Livro analisa obra de Castro Alves e de outros poetas “cultos” brasileiros

Intitulada “Proclamações”, a obra do ensaísta e crítico literário Anderson Braga Horta deve ser lida por todos que se interessam por poesia

Castro Alves, Menotti del Picchia e Ledo Ivo são alguns dos poetas sob o crivo do ensaísta mineiro, Braga Horta

Castro Alves, Menotti del Picchia e Ledo Ivo são alguns dos poetas sob o crivo do ensaísta mineiro, Braga Horta

Adelto Gonçalves
Especial para o Jornal Opção

De Anderson Braga Horta, a obra “Proclamações” foi publicada pela editora brasiliense Thesaurus. Com 192 páginas, custa R$ 35

De Anderson Braga Horta, a obra “Proclamações” foi publicada pela editora brasiliense Thesaurus. Com 192 páginas, custa R$ 35

Desde que Caio Suetônio Tranquilo (70d.C.-122d.C.), no começo do século II, escreveu “De grammaticis”, coleção de resumos biográficos de gramáticos, retóricos e poetas romanos (Terêncio, Virgílio, Horácio e Lucano), que faz parte de uma obra mais ampla, “De uiris illustribus”, ficou claro que o tema sempre renderia textos excepcionais. “Proclamações” (Brasília, Editora Thesaurus, 2013), de Anderson Braga Horta (1936), livro que reúne dez ensaios e conferências sobre onze poetas brasileiros, segue essas pegadas e não foge à regra.

Até porque o seu autor não só é um fino e consagrado poeta como um crítico e ensaísta de alto quilate, que sabe que o seu ofício não se resume à inspiração –– ainda que sem ela não exista poesia, como diria Lêdo Ivo (1924-2012) ––, mas que é preciso também conhecer a técnica e saber como aplicá-la ou deter conhecimento para reconhecê-la e, ao mesmo tempo, detectar os defeitos que cometem os seus utilizadores.

Por isso, só mesmo quem domina à exaustão a técnica do fazer-poético poderia escrever o ensaio “Os erros de Castro Alves”, texto que deveria ser lido não só por candidatos ao ofício como por todos aqueles que se interessam por poesia e mesmo por alguns bardos com obra já conhecida. Munido de vasto conhecimento, o ensaísta rebate várias acusações que se apresentam infundadas e que pretendiam mostrar que o bardo baiano teria cometido deslizes de linguagem e tropeços métricos.

Para o ensaísta, não há em Castro Alves (1847-1871) nenhuma insuficiência de linguagem e muito menos erros métricos que possam tirá-lo do panteão da poesia brasileira. Muitas vezes, como diz, os pretensos erros não passam de licença poética ou palavras que seriam acentuadas de outra forma ao tempo do poeta. São os casos de blásfemo por blasfemo, Niagara por Niágara ou nenufares por nenúfares, entre outros.

Modernismo e palavras díspares

De Menotti del Picchia (1892-1988), o autor inclui neste livro uma palestra que deu na Associação Nacional de Escritores (ANE), em 2009, em que aborda especificamente o poema “Juca Mulato” (1917), mostrando que a sua linguagem e versificação conservadoras em nada antecipam a ruptura modernista, embora para o crítico Wilson Martins (1921-2010) tenha sido ele “e não Mário ou Oswald de Andrade o chefe do primeiro Modernismo”. Segundo Braga Horta, porém, nada disso invalida o valor da composição, “uma das mais fascinantes realizações da lírica nacional” e igualmente das mais conhecidas da Literatura Brasileira.
De Lêdo Ivo, em ensaio escrito poucos meses depois da morte do poeta, Braga Horta faz uma leitura/releitura dos poemas que mais o impressionaram, entre os quais “A inspiração” em que se lê:

Não creio na inspiração
essa bruxa radiosa
que sopra a canção
e te faz alegre ou triste.
Mas que ela existe, existe!

Para o ensaísta, Ledo Ivo é “um enamorado da linguagem”, pois, “senhor de grande vocabulário, aprecia a combinação de palavras díspares, nisso incluída a adjetivação improvável”, além de dominar as técnicas e o idioma.

Pesquisista

Com 15 prêmios literários, o mineiro de Carangola Anderson Braga Horta é, além de poeta, ensaísta e crítico literário, membro da Academia Brasiliense de Letras e da Academia de Letras do Brasil

Com 15 prêmios literários, o mineiro de Carangola Anderson Braga Horta é, além de poeta, ensaísta e crítico literário, membro da Academia Brasiliense de Letras e da Academia de Letras do Brasil

Poeta pouco conhecido ao seu tempo, Cassiano Nunes (1921-2007) também merece percuciente esboço biográfico-literário de Braga Horta no ensaio “Cassiano Nunes: vida e poesia em simbiose”. Tendo convivido com Cas­siano Nunes em Brasília por largos anos, o autor reconstitui os primeiros anos do poeta em sua cidade de San­tos natal, até os seus últimos anos como frequentador do badalado restaurante Beirute.

Se é permitida uma incursão pessoal deste resenhista, igualmente santista como o poeta, mas de geração mais recente, é para dizer que, filho de imigrantes portugueses de modesta condição e escassas letras, o jovem Cassiano sempre escutara do pai que “livros não davam dinheiro”. E que, por isso, fora obrigado a fazer o curso de Contabilidade para mais bem se preparar para a vida.

O resenhista ouviu essa informação à época em que, no começo dos anos 1980, costumava deixar a redação do jornal A Tribuna, de Santos, para se encontrar lorquianamente, a las cinco en punto, no café Paulista, na Praça Rui Barbosa, com os poetas Roldão Mendes Rosa (1924-1989) e Narciso de Andrade (1925-2007), que haviam participado na década de 1940, com Cassiano Nunes, do movimento literário denominado “pesquisista”, que reunira, entre outros nomes, Miroel Silveira (1914-1988), Cid Silveira (1910), Nair Lacerda (1903-1996) e Leonardo Arroyo (1918-1985).

Roldão e Narciso sempre lembravam com admiração do colega que partira em 1947 para os Estados Unidos, com bolsa de estudos, e atuara como orientador literário da Editora Saraiva, em São Paulo, e, graças a outras bolsas, estudara também em Heildelberg, na Alemanha, e Nova Iorque e que, ao retornar, em 1966, fora para Brasília, por indicação do poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), lecionar na Universidade de Brasília (UnB).

Costumavam trocar cartas, telefonemas e poemas com ele. E, igualmente, lembravam do poema “Os bom­bons da Leoneza”, reproduzido por Braga Horta, em que Cassiano Nunes rememora os doces que o pai lhe trazia daquela confeitaria à noite e os deixava sobre a sua cama de menino. Um detalhe: o café Leoneza, hoje desaparecido, à época da infância de Cassiano ficava ao Largo do Rosário, exatamente a atual Praça Rui Barbosa em que está até hoje o tradicional café Paulista. Eis um trecho do poema:

Após o duro dia de trabalho
na oficina mecânica,
lavado e depois da janta,
meu pai saía à noite.
Ia conversar
com os sócios, colegas e fregueses
no café A Leoneza
do largo do Rosário,
onde toda a gente se encontrava em Santos. (….)

Braga Horta diz que a poética de Cassiano Nunes não é chegada a requintes, rebuscamentos ou pesquisas formais. Curiosamente, assim também são as poéticas de Roldão Mendes Rosa e Narciso de Andrade, seus companheiros de geração. São semelhantes não só na forma como forjaram seus versos, mas em seus temas em que são recorrentes imagens do cais de Santos, seus guindastes, seus navios que chegam e partem. Aliás, este seria um bom tema para uma dissertação de mestrado ou doutoramento em Letras: estabelecer as similitudes entre as obras dos três poetas.

A exemplo de Cassiano Nunes, há outros autores de qualidade, que ainda não entraram no panteão em que, com certeza, estão Castro Alves, Menotti del Picchia e Ledo Ivo, mas que igualmente passam pelo crivo de Braga Horta neste livro, como Olegário Mariano (1889-1958), Guilherme de Almeida (1890-1969), Wal­de­mar Lopes (1911-2006), Fernando Mendes Vianna (1933-2006), Joanyr de Oliveira (1933-2009) e Anderson de Araújo Horta (1906-1985) e Maria Braga Horta (1913-1980), pais do ensaísta.

Dessas obras, o ensaísta/conferencista, com perspicácia, tira interpretações quase sempre criativas e insólitas. Por isso, como observa José Jeronymo Rivera na apresentação que escreveu para este livro, esta nova coletânea de Braga Horta constitui “mais uma valiosíssima contribuição ao campo da nossa melhor análise literária”.

Autor

Anderson Braga Horta, mineiro de Carangola, formou-se em 1959 pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil-RJ. Foi diretor legislativo da Câmara dos Deputados e co-fundador da ANE. É membro da Academia Brasiliense de Letras e da Academia de Letras do Brasil. Predominam em sua obra títulos de poesia, como “Altiplano e outros poemas”, de 1971, seguido de “Marvário”, “Incomunicação”, “Exercícios de homem”, “O pássaro no aquário”, reunidos, com inéditos, em “Fragmentos da paixão” (São Paulo: Massao Ono, 2000), que obteve o Prêmio Jabuti de 2001, mais “Pulso” (São Paulo: Barcarola, 2000), “Quarteto arcaico” (Guarar­apes, 2000), “50 poemas escolhidos pelo autor” (Rio de Janeiro: Galo Branco, 2003), “Soneto antigo” (Thesaurus, 2009) e “De uma janela em Minas Gerais – 200 sonetos” (miniedição em 4 vols., 2011).

Na linha da crítica e da ensaística, publicou pela Thesaurus o opúsculo “Erotismo e poesia” (1994), “Aventura espiritual de Álvares de Azevedo: estudo e antologia” (2002), “Sob o signo da poesia: literatura em Brasília” (2003), “Traduzir poesia” (2004), “Testemunho & participação: ensaio e crítica literária” (2007) e “Criadores de mantra: ensaios e conferências” (2007). Já conquistou 15 prêmios literários.

Adelto Gonçalves é jornalista e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de “Gonzaga, um Poeta do Iluminismo” (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), “Barcelona Brasileira” (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), “Bocage – o Perfil Perdido” (Lisboa, Caminho, 2003) e “Tomás Antônio Gonzaga” (Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), entre outros.

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