“Le Pays des Autres”, de Leïla Slimani, pontua o que é ser um estrangeiro

“Je viens avec” (“eu também vou”). Assim a personagem da autora marroquina se convida para lugares para os quais não fora convidada

Rodrigo Edvard Araújo Silva

De Estrasburgo, França 

Leïla Slimani, de 39 anos, é uma escritora franco-marroquina, que se tornou mundialmente conhecida graças ao seu segundo romance “Canção de Ninar” (lançado na França em 2016 e publicado no Brasil em 2018), que ganhou o maior prêmio literário francês, o célebre Prêmio Goncourt. Hoje ela está entre os escritores franceses contemporâneos mais lidos na França e no mundo.

Nascida em Rabat, no Marrocos, a pequena Leïla Slimani sempre sonhou em ir para a França, país no qual mais tarde fará seus estudos superiores, trabalhando primeiro como jornalista e em seguida, em 2014, publicará seu primeiro romance, “No Jardim do Ogro” (publicado no Brasil pela Tusquets). Leitora ávida de literatura francesa e russa, suas principais referências literárias são Dostoiévski, Tchekhov e, acima de tudo, Simone de Beauvoir.

Seu novo romance, “Le Pays des Autres — La Guerre, la Guerre, la Guerre” (lançado na França em março de 2020), é o primeiro livro de uma trilogia na qual a escritora entrelaça a história do Marrocos, da França e de sua própria família. De fato, a história do casal Mathilde e Amine, colocado em cena na obra, é na realidade a história dos avós da escritora, que se encontraram na França durante a Segunda Guerra mundial (1939-1945). O personagem principal é Mathilde. Tal fator atribui um caráter particular ao romance, pois o leitor terá acesso ao ponto de vista de uma mulher em um período de guerra.

“Le Pays des Autres” coloca em cena uma jovem francesa da região da Alsácia, Mathilde, que tomará um rumo transgressor para a época. Ela se casará com o jovem marroquino Amine, um estrangeiro, de pele escura, enquanto ela é branca e vem de um país tido como superior ao do seu amante. Como se não bastasse, em um momento no qual a França é o país almejado, Mathilde fará o caminho inverso, se mudando com Amine para o Marrocos.

Leïla Slimani, escritora franco-marroquina: seu romance fala sobre o que é, e como é ser um estrangeiro, muitas vezes no seu próprio lar | Foto: Reprodução

Assim, este primeiro tomo começa no Marrocos de 1947, quando o casal Mathilde e Amine vão se instalar em uma pequena fazenda que Amine herdou do pai. A vinte e cinco quilômetros da cidade de Meknès, longe de tudo, tal mudança perturba Mathilde, pois à época eles não tinham carro e viveriam assim isolados de todos. A vida de um casal no interior de uma casa — tal é o contexto da maior parte do livro.

Mathilde e Amine se encontram em 1944, durante a guerra, na região da Alsácia. Mathilde era a guia do regime militar de Amine, que à época era um estrangeiro na França, em época de guerra, e consequentemente precisava passar despercebido. Jovem alsaciana, Mathilde estava no seu próprio país, em casa, e em posição de controle: conhecia perfeitamente a região, seus habitantes, seus modos, e era consideravelmente mais alta que Amine. Assim, além de guia, era protetora do jovem soldado.

Todo este cenário muda radicalmente quando chega no Marrocos, na terra de Amine. Ali, Mathilde é uma estrangeira, que não fala árabe, vinda da França, o país colonizador e, logo, inimigo. Mathilde sente toda essa hostilidade ao seu encontro desde seus primeiros dias no país, como, por exemplo quando o jovem casal vai se instalar em um hotel. Mesmo se Amine fala em francês com o recepcionista, este se obstina a respondê-lo em árabe, de modo que Mathilde seja excluída da conversa.

Neste novo contexto, Mathilde se sente pequena e, mesmo, diminuída. Tal sentimento se acentua quando Amine, seu homem e a ponte que a liga ao novo mundo, respondendo a uma oposição feita pela jovem francesa, diz a seguinte frase: “Ici, c’est comme ça”. Aqui, as coisas funcionam assim. Frase esta que ouvirá inúmeras vezes e que acentua o sentimento de que ali, onde ela escolheu morar e construir sua vida, não é sua terra; portanto, não passa de uma estrangeira no país do outro.

Logo Mathilde percebe que terá que se impor, se fazer aceitar. Em uma única frase, composta por palavras simples e, entretanto, difícil de traduzir, a heroína resume uma parte fundamental da concepção do feminismo de Leïla Slimani: “je viens avec”. Eu também vou. Com esta frase Mathilde se convida para ambientes e contextos dos quais seu marido e a sociedade marroquina da época tentam exclui-la. “Eu também vou” representa para Leïla Slimani o que as mulheres devem fazer: se convidarem, se imporem em ambientes dos quais são excluídas.

Mesmo se há muito da história, neste primeiro tomo é principalmente a vida quotidiana de um casal na intimidade do lar que é contada. A arte da escrita de Leïla Slimani faz com que o leitor viva e conheça a mentalidade de personagens inscritos em uma época completamente diferente da nossa, e desprovidos das informações que nós temos hoje. De modo que tudo o que os personagens vivenciam é transmitido com a mesma força para o leitor.

De um ponto de vista geral, trata-se de um livro sobre as consequências da guerra, os choques culturais e a maneira como as relações humanas são influenciadas por tais fatores. Mas principalmente este primeiro tomo fala sobre o que é, e como é ser um estrangeiro. E muitas vezes um estrangeiro no seu próprio lar, até mesmo nos seus próprios sentimentos. Realidade esta que Leïla Slimani conhece bem.

Nascida e criada até os 17 anos no Marrocos, por não falar árabe não era tida como um deles. Logo, uma estrangeira. Em seguida, ao chegar na França para estudar, mesmo que sua língua materna fosse o francês, este não foi o país onde ela nasceu. Mais uma vez, uma estrangeira. Assim Leïla Slimani sempre esteve entre dois mundos, sem ser completamente aceita por nenhum deles. Da mesma forma que Mathilde, Leila teve que aprender a viver e a se sobressair no “No País dos Outros”, tradução livre do título em francês.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.