasil muda a metodologia, mas não o alvo, quando jovens negros de periferia são 75% dos que morrem, segundo dados do IBGE. Lá, de 2003 a 2019, nenhum condenado à pena de morte foi executado em âmbito federal, apenas estadual (28 estados adeptos). Trump decidiu retomar essa atividade.

Foto: Reprodução

De acordo com o Centro de Informação de Pena de Morte e divulgado pela Folha de São Paulo em julho do ano passado, 62 presos federais aguardavam execução, dos quais, 43,6% eram brancos e 41,9% negros. Nos estados, 2.721 condenados, 42% brancos e 42% negros. Se a balança parece neutra para condenar, não é para matar. Um estudo divulgado em 2007 pela American Sociological Review mostrava que as chances de você ir para cadeira elétrica sendo um negro condenado à morte é duas vezes maior do que quando você é um branco aguardando execução.

Em 2019, os estados americanos ainda adeptos da pena de morte executaram 22 condenados. Aos poucos, as federações estão acabando com essa pena, tendo o Colorado abolido na última quarta-feira, 26, se tornando o 22º estado a deixar de ter execução.

Voltando brevemente para a cinematografia, que neste filme esteve tão próxima da realidade, “Luta por Justiça” também reacende as esperanças na humanidade, além de confortar o espectador com cenas reais nos créditos. Mesmo com atuações tão brilhantes como a luz do dia, não foi sequer lembrado pelo Oscar, que fingiu por mais um ano que artistas negros não existem.

Curiosamente, a história traça paralelos incríveis com o livro “O sol é para todos”, de Harper Lee, lançado em 1960. Além do crime ter sido cometido em Monroeville, onde a peça literária é ambientada, ambos abordam o mesmo tema de injustiça racial. Além disso, o xerife do livro se chama Heck Tate, enquanto o que prendeu Johnny D. se chama Thomas Tate. Mcmillian também teve um caso com uma moça branca, como o condenado da ficção. No entanto, enquanto em vida, garantiu nunca ter lido a premiada obra de Lee.

 

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