“Lincoln no Limbo”: a polifonia da transformação através do luto

Primeiro romance do escritor americano George Saunders, um dos mais inventivos autores de contos contemporâneos, chega ao Brasil superando as expectativas, com uma narrativa que se sustenta na inventividade

George Saunders: em suas mas mãos, o que se tem é a perscrutação habilidosa do luto através de uma narrativa que se sustenta na inventividade e que, na forma, é tecnicamente impecável

Ricardo Silva
Especial para o Jornal Opção

A morte está entre esses íntimos mistérios que afligem a humanidade. O fim definitivo da existência continua a ser motivo de inconformidade. Ainda é um processo doloroso, mesmo que esperado, mesmo que se saiba que ele pode acontecer a qualquer momento. A perda peremptória mantém-se inaceitável. Como lidar com uma perda irreversível? Pode ser que essa ainda seja uma das perguntas fundamentais da existência.

Explorar essa seara é uma tarefa hercúlea e, por vezes, ingrata. A filosofia se ocupou e ofereceu alternativas reflexivas sobre o tema, a religião pegou seu bom bocado e formulou suas próprias concepções, mas é na literatura que existem as mais desconcertantes perspectivas. Talvez uma das mais comoventes expressões literárias das últimas décadas sobre esse tópico esteja tematizado no livro “Lincoln no Limbo” (Companhia das Letras, 2018, tradução de Jorio Dauster), de George Saunders.

O romance é a primeira incursão do autor na narrativa longa. Saunders, que é um incensado nome da ficção norte-americana e um dos mais inventivos escritores de contos contemporâneos — agraciado com honrarias do calibre de um Folio Prize, a bolsa Guggenheim e MacArthur Genius —, não poderia estrear de forma mais fortuita. “Lincoln no Limbo” lhe rendeu o maior prêmio da literatura em língua inglesa, o prestigioso Man Booker Prize 2017.

Seu romance estava entre os títulos mais aguardados no mercado editorial brasileiro deste ano. Não por menos: sua obra conseguiu tirar elogios rasgados da crítica e de nomes gigantes das letras, como Thomas Pynchon e Jonathan Franzer.

Ao chegar às prateleiras, toda a expectativa se confirmou: o trabalho de Saunders é uma das melhores experiências literárias recentes.

Perda

O mote para a narrativa é a morte do filho de onze anos de Abraham Lincoln, o mais famoso presidente dos Estados Unidos, e a sua inconformidade em lidar com a perda. Willie Lincoln morre de tifo no meio da mais emblemática crise da política interna dos EUA: a Guerra da Secessão, que fraturou o país em dois e culminou no processo de abolição da escravatura.

Como viver o luto da perda de um filho enquanto se tem que gerir as consequências e os percalços de uma guerra civil que está em curso? Esse evento não desemboca num romance histórico, como seria de se esperar. Nas mãos de Saunders o que se tem é perscrutação habilidosa do luto através de uma narrativa que se sustenta na inventividade.

Formado por uma colcha de citações históricas — verídicas ou ficcionais — que retratam, de forma contraditória, diferentes contextos dos episódios do romance, “Lincoln no Limbo” configura-se como portentoso exercício de experimentação.

Nesses episódios pode-se entender como se estabelecia a relação dos Lincoln com seus filhos, como o presidente estava administrando a possibilidade de divisão da União, assim como detalhes íntimos da rotina da Casa Branca e do que se sucedeu após a morte de Willie.

Os acontecimentos do livro se desenrolam na noite de 25 de fevereiro de 1862 no cemitério de Washington, onde o presidente vai vivenciar seu próprio limbo e tentar expurgar os próprios temores em relação a tudo que está se passando fora e dentro de si. É neste cenário que testemunhamos a íntima ligação que Lincoln pai tem com o Lincoln filho. Porém não somos as únicas presenças nessa cena.

Narradores defuntos

Primeira incursão do autor na narrativa longa, livro lhe rendeu o Man Booker Prize 2017, o maior prêmio da literatura em língua inglesa

O luto aterrador que engole Abraham Lincoln e o coloca em estado de suspensão também é acompanhado por espectros que se encontram neste espaço metafísico entre o céu e inferno no pós-morte. A “rotina” dessas, por assim dizer, almas que vagueiam sem rumo é alterada com a chegada de Willie. A presença – tão inabitual – de um visitante vivo que pegue no colo a “forma doente” – o corpo sem vida – de um deles com tanta ternura afeta as certezas ilusórias que a comunidade de espectros engendrara para si.

Mesmo com a costura dos excertos de notícias, diários e apontamentos históricos, citações e monografias da (e sobre a) época, a real condução da narrativa é feita pelos principais espectros da trama. Um deles é hans vollman – tinteiro que morreu em decorrência da queda de uma viga em sua cabeça no dia que consumaria seu casamento com a esposa (muito) mais jovem, o que lhe confere, no post mortem um falo enorme em constante estado de ereção

Outro narrador defunto é roger bevins iii – que se matou por causa do amante que resolvera “viver com correção” e o abandonou, suicídio do qual se arrepende no exato momento em que o comete, o que lhe dá uma forma abstrata recheada de vários olhos, braços (com todos os pulsos cortados). O reverendo everly thomas, que está constantemente com expressão de medo e horror no rosto completa a lista de narradores do Além.

Por meio de solilóquios sobrepostos em inúmeras camadas bem demarcadas, que compassam o ritmo na forma de um diálogo teatral, é possível acompanhar o agror que cada um passou e entender como os espectros-almas lidam com a vida pós-morte.

Eles pensam que cemitério é uma espécie de sala de recuperação, que o caixão é somente uma “caixa de doentes”, e que seus cadáveres são suas formas enfermas que podem se reestabelecer. Esses elementos sugerem que eles buscam sempre apaziguar tal situação através de eufemismos, motivo, provavelmente, de ainda estarem ali, no limbo.

Os diversos espectros formam também um retrato de diferentes épocas e das agruras humanas. Ex-tenentes racistas, negros escravos, bêbados, pedófilos, prostituas: um amplo quadro de figuras se amoldam no quadro desenhado por Saunders e o seu bardo. Mesmo que seja os mais asquerosos e desbocados, estão ali vivenciando conflitos, ainda sem um destino certo para suas almas, mas ansiando alguma forma de empatia, de cuidado, de consolo. Algo que diz muito sobre a condição humana e a busca por um porto seguro existencial.

Magnetizante

O limbo do título é compartilhado por todos os personagens: Willie, que sofre por não saber como pode ajudar o pai em seu sofrimento e encontra-se impotente na atual condição; Lincoln pai, que está completamente desfigurado pela perda, pelo luto, pela nebulosidade que paira sobre si, e pelas incertezas a respeito do que lhe aguarda fora daquele ambiente suspenso do mundo; e por todos os demais espectros que estão ali acompanhando aflitos, perdidos e também buscando, naquela ocasião, respostas e soluções para seus próprios problemas.

O enredo é recheado de múltiplos acontecimentos, de lances e relances e reviravoltas que magnetizam o leitor numa imersão profunda de onde só se pode sair depois de folheada a última das mais de quatrocentas páginas do livro. O ritmo é bastante acelerado e não permite que se descole dele.

O ambiente arquitetado por Saunders é tecnicamente impecável e, num quadro geral, completamente caótico – o que, no contexto da trama, não é um demérito. A capacidade que o americano tem de esquadrinhar o próprio enredo e manipular as sensações do leitor sem subestimá-lo permite desde já conceber “Lincoln no Limbo” como a mais nova obra-prima da literatura contemporânea.

Com sua habilidade notabilizada na reconstrução da estrutura técnica e do estilo inconfundível na narrativa curta, Saunders não se perde na hora de dar conta de uma obra de mais fôlego.

Iniciada em 2012, “Lincoln no Limbo” consumiu quatro anos de feitura, e o resultado não poderia ser mais avassalador. O romance é uma avalanche, uma corredeira em intenso fluxo sem chances de interrupção.

A força de Saunders não está somente na sua capacidade de reformular e embaralhar as técnicas do romance, está na sua perícia em harmonizar a infraestrutura da sua diegese com o choque que ela imprime no leitor que, em tese, estaria de fora dela. Essa fronteira é borrada, tornando-se porosa.

A imersão que ele promove é profunda porque carrega uma competência que chega a ser aflitiva de tão próxima e orgânica. A angústia num episódio pessoal da vida de Abraham Lincoln, um pai “destruído, perplexo, humilhado, diminuído”, torna-se também o drama do próprio leitor no decorrer da leitura.

Enquanto os espectros buscam consolo no seu estado intermediário de existência no Além, Lincoln pai tenta alcançar seu renascimento ainda em vida. No original (“Lincoln in the Bardo”), a palavra “bardo” remete a um estado de espírito que entramos no pós-morte, que antecede ao renascimento numa nova existência, segundo o budismo, religião praticada por Saunders.

Significações

“Lincoln no Limbo” é múltiplo também nas suas significações. Pode desembocar tanto como representação do processo de luto  como também na busca humana por saídas para saber lidar com as perdas, além de poder estar na linha que o interprete como metáfora da nossa gana por empatia, por cuidado e afeto, mesmo depois de terminada a vida.

Um trecho do solilóquio de vollman é bem representativo disso: “todas as pessoas carregavam algum fardo de sofrimento, todos sofriam; como quer que se olhasse para o mundo, cabia lembrar que todos estavam sofrendo (ninguém satisfeito: todos injustiçados, negligenciados, esquecidos, mal compreendidos), portanto cada qual deveria fazer o possível para aliviar a carga daqueles com quem entrasse em contato (…).”

O romance de Saunders não é uma obra que se alcance com facilidade. Atordoa o leitor, e ele fica em estado de maresia, ecoando a experiência reflexiva que foi passar aquela noite de fevereiro com Abraham Lincoln afagando o corpo de seu filho morto na companhia de tantas vozes.

Lincoln pai, depois do seu expurgatório processo, precisa encarar a complexa realidade que está posta à sua frente e da qual não pode prescindir. Contudo, ao sair do cemitério de Washington naquela madrugada, ele já não seria o mesmo Abraham que ali entrara. O mesmo se dá com aquele que passa pelas páginas de Lincoln no Limbo: entra-se um leitor, sai-se outro.

Ricardo Silva, graduado em filosofia, escreve sobre literatura e cinema

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