Livro de Trotula di Ruggiero, a mãe da ginecologia, sai em português

A médica foi professora na Escola de Medicina de Salerno e teria sido a única, de sua época, a deixar por escrito as suas pesquisas

Dirce Waltrick do Amarante
Especial para o Jornal Opção

Trotula de Salerno, por John William Waterhouse, 1911-1914. Inspirada em Circe, na mitologia grega, feiticeira especialista em venenos e drogas. Trotula foi renegada aos porões da história e seus escritos atribuídos a figuras masculinas, até que em 1930 a feminista e obstetra canadense Kate Hurd-Mead publicou um artigo no qual mostrou a veracidade da autora e a importância dos seus escritos para a história das mulheres e da medicina

Considerado o primeiro tratado de ginecologia e obstetrícia, “De Pas­sio­nibus Mulierum Curan­dorum Ante, In, Post Partum” (“Sobre as Doenças das Mulheres Antes, Durante e Depois do Parto”), também chamado de “Trotula Maggiore” (“Trotula Maior”), data do século XI e sua autora é a médica e professora italiana Trotula di Ruggiero (1050-1097). Esse, contudo, não foi o único estudo deixado pela pesquisadora, que escreveu “De Ornatos Mulierum” (“Sobre a Beleza das Mulheres”) ou “Trotula Minor” (“Trotula Menor”), além de muitos outros estudos, mais de 100, segundo os estudiosos, que estariam dispersos ao redor do mundo.

Em 1544, o médico e humanista alemão Georg Kraut teria reunido, organizado, reescrito e suprimido certas passagens redundantes dos dois primeiros tratados de Trotula e publicado sua obra sob o título “De Passionibus Mulierum Curandorum Ante, In, Post Partum”, que agora chega pela primeira vez aos leitores brasileiros, em edição bilíngue latim/português, com o título Sobre as Doenças das Mulheres, graças ao trabalho de pesquisa e tradução de Karine Simoni, Luciana Calado Deplagne e Alder Ferreira Calado.

Ao contrário do que se pode pensar, em plena Idade Média, a mulher participava ativamente da vida em sociedade, como lembram os tradutores e organizadores da obra. Portanto, na Idade Média, que recebeu a alcunha de “Idade das Trevas”, parecia haver muito mais esclarecimento que em épocas posteriores. Trotula foi professora e médica na Escola de Medicina de Salerno, a qual contava em seu quadro com outras mulheres que se dedicavam aos estudos da medicina. Desse modo, Trotula não era uma exceção. No entanto, ela teria sido a única a deixar por escrito as suas pesquisas.

Nesse texto Trotula apresenta problemas de saúde que acometiam as mulheres do período, como falta ou excesso das menstruações, infertilidade, câncer, hemorroidas, disenteria, piolhos, dor de dente, feridas na pele; além disso, indica os cuidados para evitar a gravidez ou para alcançá-la, meios para tornar o parto menos dolorido, cuidados com as crianças, formas para emagrecer e para acalmar o desejo sexual das mulheres; e, por fim, faz sugestões para o embelezamento feminino.

As obras de Trotula, lembra Claudia Brochado, que assina o prefácio do livro, “foram lidas, relidas e usadas como referência nos tratamentos médicos durante séculos e sua autoria nunca foi questionada”. Entre os séculos XII e XIII, escolas como a de Salerno foram fechadas e mulheres passaram a ser proibidas de frequentá-la; mas “foi o tempo moderno e contemporâneo o grande algoz dessa médica medieval”, silenciando sua voz através da negação da autoria de suas obras ou da tentativa de mudar seu sexo, “torná-la homem”, diz Brochado.

O fato é que, segundo os tradutores e organizadores de Sobre a doença das mulheres, embora sua fama tenha sido reconhecida em boa parte do medievo, à medida que a concepção religiosa ganhava supremacia no mundo, o corpo humano, em especial o feminino, passou a ser visto como “instrumento e receptáculo de vícios e tentações” e passou-se a considerar a mulher “cada vez mais incapaz de pensar e agir intelectualmente”. Essa concepção chegou ao ápice a partir do século XV, quando a mulher foi vista como encarnação do mal e passou-se à chamada era da caça às bruxas.

Escola de Medicina de Salerno

Não cabe discutir a validade ou não dos tratamentos propostos por Trotula, mas o olhar atento que ela lançava sobre os problemas femininos de toda a ordem, desde as dores pós-parto, até o cuidado com as crianças e com a beleza: “As mulheres com frequência sentem dor depois do parto. O útero então, como uma fera selvagem, devido à repentina evacuação, quase se contorce vagando aqui e ali, motivo pelo qual produz uma dor violenta”.

Para o mau hálito ou “fedor da boca”, que, diz Trotula, ocorre devido “a um distúrbio do estômago, devem ser trituradas pontas de mirta e elas devem cozinhar no vinho até que deste não reste a metade e, uma vez que o estômago esteja limpo, tal vinho deve ser administrado”.

Saiba Mais

Estudos médicos de Trótula foram usados
como um livro médico compulsório nas universidades até meados do século XVI

Capítulo XLVIII – Sobre os comichões e os ácaros: Para os comichões e os ácaros, seja qual for o lugar do corpo em que estiverem, sobretudo sobre os olhos e sobre a fronte, desmanchamos fermento com vinho e, depois de acrescentar olíbano, aplicamos no local como emplastro.

Capítulo XLIX – Sobre o inchaço dos pés: Às vezes os pés incham por causa da dor no útero. Pegue então castanhas d’água, cozinhe em água marinha ou salgada e fumigue os pés com frequência; depois da fumigação, quando a água estiver morna, lave os pés.

Dirce Waltrick do Amarante é autora de “Finnegans Wake (Por um Fio)”, Editora Iluminuras.

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