Livro mostra como a literatura pode “mapear” a diversidade de gênero

“Terezinha e outros contos da literatura queer” reúne, em 17 narrativas curtas, a solidão, o estranhamento, a fantasia e o desamparo de vários protagonistas

Publicado pela Hoo Editora, a obra de Josué humaniza, no sentido mais puro da palavra | Foto: Divulgação

Publicado pela Hoo Editora, a obra de Josué humaniza, no sentido mais puro da palavra | Foto: Divulgação

Márwio Câmara
Especial para o Jornal Opção

Ainda pouco conhecido no Brasil, o termo em inglês “queer” serve para definir um grupo de indivíduos que não se encaixa com uma determinada orientação ou identidade sexual dita como “padrão”, desestabilizando regras dentro do conceito de gênero masculino e feminino. “Queer” pode ser identificado também ao pé da letra como estranho, excêntrico, ridículo ou mesmo raro, ganhando forte estreitamento dentro do universo LGBT.

O termo também passou a orbitar o universo da literatura, explorando personagens ambíguos, em que os parâmetros vocacionais instituídos entre homens e mulheres passaram a ficar completamente diluídos. A escritora inglesa Virginia Woolf pode ter sido uma das mais notórias precursoras desta abordagem, dentro do âmbito literário, ao construir Or­lando, uma personagem que se apresenta inicialmente como um nobre rapaz da era Elisabetana e que, ao longo das páginas, se transfigura em uma mulher, sem nenhum abalo emocional por conta disso. Do contrário, a partir da metamorfose anômala do herói woolferiano, a escritora inglesa tece um dos mais brilhantes tratados sobre a sexualidade humana, elevando assim a temática para fora do senso comum.

Orlando

A partir da metamorfose anômala do herói woolferiano, a escritora inglesa tece um dos mais brilhantes tratados sobre a sexualidade humana| Reprodução

Em “Orlando”, um de seus romances mais famosos, publicado em 1928, o leitor é levado a uma intrigante e luminosa experiência acerca da sistemática assonante que paira sobre os gêneros masculino e feminino. No Brasil, o Naturalismo, surgido no final do século 19, passou a apresentar em algumas narrativas personagens consideradas de comportamento duvidoso ou à margem da cultura do patriarcado. Adolfo Caminha, por exemplo, em 1895, publicou o romance “Bom-Crioulo”, considerado por muitos a primeira obra do gênero gay da história literária brasileira. Nele, encontramos a trágica estória de amor entre um ex-escravo e um jovem marinheiro.

De lá para cá, muitos livros surgiram, levando a voz desta cultura às estantes das livrarias. Ecos de Oscar Wilde, E.M. Forster, Marcel Proust e Gore Vidal passaram a manifestar-se em contos e romances, construindo certa tradição literária do gênero. A literatura “queer” pode ser ajustada neste segmento, embora não deva ser tratada como um objeto de cunho artístico que se comunique apenas com os seus pares. Ela necessita sair da hostilidade pública, cultivada também em parte pela própria crítica literária, para que tais obras também possam seguir seu próprio percurso além-mar, fugindo da sua condição restrita e encapsulada de porta-voz a um determinado público.

Se a literatura em sua tradicional cosmologia mimética é o espelho da própria sociedade construída dentro de uma concepção estética, falar sobre determinados temas são cruciais para a formação intelectual do leitor aberto a refletir ou compreender a complexidade do mundo em que habita. O leitor se deixa vivenciar de forma literária à realidade ou experiência existencial que, de fato, não lhe é íntima.

Em “Terezinha e outros contos de literatura queer”, o escritor paulista Josué Souza apresenta um belo conjunto orquestrado por 17 narrativas curtas, divididas em “O inusitado”, “O indizível” e “O magnífico”. O livro é um mergulho em um mundo de solidão, estranhamento, fantasia e desamparo, apresentando personagens variados, que têm consciência do seu não pertencimento a uma lógica normativa identitária. Por vezes, uns e outros tentam se encaixar ao modelo que lhe são impostos dentro de uma exigência restritivamente moral, concomitante a uma necessidade de aceitação do mundo exterior, embora tais personagens sejam novamente levados ao encontro de sua real natureza humana, em resposta aos seus instintos.

No conto que abre o livro, “Só um beijo”, dois colegas de trabalho vivem uma relação de conflito ante aos próprios desejos sexuais. Massacrados pelo ambiente hostil da gráfica em que trabalham, onde um chefe tipicamente grotesco e machista sempre aponta discursos de ódio e intolerância a gays, eles vivem uma história de amor às migalhas. Encontram-se no banheiro do serviço e mantêm uma estranha relação, em que pequenos gestos desmascaram a verdadeira atração existente entre os dois, embora Franklin e Alex fiquem sempre à deriva da não completude do ato em si.

Alex pede um beijo ao colega de trabalho, mas o outro se recusa, dizendo:

“Não vamos estragar tudo… Amigo… Precisamos voltar e continuar nos odiando dos nossos lugares, como seu Vesceslau quer que façamos com pessoas como nós. Assim a gente não precisa dizer mais nada, pra não sermos desrespeitosos com ninguém”.

No conto que dá título ao livro, “Te­rezinha”, vemos a breve narração de um travesti e a saga da personagem para desvencilhar-se da condição imposta pela sua origem, indo ao encontro à verdadeira identidade como pessoa e artista, reconhecendo-se no palco e na vida como Terezinha Star.

“Tentou me convencer a deixar Terezinha ir embora, arrumar outra mulher, encontrar-me novamente com Luís. Mas não sou quem aprisiona Luís nem quem o quer. (…) Pra Luís eu disse sim, pra Luís eu disse não, pra Luís, eu me dei de todo meu coração.”

Em “Só Cuenca pra escrever meu amor”, um jovem gay vive uma verdadeira paixão platônica pelo escritor e colunista João Paulo Cuenca, idealizando o encontro entre os dois na porta do Estúdio I, da Globo News, onde enfim se declararia para o mesmo. Já em “O menino que se via Clarice”, o autor faz uma explícita homenagem à figura da escritora Clarice Lispector. Indo ao encontro à biografia de Josué, pode se constatar um tom semi­auto­biográfico na narrativa, que traz referências de alguns contos da obra clariceana.

A resistência religiosa e a polêmica acerca da “cura gay” são temas do conto “Se deixarem Deus me olhar de frente”, que conta ainda com um trabalho de experimentalismo na linguagem, ousando na desconstrução das regras tradicionais. O corpo metamórfico da narrativa, apresentando pontuações espaçadas e lacunas em parágrafos não completados, rememora características da estética de Clarice, além de constituir a própria tensão psicológica que apreende o texto.

Josué Souza I

Escritor Josué Souza, no lançamento da obra | Foto: Reprodução

Em um mundo ambíguo, onde aumenta a cada dia o número de assassinatos contra gays e travestis, e se cultua na contramão ícones do mesmo universo como Fred Mer­cury, Elton John, Ney Matogros­so, além do atual Liniker, os contos de Josué são necessários para nos humanizar, no sentido mais puro da palavra.

Atravessando as barreiras do preconceito, é preciso reconhecer que o que se julga “diferente” faz parte unicamente da natureza humana, e que o próprio conceito diagnosticado como “diferente” muda quando passamos a compreender o mundo do outro, mesmo quando ele diretamente não nos pertence.

Mais uma vez, a literatura mostra que podemos refletir e compreender as complexidades de cada indivíduo, através do contágio da experiência materializada no âmago da linguagem literária.

Márwio Câmara é jornalista e pesquisador nas áreas de Literatura e Cinema. Mora no Rio de Janeiro.

Leia um trecho de “O que não se pode comprar com chocolates”, conto presente no livro

Não, não daquele nosso encontro. Pedro não parecia em nada comigo. Éramos assim: água e azeite. Pedrinho, mais conhecido na escola, adorava me evitar na presença dos amigos. Por conta disso passei também a evitá-lo. Não, eu queria me vingar dele, com vingança de menino, por como ele me evitava e me não me incluía em suas brincadeiras com seus amigos. Na primeira vez que me falou, me disse: “Não, você é muito delicado e diferente; não dá pra jogar no meu não! Vai brincar com as meninas!”.

Um ponto fraco seu: chocolates. Eu logo soube. O que não sabia era o quanto eu o observava. Observava de não tirar o olho, seus mais profundos desejos. De meus olhares, ele tinha medo que alguém descobrisse seu gosto aflito por chocolates. Eu alimentava seu desejo. O menino babava de dar pena, não conseguia se aguentar de me ver comendo chocolates. Mas eu não os oferecia. “Quer jogar futebol sem mim no time, não vai comer dos meus chocolates!”, dizia comigo.

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