Lives se tornaram o refúgio daqueles que estão há quase quatro meses sem sair de casa se não for extremamente necessário

Consumo de conteúdo on-line ao vivo se transformou na busca por preenchimento de vazio da ausência das pessoas queridas por perto e dos momentos de descanso e lazer durante a pandemia

Lives no Instagram durante o isolamento - Fotos Reprodução Instagram

Aos privilegiados que podem se proteger em casa do novo coronavírus, conteúdo ao vivo de artistas de todas as partes do mundo tem sido um refúgio diante do medo da doença, da preocupação com a saúde de parentes e amigos, da irritação com as loucuras cometidas pelos gestores públicos, a insensatez dos vizinhos e a vontade de sair de casa | Foto: Reprodução/Instagram

Se você tinha uma rotina que o obrigava a ficar mais da metade do seu tempo fora de casa e não está próximo de enlouquecer durante o isolamento social em casa na pandemia da Covid-19, isso é motivo para lhe dar direito a um prêmio. A saúde mental das pessoas têm ido para o ralo durante os dias de distância dos parentes, amigos e da necessidade de evitar a rua caso não seja uma extrema necessidade, como comprar comida ou remédio.

Caso você seja um dos privilegiados que foi beneficiado com o trabalho em casa enquanto milhões de brasileiros precisam sair de seus lares para ter dinheiro para as compras da semana ou do mês, já percebeu que não adianta desesperar – por mais que seja impossível. O melhor a fazer é escolher uma das diversas apresentações ao vivo diárias de artistas brasileiros e de tudo quanto é lugar do mundo.

A qualquer hora do dia, um artista, produtor ou alguém envolvido com a cadeia da música está ao vivo em alguma conta de Instagram, Facebook, Youtube ou qualquer outra plataforma on-line. E o conteúdo vai de entrevistas, shows a discussões sobre o futuro da arte pós-pandemia, da música ao vivo com plateia ao processo de composição trancado em casa.

Toda hora não

Mas uma hora tudo isso cansa. É hora de se jogar em um filme, livro, revista ou série. Fora o consumo diário mais do que excessivo de conteúdo noticioso. Tem hora que você vê sua banda favorita ao vivo depois de dezenas de outros shows na internet e pensa “hoje não, de novo não”. Só que meia hora depois você se pega lavando louça e assistindo à apresentação, da superprodução patrocinada por grandes marcas ao intimista voz e violão com som ruim de celular em alguma rede social.

Tem dia também que não dá para ver tanto telejornal depois de ler todas as colunas dos principais jornais locais e nacionais, ouvir os podcasts de notícia do eixo Rio-São Paulo e que fazem cobertura exaustiva da revolta da população preta americana contra o racismo estrutural da polícia nos Estados Unidos ou contra as manifestações antidemocráticas de um grupo neonazista bolsonarista que se deveria na verdade se chamar “20” e não “300”.

Enquanto políticos passam vergonha ao beber leite em vídeos publicados nas redes sociais para tentar disfarçar um gesto dos supremacistas brancos – “entendedores entenderão”, como disse aos risos o apoiador do presidente que recebe verba pública para bancar as mentiras publicadas por seu site -, a gente torce para que o fim do dia chegue e a Teresa Cristina esteja lá na conta do Instagram ao vivo para nos encantar.

Das emoções às preocupações

Ou seria para nos confortar e chorar junto com ela enquanto a dor da distância e a morte de mais de 35 mil nos machuca diariamente ao ver que o governo federal prefere esconder dados e revisar a realidade ao invés de assumir os erros e agir. Até porque atacar jornalistas e veículos de comunicação é muito mais fácil do que sentar na cadeira do cargo para o qual foi eleito e governar. A intenção é sempre pensar qual será a tática nova na tentativa de dar um golpe.

Para tentar fugir dos xingamentos e absurdos ditos pelo inquilino do Palácio da Alvorada dia sim, no outro também, temos o privilégio de ter Lô Borges um dia, Laura Marling no outro, Emicida por mais de oito horas no YouTube e festivais que buscam formas de se manter ativos trazendo artistas de diversos cantos do Brasil para quem está em casa.

Às vezes sobra alguma grana, nem que sejam míseros R$ 20 na conta, para doar a uma ação de solidariedade que arrecada dinheiro em plataformas de doação virtual para alimentar moradores em situação de rua ou famílias que foram afetadas pela pandemia e não têm o que comer. Ou estudantes que são apadrinhados por aqueles que podem pagar os R$ 85 da inscrição do vestibular de alunos de lares em dificuldade financeira.

Cloroquina e a ciência

Mas o governo federal acha que é a hora certa de retirar dinheiro do Bolsa Família que seria destinado a beneficiários do Nordeste para usar em verba publicitária na Secretaria de Comunicação. Enquanto alguns acreditam na nova pílula do câncer do Bolsonaro, a cloroquina, outros preferem ouvir horas e horas do Átila Iamarino e ler os dados das projeções da Universidade Federal de Goiás (UFG), que têm batido com o pior cenário possível para o Estado no avanço das doenças.

Dos conhecidos e vizinhos que resolveram fazer festas, churrascos e reuniões com convidados desde o início da pandemia, as apresentações de grandes artistas viraram motivo para propagar o novo coronavírus de forma irresponsável. Na pressão dos que querem ver o comércio reaberto totalmente, os dados mostram que a evolução de pacientes e mortos se acelera em Goiás. Se já chegamos a registrar mais de um óbito por minuto por Covid-19 no Brasil, para o Ministério da Saúde são dados “fantasiosos”.

É o que nos resta

É quando só nos resta afundar nas lives, que nos primeiros meses de isolamento eu evitava. Depois de um tempo, a gente acaba se acostumando, infelizmente, a ver shows em casa. Nada nem de longe parecido com a emoção de uma plateia que acompanha o artista no palco.

Mas é um conforto para que muitos superem a pandemia com saúde, sanidade e salvos pela arte na TV, celular ou computador. Sabe-se lá quando poderemos frequentar multidões com segurança novamente. Mas já sabemos que sem música não vamos ficar.

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