“Literatura engajada é uma traição do escritor a si mesmo”

Autor do livro “Histórias Civilizadas” diz escancarar, por meio da escrita, a violência urbana e a desumanização do homem atual

James Frederico: “O banal e o clichê também estão no mundo e não podem ser ignorados”

James Frederico: “O banal e o clichê também estão no mundo e não podem ser ignorados”

Francisco Perna Filho, Sinésio Dioliveira e Valdivino Braz
Especial para o Jornal Opção

Para o escritor James Frederico Rocha Coelho, autor do livro de contos “Histórias Civilizadas”, recentemente lançado em Goiânia, só a parte morta da literatura, fora e dentro da academia, pode se negar a tratar de tabus. Ele sublinha, entretanto, que tratar somente de polêmicas e tabus é muito chato e acentua que o banal, o clichê, também estão no mundo e não podem ser ignorados, devendo-se, pois, chamar a tudo e a todos para o palco.

Em seus contos, paginados de temas impactantes, incluso o escabroso, James Frederico enfoca personagens acometidos e também acossados pela violência, e por aí vaza a ironia do título “Histórias Civilizadas”. Há, também, alegoria sobre um escritor, algo proustiano, e sua obsessiva criação de uma obra megalômana. Quanto a questões como a controversa reforma ortográfica e a polêmica do politicamente correto, James afirma que a primeira deve ser debatida porque “a língua é a marca do que a gente é”, sendo mutável dia a dia; já o politicamente correto, segundo ele, além de chato — pois “não há cartilha para a vida” —, é um excremento.

Valdivino Braz — Cristovam Buarque, que escreveu orelha para “Histórias Civilizadas”, ressalta que a violência urbana brasileira, de tão banal, tornou-se rotineira e deixou de inspirar a literatura. Ele diz ainda que ficou difícil escrever sobre esse assunto. Como, então, a violência urbana inspirou a você, James Frederico? E houve alguma dificuldade ou desafio para que o sr. tratasse deste tema, sem banalizar também a própria narrativa focada na violência urbana?
Talvez, porque eu não consigo distinguir violências, como a urbana brasileira ou a tribal africana ou a que submete ao sofrimento extremo os refugiados na Síria. Acredito que estava mais pessimista com o ser humano quando es­crevi o livro, mas ainda acredito no mal atávico que está no DNA nosso, da raça, como também acredito no DNA do bem.

Recentemente lançado em Goiânia, o livro de contos traz temas impactantes, inclusos e escabrosos com foco em personagens castigados pela violência

Recentemente lançado em Goiânia, o livro de contos traz temas impactantes, inclusos e escabrosos com foco em personagens castigados pela violência

Francisco Perna Filho — Ao concluir a leitura de seu livro, percebemos a ironia que o título traz e o mal-estar que ele nos provoca quando põe a claro situações, embora ficcionais, tão próximas de nós. Para o sr., existem temas que são tabus, que não devem ser postos na literatura?
Não, só a parte morta da literatura, fora e dentro da academia, pode se negar a tratar de tabus. É evidente que tratar somente de polêmicas e tabus é muito chato. O banal, o clichê, também estão no mundo, não dá para ignorar — acredito que devemos chamar tudo e todos para o palco: o escroto, a fada madrinha, o honesto, o ingênuo, o ladrão etc.

Valdivino Braz — Impera no Brasil um clima de medo, insegurança e impotência do cidadão, indefeso diante de tanta violência, crueldade e, pior ainda, corrupção policial, abuso de autoridade fardada, além de roubalheira e cinismo político. Como cidadão, qual a posição do escritor em face do execrável estado de coisas no Estado brasileiro?
Confesso que muito perplexo, mesmo na minha idade. Ainda estou naquela de quem foi pego de supetão e ainda não teve tempo de respirar, sentar e refletir. Isso pode parecer um tanto fraco, do ponto de vista de que o escritor, mesmo que não queira, pensa e critica a engrenagem social. Mas a essa altura, quando tanto foi escrito sobre nossa formação e sobre a imaginação de que a evolução de nossa sociedade com o tempo seria irremediável, também estou procurando resposta. A única coisa sobre esse assunto de que tenho certeza é de que nada é novidade quando se trata de roubar, exceto pela tecnologia. Agora, é novidade o comércio de tudo, incluindo Deus e as respectivas religiões e o caráter de cada um.

Valdivino Braz — Alguém poderá dizer que denunciar o problema da violência urbana, em âmbito literário, será uma forma de repeti-lo. Para além do impacto, “produzindo no leitor um verdadeiro terror retirado do cotidiano”, como sublinha Cristovam Buarque, a que serve ou servirá a literatura na repetição ou enfoque da problemática gerada pela violência urbana?
Sinceramente não me passou pela cabeça a que serviria, se seria ferramenta para melhorar ou denunciar. Sou um escritor preguiçoso e, quando comecei a escrever esse livro, ainda quando morava na Bahia, me incomodava muito e me chamava atenção o caderno do jornal “A Tarde de Salvador” que tratava da violência urbana e as torturas medievais, em certos casos, eram fichinha perto do que acontecia ali de vez em quando, nas periferias. Mas, algum tempo depois, isso já não era apenas um tratado factual, mas foi se transformando também numa espécie de alegoria, do próprio ser humano.

Francisco Perna Filho — No conto “Luzeiro”, natural e sobrenatural se amalgamam, as fronteiras entre possível e impossível são abolidas, criando uma atmosfera romântica, de sonho e fuga. A literatura, para o sr., seria um alento, uma maneira de tentar recuperar aquilo que a realidade opressora nos tira ou tirou?
Que ela é um alento, não tenho dúvida nenhuma, tanto para quem escreve quanto para quem lê. Não vejo que seja sacrifício escrever, talvez porque não tenha compromisso com isso e só escreva quando a vontade, de tão grande, transforma aquilo em prazer. O fato de ser preguiçoso para ler e escrever talvez não tenha permitido que eu tivesse experimentado essa dimensão do sacrifício no ato de escrever.

Valdivino Braz — O que o sr. acha que diria o grego Platão (se por aqui estivesse) sobre a nossa atual República?
Antes de ouvir o que Platão diria, providenciaria uma conversa entre ele e um negro, pobre, gay e favelado brasileiro, um senador da nossa República, um jornalista comprado, um pastor escroto, uma puta que trabalha para sobreviver e dar comida ao filho, um homem que toca uma obra para acolher crianças abandonadas ali no Novo Mundo e por aí vai…

Sinésio Dioliveira — O personagem Antônio Vieira, do conto “Excre­ções”, ganhou esse nome aleatoriamente ou tem a ver com o padre Antônio Vieira?
Não, você me alertou para a coincidência. Os sermões de Vieira são verdade e elegância literária misturadas. E essa elegância é de uma clareza superior, fala por si do ponto de vista estético. Mas a alma dos sermões está na ética, como pretendemos hoje.

Sinésio Dioliveira — Na parte II do conto “Excreções”, o narrador diz que Antônio Vieira “acordou às oito” e “foi quando sentiu as primeiras comichões nas mucosas das narinas”. Este trecho me lembrou “Metamorfose”, de Franz Kafka: “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”. Estou vendo coisa inexistente entre os dois textos?
Também estou sendo alertado agora, pelo sr., a esta semelhança. Pode ter sido uma repetição inconsciente, pois a minha fascinação por literatura é mais forte em [Murilo] Rubião, Kafka, Gabriel García Márquez e [Jorge Luis] Borges.

Francisco Perna Filho — Para muitos escritores, escrever contos seria uma preparação para uma escrita mais longa: o romance. O sr., antes de escrever “História Civilizadas”, escreveu o romance “Quarto 16” (1989). Os contos vieram primeiro, ficaram adormecidos, ou a escrita do romance deu-se em primeiro lugar? Fale-nos um pouco sobre o seu processo criativo.
“Quarto 16” é uma novela e veio de supetão. À época, eu era visivelmente um desqualificado para escrever, do ponto de vista do conhecimento da língua, mas hoje, olhando de longe, no tempo, tenho certeza que literatura é percepção e o fato humano da existência de cada um no mundo, antes de qualquer teoria da literatura ou gramática. Hoje, estou atrás de um exemplar de “Quarto 16” para reescrever e reeditar, pois não guardei em casa nenhum exemplar.

Sinésio Dioliveira – Onde o sr. bebe em suas leituras de contistas brasileiros? Quem o sr. apontaria como seu predileto?
Quando falo de conto, me lembro de Machado de Assis, [Edgar Allan] Poe, Caio Fernan­do Abreu e Borges, além de Ru­bião, do francês Guy de Maupas­sant, que escreveu “Bola de Se­bo”. Há também [Guima­rães] Ro­sa, de “Sagarana”, meu livro de cabeceira e minha passagem para o sertão, toda vez que quero voltar lá.

Francisco Perna Filho — O conto que fecha o livro, “O Último”, narrado em primeira pessoa, fala de memória, amizade e ausência: a história de um homem e sua obsessão pela escrita, pela obra perfeita, tendo apenas o primo como leitor. Para o sr., a literatura liberta ou aprisiona? Que tipo de leitor o sr. persegue?
“O Último” é uma alegoria do fato deprimente de que a gente passa, mas também do fato alegre que comprovadamente diz que em algum lugar ou alguém vai permanecer um pedaço da gente, por minúsculo que seja; é aquela história do Deus das pequenas coisas.

"Esta coleção de contos deveria trazer um rótulo como o dos cigarros, avisando que pode fazer mal ao humor, mas faz bem a quem gosta de navegar no mundo literário” Ao ex-reitor da UnB, Cristovam Buarque, coube as orelhas do livro

“Esta coleção de contos deveria trazer um rótulo como o dos cigarros, avisando que pode fazer mal ao humor, mas faz bem a quem gosta de navegar no mundo literário” Ao ex-reitor da UnB, Cristovam Buarque, coube as orelhas do livro

Valdivino Braz — Até onde se estende o papel social do escritor? Que a literatura pode contribuir para estimular uma vida melhor na sociedade? Ou seja, a literatura muda alguma coisa?
Muda muito, humaniza, assim como o cinema, a música, o sexo alegre — existe o sexo triste —, o álcool, a amizade, e por aí vai. Mas não acredito em papel social do escritor como fato consumado. O escritor e sua obra são um incidente, para o bem ou para o mal. Literatura engajada é traição do escritor a ele mesmo. A literatura de alguém será o que deve ser e se completará nas leituras, podendo ou não reforçar ou anular esse papel social do escritor a que você se referiu.

Sinésio Dioliveira — O prosador é também um “fingidor” como diz Fernando Pessoa sobre o poeta em “Autopsicografia”? O sr. é um leitor de poesia?
Completamente. Sincera­men­te não vejo muita distância entre “Máquina do Mundo” [poema de Carlos Drummond de Andrade] e “Sorôco” [“Sorôco, sua mãe, sua filha”, conto de Guimarães Rosa]. Leio pouco de poesia. Fernando Pessoa foi a primeira e única experiência. Falo “única” no sentido de especial. Admiro e sinto muita emoção com [Mario] Quintana e Manoel de Barros. Dos estrangeiros não li nada, porque tenho uma desconfiança muito grande das traduções. De qualquer tradução.

Valdivino Braz — Como escritor, de que maneira o sr. avalia questões pouco debatidas como a controversa reforma ortográfica e também a polêmica do politicamente correto na literatura?
A reforma ortográfica deve ser debatida porque sabemos a marca da língua em nossa construção, no que a gente é, mas sem purismos, porque até na língua tudo muda, dia após dia. O politicamente correto é chato, e essa minha opinião é porque acredito que não tem cartilha para a vida, que a vida é o palco a que me referi anteriormente, que deve ter de tudo, do escroque ao religioso moralista e convicto, do herói ao mentiroso traiçoeiro, da beata à puta, do abstêmio ao bêbado etc.

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