Livro resgata histórias de Caiado, Jalles Machado e Ludovico: divergências e confluências

Alfredo Nasser teria dito, na presença de Ludovico: “Só um homem como o sr., presidente JK, poderia fazer-me subir no palanque do chefe absoluto de Goiás”

Jales Guedes Coelho Mendonça

Cidade de Goiás (capital). 20 de junho de 1930. Na 30ª sessão do Senado Estadual, o parlamentar Leão Di Ramos Caiado, filiado ao situacionista Partido Democrata —  liderado por seu irmão Antônio Ramos Caiado —, apresenta à mesa diretora requerimento contendo onze informações relacionadas às atividades executadas, seu custo e o quadro de funcionários da Secretaria de Viação e Obras Públicas, comandada pelo engenheiro Jalles Machado de Siqueira. Começava a ser escrita neste instante uma página importante da história política de Goiás.

Posto o requerimento em discussão na Casa de Leis, o senador Pedro Borba, ponderadamente, sugere sua rejeição sob o argumento de que todos os dados solicitados já constavam do relatório apresentado pelo secretário Jalles Machado de Siqueira ao governador Alfredo Lopes de Moraes, no que é acatado por seus pares. Vale acrescentar que o referido relatório foi publicado pela “Revista dos Tribunais”, de São Paulo, e distribuído em diversos órgãos públicos.

Dias antes do questionamento, o periódico “O Democrata”, de propriedade do senador federal Antônio Ramos Caiado, tecera críticas às petições de compra de terras devolutas exigidas pela pasta. Na sequência, o seu titular replicou, verberando a correção dos procedimentos adotados e, posteriormente, o semanário treplicou.

Como o atrito no seio governista ganhava incomum aspecto público, o órgão de notícias da oposição intitulado “Voz do Povo” aproveitou-se da ocasião para tentar ampliar a cizânia no campo adversário, aduzindo em sua edição de 11 de julho que a postulação do senador Leão Caiado representava “um verdadeiro mandado de despejo” contra o secretário, além de “formidável ato de hostilidade” em desfavor do governador. Cioso de sua reputação, ato contínuo, Jalles redige uma missiva ao diretor do veículo de imprensa pedindo divulgação da ata que indeferira o requerimento parlamentar, no afã de não acarretar “dúvidas quanto à honestidade e caráter do atual secretário”.

Antônio di Ramos Caiado, avô do governador Ronaldo Caiado, e Pedro Ludovico Teixeira, pai de Mauro Borges e histórico guru de Iris Rezende | Fotos: Reproduções

Coincidência ou não, em agosto de 1930, no vácuo do afastamento de um ano do chefe do Poder Executivo, devidamente autorizado pelo bicameral Congresso Legislativo Goiano, Jalles requer sua exoneração e afasta-se da situação política dominante, sem, contudo, expressar publicamente qualquer contrariedade. Substituído pelo médico José Xavier de Almeida Júnior, parente do governador, Jalles volta para Buriti Alegre (GO), município localizado praticamente na divisa com Minas Gerais, filiando-se, em seguida, na cidade de Tupaciguara (MG), à Aliança Liberal, agremiação criada por Getúlio Vargas e já em franca conspiração para a deposição pelas armas do presidente Washington Luís.

Revolução de 1930

Em outubro, eclode a chamada Revolução de 1930. E eis que surge Jalles Machado de Siqueira à frente de um batalhão de voluntários de Tupaciguara, que, por sua vez, integra-se à coluna revolucionária do Triângulo Mineiro, incumbida de invadir o Estado de Goiás e tomar sua capital.

Vitorioso o movimento, enquanto os caiadistas têm suas vidas devassadas, seus lares varejados e alguns até conhecem o cárcere, Jalles Machado é convidado a reassumir seu posto na Secretaria de Viação e Obras Públicas, optando, entretanto, pela chefia da Estrada de Ferro Goiás, sediada em Araguari (MG).

Homem de perfil independente, logo no ano seguinte (1931), Jalles Machado já pede demissão do prestigiado cargo federal. A despeito de ele novamente não registrar publicamente qualquer descontentamento, talvez agora pela censura vigente, é lícito presumir a ocorrência de um desentendimento com o interventor goiano Pedro Ludovico Teixeira.

Em síntese, em dois anos consecutivos, o ex-secretário de Viação e Obras Públicas (1930) e ex-diretor da Estrada de Ferro Goiás (1931) torna-se dissidente de dois poderosos grupos políticos oligárquicos (caiadista e ludoviquista), atitude rara em um Estado à época pouco desenvolvido e, consequentemente, muito dependente do poder público.

Por tais posicionamentos políticos, parecia quase natural que as águas que movimentavam as turbinas da usina hidrelétrica construída por Jalles Machado no Rio Santa Maria fossem as mesmas que alimentavam o reservatório da terceira via goiana, corrente esta robustecida em seu potencial eleitoral após o rompimento verificado, no início de 1934, entre Pedro Ludovico e Domingos Vellasco, ex-secretário de Segurança Pública no pós-1930.

Promulgada a Constituição Federal de 1934, Domingos Vellasco e Jalles Machado, unidos, mobilizam seus correligionários a participarem do Congresso de Ipameri, encontro fundacional do Partido Libertador. Expoentes do evento, eles são aclamados candidatos a deputado federal no seminal pleito de outubro. Terminada a apuração, Domingos Vellasco é o único integrante da oposição goiana eleito para o Congresso Nacional e Jalles Machado torna-se o seu primeiro suplente.

Depois de discutirem as alianças mais convenientes, os libertadores autorizaram seus próceres a negociarem com os igualmente oposicionistas do antigo Partido Democrata, liderado por Antônio Ramos Caiado. Após as tratativas de praxe, sobretudo relacionadas à inclusão na chapa de nomes alinhados ao caiadismo, selou-se o pacto, daí nascendo a Coligação Libertadora, frente única que acolhia ainda os católicos.

A formação da Coligação Libertadora revela o subjacente veto a qualquer aproximação com o interventor Pedro Ludovico. Para Domingos Vellasco, será uma regra transitória. Para Jalles Machado, permanente, uma vez que, doravante, sempre estará em lado antagônico ao ludoviquismo — hegemônico até 26 de novembro de 1964, data da intervenção federal que destituiu Mauro Borges do Palácio das Esmeraldas.

De igual modo, Jalles Machado invariavelmente compartilhará abrigo com os caiadistas na mesma legenda, embora separados em correntes internas próprias. Moravam na mesma casa, mas dormiam em quartos distintos, resumiria a sabedoria popular. A “unidade na diversidade” era cimentada pela idêntica concepção antigetulista e suas derivações.

E sucedeu exatamente assim tanto na conhecida União Democrática Nacional (UDN) — 1945-1965 —, quanto antes, em sua gênese, isto é, na desconhecida União Democrática Brasileira (UDB), agremiação nacional criada em 1937 para dar sustentação à candidatura presidencial de Armando de Salles Oliveira, ex-governador de São Paulo.

A seção goiana da UDB, presidida pelo deputado estadual Hermógenes Coelho, também dissidente do caiadismo e do ludoviquismo (em 1922 e 1936, respectivamente), marcara sua convenção em Anápolis para o mês de outubro de 1937. No entanto, a reedição do famigerado “estado de guerra”, espécie de regime de exceção constitucional, e, na sequência, a deflagração do golpe de Estado de 10 de novembro soterraram a pretensão da democrática experiência udebista. Uma nota curiosa: apesar de os caiadistas integrarem-se efetivamente à UDB, notadamente ante a presença de Brasil Ramos Caiado na direção estadual, seu irmão Antônio Ramos Caiado hipotecou apoio à candidatura presidencial de José Américo de Almeida — nome mais afinado ao getulismo.

Domingos Vellasco: político importante da história de Goiás

Impedida a convenção da UDB em 1937, sua sucessora (UDN), porém, a realiza oito anos mais tarde, na esteira da interrupção do consulado de 15 anos da dupla Vargas/Ludovico — este último, a propósito, o mandatário a permanecer mais tempo no poder, superando até João Punaro Bley, do Espírito Santo. Em 1945, com a redemocratização, enfim, Anápolis sedia a convenção. Presidida por Domingos Vellasco, integrante da Esquerda Democrática — no ano seguinte PSB (Partido Socialista Brasileiro) —, a reunião escolhe os candidatos para a Assembleia Nacional Constituinte, entre os quais figuram Domingos Vellasco e Jalles Machado, aliás, os dois únicos eleitos pelo partido.

Embora seja um tema pouco versado pela bibliografia, quiçá pelo quase silêncio das fontes primárias existentes, as duas principais alas da UDN/GO (caiadista e jallista — em alusão a Jalles Machado de Siqueira) disputaram, se não o comando da legenda, ao menos as indicações e os rumos partidários no momento das eleições. Nesse sentido, argutamente, observou a cientista política Maria Victoria de Mesquita Benevides, em sua clássica obra “A UDN e o Udenismo — Ambiguidades do Liberalismo Brasileiro (1945-1965)”.

Os sinais mais evidentes dessa predominante clivagem podem ser percebidos nas convenções udenistas para a escolha dos candidatos a governador. Em 1946, por exemplo, o deputado federal Jalles Machado de Siqueira disputou a indicação com dois outros postulantes bem mais próximos do caiadismo: César da Cunha Bastos, o preferido, e Alfredo Nasser, o vitorioso. Contudo, ao final, o nome inscrito no sufrágio popular acabou sendo o do engenheiro Jerônimo Coimbra Bueno, construtor de Goiânia e dissidente do PSD (Partido Social Democrático) ludoviquista.

Luiz Alberto de Queiroz: pesquisador da história de Goiás | Foto: Diário da Manhã

Em 1965, o prefeito de Goianésia, Otávio Lage de Siqueira, filho de Jalles Machado, concorreu internamente com o deputado federal Emival Ramos Caiado e obteve sucesso, inclusive posteriormente na disputa eleitoral com o pessedista José Peixoto da Silveira.

Na sucessão de Otávio Lage, diante da suspensão da consulta popular para a chefia do Poder Executivo Estadual, o governador, agora na Aliança Renovadora Nacional (Arena), tentou emplacar ou os irmãos Joaquim Guedes de Amorim Coelho (seu preferido) e Carlos Alberto Ferreira Coelho, ou ainda Luiz Barreto Correia de Menezes Neto, filho do engenheiro Menezes Júnior, assassinado por motivações políticas em Itumbiara no ano de 1933. No entanto, malogrou sua pretensão, sagrando-se ungido Leonino Di Ramos Caiado.

Em 1982, ao retornarem as eleições diretas para governador no Brasil, o Partido Democrático Social (PDS), sucessor da Arena, realiza em Goiânia a sua convenção. O mandatário Ary Valadão apoia o deputado federal Brasílio Ramos Caiado, ao passo que a outra ala apresenta novamente o nome de Otávio Lage de Siqueira, que consegue a maioria dos votos, por pequena margem.

Outros eventos posteriores poderiam ser mobilizados a fim de reforçar a argumentação expendida, a exemplo da convenção do Partido da Frente Liberal (PFL) de 2002.

Em contrapartida, apesar da rivalidade assinalada, por apego à verdade histórica, cumpre registrar as nuances que permearam essa longa convivência. Segundo revelação contada por Leão Di Ramos Caiado Filho ao signatário, havia também entre as alas espaço para admiração recíproca, especialmente quando atitudes corajosas assumidas diante do poderoso adversário comum eram sinceramente reconhecidas. Tal fato ocorreu em 1950, quando Emival Ramos Caiado apontou o então deputado federal Jalles Machado de Siqueira como o melhor candidato da UDN ao Palácio das Esmeraldas naquela eleição, muito em reconhecimento aos discursos parlamentares proferidos por Jalles Machado em 1946, sobretudo o pronunciamento em que esquadrinhou sozinho os 15 anos do consulado ludoviquista, na presença dos sete integrantes da bancada do PSD de Goiás, inclusive o próprio ex-governador.

Com efeito, o cenário supradescrito emoldura o pano de fundo de grande parte das deliciosas narrativas colacionadas ao livro e, provavelmente, auxiliará na compreensão e análise do leitor.

A propósito, em abono ao afirmado, basta dizer que a obra “Poder e Planície”, do experimentado escritor Luiz Alberto de Queiroz, estampa entrevistas dos rebentos do senador estadual Leão Di Ramos Caiado e do secretário de Viação e Obras Públicas Jalles Machado de Siqueira, respectivamente, Leão Di Ramos Caiado Filho e Otávio Lage de Siqueira.

Mais: comparecem ainda personagens relevantes da política goiana no século 20, como Hélio Seixo de Britto, Olímpio Jayme, Francisco de Britto, Hélio de Sousa, Almerinda Arantes, Gomes da Frota, Willmar Guimarães, Dante Ungarelli, bem como personagens do mundo da música (José Mojica e Francisco Alves), jornalismo (David Nasser), gastronomia (Miguel Abrão) e fotografia (Hélio de Oliveira), entre outros.

Autor de quase 30 livros, contabilizadas as nove edições do já consagrado “O Velho Cacique” (sobre Pedro Ludovico), Luiz Alberto de Queiroz, formado em Direito, mas pesquisador por paixão, brinda, com mais este trabalho, sua querida Cristalina, ao divulgar uma emotiva crônica a respeito de seu genitor João Rodrigues de Queiroz, ex-prefeito do município, além do nosso amado Estado de Goiás.

Com a sensibilidade refinada pelo tempo, Luiz Alberto de Queiroz apresenta ao público logo no título “Poder e planície” sua mensagem de maneira muito sutil: escreve o vocábulo “Poder” no maiúsculo e a palavra “planície” no minúsculo. Aclara mais ainda seu ponto de vista ao revelar o ostracismo vivido por Pedro Ludovico em 1969: “Cassado pelos militares, passou os últimos anos de sua vida na planície comum de políticos sem mandato e, por isso mesmo, com poucos amigos, quase esquecido”.

A parte iconográfica do trabalho é uma contribuição à parte. Merece destaque uma fotografia que retrata um comício da campanha de Juscelino Kubitschek (JK) para senador por Goiás em 1961. Nela, além de JK, os históricos adversários Pedro Ludovico e Alfredo Nasser dividem, pela primeira e única vez, o mesmo palanque. A imagem captura o momento exato em que Alfredo Nasser discursa e Pedro Ludovico vira a cabeça para o lado oposto do orador, em visível sinal de reprovação às palavras proferidas. De acordo com relatos orais, o tom da fala segue, mais ou menos, a seguinte trilha: “Só um homem como o senhor, presidente JK, poderia fazer-me subir no mesmo palanque do chefe absoluto de Goiás…”. Em resumo, o gesto de gratidão e reconhecimento dos goianos para com o ex-presidente mudancista, sobretudo dos inconciliáveis vultos políticos mencionados, certamente sensibilizou JK.

Inspirado por esses mesmos nobres sentimentos, acredito ter chegado a hora do veterano escritor, pesquisador e jurista Luiz Alberto de Queiroz ser agraciado, meritoriamente, com uma cadeira no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), em decorrência de sua evidente contribuição à memória goiana, iniciada ainda em 1981 com a publicação do sugestivo livro intitulado “Esperança do Reconhecimento”. (Prefácio do livro “Poder e planície”, de Luiz Alberto de Queiroz. Publicado com autorização do autor.)

Jales Guedes Coelho Mendonça, doutor em História pela Universidade Federal de Goiás e membro do IHGG, é promotor de justiça em Goiás.

Serviço/Lançamento

“Poder e planície” (Editora Kelps), de Luiz Alberto de Queiroz.

Data e horário: terça-feira, 26, às 19 horas

Local: Restaurante Árabe — na Rua 83, nº 205, Setor Sul

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