Lascado

Por Natânia Carvalho

Reprodução / Haidak

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Bebi um vinho aberto há sabem-se lá quantos dias. Ele não tinha copos de vidros. Aliás, tinha um, mas estava lascado. Não que eu seja fresca. Claro que não. Mas aquele lascado simplesmente me irritava. Prendia meu lábio e minha atenção como o diabo.

Resolvi tomar o vinho velho em um copo laranja. Daqueles que você pede a Deus para não ver o fundo, encrustado com tanta sujeira quanto à pele dele.

— Você vai ligar, certo?

Balancei a cabeça afirmando que sim.

Eu acabaria ligando. Não amanhã, nem terça, nem sábado. Mas eu ligaria domingo. Pegaria meu carro, andaria uns seis quilômetros trocando de estação a cada três minutos e depois nós nos beijaríamos antes mesmo de passarmos da sala. No final, porque convenhamos: ele não vai demorar muito, eu vou me levantar, ir à cozinha, tomar o resto do vinho que não tomei da última vez e ir embora.

E aí ele vai me perguntar:

— Você vai ligar?

Eu vou afirmar que sim, pensar que não. Tomar um banho. Chorar um pouco. Esperar domingo.

 

Natânia Carvalho é jornalista

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