“Lisábria de Jesus ou o Estigma de Cam”, romance desconcertante de Alan Viggiano

Neste não-romance, a grande façanha talvez seja o poder de síntese com que está revestida a sua concepção, a sua estranha arquitetura

João Carlos Taveira

Especial para o Jornal Opção

Em outubro de 1990, quando um grupo de seis escritores, uma intérprete e um editor viajamos a Miami para participar da 7.ª Feira Internacional do Livro, a famosa “Miami Book Fair”, ali realizada em praça pública, numa aventura digna do Exército de Brancaleone — para dizer o mínimo do surrealismo em que estávamos envolvidos —, Alan Viggiano deu-me para ler os originais de “Lisábria de Jesus ou O Estigma de Cam”, que havia acabado de ganhar o Prêmio Afonso Arinos, na categoria romance, da Academia Brasileira de Letras. Um livro bem diferente daquele que foi publicado anos depois. A história de Lisábria era basicamente a mesma, porém estava escrita — e muito bem escrita, é bom que se diga — em linguagem linear, convencional.

José Rangel, Alan Viggiano, João Carlos Taveira e Afonso Ligório | Foto: Reprodução

Pois bem. Os textos originais, devidamente avalizados por uma comissão de alto nível, precisavam apenas de um bom editor para tornar público aquele romance espetacular e um tanto inusitado. Àquela altura dos acontecimentos, qualquer autor teria se dado por satisfeito, dedicando-se única e exclusivamente ao processo de edição. Afinal, tratava-se de um livro bem-feito, que agradara não só os acadêmicos como também um punhado de amigos que haviam lido e dado suas opiniões favoráveis. Inclusive eu, que já havia demonstrado todo o meu entusiasmo diante daquela obra, pois fui dos primeiros a conhecer seus originais.

Mas, para o Alan, a coisa não era bem simples assim. Ao que parece, não se dera por satisfeito. E dava a entender que aquele “trem” lhe incomodava os ânimos, corroía-lhe as entranhas e queimava-lhe as vísceras. Já havia escrito e publicado mais de uma dezena de livros e, entre eles, dois romances. Portanto, um livro a mais, um livro a menos, dá na mesma, deve ter pensado este homem de poucas palavras, de gestos largos, mas comedidos e de ideias fervilhantes. E, no seu jeito ensimesmado, deixou o tempo passar, dando a impressão de que devolvera o “Lisábria de Jesus” ao fundo da gaveta. Sempre que alguém lhe perguntava pelo romance, o mineirão de Inhapim desconversava dizendo que o havia mandado para certa editora e que aguardava resposta. Com isso, os anos foram se passando. E só no fim de 1999, depois de muito mistério, de muita expectativa, “Lisábria de Jesus” finalmente veio a público, numa edição caprichada de André Quicé Editor. Alan havia acabado de quebrar a perna do capeta. E com uma só cajadada.

Diante de uma desconcertante surpresa

Quando abri o livro para aquela tradicional folheada de reconhecimento do terreno, pensando que ia apenas reler o texto que conhecera dez anos atrás, quase caí da cadeira, tamanho o susto que aquela encrenca de livro estava me pregando. “Diabos, mas esse não é o Lisábria que eu conheço”, disse a minha mulher. “O Alan deve ter ficado zureta” — exclamei, com ares de quem estava meio perdido, debatendo-me na mais completa ignorância. Só um sujeito maluco, pensei, seria capaz de reescrever aquela história inteira, não deixando pedra sobre pedra, ou melhor, palavra sobre palavra.

Um romance dentro do romance, ou melhor, um não-romance que, ao desmontar o mundo para apresentar suas desconjunturas e desencontros, acaba por desmontar-se a si mesmo, num contínuo de delírios, críticas veladas e algumas bizarrias verbais dignas do gênio.

E foi assim que tive o prazer de ler tudo de novo, para concluir que a Arte é muito mais do que aquilo a que estamos acostumados. É preciso ter a mente e o coração abertos para o novo, pois só o novo redime e transforma. Só o novo é capaz de subverter a ordem natural das coisas e reinaugurar no mundo a face da esperança.

Alan Viggiano: escritor | Foto: Reprodução

Como o compositor austríaco Anton Bruckner (1824-1896), em relação à sua “Oitava Sinfonia”, Alan Viggiano também consumiu dez anos de sua vida na construção deste livro. Mas, nos dois casos, a espera valeu a pena: o mundo ganhou duas obras-primas. Em resumo: “Lisábria de Jesus ou O Estigma de Cam” (Tragédia em muitos atos) é um romance ousado, desconcertante e, às vezes, sem pé nem cabeça. Um romance dentro do romance, ou melhor, um não-romance que, ao desmontar o mundo para apresentar suas desconjunturas e desencontros, acaba por desmontar-se a si mesmo, num contínuo de delírios, críticas veladas e algumas bizarrias verbais dignas do gênio. Nele, a grande façanha talvez seja o poder de síntese com que está revestida a sua concepção, a sua estranha arquitetura.

Em pouco mais de 150 páginas, escritas num estilo denso, vertiginoso, que explora as mais diversas camadas da linguagem, concentram-se invenções estilísticas e malabarismos fonéticos de tirar o fôlego do leitor menos avisado. O texto está povoado de neologismos, metáforas, hipérboles, aliterações e mais um monte de outros quebra-cabeças utilizados como recursos de ridicularização e de denúncia. Mas mantém, por um lado, um diálogo permanente com a Poesia, em que, mesmo disfarçados, aparecem poemas inteiros em forma de sonetos, e, por outro, com o próprio romance, numa homenagem fraterna e sincera ao escritor M. Cavalcanti Proença, autor do belo e pouco lido “O Manuscrito Holandês”.

De suas páginas brotam rios, mares, oceanos, num redemoinho de sugestões e estocadas as mais picantes, as mais atormentadoras. Nas entrelinhas, pode-se perceber que o Autor não poupa críticas e ironias aos desastrados senhores do poder e, às vezes, até aos escritores que vivem da velha arte do “culto ao próprio umbigo”, numa demonstração de cabotinismo e nenhum talento. Desses autores, são publicados textos e livros que não acrescentam nada. São, na maioria, “poetas” e “ficcionistas” sem um pingo de autocrítica e, o que é pior, sem o mínimo senso de ridículo, a escrever e a falar asneiras e a publicar bobagens em livros vazios, completamente desnecessários.

Lembranças de Lima Barreto

Mas nem tudo são bolores extraídos desta flor do Planalto! No Lisábria podem-se encontrar, com facilidade, preitos de homenagem ao bom senso e à inteligência. O livro está repleto de beleza.

Falemos, por exemplo, de Lisábria, essa mulher que, apesar de ter sido estuprada pelo pai e pelo irmão, e de ter trazido ao mundo sete filhos, cada um de varão diferente, ainda teve forças para revolucionar sua vida de muitos sexos, nexos e plexos, pelo menos do ponto de vista da miséria em que se encontrava antes de deixar a Bahia e vir para Brasília.

Por outro lado, o romance nos oferece um sem-número de leituras, cada qual com interpretações variadas. Lisábria, na verdade, é um anagrama de Brasília, que no entanto lhe é acolhedora. Mas é muito mais a crítica do Brasil, das Américas, da Europa, enfim, do mundo inteiro. É também a história de uma mulher, de uma raça, de uma nação colonizada e submissa, sempre disposta a beijar as botinas do colonizador. Alan faz uma verdadeira análise dos problemas brasileiros, com seus envolvimentos nos campos econômico, social, político e linguístico. Levanta outras lebres e cria um painel sombrio de incertezas, em que tudo é questionado, discutido e criticado à luz da história recente deste país. Nada escapa à sua visão telescópica e avassaladora, mas sobretudo cheia de humor e de muitas gozações.

Vista desse ângulo, a obra viggiânica aproxima-se do “Macunaíma” de Mário de Andrade, por suas concepções arquetípicas atualizadas e até certo ponto aperfeiçoadas de um Brasil que não consegue desvencilhar-se do ranço escravocrata, entregue quase que totalmente aos ditames do colonizador, a começar pela sujeição cega à política financeira do FMI, pela incorporação do vestuário e das formas de comportamento “punk” (que, em certos casos, chega a beirar o ridículo), pelos maus hábitos alimentares (que, em muitos casos, reduzem-se a pão, maionese, batata frita e coca-cola) e – o que é mais grave e preocupante – pela desvirtuação do idioma pátrio (uma vez que a língua portuguesa tem sido menosprezada e vilipendiada até pelas classes mais privilegiadas, como a política, a empresarial, a científica e, pasmem!, a intelectual).

Só um exemplo: o Centro Comercial e Empresarial Norte de Brasília mais parece a ilha de Manhattan, em plena Nova York. Aliás, num desses modernos edifícios de nome inglês, o Alan – numa tirada espetacular digna dos melhores autores do realismo mágico – coloca Deus em um escritório luxuoso, onde Ele passa a governar a humanidade, com mão de ferro e ajuda de um secretário dedicado e competente, na Sua eterna luta para livrar-se dos sanguessugas e puxa-sacos e, sobretudo, preservar o Seu poder.

Epílogo um tanto difuso mas necessário

Neste momento, não poderia encerrar minhas observações sem fazer uma pequena referência à Música, principalmente à ópera. Mesmo porque “Lisábria de Jesus” está todo construído em perfeita harmonia com as formas musicais vigentes. E para tal, gostaria de trazer para este registro a oportuna opinião do crítico e musicólogo Charles Osborne: “Às vezes dizem que a ópera não é mais uma forma de arte viva, que suas obras-primas são todas dos séculos XVIII e XIX. Isto não é verdade. Constantemente dizem que o romance também está morrendo, mas novos romances — e muito bons — continuam a surgir. É verdade que nas últimas três décadas a maioria das formas artísticas se encontra em estado de instabilidade. A criatividade passa por um período de relativa baixa, como pode confirmar um rápido exame do que acontece (e não acontece) na pintura, na poesia, no teatro e na música. No entanto, há sinais de que as artes estão para entrar em um período de consolidação. (…) A ópera do futuro será diferente da ópera do passado e, esperemos, superior à maior parte da ópera do presente”. (E com o romance não será diferente.)

Termino por dizer que “Lisábria de Jesus ou O Estigma de Cam”, de Alan Viggiano, terá marcado com letras de ouro, na literatura brasileira, o fechamento do século XX, como uma obra extraordinária, tanto pelo vigor do seu conteúdo quanto pelas invenções estilísticas que apresenta. Ao mesmo tempo, será um marco inquestionável para o século XXI, que avança a passos largos. Com este livro, Alan Viggiano, certamente, inscreveu seu nome definitivamente na tradição literária fundada por José de Alencar, Machado de Assis e Guimarães Rosa, para mim, a santíssima trindade do romance brasileiro.

João Carlos Taveira, mineiro de Caratinga, é poeta, crítico e ensaísta. É colaborador do Jornal Opção.

2 respostas para ““Lisábria de Jesus ou o Estigma de Cam”, romance desconcertante de Alan Viggiano”

  1. Avatar João Carlos Taveira disse:

    Na viagem aos Estados Unidos, referida “en passant” no presente texto, gostaria de nomear os seis escritores participantes da comitiva, a intérprete e o editor aludidos. Éramos Alan Viggiano, Waldomiro Bariani Ortêncio, Luiz Scala Manzolillo, Afonso Ligório de Carvalho, sua esposa Ridete de Carvalho e eu, a intérprete e promotora cultural Asta-Rose Alcaide e o grande editor Victor Alegria — amigo e incentivador da Literatura no Planalto Central desde meados dos anos 1960. Obs.: A 7.ª Miami Book Fair foi um sucesso de público e de vendas naquela edição.

  2. Avatar Raquel Naveira disse:

    “Lisábria”, anagrama de Brasília, assim como “Iracema” é o de “América”.
    O drama de Cam, da negritude desde os primórdios.
    A saga de uma mulher que resiste e espalha sementes pelo mundo.
    Uma funda pesquisa linguística.
    Fica a vontade de conferir tudo, de conhecer a obra de Alan Viggiano.

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