Larissa Mundim: “Editoras independentes vivem momento muito produtivo”

Em bate-papo com o Jornal Opção, a escritora, jornalista e idealizadora de iniciativas como a feira e-cêntrica fala do trabalho que desempenha à frente da Nega Lilu Editora, que se tornou uma importante vitrine para os novos literatos em Goiânia, e faz uma análise da cadeia produtiva do livro local. Confira:

Larissa Mundim, da Nega Lilu: “Também nos identificamos com ações de combate à invisibilidade da mulher, mulher negra, indígenas e LGBTQIs na Literatura”. Foto: Giordano Bonfim

Primeiramente, fale-me de sua trajetória como escritora: como você pegou gosto pela escrita e começou a escrever?

Para mim e para a maioria dos escritores e escritoras, o exercício da escrita se inicia com a paixão pela leitura. Foi assim na minha infância, por meio da história em quadrinhos, me conduzindo aos clássicos e, em seguida, à literatura contemporânea. Escrevo desde jovem e sempre quis ser escritora, nunca quis ser outra coisa na vida. A escolha do jornalismo como profissão era uma etapa a ser cumprida, hoje eu sei disso. Publiquei meu livro de estreia aos 40 anos, o romance ficcional “Sem Palavras”, que tem coautoria de Valentina Prado. Por autopublicação deste primeiro trabalho, em 2013, surgia então a NegaLilu Editora. De lá para cá, publiquei também o romance ficcional “Agora eu te amo”; a biografia do Coletivo Esfinge, “Operação Kamikaze”; o experimento gráfico-literário “Prepiscianas: vol. 1”, com Carol Schmid; e curtas narrativas ilustradas por Sophia Pinheiro, em “faz rs”. Todos lançados por minha própria editora.

Como é seu processo criativo? O que te inspira como escritora?

Atualmente, não estou escrevendo. Sutilmente, fui dragada do território criativo para o campo produtivo e a escritora tem dado lugar à editora, há quase dois anos. Mas sei que é preciso cuidar da produção da gente, ainda que seja altamente excitante publicar o outro. Coleciono situações da vida real que possam render boas ideias, ideias insólitas para narrativas no universo ficcional. A cibercultura me inspira muito a pensar e criar literatura sobre as relações afetivas no nosso tempo. Esta foi a motivação da minha obra até aqui, mas já considero um certo esgotamento do tema, para mim. Felizmente. Porque gostaria de escrever sobre outros afetos das humanidades. Sempre que estou ativa para a escrita, me apoio em um projeto que orienta método, que organiza a minha escrita e direciona meus pensamentos, permitindo mergulhos mais profundos no processo criativo. Nestes dias, vivo o tempo/espaço diegético, uma delícia.

Fale do trabalho que desenvolve à frente da Nega Lilu Editora. Qual seu objetivo e quais êxitos você destacaria?

A NegaLilu Editora surgiu para publicar livros lindos, mas descobri rapidamente que livros só lindos são insuficientes. A forma e o conteúdo precisam honrar um ao outro e precisam encontrar maneiras de chegar até seu público final também. Mais a par dos modos de operação da cadeia produtiva do livro, a editora foi se movimentando de maneira engajada: apresentou-se nas frentes de estímulo à leitura e formação de leitores e passou a pensar alternativas de circulação da produção gráfica e literária no Brasil. Também nos identificamos com ações de combate à invisibilidade da mulher, mulher negra, indígenas e LGBTQIs na Literatura, especialmente se a produção tem origem nas regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste do País. Estas reflexões que impactam direto o meu trabalho, como escritora e como editora, me instigaram à idealização da e-centrica.org, uma iniciativa de apoio à inovação no mercado editorial, que começou suas atividades com o Mapa da Produção Independente no Brasil e, em seguida, passou a realizar a feira e-cêntrica que já integra o calendário nacional do circuito de publicações independentes.

Como você vê a cena literária em Goiás, especialmente a praticada por mulheres? Quem você destaca ou aprecia? Qual o maior desafio de quem faz Literatura aqui no Estado?

O maior desafio de quem faz literatura em Goiás é escoar sua produção para todo o Brasil e, por que não, para o mundo. Acredito na efervescência da produção poética e literária de mulheres por aqui. Tenho confirmado isso nos eventos literários e quando a editora abre edital para seleção de novos autores e novas autoras. É crescente a participação das mulheres e, no último processo seletivo já era maior do que a participação dos homens. Especialmente na poesia contemporânea é grande a produção, nem sempre madura, claro. Imagino que haja grande incentivo dos saraus, slams, festivais, coletivos e eventos literários que ocorrem com grande frequência em Goiânia. Sei que muitas autoras estão bastante ativas, no momento, e publicando seus livros por meio de leis de incentivo à cultura e também por autopublicação. No entanto, vou citar duas que leio e admiro: Cássia Fernandes e Dairan Lima.

E esse cenário de crise no mercado literário, com as grandes ‘labels’ fechando lojas e com dívidas milionárias, isso assusta um pouco? Quais as perspectivas das editoras, como a sua, diante deste cenário?

A crise se iniciou há 10 anos e agora atingiu culminância. E vejo tudo o que está acontecendo no momento com naturalidade, considerando que o mercado editorial vem operando da mesma maneira desde o século 19. Sem atualização, os negócios não têm perspectivas mesmo. Neste início do século 21, a cultura mundial está bastante transformada e as editoras, distribuidoras e livrarias precisam se atualizar também. É necessário investimento de base, ou seja, estímulo à leitura e formação de leitores. A ação de política pública mais importante é esta. Somente no ano passado, segundo a Fundação Biblioteca Nacional, mais de 148 mil títulos inéditos requereram ISBN para publicação. Estes livros precisam encontrar seu público-final para cumprir seu ideal. Para isso, primeiramente devem ganhar um tratamento qualificado de editoração (o que compete às editoras), em seguida, precisam circular de maneira dirigida chegando aos pontos de venda com viabilidade financeira para quem vende e para quem compra. A propriedade intelectual deve ser fortalecida neste processo também – o direito autoral tem sido banalizado. Na minha visão, a inovação do mercado livreiro neste começo de século passa por estas questões. As pequenas editoras independentes estão vivendo um momento muito produtivo e de crescimento no meio desta crise toda. Porque têm uma postura mais autônoma e buscam alternativas de operação, mantendo fidelidade à produção criativa com qualidade, respeito à autoria e disposição para o encontro afetuoso com o público-leitor. Desafio é a venda em escala.

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