Livros reúnem memórias de uma Goiânia que não existe mais

Assinadas por vários expoentes da capital, as obras “Rua 7, Centro, Além dos seus Sete Sobrados” e “Ruas 3 e 23, Centro, Moradores Pioneiros” dão prosseguimento ao projeto idealizado por Narcisa Cordeiro

Imagem da residência do casal José Dumont e Natércia, ficava localizada na Rua 3, de frente ao Jóquei Clube de Goiás. Foto: Acervo de família

“Nasci em 1946, na mesma quadra onde morou Pedro Ludovico Teixeira. Inclusive, desde criança, o via passar com seu terno branco, engomado, para assistir aos filmes que eram exibidos no Cine Teatro Goiânia. Eu participava de seu bloco de carnaval, no Jóquei Clube, onde meu pai é acionista número 4. Sempre via também Dona Gercina, na esquina com a rua 12, quando ela passa para as missas no Atheneu. Sempre os cumprimentava, embora criança. Fui vizinha de Eurides Natal e Silva, mãe de Colemar; uma grande intelectual. Frequentei seus saraus, cantando acompanhada ao violino por Costinha e Júlio Alencastro Veiga. Frequentei o Grupo Escolar Modelo, nas proximidades. Fui vizinha dos alemães Evald, Jansen e Werner Sonnenberg, projetistas do Setor Sul sob a consultoria de Armando de Godoy”.

É impossível não se render à nostalgia ao lermos relato acima de Narcisa Abreu Cordeiro, escritora, arquiteta, urbanista e escultora. Através dele, retornamos no tempo e reencontramos aquela Goiânia romântica, dos “bons tempos”. Apesar de nossa capital ainda ser historicamente jovem, já sofre de uma caduquice precoce, acelerada por seu desordenado crescimento e falta de políticas públicas que primem pela conservação de seu patrimônio histórico, material e imaterial. Uma caduquice que deleta fatos, personagens e construções que foram testemunhas do nascimento de nossa cidade e dos vislumbres de seu visionário fundador, Pedro Ludovico Teixeira. É com o objetivo de impedir que esses registros se percam para sempre e prover Goiânia de uma documentação mais ampla e aprofundada, mas ao mesmo tempo sensível, sobre sua própria história que surgiu o projeto “Ruas e Pioneiros”, idealizado por Narcisa e que já mobiliza diversos outros autores expoentes da literatura goiana.

O primeiro fruto do projeto foi “Alameda dos Buritis”, livro de Narcisa em parceria com de Rogério Arédio Ferreira e curadoria de Ubirajara Galli, lançado em 2017 pela Editora Kelps. Abraçado com o apoio institucional da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (Aflag), agora o projeto se desdobra em outros dois títulos, lançados oficialmente em solenidade no Palácio das Esmeraldas, na última quinta-feira (6/12): “Rua 7, Centro, Além dos seus Sete Sobrados”, com textos de Raquel Teixeira, Ubirajara Galli, Carol Pires e Maria Abadia Silva, juntamente com os de Narcisa e Arédio; e “Ruas 3 e 23, Centro, Moradores Pioneiros”, de autoria de Ubirajara Galli, Alba Dayrell e Carlos Leopoldo Dayrell. O primeiro, como o próprio nome já diz, fala das sete residências bastante conhecidas na época, além de ando histórias acontecidas nas décadas de 1940 e 1950. A outra obra é Ruas 3 e 23, Centro, Moradores Pioneiros, em que Ubirajara Galli também é autor, juntamente com Alba Dayrell e Carlos Leopoldo Dayrell.

Autores no lançamento das obras no Palácio das Esmeraldas. Foto: Leonardo Rocha

Segundo explica Ubirajara, a iniciativa é um ato de provocação memorial. “Trata-se de mapear os moradores pioneiros da década de 1940 e 1950. Eles acreditaram no projeto de construção de Pedro Ludovico, que não teria concretizado seus planos de construir a capital se não houvesse estas pessoas que fossem partícipes do sonho dele. Não apenas moradores, mas instituições também, educacionais, culturais, filantrópicas”, comenta o autor, que se mudou de Pires do Rio para Goiânia em 1972, aos 18 anos, para estudar o colegial científico no Lyceu, morei durante 6 anos no Centro de Goiânia, até o casamento. “Morei na rua 24, na Rua 3 e Rua 18”, conta.

Imagem do sobrado da família Ferreira Pacheco, ficava localizado na esquina da Rua 7, com a Rua 2. Foto: Acervo da família

Já o desembargador Rogério Arédio foi morador da Rua 7, a exemplo de Raquel Teixeira. Ele conta que além da memória, os autores resgataram como era a região no início da nova capital com muita pesquisa e bate papos com antigos vizinhos. “A rua era muito conhecida por seus sete sobrados, que se destacavam naquela época de poucas residências”, relembra o escritor. Segundo a presidente da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (Aflag) e uma das coautoras, Alba Lucinia Dayrell, pouco se sabe como era a vida no centro, primeira área residencial ocupada na nova cidade. “A ideia é documentar os hábitos e ações dos moradores dessa região nas primeiras décadas de sua existência”, afirma. Os livros ficarão à venda na sede da Aflag para quem tiver o interesse em adquirir um exemplar. Além da Aflag, o projeto tem o apoio do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás e da União Brasileira de Escritores, Seção de Goiás.

“Esquina do tempo”
Narcisa Cordeiro destaca que Goiânia é uma cidade bem-nascida no urbanismo como símbolo ambiental, na música e nas artes plásticas. Uma cidade com pessoas importantes em várias áreas e que tais chancelas são muito importantes para o que a cidade dê novos saltos no amanhã. Por isso, em sua avaliação, é primordial os registros destes moradores pioneiros, que vão reforçar o lado humano de nossa história. “Somos uma geração de filhos dos pioneiros de Goiânia e já estamos na ‘esquina do tempo’. Isso muito me preocupa, pois, nossos filhos não terão nossas lembranças, ficando sem condições de realizar um trabalho preciso memorial sobre Goiânia” comenta a arquiteta e membro da Aflag, que há mais de dez anos se debruça na pesquisa do plano original da capital e sua história, e evolução há décadas. “O momento é agora, inadiável, porque muitos de nossos pioneiros inclusive já faleceram”, alerta.

Da esquerda para direita: Rogério Arédio, Alba Lucínia e Narcisa Abreu Cordeiro . Foto: Leonardo Rocha

Ainda segundo Narcisa, o objetivo é que o projeto abranja todas as ruas do centro de Goiânia, “provendo à nossa cidade uma documentação muito especial comparada às outras cidades, que não tiveram essa mesma oportunidade de registrar suas memórias mais antigas”. Um quarto livro, de Ubirajara Galli, tem previsão de lançamento para março de 2019. Ainda inédito, a obra reunirá os resultados da pesquisa que desenvolve desde 2006 com o médico Hugo Frota Filho. “Esse é um projeto iniciado há cerca de 6 anos, quando comecei a pesquisar a Rua 20, a primeira de Goiânia a ter um quarteirão com casas de alvenaria. Mais especificamente trecho do lado esquerdo, entre a porta da Catedral e à esquina da Rua 15, onde se encontra hoje a sede da Academia Goiana de Letras. Esse livro avança um pouco mais no tempo, porque as primeiras moradias ficaram prontas em 1932-33”, explica.

Ubirajara frisa que o esfacelamento do patrimônio arquitetônico de Goiânia se deu no escasso intervalo de algumas décadas, a despeito da ainda pouca idade da capital. “Para se ter uma ideia, de todas as casas que haviam no logradouro pioneiro, a Rua 20, é a sede da Academia Goiana de Letras, que pertenceu ao Colemar Natal e Silva. A única exceção, infelizmente. Não há mais uma única casa e sobradinho, belíssimas construções da época do nascimento de Goiânia. Então, se a gente não alcançar agora o que restou, que é a memória destes pioneiros, já poucos hoje em dia, toda esta história se perde. Quem foram estas pessoas, no que elas contribuíram para o crescimento de Goiânia. Qual história do Atheneu, das escolas, da igreja? As pessoas não sabem! Apenas o nome na placa não conta suas histórias. Queremos trazer isso para as próximas gerações. O pouco que resta do primeiro momento de Goiânia deve ser conservado de forma urgente e desesperadora. Não é só o aspecto da despoluição, mas também de conservação do Art Déco ”, ressalta.

Título: Rua 7, Centro, Além dos seus Sete Sobrados

Autores: Carol Pires, Maria Abadia Silva, Narcisa Abreu Cordeiro, Raquel Teixeira, Rogério Arédio Ferreira e Ubirajara Galli

Título: Ruas 3 e 23, Centro, Moradores Pioneiros

Autores: Alba Lucinia Dayrell, Carlos Leopoldo Dayrell e Ubirajara Galli

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