Leia Brasileiros, uma plataforma de produção literária ao alcance de todos

Já com quase dois mil seguidores, o projeto, idealizado por jovem catarinense, visa formar uma rede que inteire o vasto acervo de textos da literatura brasileira

Para se inscrever, basta acessar o site do Leia Brasileiros, onde você encontra de Machado a Clarice, de Drummond a Rubem Fonseca e muito mais

Para se inscrever, basta acessar o site do Leia Brasileiros, onde você encontra de Machado a Clarice, de Drummond a Rubem Fonseca e muito mais | Foto: Fernado Leite / Jornal Opção

Márwio Câmara
Especial para o Jornal Opção

Nos últimos anos, a literatura brasileira tem ganhado cada vez mais espaço no exterior, com traduções em diferentes países pelo mundo, além de destaque em feiras literárias e congressos de países na Europa. Porém, no auge de sua difusão de âmbito internacional, no respectivo país originário de tal produção, poucos brasileiros possuem conhecimento das obras contemporâneas, restringindo-se, na maioria das vezes, aos clássicos impostos no ensino médio e nos vestibulares.

É notório que uma grande parcela de jovens e adultos ainda denota um desinteresse mórbido pelos nossos autores. Em contrapartida, há aqueles que se voltam às obras de literatura estrangeira, com a triste desculpa de que os melhores estão lá fora e não exatamente entre os nossos.

Problemas relacionados à baixa educação promovida nas escolas da rede pública de ensino, com professores de literatura deficientes na prática de mediação de leitura, a ausência da cultura literária vinda da própria casa, entre outros fatores, contribuem para que a literatura de nossos grandes prosadores e poetas continuem caminhando a uma direção insolúvel e restrita, galgada apenas por estudantes de letras e críticos literários.

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Fotos: Reprodução

Para o escritor Henrique Ro­drigues (foto), que trabalha viajando o Brasil com projetos de incentivo à leitura, o desinteresse se deve pela nossa cultura em geral, especialmente àquela que não nos chega pelo popularesco: “Há uma falha de base no processo de ensino de literatura e formação de leituras que começa na escola, com processos pedagógicos equivocados, e se complementa em casa, onde o livro e a leitura não são valorizados como bens culturais. É uma equação cruel que precisa ser desconstruída”, afirma.

Com o objetivo de furar a bolha da restrição e do anonimato que circunda a nossa produção literária brasileira entre o anêmico público do país, que o jovem estudante de jornalismo, Giovanni Arceno, de 22 anos, resolveu criar uma plataforma na internet com o intuito de formar uma rede que se inteire pelo vasto acervo de textos que embalam a nossa literatura. De Machado de Assis a Clarice Lispector, de Clarice a Raduan Nassar, seguido dos poetas Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, Cecília Meireles ao prosador Rubem Fonseca e mais.

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Com 22 anos, Giovanni Arceno criou o site “Leia Brasileiros”

O projeto se chama “Leia Brasileiros” e já conseguiu quase dois mil seguidores em pouco mais de um mês. Para Arceno, os brasileiros leem pouco porque conhecem pouco: “Não existe muito esforço em aproximar os não-leitores da boa literatura brasileira, primeiro porque seria um esforço imenso reverter a ideia de ‘literatura brasileira’ entregada a nós, na escola. Segundo, porque tem gente curtindo este negócio de manter as obras numa bolha inalcançável para quem não quer sentar na rodinha dos blasés”, aponta.

Para fazer parte do projeto, é necessário que o usuário se cadastre na página de forma inteiramente gratuita, inserindo seu endereço de e-mail. Com a confirmação do cadastro, trechos de obras e curiosidades da literatura brasileira são enviados todos os dias para a caixa de mensagem do assinante.

“Eu tento ser o mais democrático que posso. Em todos os sentidos. Seleciono os textos semanalmente. Bem que poderia fazer para o mês todo, mas prefiro manter o projeto pertinho de mim, então os livros que eu envio (por enquanto) ou já li ou estou lendo no momento. Mas falo democrático, porque há um intencional equilíbrio sobre as obras que eu compartilho”, diz.

Ele acredita que deve haver um equilíbrio nos gêneros e temas que abarcam a tão rica literatura brasileira, sem excluir as diferentes vozes que a orquestram: “Eu preciso estar constantemente mostrando os clássicos, mas não posso esquecer dos contemporâneos, das poesias, das mulheres, dos escritores negros, dos gêneros pouco populares no Brasil como o realismo fantástico, por exemplo, da fantasia, da ficção científica nacional. Então eu pego os livros da semana seguinte e começo a folhear e encontrar bons trechos. Não precisa necessariamente ser algo revelador da história, apenas uma fração de qual atmosfera, linguagem e ritmo os leitores devem esperar da obra. Não quero frustrar ninguém também”.

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Outra incentivadora em projetos de fomento à leitura, a professora Suzana Vargas (foto), diretora da tradicional escola carioca de escrita criativa, Estação das Letras, relata que o pouco público para literatura brasileira e as dificuldades encontradas para divulgá-la tratam-se de um sinal inequívoco, resultante do analfabetismo funcional do nosso país: “Só existirá mercado, ou seja, povo comprador se existirem leitores de verdade. E programas de leitura continuados que trabalhem realmente com livros, com o ato de ler. Isso cria hábito, a força do hábito cria a necessidade de buscar seja em bibliotecas ou comprando em livrarias. Um povo leitor aquece o mercado. A literatura brasileira poderá, um dia, ser o reflexo desse aquecimento”, disse.

Rodrigues não acredita que exista uma fórmula mágica para se formar leitor literário, mas reconhece o potencial dos jovens através de projetos como o do Arceno: “Sabemos que ações sistemáticas, que colocam a literatura no cotidiano das pessoas, tendem a dar mais resultados que eventos isolados. Uma esperança e oportunidade é aproveitar o interesse que as novas gerações têm pelos livros, via cultura geek, para ampliar a bagagem de leituras e, quem sabe, cultivar práticas leitoras em escala”.

O criador, e também estudante de jornalismo de Joinville, em Santa Catarina, Arceno, também foi finalista de dois concursos literários em 2016, voltado a autores estreantes, o Prêmio Sesc de Literatura e o Maratona Literária. Seu primeiro romance, o intitulado “Luísa”, encontra-se, atualmente, em processo de tramitação com uma editora carioca. A previsão é que o livro seja publicado em 2017.

E, para se tornar um assinante do Leia Brasileiros, basta acessar o site (www.leiabrasileiros.com.br) e se inscrever.

Márwio Câmara é jornalista e pesquisador nas áreas de Literatura e Cinema. Mora no Rio de Janeiro.

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Max Leite

Muito legal a iniciativa!