Livro de jornalista expõe investigação sobre os projetos do “imperialismo brasileiro” na era Lula

Fábio Zanini percorreu diversos países, entrevistou autoridades e teve acesso a documentos diplomáticos que ajudam a explicar a “Euforia e Fracasso do Brasil Grande”

Jornalista Fábio Zanini desvela os meandros do projeto “imperialista” da Era Lula | Foto: Reprodução

Marcelo Mariano

O livro “Euforia e Fracasso do Brasil Grande” (Editora Con­tex­to, 224 páginas) expõe a política externa brasileira na era Lula e o processo de internacionalização do Brasil por meio de empresas multinacionais, como as construtoras Odebrecht, Andrade Gutierrez e OAS, envolvidas em escândalos de corrupção investigados pela Operação Lava Jato, nos últimos anos. O livro também apresenta a mudança de percepção do mundo em relação ao Brasil, que teria deixado a imagem de país “dócil” e “inofensivo” e passado a encarnar uma feição agressiva e “imperialista”.

O autor da obra, Fábio Zanini, é graduado em jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e mestre em Relações Internacionais pela School of Oriental and African Studies, da Universidade de Londres. Zanini é editor de política do jornal “Folha de São Paulo”, onde já trabalhou como editor da seção internacional e correspondente em Londres, na Inglaterra, e Johannesburgo, na África do Sul. Zanini se muniu de documentos diplomáticos, entrevista com autoridades e viagens a alguns dos locais de atuação da “nova política externa do Brasil”, que se iniciou com no período dos mandatos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em um contexto de alto crescimento econômico e de expansão das fronteiras, culminando em um otimismo que veio a desmoronar com as crises política e econômica posteriores.

Lula dizia que o Brasil precisava “desabrochar”, enquanto seus críticos, de acordo com Zanini, chamavam a estratégia de megalomania. Logo no subtítulo do primeiro capítulo, o autor deixa claro a sua posição. “Atlântico Sul: o ‘nosso’ mar” examina o objetivo “megalomaníaco” do Brasil de tornar o oceano uma extensão do seu território mediante projetos militares.

Em 7 de novembro de 2003, o ex-presidente causou um pequeno constrangimento ao discursar na State House, a sede do poder político da capital da Namíbia, Windhoek. Europeizado, o país africano foi colonizado por alemães. Lula disse estar surpreso porque Windhoek não parecia “África”. O mais importante naquela noite, porém, foi a assinatura de dois memorandos de cooperação: o primeiro criou o cargo de adido militar na Namíbia, responsável por coordenar a recém-criada Marinha da Namíbia, e o segundo autorizava a Marinha brasileira a reparar a corveta Purus, que, posteriormente, seria doada ao mais novo parceiro militar do Brasil.

Com isso, o tradicional soft power brasileiro deu lugar ao hard power. O Brasil deixou de ser exclusivamente o país do carnaval e do futebol, que se dedicava a projetos de saúde, educação e desenvolvimento econômico, e passou a usar outro tipo de poder em um plano de expansão militar na África.

Segundo a Marinha, os objetivos do Brasil em ajudar na construção da força naval da Namíbia são, primeiramente, garantir a paz no Atlântico Sul, livrando-o de ameaças terrorista e de piratas, e, não menos importante, projetar militarmente o Brasil na região a fim de torna-la brasileira do ponto de vista do domínio geopolítico, assim como os Estados Unidos fazem com o Atlântico Norte.

O Brasil vive um dilema: ser o melhor entre os piores ou ser o pior entre os melhores. Pessoalmente, acho mais positivo estar sempre entre os melhores. Se fosse um time de futebol, preferiria lutar para não ser rebaixado e, assim, permanecer na Série A, do que cair pensando que em subir tranquilamente no ano seguinte. Mas, para se manter na primeira divisão da política internacional, muitas vezes é necessário copiar alguns esquemas táticos. No caso, o investimento militar.

As consequências iniciais podem até ser danosas à imagem brasileira, como Zanini evidencia ao longo de sua obra. Contudo, trata-se de um projeto a longo prazo e que pode resultar em uma “classificação à Libertadores”: o desejo an­tigo brasileiro em ter uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Para isso, o Brasil busca apoio das nações chamadas periféricas, sem deixar de lado o diálogo com as grandes potências, mas mostrando-lhes sua capacidade de se juntar a elas.

“Eufora e Fracasso do Brasil Grande” estuda os casos da experiência brasileira em cinco países: Namíbia, Angola, Peru, Moçambique e Guiné Equatorial. Com exceção do último, Fábio Zanini visitou todos os outros e seus relatos pessoais, como um pneu furado na Estrada do Pacífico, no Peru, o suborno, mesmo contra sua vontade, a policiais na Namíbia e a carona de moto para chegar a uma mina de diamantes de difícil acesso em Angola, deixam a leitura ainda mais agradável.

Namíbia

“Errar no negócio do petróleo é normal. Inaceitável é desistir”. É com base nessa frase que Márcio Mello, dono da HRT, por intermédio do empresário local Knowledge Katti, mais conhecido como KK, protagonizaram o fracasso sucessor da euforia proporcionada pela descoberta do Pré-sal.

As condições geológicas da Namíbia, semelhantes à do Brasil, fizeram com que se chegasse a conclusão de que ali também haveria uma grande quantidade de petróleo. Ainda não explorado, o país se tornou alvo da empresa de Mello. A HRT encontrou rapidamente o que procurava, mas não em quantidade comercialmente viável. De qualquer forma, era a primeira vez que se havia tido conhecimento de petróleo na Namíbia e isso gerou animação em todo o país. Entretanto, dali para frente, nenhuma gota a mais foi vista. A HRT desistiu e a decepção de sua saída foi enorme, prejudicando a imagem do Brasil.

A empresa mineira Cowan também se arriscou na Namíbia, de novo com o lobby de KK. De maneira misteriosa, eles deixaram o negócio de lado e Fábio Zanini não obteve êxito em encontrar um vestígio sequer da companhia em Windhoek. Além das “aventureiras” HRT e Cowan, a Petrobras foi mais uma a tentar a sorte por lá. O primeiro contato entre a estatal e o governo da Namíbia se deu em 2005, mas foi só depois da descoberta do pré-sal que a Petrobras decidiu entrar de vez, adquirindo, em 2009, 50% de um bloco de exploração. Em 2012, abriu-se um escritório da gigante brasileira em Windhoek, mas com os desdobramentos da Operação Lava Jato, não houve outra alternativa senão fechá-lo no ano seguinte.

Para Zanini, a empreitada das empresas petrolíferas brasileiras na Namíbia se assemelham ao modus operandi das americanas, europeias e chinesas, isto é, os maiores prejudicados acabam sendo os países explorados devido à megalomania de empreendedores excêntricos, à promessa de lucro fácil, à falta de planejamento e ao tráfico de influência.

Angola

“A verdadeira embaixada do Brasil em Luanda é a sede da Odebrecht na cidade”. Foi o que disse a Zanini um brasileiro com muitos negócios em Angola. E ele estava coberto de razão. Afinal, a marca da empresa baiana estava por todo canto – da construção do primeiro shopping center do país, passando pela exploração de uma mina de diamantes, a uma rede de supermercados.

Acostumada a grandes obras de construção civil, a Odebrecht teve de se reinventar em solo angolano. O início das suas operações do outro lado do Atlântico se deu em 1975 a partir de uma parceria improvável entre o general Ernesto Geisel e os comunistas no poder em Angola. Já naquela época, Geisel visava “trilhar um caminho próprio no cenário global menos dependente do alinhamento com os EUA”.

Fábio Zanini chama a presença da Odebrecht em Angola de “império”, que, segundo ele, ajuda a sustentar, impulsionada pelo dinheiro público brasileiro, uma ditadura que dura quase quatro décadas. Inti­mamente ligada ao governo, a Odebrecht não é qualquer um. “Em Angola até existem licitações, mas nem sempre para a Odebrecht”, disse uma consultora britânica da ONU especialista no país africano.

Peru

Talvez seja no Peru o caso mais claro do “imperialismo brasileiro” mal planejado. Pelo menos, foi o que mais me chamou a atenção.

A “Estrada do Pacífico”, além de ser um elemento de integração da população peruana (costeiros, amazônicos e serranos), surge com o objetivo de transportar a soja do Centro-Oeste do Brasil aos mercados asiáticos com mais facilidade. O caminho tradicionalmente percorrido é por estrada até o porto de Santos e, de lá, de navio passando pelo canal do Panamá em uma viagem que dura de 40 a 45 dias. Com a estrada, poderia reduzir este tempo em até um terço.

Fabio Zanini percorreu todo o trajeto da rodavia e não cruzou com nenhum caminhão transportando soja. Ex-consultor do Banco Interamericano de Desenvol­vimento (BID) e fundador da ONG peruana ProNatureza, que estuda o impacto ambiental da “Estrada do Pacífico”, Marc Dourojeanni explica: “você é brasileiro e aparentemente não tem noção do que é subir de 100 metros sobre o nível do mar a 4,5 mil metros durante 100km. São curvas, curvas e mais curvas”.

Empreiteiras brasileiras investigadas na Lava Jato estão por trás da construção deste projeto, assim como no caso das cinco usinas previstas no Acordo Energético Brasil-Peru. “A energia seria brasileira e a obra beneficiaria empresas brasileiras. Para os peruanos, ficaria o custo ambiental”, aponta Zanini.

É aí que entra em cena Olga Cutipa, da Frente de Resistência à Usina de Inambari. Ela luta contra os prejuízos que podem ser causados e dá o tom daquilo que o autor menciona no início da sua obra no tocante à alteração a percepção que se passou a ter dos brasileiros. “Basta dos brasileiros! Vêm aqui de forma autoritária, falar com as pessoas, sem aviso”, esbraveja a militante. Mais uma vez, as atitudes do Brasil estão de acordo com às das grandes potências – e a reação dos explorados também.

Moçambique

O Corredor Nacala, no norte de Moçambique, é uma das mais promissoras fronteiras agrícolas da África. Com características parecidas ao cerrado, a região atrai produtores de todo o Brasil.

O projeto ProSavana, ou “novo cerrado”, no entanto, gera desconfiança. Os moçambicanos dizem que o os brasileiros estão apenas interessados em instalar suas agroindústrias no país sem aguentarem a dureza do campo. Enquanto os chineses por exemplo, enfrentam as condições difíceis e ajudam a interiorizar a agricultura, os brasileiros geralmente permanecem pouco tempo e vivem nas grandes cidades.

Ademais, a imprensa de Moçambique tratava o Brasil como uma ameaça à propriedade da terra no país. Em uma nação recém-descolonizado, é algo que pode envenenar a imagem tupiniquim. O governo brasileiro passou, então, a atuar de duas formas: um aceno à sociedade civil e uma agressiva estratégia de comunicação envolvendo campanhas publicitárias com o intuito de reverter a situação.

A crise econômica brasileira interferiu no projeto de Moçambique, que, a partir de 2015, começou a ser paralisado. O que tinha sido feito até então não foi suficiente para mudar a percepção dos moçambicanos. “O Brasil chegou cheio de boas intenções ao norte do país com o ProSavana. Mas, no final de 2015, não sabia muito bem como sair de uma situação em que rapidamente passou a ser percebido como um vilão”, confessou um brasileiro envolvido com o projeto a Zanini.

Guiné Equatorial

A Guiné Equatorial foi tema do samba enredo da Beija-Flor, vencedora do carnaval do Rio de Janeiro de 2015. À época, gerou-se uma grande polêmica. Não é para menos: o país vive sob uma ditadura, com altos índices de corrupção em razão da falta de um Judiciário independente, imprensa livre e oposição fiscalizadora. A situação piorou com a descoberta de petróleo na região e a Guiné Equatorial se viu no meio de uma corrida entre empresas multinacionais ao ponto de companhias aéreas oferecerem voos de 16 horas sem escalas entre a capital Malabo e Houston, a “capital do petróleo” dos Estados Unidos.

A Guiné Equatorial é composta por duas ilhas (em uma delas é onde se localiza a capital) e um território na África continental, onde o ditador Obiang resolver erguer uma cidade, chamada de Djibloho, no meio da selva para ser a nova sede do governo. Uma diplomata portuguesa traçou um paralelo com a Brasília dos anos 1960: “moderna, arrojada e ainda com ares de fronteira inexplorada”.

A relação com o Brasil não para por aí. A empresa responsável por fazer essa exploração era a brasileira ARG, tida como modelo de sucesso e exemplo a ser seguido por outras empreiteiras pelo ex-presidente Lula, que, mesmo depois de ter deixado a presidência, continuou em contato com a Guiné Equatorial, através de uma espécie de lobby para grandes empresas. O papel do Brasil no suporte ao país também se deu no campo diplomático: mesmo falando espanhol, a Guiné Equatorial aderiu à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

A “maldição do petróleo” aportou no país da costa oeste africana em 2015. Conforme relato do Fundo Monetário Internacional (FMI), a Guiné Equatorial decresceu 7,4% devido à queda do preço internacional do petróleo. No ano seguinte, 9,7%. O FMI alertou que “projetos faraônicos”, como o de Djibloho, deveriam ser paralisados. Apesar dos problemas econômicos, o “conto de fadas” de Obiang, amigo íntimo do Brasil, continuou.

Foto: Reprodução

Euforia e Fracasso do Brasil Grande
Autor:
Fábio Zanini
Editora: Contexto
Ano: 2017
Páginas: 224

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