Livro ganha Pulitzer por revelar que jovem estuprada disse a verdade e que a polícia errou

Marc O’Leary violentou Marie e a polícia sugeriu que a jovem estava mentindo. Ela disse a verdade o tempo todo

Ana Luíza Andrade

Dez de agosto de 2008: uma adolescente americana de 18 anos tira o domingo para fazer uma faxina em seu apartamento. Elétrica, zanza de um lado para o outro passando o aspirador sobre o carpete. À noite, pretende encontrar outros jovens na igreja. Mais um dia modesto e sossegado na vida de Marie. Mais um dia tranquilo e feliz para uma jovem que já provou o suficiente da vida. As emoções e aventuras comuns para outros jovens não tinham o mesmo apelo para a garota, que teve de amadurecer rápido para cuidar de si mesma. Ela sabia que era sortuda por ter um lugarzinho para chamar de seu, isso depois de ter passado pelo colo de vinte mães e pais diferentes.

Marie prometia ser uma exceção entre as estatísticas: outras pessoas com seu histórico acabavam na cadeia, em clínicas de reabilitação ou mesmo na rua. Ela não. Ela estava vencendo apenas por ter conquistado esse apartamento modesto e simples em Lynnwood, Washington, fruto de um programa de apoio para adolescentes que já tinham passado da idade de morar em lares adotivos. Alguns poucos móveis, a maioria de plástico, duas guitarras acústicas na parede, um computador no chão. Apenas o suficiente. O futuro a Deus pertencia (ou talvez nem a Deus pertencia). Quem poderia prever o que estava prestes a acontecer com Marie naquela mesma noite?

Dizem que agosto é o mês do desgosto. Marie deve concordar com a afirmação. Tinha sido um domingo calmo aquele. Nada indicava que naquela madrugada um filme de terror seria escrito na pele da adolescente. Naquela mesma noite, Marie foi surpreendida em seu apartamento por um homem mascarado armado com uma faca. Estava dormindo quando ele amarrou suas mãos, vendou seus olhos e amordaçou sua boca para que não pudesse gritar. Não bastasse os abusos recorrentes da infância, Marie agora era estuprada em sua própria casa. Antes de ir embora, o monstro ainda tirou fotos da jovem para ameaçá-la, caso resolvesse abrir o bico para a polícia.

Controvérsia como signo de mentira

A jovem de olhos castanho-claros, cabelos ondulados e aparelho nos dentes mais uma vez era violentada pela vida. Contra todas as expectativas, corajosamente, logo pela manhã, a garota relatou o crime para a polícia, mesmo ante as ameaças de seu algoz, que prometeu espalhar pela internet a sua própria humilhação. A polícia tinha dificuldade de entender os relatos controversos da adolescente. As duas últimas mães adotivas de Marie, com quem ainda mantinha contato frequente, também demonstravam dúvidas sobre a veracidade de seu depoimento. Shannon tinha ficado desconfiada pela maneira fria com que Marie tinha relatado o caso. Já Peggy, achava que a menina tinha exagerado na história. Ela realmente tinha um talento para o drama.

Marc O’Leary:  o homem que violentou Marie e foi condenado há centenas de anos de prisão | Foto: Reprodução

Ora, se as pessoas mais próximas não confiavam em Marie, que dirá a polícia. A história dramática de sua biografia era o suficiente para corroborar com uma série de distúrbios e traumas psicológicos. A menina não podia bater bem da cabeça. Só podia ser louca. Foi quando os detetives pararam de entrevistá-la e passaram então a interrogá-la como suspeita. A trama que mais parecia um enredo obscuro da série americana “Law & Order” transformou a vítima em uma suspeita. A garota acuada, com medo de perder o pouco que tinha, concordou com a insinuação geral. Ela estaria “mentindo”. A história tinha fugido de seu controle. Ela estava confusa. Carente. Seu namorado havia terminado o relacionamento recentemente, além disso, ela experimentava pela primeira vez a independência. Muita coisa acontecia ao mesmo tempo.

Volta a fita. Marie retorna no dia seguinte à delegacia para testar a paciência dos detetives. Sim, ela tinha sido estuprada. Era tudo verdade, ela insistia sem sucesso. Tarde demais. Os policiais já tinham ficado satisfeitos com a confissão. O caso já havia se transformado em uma bola de neve. O histórico traumático da menina jogava contra ela. Todos os noticiários da tevê falavam sobre a adolescente do oeste de Washington que tinha inventado um suposto estupro. Marie aceitou novamente a versão da mentira. Ela tinha inventado tudo. Confessava novamente. Só queria chamar atenção.

Para acabar com essa brincadeira tida como infantil, a mídia agora pedia penas mais duras. Isso para intimidar a sociedade e colocar um fim às falsas acusações. Os poucos amigos da garota ligavam para questionar o motivo daquela mentira tão horrenda. Como tinha coragem de inventar algo assim? “Tem que ser muito doente para fazer isso”, disseram. O programa de apoio ameaçou tirar o apartamento de Marie. Seus planos de tirar uma carteira de motorista e ir para a faculdade afundavam progressivamente. A polícia, para tornar o caso um exemplo para outros jovens, obrigou a garota a se retratar publicamente.

T. Christian Miller e Ken Armstrong: jornalistas que, apostando na verdade contra supostos fatos, revelaram a história de que uma adolescente que foi violentada | Foto: Reprodução

Jornalismo para além do registro policial

Sem amigos. Sem família. Sem casa. Sem futuro. Marie continuava a ser violentada, repetidamente. Sua história se transformaria em um artigo vencedor do Prêmio Pulitzer de jornalismo investigativo, publicado no site ProPublica, que viralizou em questão de horas. Mais tarde, a narrativa foi publicada no livro “Falsa acusação — Uma História Verdadeira” (Leya, 336 páginas, tradução de Daniela Belmiro), narrado pelos jornalistas T. Christian Miller e Ken Armstrong, que acompanharam o trabalho incansável de duas detetives sobre casos de abuso sexual nos Estados Unidos.

O thriller dá voz a Marie e outras vítimas de abuso sexual, além de tecer uma análise profunda sobre a maneira ultrajante como as mulheres são tratadas por denunciarem casos de violência à polícia. Afinal, quem está falando a verdade? Marie seria uma vítima de si mesma e de sua triste desestrutura emocional? Neste caso, é necessário sublinhar que se tratava de uma adolescente. A garota (e qualquer outro indivíduo) não merecia o tratamento execrável com que foi tratada por autoridades e jornalistas.

A outra possibilidade é ainda mais aterradora. Caso estivesse falando a verdade, o Estado teria uma dívida moral e judicial para tentar consertar o estrago terrível na imagem e na vida de Marie. A verdade seria capaz de reparar mais este dano na biografia da jovem? O livro, que está sendo adaptado pela Netflix na série “Unbelievable” — estreia em 2019 —, reverbera como exemplo do que as mulheres precisam enfrentar cotidianamente para conquistar o direito à credibilidade e, mais, como os crimes de abuso sexual ainda são negligenciados não apenas pelas autoridades, mas pela sociedade.

Apenas uma mulher conhece verdadeiramente a dor e a delícia de ser o que é. Por um lado, são cultuadas secularmente pelo milagre da criação humana. Por outro, foram reduzidas a adjetivos que desqualificam — como frágeis, delicadas e histéricas. Por tabela, nessa narrativa paradoxal e cruel, invariavelmente tornam-se dependentes da força, virilidade e eficiência masculina. Ademais: se são sensuais e suas curvas são, naturalmente, um atrativo para a reprodução e perpetuação da espécie, sob outra perspectiva são tachadas de lascivas, cínicas e manipuladoras. A começar por Eva, aquele demônio em forma de mulher, a grande culpada por Adão, o Ingênuo, ter aceitado a mordida do fruto proibido.

Ora relacionadas a flores, ora a serpentes venenosas. Asa mulheres são as deusas da faxina, da cozinha, as grandes responsáveis pela educação dos filhos. Sobem ao céu como uma Nossa Senhora, são dragadas de volta à Terra na hora de descontar o cheque mensal. Se até o próprio Deus é pintado de homem, onde estará a mulher senão logo abaixo das barbas dos profetas? Elas têm de ser vigiadas, cuidadas, pois os homens supostamente sabem o que é melhor para elas. Um exemplo visual dessa estrutura arcaizante: coloquemos num grande envelope os nomes que comandam as nações, os parlamentos, a economia, a justiça do planeta. Agora façamos as contas. Quantos homens?  Contemplemos então o montículo destinado às mulheres. Quantas exceções? Outro cenário mais corriqueiro, palpável e mais doloroso: uma mulher e um homem caminhando sozinhos por uma rua à noite. Quem está mais vulnerável?

Mulher chorando, de Picasso

Na fumaça de um charuto freudiano, a explicação para o arranjo social coloca a mulher no limbo de uma comparação impossível e castradora. As mulheres são criadas para se comportarem como seres inferiores e submissos. Do outro lado desta balança injusta estão os homens, que devem responder aos altos padrões de expectativas e posições de liderança, como é esperado de um “homem de verdade”. O macho, enfim.

A história de Marie se tornou um livro. Mas quantas mulheres são silenciadas, negligenciadas, oprimidas, violentadas, julgadas e condenadas à humilhação da dúvida? Basta uma semente para germinar o câncer da difamação. Dizem que a verdade não chama tanta atenção quanto gostaria. A mentira, por outro lado, ainda mais quando causa estragos, se espalha no ar feito fumaça. Parece impossível contê-la. O certo é que poucas coisas são tão complicadas de se recuperar quanto a credibilidade da palavra de um homem. Que diremos então da palavra de uma mulher?

A mentira tem perna curta, diz o ditado popular. A justiça falha, mas não tarda, sugere o senso comum. Mas será que é, por si só, capaz de curar completamente? A Justiça falha, de fato, volta atrás e se retrata com luvas de pelica. O problema é que ela nem sempre repara, proporcionalmente, ao dano causado pela injustiça.

Ken Armstrong e T. Christian Miller na premiação do Pulitzer: mérito por demolir a mentira e restaurar a verdade factual | Foto: Reprodução

Nada mais que a verdade

Caso o leitor queira desvendar sozinho o mistério da história de Marie é melhor abandonar o texto por aqui e ir atrás do seu próprio exemplar do livro.

A reviravolta na história de Marie aconteceu dois anos após o drama vivenciado na pequena Lynnwood, em Washington. Os Departamentos de Polícia de três locais do Colorado (Aurora, Golden e Westminster) reuniram pistas de um perfil de um estuprador em série, e perceberam que, provavelmente, estavam procurando pelo mesmo suspeito. No computador do estuprador, encontraram as fotos que tirou de Marie naquele mesmo agosto tenebroso de 2018. Era a prova incontestável de que Marie havia falado a verdade.

De volta ao oeste de Washington, o Departamento de Polícia não demitiu nem disciplinou ninguém, mas tentou aprender com seus erros, relatam Miller e Armstrong. O sargento Mason, que acompanhou a adolescente naquele ano, afirma que aprendeu com seus erros e que se tornou um investigador melhor à custa do sofrimento de Marie.

“Ela não errou em nada. O problema foi… comigo. Foi por isso que aconteceu”, explica, emocionado, o sargento Mason. “Não era papel dela me convencer de nada. Olhando em retrospecto, era minha responsabilidade ter ido até o fim com a investigação, e eu não fiz isso”, admite o policial.

O comandante da polícia de Lynnwood, Steve Rider, define o caso como “uma falha grave”, “um erro desastroso”, “um choque de realidade”, “uma escolha errada… suposições erradas… ações erradas”. “Nós sabíamos que ela havia sofrido uma violência brutal e mesmo assim a acusamos de estar mentindo?” A pergunta se estende ao jornalismo, à toda comunidade de Lynnwood, ao Estado de Washington, à justiça americana, à sociedade. Quantos erros cometidos por estarmos tratando de mulheres? Como repará-los?

Marie encontrou um pouco de consolo no projeto de Miller e Armstrong.  Existe um criminoso. Seu nome é Marc O’Leary. Ele está agora na prisão e foi condenado a 327 anos e meio de cadeia por sua covardia e perversão.

Miller e Armstrong traçam o perfil do predador sexual no livro: todo o tempo, Marc O’Leary estava operando secretamente um grupo de sites especializados em pornografia. Ele também estava tocando guitarra com seus amigos e planejando ter um bebê com sua mulher.

“Parece clichê, eu acho, mas sou realmente um verdadeiro Dr. Jekyll e Mr. Hyde na vida real”, disse Marc O’Leary em seu próprio julgamento.

Cética em relação à compaixão humana

Sete anos depois, Marie tem 25 anos, segue resistindo, embora um pouco mais desconfiada e cética em relação à compaixão humana. “Isso me quebrou”, disse ela sobre a dúvida e o julgamento que levantaram contra sua pessoa. O registro criminal de Marie foi finalmente eliminado. Ela conseguiu sua tão sonhada carteira de motorista e hoje trabalha dirigindo caminhão. É casada, tem dois filhos. Continua a prova viva do dano que a negligência policial e o julgamento da sociedade são capazes de causar na vida de uma vítima de abuso sexual.

Marie não passou incólume. Sua história é real, foi sentida, continua fora do livro. Que outros não precisem errar para tentar reparar uma injustiça emocionalmente irreparável. A história de Marie é um relato de dor, raiva, revolta, mas que também ensina: sobre resiliência, credibilidade, empatia, investigação e correção. A verdadeira natureza hercúlea que só uma mulher é capaz de enfrentar, de salto alto ou não.

Do banco dos réus, Marie é declarada inocente, se levanta ainda mais forte, mais madura, com o adendo de mais uma cicatriz em sua biografia. Escutemos: sua voz é sutil e é preciso estar atento para entender suas palavras de sabedoria… Eis tudo.

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