“A loucura dos outros”: o remanso bruto do universo feminino

Ao passo de Rubem Fonseca, a escritora Nara Vidal apresenta em nova obra uma galeria de mulheres, cujas pulsões emocionais as colocam na condição de vítima ou algoz

Crédito_JL Bulcão

Os contos se passam em parapeitos existenciais, onde a morte simbólica se associa a decisões drásticas, por não haver mais razão de ser mãe ou esposa, de atuar no teatro de uma vida de aparências | Foto: JL Bulcão

“Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura; beijaste-me para
a insanidade.

(…)
Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

— Sylvia Plath

 

Sérgio Tavares
Especial para o Jornal Opção

Um pouco antes de entrar propriamente em seus domínios, “A loucura dos outros”, obra de Nara Vidal, lançada pela Editora Reformatório, oferece a leitura do poema “Canção de amor da jovem louca”, da norte-americana Sylvia Plath. Mais que resumir o sentido ou situar a motivação da obra, os versos carregam a dramaticidade que irá pontuar o volume de contos através de uma série de escolhas temáticas que se espelham na tormentosa biografia da autora.

A título de supersimplificada apresentação, Plath foi casada com o também poeta Ted Hughes, com quem teve dois filhos. A relação conturbada, sobretudo em razão do comportamento infiel do marido, resultou numa separação que levou a autora a mudar de cidade e viver sozinha com as crianças. Numa manhã fria de fevereiro, Plath veda o quarto dos filhos, toma uma quantidade excessiva de narcóticos e enfia a cabeça no interior de um forno, com o gás ligado. A estrofe que inicia o poema parece fazer uma conexão entre o suicídio e o reatamento ilusório do amor: “Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro/Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer/(Acho que te criei no interior da minha mente)”.

Essa combinação de tragicidade e delírio amortecedor, que está na obra e na vida de Plath, é o que também configura as narrativas de Vidal — autora de Guarani, em Minas Gerais, e que vive em Londres, atualmente. São 21 contos (além de um falso começo), todos intitulados com nomes de mulheres, que se apresentam na forma de relatos conduzidos, em tom confessional, por uma voz feminina ou por homens que narram a desventura de uma personagem.

Incursionando por territórios sombrios da psicologia humana, a coletânea trata de conturbações, desejos obsessivos, submissão afetiva, sentimentos dilacerantes, autoenganos e crueldade, em virtude dos quais a mulher encontra-se na condição indefensável de vítima ou de algoz.

Mulheres
O primeiro conto, “Ifigênia”, é sobre a maldição de uma mulher sem cabeça que assombra os habitantes de um vilarejo. Por trás de um tecido alegórico, a narrativa descreve o desmoronamento da personagem-título, uma professora cuja paixão febril pelo palhaço de um circo itinerante leva-a à loucura. A autora esboça uma aproximação com o gênero fantástico, valendo-se de artifícios lúdicos e de abstrações circenses, para revestir o texto com um verniz de cores vibrantes, que suaviza o peso temático. Uma exceção, contudo. As demais narrativas caminham da sombra à total desclaridade.

É o que se vê no próximo “Marta” e, mais adiante, em “Vanessa”: contos alinhavados por uma linguagem crua, um realismo que captura, de rotinas medíocres, retratos de relacionamentos falidos, um esvaziamento emocional que transforma marido e mulher em estranhos. As histórias ocorrem em parapeitos existenciais, momentos em que a morte simbólica está associada a desligamentos e decisões drásticas, em razão de não haver mais sentido em ser esposa, em ser mãe, em atuar mais um dia no teatro de uma vida de aparências.

“(…) quando acordei, olhei para Vanessa e não acreditei na própria morte. A mulher que dormia ao meu lado era desconhecida. Sua baba no travesseiro já não era doce. Roncava e não me deixava dormir. Os cabelos permaneceram longos não sei o porquê. Não tinham viço. As pontas alaranjadas e queimadas da vida inteira passando por ela”.

Com uma prosa ágil e concisa, Vidal consegue ilustrar bem estes afogos, ofertar ao leitor uma perspectiva na qual lhe parece claro os descaminhos das relações e suas consequências.

Ocorre que, ao se colocar tão perto, fica impossível de se desviar do impacto. E os golpes ocorrem no avanço remansoso de uma brutalidade cujo estilo deixa perceber uma das influências latentes da autora. Contos como “Ana Rosa”, “Marelena” e o excelente “Maria Dulce” seguem a cartilha literária de Rubem Fonseca (do qual a coletânea “Ela e outras mulheres” também trazem contos intitulados com nomes femininos), destituída de abrandamentos e constituída por um coloquialismo tenso, a desgraça daqueles que parecem falar através de uma rachadura na parede, que miram a própria vida por meio de um olhar guiado pela violência que levará a uma violência ainda maior.

O interessante é que a autora chega a tal grau de aspereza, sem que seus contos percam suas propriedades de sedução. E essas se encontram na flexão dos relatos que conseguem expressar, com igual intensidade, o poder da mulher humilhada, que decide dar um basta e se libertar da opressão masculina, como a postura submissa daquela que enxerga em si o motivo para a aceitável humilhação, a exemplo de “Amanda”:

“Um dia, Marcos resolveu me bater. Depois de parar o sangue da boca, fui pro quarto pensando que merda que eu era que não conseguia me calar e esperar o ânimo dele pra conversar. Por que eu tinha que querer aliviar minha solidão com o meu marido se nem assunto que prestasse eu tinha?”

Num tempo de fervorosas discussões sobre a literatura feminina ou a literatura feita por mulheres, Vidal apresenta, através de seus contos, uma galeria de questões que avançam para debates morais e sociais. Uma prova de que chamar atenção para certas causas pode, sim, ser feita com qualidade e não depender de bravatas vazias ou meros panfletos.

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Queda da Própria Altura” e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc.

capa a loucura dos outros

Com uma prosa ágil e concisa, Vidal consegue ilustrar afogos e ofertar ao leitor uma perspectiva em que são claros os descaminhos das relações e suas consequências | Foto: Reprodução

Leia um trecho de “Maria Dulce”, conto do livro “A Loucura dos outros” de Nara Vidal

Mamãe foi feita pra dizer não. Sentia pena dela. Deu duro na vida. Queria tanto ter dinheiro, comprar roupas, móveis caros. Desenvolveu um gosto por quadros e peças antigas que quase nos faliu por completo. Fez empréstimo onde trabalhava só pra fazer bonito na sala de casa.

Disse que era para gastos com doença, mas era vaidade. Não sei se nos enxergava. Nos encontrávamos pouquíssimo. Ela trabalhava num banco. O pai na repartição. Eu e meu irmão ficávamos com a minha tia. Titia era cega de um olho, um olho branco, fosco. Velho diabo que não enxergava muito. Vivia tropeçando nas quinas de casa e quando o tio batia nela, ela falava que o roxo era pela vista pobre. A preta Onória e a filha adolescente ajudavam a tia com a casa, a comida, as compras e se ocupavam de fazer com que eu e meu irmão não andássemos sem chinelos. Colecionávamos bicho de pé. Uma batata maior que outra. A filha da Onória vinha com a agulha tentar tirar. Tinha prazer em escarafunchar aquela dor dentro da gente.

Nem álcool passava antes. Eu me sentava no colo dela e uma batata, duas e quantas mais? Ela me levava pro banheiro no caso de sair sangue e precisar lavar o pé. Ficávamos lá dentro uns bons e longos minutos. Ela mandava eu tirar a calcinha e acariciava tudo o que achava. Lambia minhas pernas e meu pé. Depois me vestia e dizia pra eu ficar quieta senão ela mandaria a Onória fazer pior.

Percebi que o mundo era cafajeste não por causa da filha da Onória, mas porque eu não ligava para o que ela fazia comigo. Eu gostava. Gostava quando lambia minhas coxas. Ela continuou o que outros chamariam de abuso, até eu fazer uns treze anos. Sentia a barriga explodir de desejo quando ela tirava minha calcinha. Mas a Onória foi embora da cidade. O marido matou um homem e tiveram que fugir. Não saberia mais dos três e do bando de filhos que carregavam, feito bananas em penca, aos montes, sem cuidado, num balaio só, as de qualidade e as podres.

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