Literatura filosófica de amor e de ódio

Em “Desconstruindo Sofia”, de Solemar Oliveira, testemunhamos a obsessão de um matemático em encontrar a ex-esposa, chamada por ele de Sofia (será mesmo o nome dela?), madrugadas adentro pelas zonas de prostituição de uma cidade não nomeada

Solemar Oliveira é pós-doutor em física, escritor, e professor na Universidade Estadual de Goiás (UEG)

Ademir Luiz
Especial para o Jornal Opção

A Filosofia começou como Física. Antes das reflexões sobre política, ética e estética, as primeiras buscas realizadas pelos pioneiros desse “amor pelo conhecimento”, que chamamos de Filosofia, procuravam desvendar as estruturas que formavam o mundo material. A compreensão dessas estruturas levaria ao entendimento das verdades fundamentais mais profundas; o quem somos? de onde viemos? para onde vamos? que ainda intriga a humanidade para além dos momentos de “Eureka”.

Anteriores ao projeto socrático de filosofia, os primeiros amantes do conhecimento eram chamados de Filósofos da Natureza. Eles romperam com a visão mitológica do mundo, que possui sua própria riqueza, mas sabidamente não consiste na “verdade” procurada. Três sábios de Mileto foram os precursores. Tales foi o primeiro. Para ele estava na água a origem de todas as coisas. Dizia que “as coisas estão cheias de deuses”. O segundo sábio de Mile­to, Anaximandro, acreditava que nosso mundo era apenas um dos muitos mundos que surgiu e se dissolverá no que ele chamava de Infinito. Será um vislumbre das modernas teorias do Big Bang, Big Crunch e das Cordas? Anaxímenes (550 – 526 a. C.), o terceiro especulador de Mileto, refutou Tales defendendo que a água era o ar condensado. A chuva é o ar que se comprime até tornar-se água. Se for ainda mais comprimida vira terra. Por sua vez, o fogo é o ar rarefeito. Terra, água e fogo surgem do ar.

Outros sábios de outras cidades da Antiguidade entraram no jogo. Par­mênides (540 – 480 a. C.), de Eléia, acreditava que tudo o que existe sempre existiu. Nada pode surgir do nada e nada pode se transformar em algo diferente do que já é. Em Éfeso, Heráclito (540 – 480 a. C.), defendia o contrário, que a transformação era a característica fundamental da natureza. Tudo flui. Para ele, o Elemento Divi­no, ou Deus, ou Logos, ou Razão, abran­ge tudo. A unidade era a condição primordial da natureza.

Anaxágoras (500 – 428 a. C.) propôs que essa unidade pudesse ser dividida. Acreditava que a natureza era composta por uma infinidade de partículas minúsculas, invisíveis a olho nu. Tudo pode ser dividido em partes cada vez menores, e mesmo na menor das partes existe um pouco de tudo. Chamava essas partes de “sementes” ou “germens”. Poste­riormente, Demócrito (460 – 370 a. C.) deu o nome de átomos, que significa “indivisível” em grego.

O que mantêm essas frações infinitesimais unidas? Segundo Empédocles (495 – 430 a. C.), cidadão grego de Agrigento na Sicília, uma força que chamou de “Amor” unia as partes para formar o todo (então Interestelar é menos mal roteirizado do que podemos supor?!). Ao mesmo tempo, uma força inversa (de igual intensidade?), o “Ódio”, separa, divide os indivisíveis.

“Desconstruindo Sofia” (Editora UFG: Goiânia, 2016)

Água, Ar, Deus, Átomos, Amor e Ódio. Os pioneiros do “amor pelo conhecimento”, em sua busca pelas estruturas físicas que compõem o mundo material, acabaram por esbarrar na força do amor como elemento primordial de coesão da natureza. E em seu contrário. O Amor constrói, o Ódio desconstrói.

Foi também aonde chegou o escritor Solemar Oliveira, autor do romance “Desconstruindo Sofia”. Goiano, nascido na cidade de Anápolis, Solemar é autor de duas coletâneas de contos: “Fúnebre sinfonia para Prometeu ateu e Rosa de Vênus”, vencedor da edição 2012 do concurso Bolsa de Publicações João Luiz de Oliveira, promovido pela Prefeitura de Anápolis. E também é físico. Esse detalhe poderia ser apenas uma curiosidade, que o colocaria na tradição de outros cientistas escritores, como os físicos Ernesto Sabato, Robert Gilmore, Mário Novello, Ivan S. Oliveira, os químicos Elias Canetti e Rochel Montero Lago ou o astrônomo Carl Sagan, se sua formação acadêmica não estivesse sutilmente imbricada na carpintaria de sua literatura.

Não que Solemar Oliveira “escreva como um físico”, seja lá o que isso possa significar. “Desconstruindo Sofia” é escrito em límpida prosa poética. Em nenhum momento a clareza da forma prejudica a sofisticação das ideias ou o trabalho de linguagem. O estilo é, em alguns momentos, intencionalmente cru, com leves excessos, mas jamais gratuito. Solemar é um escritor de vocação que, por acaso, também é um físico.

Porém, é sintomático que o protagonista narrador de “Desconstruindo Sofia” divida com o autor tanto a profissão acadêmica quando a vocação literária. Seu nome é Teodoro, detalhe fundamental que descobrimos na última página do romance. Ao longo de todas as folhas anteriores acompanhamos o desenrolar de um vasto repertório de reflexões literárias, aparentadas da filosofia de alcova de Sade, amarrando um tênue fio de enredo. Basicamente testemunhamos a obsessão de um matemático em encontrar a ex-esposa, chamada por ele de Sofia (será mesmo o nome dela?), madrugadas adentro pelas zonas de prostituição de uma cidade não nomeada (Anápolis?). Quando ocorre o assassinato de uma prostituta em um hotel barato ele se torna suspeito do crime.

Em um romance mais tradicional o problema de Teodoro seria provar a inocência e encontrar o verdadeiro culpado antes de ser preso. Aqui isso se torna uma questão menor. O que ele busca é Sofia, conhecer o conhecimento de Sofia, o resto é irrelevante. Embora a obra contenha em seu interior um potencial romance policial bem sacado, envolvendo crimes baseados na capa de um disco do Led Zeppelin, ele é abortado, assumindo a condição de apêndice narrativo. O plano do assassino, que deveria ter quatro partes, nem chega à segunda. Teodoro, que talvez seja culpado de outros crimes que não esse, usa o episódio para mergulhar ainda mais em seus demônios interiores. E esses demônios são Legião. Seu passado com um misterioso rival acadêmico, que chama apenas de D, que em seu delírio pode ser, ou não, o cafetão de sua ex-esposa, Dimitri. Um estranho conto diabólico sobre o surgimento da primeira prostituta, cuja pureza vence sua natureza maléfica. Cálculos complexos a partir da forma da genitália feminina. Cruza na rua com vampiros de brinquedo. Paralelamente, cita autores que o influenciam, tais como Camus, Cortázar e, principalmente, Kafka. Sente-se uma barata, como muitos imaginam que seja o inseto cascudo no qual Gregor Samsa se transformou.

Para escapar dessa destruição da lógica que o encanta, mas não combina com suas pretensões cartesianas, Teodoro procura, por meio de seu pensamento matemático, ordenar o mundo a sua volta. Afirma que “em tudo sou organizado e coerente”. Deseja ser como Bertrand Russell, filósofo e matemático conhecido pela clareza e coerência de pensamento. Quer ser o Deus de seu mundo e, como no universo real, usa a matemática como código desse ordenamento. A matemática é a única linguagem realmente universal. Não por acaso música é matemática, física é matemática aplicada, órbitas de planetas são reveladas pela matemática. Se Deus é Verbo, esse Verbo fala a língua da matemática.

Teodoro multiplica as sentenças onde tal premissa ordenadora se revela: “quando as frações se esfacelam no futuro, e o futuro é o mais traiçoeiros dos aliados”, “sou um escravo dos minutos eu os contabilizo sistematicamente”, “Nós tínhamos uma equação complicada”, “percebi que a minha meretriz é um triângulo”, “o espaço-tempo, este senhor que nos governa, é ele o culpado de todos os desencontros”. Mas nada disso é o suficiente. Se para controlar sua carreira profissional na universidade a geometria euclidiana lhe basta, sua vida particular é fractal. A matemática do caos domina. Antes rompesse a própria caixa craniana com uma furadeira elétrica, como o matemático do filme “Pi”, de Darren Aronofsky.

Não é gratuito que em determinado momento cite o Dr. Manhattan, personagem do romance gráfico “Watchmen”, de Allan Moore e David Gibons. Dr. Manhattan é um físico, que num típico acidente de histórias de origem de super-heróis, se torna um ser onipotente, praticamente um deus. O que não foi suficiente para impedir que ele se deixasse enganar por um ser humano vestido de faraó, curiosamente um tipo de regente que é tratado como um deus vivo sem o ser de fato. Conseguir ver o todo, o passado, o presente e aos infinitos futuros possíveis, deixou o Dr. Manhattan cego aos detalhes que realmente importavam. Talvez essa seja a angústia de Deus. E de Teodoro.

Sofia o chamava de Teo. Teo, ou Theo, é Deus em grego. Para irritar a então esposa, Teodoro chamava Sofia de Sô. Esses pequenos detalhes de diplomacia caseira representam uma das possíveis chaves interpretativas para a compreensão do romance: o ser humano, obra-prima e receptáculo do logos divino (Sofia), cansado do egoísmo e da vaidade de Deus desistiu dele e o abandonou, ficando “só” (com acento agudo, pois solidão é essência feminina) vagando pelo mundo, despido do sublime que sufoca e entregue aos delírios da carne, do século. Teo, Deus, inconformado com o abandono procura sua criação (e propriedade, segundo sua perspectiva), pelo vasto mundo que criou. Vasto demais até para si, provando que sua onisciência, onipresença e onipotência são atributos falhos, visto que uma criação falha não pode vir de um criador perfeito. A revelação desse fato, pois só o fato importa para quem se diz “em tudo sou organizado e coerente”, inspira a destruição da criação: que pode ser uma vida humana, mas também um livro. Deus, Teo, cria, mata e subjuga por meio de livros. Tanto em prosa quanto em poesia.

O amor de Teo o uniu à Sofia. Seu ódio a separou dela. O narrador escreve: “Nos meus sonhos mais tenebrosos, Sofia me salva. É claro que minha indecisão sobre o amor que sinto por ela, se é de fato amor ou se o meu ódio, fruto da revolta nascida no âmago do seu silêncio, domina tudo com sua força avassaladora”. A desconstrução de Sofia é a desconstrução segundo Empédocles.

Mais do que isso: muitos e grandes filósofos muito já se debruçaram sobre à angustia gerada pelo silêncio de Deus. Mas e se a recíproca for verdadeira? E se há milênios Deus também estiver esperando ansioso para escutar a voz da humanidade? Se assim for, tanto as orações daqueles que crêem quanto a poesia dos descrentes estão sendo feitas de modo errado.
Só nos resta a matemática.

Ademir Luiz é escritor, doutor em História e professor na Universidade Estadual de Goiás (UEG)

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