Livro de Ismail Xavier entra na casa dos 40 em boa forma

Publicado originalmente em 1978, “Sétima Arte: um Culto Moderno” avança no tempo como obra importante para situar a transformação histórica do cinema e sua realidade atual

Ismail Xavier é o grande nome da teoria do cinema no Brasil: sua obra serve como introdução à teoria e crítica do cinema, mas também como recurso de debate sobre o cinema atual | Foto: Reprodução

Junto com Jean-Claude Bernardet, Ismail Xavier é o grande nome da teoria do cinema no Brasil com pelo menos dois clássicos publicados sobre o tema, “O Discurso Cinematográfico – a Opacidade e a Transparência”, de 1977 (sua tese de doutorado), e “Sétima Arte: um Culto Moderno” (Edições Sesc, 2 ed., 2017).

Curiosamente, como se vê, o primeiro livro é posterior ao segundo co­mo estudo acadêmico, e já ganhou ou­tras duas edições, a mais recente foi em 2005. Já o segundo, resultado da dissertação de mestrado em Teoria Literária da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, sob a orientação de Paulo Emilio Sales Go­mes, finalizada em 1975, foi publicado como livro originalmente em 1978 e só agora ganha a segunda edição.

As duas produções trazem um conteúdo relevante para os estudiosos de cinema e crítica cultural. Sobre elas, o autor diz: “Com objetivos e estruturas bem distintas, formam um núcleo de materiais que condensam um primeiro ciclo de minha lida com a teoria do cinema e determinados percursos da crítica cinematográfica.”

Cineclubes
Num momento em que o cinema virou interesse hegemônico de quem quer apenas um espetáculo do riso e do medo, é interessante fazer a releitura de “Sétima Arte: um Culto Moderno”, obra que analisa a gênese da arte de narrar pela imagem, escrutinando as duas primeiras décadas de seu surgimento, debruçando-se sobre tempo, espaço, montagem, ritmo e efeitos dramáticos.

É bom lembrar que Xavier vem da ge­ração cineclubista mais atuante do Brasil, a dos jovens cinéfilos da década de 1970. Ele mesmo, com seus livros e palestras, ajudou a formar vários cineclubes espalhados pelo país, inclusive o Antônio das Mortes, em Goiânia, criado há exatos 40 anos por uma turma de amigos apaixonada por cinema, in­cluindo Lisandro Nogueira, Lourival Be­lém Jr e Luiz Cam, que faleceu em 2015.

O cinema começou como um patinho feio no final do século 19. Xavier não entra nesse debate, mas até a fotografia tinha mais prestígio entre os grandes estetas das primeiras décadas do século 20. Aliás, a fotografia foi recebida como um elemento revolucionário que transformaria a pintura para sempre, conquistando uma posição que o cinema só teria bem mais tarde, graças a duas correntes contraditórias, a dos movimentos de vanguarda e a da indústria de entretenimento.

Momento reflexivo

Num momento em que o cinema virou interesse hegemônico de quem quer apenas um espetáculo do riso e do medo, é interessante fazer a releitura de “Sétima Arte: um Culto Moderno” | Foto: Reprodução

O período da evolução técnica propiciado pelo ambiente da Primeira Guerra Mundial e toda a década de 1920, quando se dá o advento do cinema falado, é justamente o recorte histórico da pesquisa de Xavier. Ele vai no joelho da história do cinema, no momento reflexivo em que movimentos reivindicatórios puxavam o fazer cinematográfico, uns para o entretenimento, outros para um elevado sentido de arte, a sétima arte, valorizando-o pela “experiência plástica e musical, feito para olhos e ouvidos afinados à experiência da pintura e da boa música.”

A ideologia positivista da segunda metade do século 19 – a crença no progresso e na razão que conduziriam “o homem ao domínio crescente da natureza” – fez a invenção cinematográfica imaginar que seu avanço como novo meio seria feito “pela emergência de novas técnicas e invenções no interior de um processo de produção industrial”.

E foi o que ocorreu. Tanto é que de mudo passou a ser falado. De preto e branco passaria a ser colorido lá na frente. Ou seja, os avanços da ciência como a química, mecânica, fisiologia, óptica e eletricidade, melhoraram o cinema no aspecto técnico, e sua performance era analisada tecnicamente.

Tudo isso foi importante. Mas, segundo Xavier, o impulso maior para o desenvolvimento do cinema “vinha daquilo que as invenções representavam economicamente”, vinha, portanto, da indústria do entretenimento.

Linguagem
Nessa cosmogonia cinematográfica, começou o embate entre os tecnicistas e os que queriam avançar na linguagem, que viam o cinema como “pintura da luz, sinfonia visual”. Enquanto isso, o próprio cinema avançava emprestando elementos do teatro, do circo, da ópera, da literatura, criando epopeias, teatralizando a imagem em movimento.

O que Xavier fez para estudar esse período rico da formação de uma nova linguagem foi buscar uma injunção dos estudos sociológicos (posturas ideológicas), da recuperação histórica (analisando revistas críticas da época) e da psicologia (relação que se estabelece na ilusão dos fotogramas, que no contato com os impulsos cerebrais formam as imagens em movimento).

“Sétima Arte: um Culto Moderno” tem valor histórico, de introdução à teoria e crítica do cinema, mas também como recurso de debate sobre o cinema atual. Afinal de contas, a inquietação tecnológica no universo cinematográfico nunca parou. O cinema 3D e as inovações que envolvem as salas, como o IMAX, por exemplo, são prova disso.

Por outro lado, os novos cineastas reclamam da falta de roteiristas que compreendam o cinema como narrativa, que inovem nas técnicas de narração, não apenas na plasticidade do conteúdo e no efeito dos diálogos. Talvez por isso, o cinema esteja perdendo espaço para séries de TV que souberam aproveitar o fenômeno da narrativa híbrida.

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