A lista dos melhores livros lidos em 2016

São diversos os títulos que não necessariamente foram lançados no ano, mas sim que marcaram os leitores do Opção Cultural e do grupo Literatura Goyaz em 2016

Adalberto de Queiroz
Especial para o Jornal Opção

A proposta era simples: que nossos leitores escolhessem entre os livros lidos em 2016, qual foi “O livro” – aquele que mais o tocou e que, a partir de sua experiência, pudesse interessar a outros leitores. A surpresa inicial foi que, nem sempre, mesmo os que têm a escrita por ofício, estão dispostos a compor 10 linhas sobre o tema; segunda (e positiva surpresa), nem sempre são os lançamentos do ano que marcam a vida dos leitores – e este não era um pré-requisito).

Fotos: Divulgação

Fotos: Divulgação

“Milênio e outros poemas” – de Ruy Espinheira Filho, (Editora Patuá, 2016)
Por Wagner Schadeck
Com “Milênio e outros poemas”, Ruy Espinheira Filho consolida-se como um dos maiores e mais profícuos poetas contemporâneos. Biográfica e histórica, a poesia de Ruy é, sobretudo, amorosa. Por meio dela, o memorialista resgata amizades e amores. Neste livro, o poeta nos oferta um catálogo de afetos: a memória amorosa, a beleza feminina, o sonho, a figura paterna e, entre outros, a infância mítica. Voz pessoalíssima, o poeta celebra a amizade dos seus: Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, John Keats, Lord Byron e mais, numa espécie de suma memorialística. Na celebração da Beleza, a poesia é o vinho que irmana os homens.

Wagner Schadeck nasceu e vive em Curitiba. É tradutor, ensaísta, editor e poeta. Colabora com a Revista Brasileira (ABL), com a Revista Poesia Sempre (BN) e com os periódicos Cândido e Rascunho

naqueles-morros-depois-da-chuva“Naqueles Morros, depois da chuva” – de Edival Lourenço (Editora Hedra, 2011)
Por Zanilda Freitas
As narrativas históricas, camufladas pelos mistérios que rondam uma comitiva de um fidalgo português, governador da Província de São Paulo e Minas dos Goyazes à procura de ouro, são de uma beleza rara, de um vocabulário excepcional, que nos remete a refletir em como o autor conseguiu colocar tanto conhecimento sobre fatos históricos, costumes indígenas e o comportamento humano de quatro séculos atrás. Momentos de suspense, cômicos e emocionantes, narrados com uma linguagem que identifica e emparelha o autor com os grandes escritores.

Zanilda Freitas é escritora e autora do livro de poemas “Espirais do Tempo”; ela participou de “Literatura Goyaz: Antologia 2015”

arte_FreudNaSuaEpoca_CMKY_11-07-16.indd“Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo” – de Elisabeth Roudinesco (Editora Zahar, 2016)
Por Hélio Moreira
Já há algum tempo tento concluir um ensaio que venho escrevendo sobre Freud; na realidade tento fazer uma interface entre o cidadão Freud e o Império Habsburgo (Austro-Húngaro) durante sua vida de criança, adolescência e, principalmente, na maturidade, fechando com a sua descoberta da Psicanálise.
Durante esse tempo, acumulei uma vasta bibliografia a respeito e, ao saber que a historiadora e psicanalista francesa Elisabeth Roudinesco havia escrito um livro publicado em língua portuguesa pela Zahar Editora, trazendo “novidades” sobre a vida de Freud, admito que fiquei um pouco cético, pois acredito que a vida de poucas personalidades do mundo foi mais estudada do que a de Freud.
Porém, a partir de novos arquivos abertos pela biblioteca do Congresso Norteamericano e, principalmente a sua erudição na história da psicanálise, Roudinesco conseguiu, realmente, trazer à tona “novidades” sobre a vida de Freud.

Hélio Moreira é médico e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, cadeira nº 24, autor entre outros títulos do premiado “Couto de Magalhães – O Último Desbravador do Império”

brasil__um_pais_do_futuro_9788525415936_hd“Brasil, País do Futuro”, de Stefan Zweig (Editora Delta, 1941)
Por César Miranda
O momento atual é muito bom para ler este livro; no entanto, qualquer momento o seria por várias razões: a visão do Brasil sob a ótica do ótimo escritor estrangeiro que com seu estilo direto acaba nos dando uma ótima história concisa do Brasil até aquele momento (início dos anos 1940) e uma visão geral dos eventos fundamentais de nossa história. Ouso dizer que a obra deveria ser a primeira a ser lida sobre a história do Brasil; depois, o leitor pode ir atrás dos assuntos específicos para se aprofundar.
Após contar a história, Zweig faz um depoimento maravilhado e esperançoso de nosso belo país, acreditando que ele, que jamais teve quem o amasse, milagrosamente seria amado pelas gerações futuras. Leia essa obra maravilhosa e faça com que as crianças e os jovens também a leiam. Quem sabe, como eu, um leitor descobrirá que ama esse país. E quando se ama, vem junto à íntima obrigação de fazer algo a respeito.

César Miranda é formado em Direito, músico com especialização em MPB, Millôr e Monterroso, escreve em seu blog Pró Tensão, graças ao qual participou do livro Wunderblogs.com (Barracuda, 2004), com uma seleção dos textos dos blogs do portal de mesmo nome. Economiário em Brasília, é ainda coautor de “Literatura Goyaz: Antologia 2015”.

andam-faunos-pelos-bosques“Andam Faunos pelos Bosques” – de Aquilino Ribeiro (Editora Bertrand, 2011)
Por Fabrício Tavares
Poderosa biografia do homem ocidental continuamente afligido pelas tradições espirituais que perpassam sua história e constituem a base mesma de sua substância interna, a obra aborda o paganismo, o cristianismo e o humanismo, que se embatem num conflito universal engastado nas singularidades duma aldeola portuguesa, onde o suposto advento de uma criatura mítica que viola as moças da região, gerando filhos robustos, põe em marcha uma esperança escatológica por parte daqueles que, mais próximos à natureza, anseiam pela renovação da terra; um ceticismo sombrio para os profetas da autonomia do homem; e uma crise apocalíptica em meio aos padres, que veem na criatura um flagelo do mal. A leitura do romance desvela tanto o cerne de nossa civilização quanto o substrato de nossa individualidade.

Fabrício Tavares é doutorando em Literatura (UFJF/Queen Mary University of London) e colaborador da revista digital Amálgama.

download“Uma história desagradável” – de Fiódor Dostoiévski (Editora 34, 2016)
Por Mário Zeidler Filho
A obra narra uma noite da vida do Conselheiro Ivan Ilitch Pralínski, aristocrata e alto funcionário da burocracia czarista. Às vésperas da reforma administrativa que, entre outras coisas, aboliria a servidão na Rússia, e encorajado pelo espírito do que os russos chamavam então de “populismo” e – claro – por algumas taças de vinho, Pralínski decide comparecer, sem ser convidado, à festa de casamento de Pseldonímov, um de seus subalternos. Num vertiginoso crescente, a situação degringola até que o Conselheiro desperta no leito nupcial, causando enormes prejuízos e arriscando a própria consumação do casamento. Publicado pela primeira vez no Brasil em tradução direta, a edição conta ainda com o posfácio de Aleksei Riémizov, indicando “Uma história desagradável”, para além das implicações políticas imediatas, como a chave de entrada aos grandes romances de Dostoiévski.

Mário Zeidler Filho é editor da Livraria e Editora Caminhos

71-o-uvgyl“Os Invernos da Ilha” – de Rodrigo Duarte Garcia (Editora Record, 2016)

Por Adalberto de Queiroz (este que vos lista, caros leitores)
Um romance de aventura num país que parece padecer do mal da “narratofobia”. Neste romance de estreia, Rodrigo não só prova que é possível escrever bem, como tampouco se esquiva de colocar a imaginação moral a guiar os passos dos personagens de sua história. Dialogando com grandes modelos de narrativas, o autor não se torna refém de uma escrita insípida ou dogmática que dominou os narradores brasileiros por muito tempo, tornando-se exemplo de liberdade de males que sufocam a literatura feita no Brasil — o solipsismo, o niilismo e o formalismo. Um romance montado em “camadas narrativas”, “Os Invernos” mostram que estamos diante de um grande escritor estreante: um romancista ciente de que “a arte não redime ninguém, mas talvez possa tornar algumas dores mais suportáveis”. Recomendo a todos que estejam cansados de uma literatura sensaborona ou presa da ideologia que tomou conta do atoleiro moral em que nos metemos.

Adalberto de Queiroz é poeta e jornalista, colaborador do Opção Cultural

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Adalberto De Queiroz

Meu agradecimento a todos os que participaram desta enquete inusitada (incluindo o responsável pela bela edição das 7 mini-resenhas!), pois, afinal o índice de leitura pode crescer na medida do interesse pelo que se lê, mais do que pelo que é lançado naquela quadra da vida em que está o leitor, estamos nós…
Feliz 2017 e boas leituras, leitores do Opção Cultural.
Abraço fraterno do
Beto.
http://betoqueiroz.com